Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 18:19

Sex, 28/09/07

Em Julho tive a oportunidade de viajar um bocado por Itália. O meu ponto de partida é sempre Roma, e como todos os caminhos lá vão dar, muitas são as cidades que tenho visitado.
Neste ano fui a Veneza assistir a um espectáculo de teatro da École de Maîtres, Péricles de William Shakespeare, encenado pelo simpático Antonio Latella e a um pequeno lugarejo perdido nos Apeninos chamado Granara para participar numa oficina de escrita para teatro.
A viagem de Veneza para Roma de comboio foi simpática. Nem dei pela distância. Chegámos à hora do almoço e pachorrentamente, debaixo de um sol abrasador, dirigimo-nos à praça de São Marcos, centro obrigatório de todos os turistas como eu. Durante o caminho aproveitei para fotografar os recantos, os pequenos canais (ou devo chamar ruelas...?), a luz era magnífica e os edifícios meio inclinados acenavam confiantes à máquina fotográfica. Na mochila levava a Viagem a Itália do Goethe - estava realmente armado em intelectual. Não podia ser mais apropriado. Dois séculos depois, contudo, o fascínio era o mesmo que o do extraordinário escritor alemão.
Quando chegámos à praça as pessoas não nos deixavam deslocar, era completamente impossível, o calor asfixiava e fugimos de lá assim que pudémos. Fomos até aos barcos que ligam às várias ilhas. Vi a Giudecca ao longe e pensei no Mercador de Veneza. Caminhámos ao sol na direcção do Arsenal onde iria ter lugar o espectáculo de teatro.
Chegámos completamente encharcados em suor. Acostámos numa esplanada e saboreámos o calor da sombra enquanto o sol baixava no horizonte.
Uma ida à casa de banho e estava na hora de nos metermos num barracão gigante da doca onde antigamente construíam as embarcações que transformaram Veneza num dos portos comerciais mais importantes da Europa. Nesse enorme hangar iria ter lugar o espectáculo. Italianos, franceses, espanhóis, portugueses, belgas, juntavam-se para contar a história. As línguas misturavam-se e a nossa cabeça também, mas não fazia mal, eu estava em Veneza.
Quando terminou o espectáculo e me dirigi à saída, o sol lá ao longe no horizonte descia e criava sombras dramáticas, mesmo magníficas para fotografar. À frente da porta do armazém, um enorme gancho de cargas e descargas jazia como um monstro pré-histórico enferrujado, belo e inútil. Tenho de fotografar isto. Procurei a máquina, "Letizia, onde está a máquina?", "Eu não a tenho, eu dei-ta." "Deste?", "Dei". Procurei mais uma vez na mochila, onde estava? - Ouvi mais uma vez o meu pai a dizer "Trá-la de volta", quando me pôs a máquina na mão depois de conceder emprestar-ma. Nessa altura eu respondera irónico "Eu estava a pensar vendê-la, mas sendo assim..." - Dirigi-me à esplanada onde tínhamos descansado, o vietnamita ou filipino que nos servira olhou-me com olhos sinceros e disse, "no, non visto". Só podia estar ali... ou... dirigi-me à casa de banho, à sala da exposição, perguntei quase sem esperança se alguém tinha visto uma máquina fotográfica. "De que cor era a capa?" "Bom, rossa e nera". E sim, uma senhora tinha encontrado a máquina na casa de banho (as casas de banho eram mistas) e tinha entregado. Bendita senhora! - Quero aqui agradecer-lhe, esteja onde estiver.
Dirigi-me ao local da grua das cargas, andando em passos largos, sorrindo de nervoso, pensando "ainda há pessoas boas" e tirei esta fotografia em desespero de causa. O sol já estava demasiado baixo. As fotografias do monstro ficariam para outro dia, mas era importante deixar mais um testemunho deste dia, assim, com o sol ainda a brilhar, quase trocista do meu desespero.
No final do dia a pizza que comemos não fazia justiça ao magnífico dia. Coisa rara em Itália.