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O Mundo Novo podemos ver estas características numa história de contornos filosóficos, simbólicos e metafóricos. É claro que se há um Mundo Novo também deve haver um Mundo Antigo. E é daqui que nasce uma das dinâmicas da história. É a partir da descoberta de um mundo primordial (o índio) em harmonia com os elementos que os colonos conhecem as suas fraquezas e medos. Ao mesmo tempo o filme permite-nos ver o que perdemos com a perda de inocência dessa pureza.
O filme começa em plena colonização do continente americano, com o desembarque de três navios ingleses, em 1607, na Virgínia. John Smith (Colin Farrell) é o capitão destinado a ser executado por insubordinação. Nos primeiros momentos somos apenas levados pela beleza arrebatadora das imagens que, tal como aos marinheiros e colonos, nos mostram o novo mundo como se fosse a primeira vez que o estivéssemos a ver. O realismo é sem mácula, certo, mas são os planos pensados, a luz escolhida com olho de mestre que nos conduzem na história. Smith será salvo pelo comandante de uma morte por enforcamento, por ser um dos homens mais bravos dos que vieram a bordo e assume a chefia de uma expedição a terras mais a Norte.
Nesta embaixada conhecerá a filha do chefe índio da tribo Powhatan. Através dela, Smith inicia uma viagem ao fundo da sua alma onde conhecerá e reconhecerá sentimentos há muito desaparecidos do Mundo Antigo. A certo ponto a voz
off de Smith dirá com alguma incredulidade, “Eles nem sequer conhecem o ciúme.” A harmonia é total. E nessa harmonia vive uma das filhas do chefe índio, a mais bela e divertida, “Pocahontas – A que Brinca”. Um sentimento que transcenderá o amor e a amizade envolvê-los-á semeando discórdia e desconfiança em ambas as facções. O chefe índio jura não matar Smith se ele prometer ir-se embora logo que possa. Isso não sucede porque tem de esperar a chegada dos navios com novos mantimentos e mais colonos (embora esconda isso do chefe índio). Smith regressa ao acampamento que seria mais tarde Jamestown e encontra-o a definhar com doença e falta de mantimentos.
Morreriam todos se Pocahontas não viesse em socorro deles com comida. Por esse acto é banida da tribo e passa a viver no acampamento inglês, enquanto Smith volta a Inglaterra a mando do Rei, fugindo do amor ou de um Mundo Novo que tem medo de compreender. Smith deixa ordem para que se diga à rapariga que morreu no mar. Assim o fazem e ela inicia uma vida de recolhimento e tristeza que só podem ser comparados à alegria e vida que vimos no início do filme. Até que acaba por conhecer um jovem colono, John Rolfe (Christian Bale), com quem casa e tem um filho. Ainda assim, o amor conhecido com Smith não a abandona e a tristeza é vivida como coisa da vida. Como lhe diz a velha que a serve em casa: “Também as árvores são cortadas e sofrem mas não deixam de crescer na direcção do céu.” Mais tarde virá a saber que Smith está vivo, mas isso não constituirá problema. Com a notícia, Pocahontas – aliás Rebecca – vislumbrará apenas uma saída para a sua letargia. Devo dizer que o nome Pocahontas nunca é referido no filme. É como se Malick quisesse preservar a vida pura que o nome carrega.

Finalmente é levada para Inglaterra. O Rei quer conhecer a jovem índia que ajudou os ingleses. A fama é grande. E será em Inglaterra que terminará a vida, não sem antes de um último encontro com Smith onde a impossibilidade do amor é exorcizada sem ressentimentos ou rancores.
A esta história de descoberta de mundos ficamos sem saber se o Mundo Novo do título é o que os colonos descobriram no início do filme se o Novo Mundo que Rebecca conhece quando chega a Inglaterra, se o mundo novo interior de Smith que conhece assim os seus sentimentos (que podemos comprovar através da voz
off). Para mim o Mundo Novo é o olhar da câmara de Malick ajudado pela fotografia de Emmanuel Lubezki, a luz e os planos da água, do céu, dos animais e das ervas; os índios pintados a rigor e a cena onde o capitão Smith luta com os nativos no meio do lago feito labirinto pelas árvores, vestido com a armadura. Nesta cena e nos planos que a constituem, Malick resume a contradição e a perplexidade dos colonos ao chegarem a uma natureza que não dominam. A armadura que Farrell veste simboliza o poder de fogo dos ingleses, impotente para com os elementos que o rodeiam. Até o elmo que parece protegê-lo melhor dos ataques dos nativos não faz mais que dificultar-lhe a visão. Tal como a cegueira da excessiva belicidade dos povos.
Terrence Malick realiza um filme a todos os títulos notável.
O único senão é a representação monoexpressiva de Colin Farrell. Será propositado? Não percebeu? Eu é que não percebo o ar de bacalhau empalhado numa personagem que faz uma viagem reveladora tão óbvia. Q’Orianka Kilcher, de 15 anos, é uma bela índia que traz vitalidade e ingenuidade ao papel que contrastam de modo quase obsceno com a monocordia de Farrell e o acampamento onde é forçada a viver durante parte do filme. As interpretações de grandes actores como Christopher Plummer, David Thewlis e August Schellenberg são sóbrias. Os cenários e o vestuário, especialmente o dos índios, revelam uma pesquisa aturada perfeitamente adequada ao olhar ultra-realista de Malick.
O DVD saiu há pouco tempo. Se não o viram no cinema, comprem-no agora com carácter de urgência e vejam-no.