Guy Fawkes foi um soldado britânico, católico, que estava feito com os espanhóis e planeou mandar o parlamento inglês pelo ar, no dia 5 de Novembro de 1605 – dia da abertura do Westminster Palace. A tramóia foi descoberta alguns dias antes e Guy Fawkes foi julgado e condenado a ser
hanged, drawn and quartered, ou seja, enforcado quase até à morte, esventrado e obrigado a ver as suas entranhas e genitais a arder e depois esquartejado em quatro bocados. Os bocados seriam a seguir expostos publicamente.
Era este o castigo que a Inglaterra do tempo de Shakespeare dava aos seus traidores. Guy Fawkes salvou-se do horror, saltando para a forca, por isso morreu logo com o pescoço partido e não teve a “alegria” de ver as próprias entranhas queimadas. Menos mal para ele. Fawkes tornou-se uma das lendas mais conhecidas em Inglaterra. Todos os anos se comemora no dia 5 de Novembro o malogro deste plano com fogos de artifício grandiosos. As razões que o levaram a planear tal atrocidade são alvo de conjecturas (negócios e vinganças dos espanhóis, enfim, o costume) e talvez nem sejam importantes para o caso a tratar: o filme
V de Vingança.
O filme começa com o episódio do enforcamento do verdadeiro Guy, dando-nos a entender que Fawkes foi injustamente condenado.
A acção passa de seguida para um possível futuro onde um governo mau, totalitarista, corrupto, ao jeito de Orwell, perpetua todas as suas acções de hegemonia através da televisão e de recolheres obrigatórios, fomentando o medo e o terror.

Do meio desse terror nascem as duas personagens principais do filme: V e Evey. V é o homem atrás da máscara, um super-herói, uma ideia com sentimentos de homem e Evey é a senhora delicada com um passado horrível, o pai e a mãe eram revolucionários (oh!) que morreram às mãos deste regime desumano (oh!) e por isso ela compreende perfeitamente a sede de vingança (saberemos depois a história horrível através do detective) desta máscara por quem ela se sente inexplicavelmente atraída.
No dia 5 de Novembro, o dia de Guy Fawkes, esta personagem decide demolir um edifício, frisando que quer que o edifício seja um símbolo – a analogia com as torres do World Trade Center não podia ser mais explícita. Através de várias coincidências ele acaba por levar a rapariga para casa e apaixona-se por ela. Ele não diz, claro, mas já se sabe como é. Ela (Natalie Portman) é gira (até nós já nos apaixonámos), ele é uma máscara, mas até os tipos com máscara têm hormonas. A música é o meio de comunicação destas duas almas que afinal nem são terroristas, são humanos, imagine-se (!), embora ele não seja muito, é mais uma ideia. E acho que é aqui que o argumento fica coxo. A personagem V não é nem uma ideia nem um homem. É uma mistura. Que assume uma forma ou outra, conforme convém aos argumentistas. Ora é uma ideia cheia de tiradas que podiam vir da ideia de um político, ora é um homem cujo o único objectivo é vingar-se. Evey é a personagem mais consistente, principalmente depois do jogo que V faz com ela (cortar-lhe o cabelo e convencê-la que foi apanhada pelos maus), sem se perceber muito bem porquê, mas que é um modo de fazê-la atravessar o limiar da vida e da morte. De querer morrer por uma causa. É um dos melhores momentos do filme. Quando Natalie Portman vem apanhar chuva ao terraço. Cena que podia ser brilhante não fosse os inserts que o realizador decide fazer de V em situação idêntica com o fogo por trás depois de ter feito explodir a prisão onde estava.
Bom. As coisas nunca são completamente boas nem completamente más. É isso.
A história destes dois terroristas é entrecortada com a perseguição que um detective relativamente bronco faz a esta investigação. Detective que tem de lidar, coitado, com um poder corrupto até às entranhas, personificado por uma personagem completamente a duas dimensões, prevísivel e de banda desenhada: o chanceler.

Todas as suas intervenções são dispensáveis e não acrescentam nada à história e só enchem. Para o final já nem ouvimos o que ele diz e só olhamos para os dentes amarelos em grande plano. O filme aqui roça o mais baixo Rocky. Porque o verdadeiro drama está na personagem de Natalie Portman que faz o seu crescimento como pessoa e aprende que as coisas não são aquilo que parecem à primeira vista – será caso para dizer que o realizador teria feito bem em aprender com a personagem.
Mas o melhor momento do filme é aquele onde Evey decide dar um beijo à máscara. Aqui os argumentistas e o realizador resumem toda a história do desespero humano. De como um homem (neste caso uma mulher) confia mais numa ideia (a máscara – símbolo da representação, do simbolismo por excelência) do que nas próprias pessoas. Aqui o filme sobe a píncaros que revelam que a história devia ter sido mostrada de outra maneira.
Neste filme os maus são demasiado maus e obtusos e os bons demasiado atléticos e bons com as armas e bem falantes. E isto é o que mais irrita no filme: à boa maneira Ocidental. Os maus nunca são inteligentes e complexos e duvidosos e os bons nunca têm defeitos nem dúvidas. Se o mundo fosse assim como nos pintam estes filmes há muito tempo que os E.U.A. teriam deposto o George Bush – pela sua flagrante burrice – e eleito um tipo (Guy) qualquer para Presidente. O final tenta ser comovente, com todas as pessoas da cidade com máscaras a ver o fogo de artifício, unidas por um ideal, reconstruindo um mundo a partir das cinzas do antigo. Talvez nos ligássemos mais a este sentimento se aquilo que nos foi apresentado não tivesse sido demasiado óbvio e simplista. Se o objectivo do filme fosse um bocadinho mais que uma Vendetta.