A obra de Woody Allen está cheia de filmes onde a morte representa o papel central. Seja ela em forma de celulóide como no belíssimo
Stardust Memories (um dos mais injustamente menosprezados filmes dele), em forma de brutal inevitabilidade como no caso de
Balas Sobre a Broadway ou em acaso pura e simples como no final de
Match Point.
Ultimamente Woody Allen parece que se dedicou ao género policial para contar a história das suas mortes cada vez mais absurdas. Foi aos poucos abandonando a consideração filosófica sobre a morte e a verdade, carregando as suas personagens com o fardo do conhecimento dessas mortes demasiado reais. Foi assim em
Crimes e Escapadelas, em
Match Point e é assim com
Cassandra's Dream.
Neste filme, superiormente interpretado por Ewan Mc Gregor (Ian) e principalmente por Colin Farrell (Terry), a morte caminha pelas mesmas ruas da São Petersburgo de Raskolnikov.
Dois irmãos, inseparáveis, decidem comprar um barco, o "Cassandra's Dream", com o dinheiro que um deles ganhou no jogo. O resto da família é-nos apresentado rapidamente com pinceladas rápidas de diálogos em casa. O pai é quase um falhado, a mãe superprotectora. O tio que a mãe admira representa o sonho tornado realidade: ele é quase rico, vive nos E. U. e vai aprender a falar chinês.
Ian apaixona-se causalmente por uma actriz de teatro e com ela começa a viver na ilusão de que poderá ir para Los Angeles investir em hotéis, só que para isso precisa de dinheiro. Terry por seu lado perde uma soma considerável ao póquer. Quando o tio vem a Londres para o aniversário da mãe deles surge a oportunidade de lhe pedir ajuda. Mas o tio, por sua vez, exige qualquer coisa em troca. E com esta aparente coincidência Woody Allen transforma o filme. Essa coisa é matar uma pessoa.
Para os irmãos, à primeira repugnância perante o acto contrapõe-se logo imediatamente a pergunta "porque não?" E a partir daqui o filme atinge o seus melhores momentos, como a espera e tentativa frustrada de matar o homem no seu apartamento até à casualidade e limpeza com que finalmente o fazem. Depois do acto resta-lhes conseguir viver com aquilo.

Terry (numa interpretação inesquecível de Colin Farrell) faz de jovem atormentado que não consegue viver com o que fez. A vida começa a ser um tormento para ele. Tem insónias e pesadelos. A namorada dele começa a ficar preocupada. Perante a ameaça de o irmão se vir a entregar à polícia, Ian entra em pânico. Decide falar com o tio sobre isso, mas ele diz que só há uma solução: matar Terry.
Ian prepara uma viagem de barco no "Cassandra's Dream" com o irmão, com o pretexto de que Terry precisa de desanuviar e tirar as coisas da cabeça. Ao mesmo tempo prepara o envenenamento no alto mar. Mas quando está a executá-lo tem um ataque de fúria. O irmão defende-se e atira-o para o chão, o que lhe causa a morte imediata. Mais tarde sabemos que Terry se suicidou logo de seguida.
É a história de três mortes absurdas. O que parece é que Woody Allen procura o valor exacto da vida humana. A vida do homem assassinado por nada, a vida destes dois irmãos que se mataram por nada. Assistimos também à vertigem da ganância e ao poder do dinheiro personificadas no implacável e sinistro tio.
Concordo que não seja o melhor filme de Woody Allen, falta-lhe a poesia de
Manhattan ou
Rosa Púrpura do Cairo, o refinamento da história de
Ana e as Suas Irmãs, a melancolia pungente de
Interiores ou
Setembro, mas é uma oportunidade para ver a profundidade a que o homem chega na sua corrupção. Parece que cita a famosa frase de Tchékhov: "Só queria dizer: olhem para vós mesmos e vede como é detestável a vida que levais".