Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 18:04

Seg, 30/08/10

Não posso mesmo deixar de postar este texto do Jorge Silva Melo para o jornal Público. São os anos que trabalhei nos Artistas Unidos, resumidos num texto que devia fazer pensar.

Apenas para aqueles que se atrevem a pensar o país (a cidade, o mundo, a civilização) para além dos mediatismos, futebóis, publicidades, concursos e ignorância.

 


 

As noites já caem cedo, os letreiros hão-de estar a acender, a estas horas, os cartazes são içados nas fachadas, a temporada começa. E o que resta da crítica ainda não corroeu a alegria do que fazemos. Para quem faz teatro, Setembro é sempre um mês de esperança, o mês feliz das marés vivas e das estreias.

Passei Agosto a olhar para as programações dos teatros desta Europa. E vejo: Patrice Chéreau vai dirigir Sonho de Outono de Jon Fosse em Paris (no Museu do Louvre!) - peça de que fizemos a estreia mundial em 2000 numa cave da Capital - e Sou o Vento (que lemos no São Luiz, aquando da visita dos Reis da Noruega) no Young Vic, em Londres, em versão de Simon Stephens (autor de quem estreámos há meses, e perante o responsável silêncio da "crítica especializada", o belo Precipício no Mar).

Nestes 10 anos (que são os da nossa amizade), Jon Fosse passou do desconhecido que connosco bebia cervejas no Bairro e atravessava o Tejo de cacilheiro, a Prémio Ibsen (é-lhe atribuído pelo rei a 10 de Setembro).

E assim tem sido com os autores com que nos cruzámos na Capital, aquele edifício que as autoridades municipais consideraram um perigo. Os prémios italianos de 2009 foram parar a espectáculos com textos de Jean-Luc Lagarce, Antonio Tarantino, Spiro Scimone - e, neste Festival de Veneza, o enorme Ascanio Celestini estreia a sua primeira longa-metragem. Em Paris, Dimitris Dimitriadis foi o autor do ano (no Odéon). O Prémio Max (espanhol), que em 2009 foi para Juan Mayorga, foi este ano para Benet i Jornet (que editámos e nunca fizemos). Os Presnyakov, Scimone e agora Paravidino são feitos na Comédie Française, David Harrower estreou uma peça dirigida por Peter Stein...

Gente que revelámos em Lisboa - e alguns Portugal fora.

E agora que ensaiamos no São Luiz Hedda de José Maria Vieira Mendes, desce a tristeza: o que vou fazer depois disto, na temporada 2010-11? Onde tenho um folheto, onde estão as datas, os contratos, as traduções a chegar, as primeiras versões a serem discutidas, distribuições a serem completadas? É o que o estão a fazer os da minha idade (62, e já ando mouco!) nas cidades por onde também vivi, é o que se faz nos teatros, ao dobrar o Verão.

Em Outubro, estrearíamos A Farsa da Rua W, a obra-prima de Enda Walsh (mas onde?), cujos ensaios tivemos que suspender quando, em 2008, nos puseram fora das Mónicas; e em Novembro repunha Acamarrados (mas onde?) do mesmo autor, para os mostrar em alternância, e fazer vir cá o Enda que gosta daqueles aventais de minhota que se vendem nos Restauradores. E em digressão faria Um Precipício no Mar de Simon Stephens (mas onde?). Para, em Fevereiro, estrear Um Homem Falido de David Lescot (mas onde?). E depois, em Lisboa e em digressão, este era o ano para fazermos (mas onde?) Sou O Vento de Jon Fosse, Últimas Palavras do Gorila Albino e O Rapaz da Última Fila de Juan Mayorga, uma pecita minha (sem nenhuma importância, não tenham medo) que congemino sobre Franz Lizst (é o centenário - e eu devo-lhe a Lola Montes), e queria tanto fazer o Design For Living de Noel Coward (mas onde?, onde?). E começar a trabalhar uma peça do Almeida Faria (mas onde?, onde?)

 

E pronto, são horas de ir para o ensaio, que bom, Hedda.

Com amaríssima alegria, aproveito cada minuto de ensaio, encanto-me com os meus lindíssimos actores - e gosto tanto. Mas cada ensaio que passa é menos um dia que tenho com eles.

Pois eu sei: só ensaiarei de novo lá para Dezembro de 2011 - e é ainda um "suponhamos".

Continuamos sem local onde apresentar o trabalho de dramaturgia contemporânea que arrancámos há onze anos, quando ninguém o fazia. Chamou-se A Capital, era no Bairro Alto, no prédio que frequentaram Taborda, Eça, Ramalho - e onde expôs Columbano. E entre 1999 e 2002, foi aí que estivemos no centro da actividade teatral europeia - e alguns anos à frente de capitais mais ricas. Santana Lopes mandou-a fechar a 29 de Agosto de 2002, faz hoje 8 anos tremendos.

Entretanto, na CML, no MC, na DGArtes é um ver passar gente, presidentes, directores, vereadores e urbanistas, secretários e assessores, tanta gente - e ninguém a mandou abrir. De vez em quando chamam-me para reuniões, dizem que me sente no sofá. E o tempo passa.

E eu aqui em casa a enviar mails de parabéns ao Jon, ao Fausto, ao Juan, ao Spiro, ao Dimitris, sem saber bem que lhes dizer (quando farei a peça que lhes disse que queria fazer? E onde? Que lhes dizer da última peça que me enviaram? Algum dia a lerei com "olhos práticos"?). E eu aqui em casa, a evitar actores de quem gosto tanto, pois não sei que lhes propor.

Em Outubro, espectador, lá irei a Londres, serão férias. E em Novembro, Roma.

Mas não irei visitar os meus amigos dos departamentos literários, nem os agentes, nem os gabinetes dos teatros, não. Nenhum deles acreditará que, oito anos depois da brutal expulsão de A Capital, nada se tenha passado em Lisboa. Nenhum deles acreditará que eu, que estive tão activo na "dramaturgia contemporânea", seja agora um encenador pré-aposentado, pondo o meu carimbo (de suposto Mestre) em textos mais ou menos clássicos, em teatros mais ou menos institucionais.

Ninguém acreditará que, em Lisboa, ninguém acreditou. E que ninguém quis aproveitar o esforço (enorme e pertinente) que, com saber, oferecíamos.

Eu devia perdoar-lhes, ah, pois era, pois "não sabem o que fazem". Mas não, não perdoo.

Pois tinha sido possível, meus senhores, tinha mesmo sido possível.

 

Artistas Unidos




Pedro Marques @ 22:13

Qui, 05/08/10

Depois do artigo incrível que o Pacheco Pereira teve a ousadia de escrever sobre o teatro em Portugal, várias vozes se insurgiram contra a gritante ignorância do senhor em relação ao estado da cultura, no que diz respeito às artes performativas (teatro, especialmente). O artigo só precisa de ser lido para se ver como é ofensiva a opinião que este senhor tem dos seus compatriotas. Pondo a funcionar o chavão da subsídio-dependência ao serviço da sua falta de cultura, o PP apenas repetiu estereótipos que toda a gente ligada ao sector sabe que são antigos, preconceituosos e mal-intencionados (muitas vezes). Aqui fica a resposta do Bruno Bravo dos Primeiros Sintomas. Belo texto que lhe responde à letra. Leiam ainda aqui outra resposta de Fernando Vendrell da Plataforma das Artes. E já agora, esta outra, de Abel Neves, dramaturgo. Mais esta ainda de António Pinto Ribeiro.


Foi com tristeza e repugnância que li o artigo que o Pacheco Pereira escreveu para a revista Sábado sobre os artistas (entre aspas) e o submundo onde se movem.

Para o Pacheco Pereira basta dizer que se é artista para se ter de imediato direito a um subsídio que depois será gasto em sabe-se lá o quê, num mundo sombrio e refundido, ao qual o comum dos portugueses (quem é esse?) não tem acesso. Testemunhado apenas por portugueses incomuns que serão, talvez, os estropiados. Para o Pacheco Pereira o teatro é o da Comuna, o da Cornucópia e o dos Artistas Unidos. Todos os outros são apenas nomes. Nomes que nalguns casos para o Pacheco Pereira são coisas. Nomes que vivem à custa do dinheiro dos contribuintes. Por trás desses nomes estão também contribuintes, sabia? A maior parte deles a contribuírem mais do que podem e sem regalias sociais como as do comum português (quem será esse?). Se o Pacheco Pereira se tivesse dado ao trabalho de investigar um pouco as outras companhias (mas isso naturalmente não interessava para o seu artigo) tinha percebido que quem conhece os Artistas Unidos, o Teatro da Comuna e o Teatro da Cornucópia, conhece também as outras companhias. E que muitos dos que trabalham nas outras companhias vieram das únicas três companhias de teatro em Portugal que o Pacheco Pereira parece conhecer. E que a maior parte desses grupos, que tão levianamente enumera, têm tido, ao longo das últimas décadas, muito mais público do que o Pacheco Pereira pretende crer. E prémios, e reconhecimento Nacional e Internacional. São eles, mais as três companhias de teatro que o Pacheco Pereira conhece, o Teatro em Portugal. O seu artigo deveria começar exactamente assim – Para Acabar de Vez com o Teatro em Portugal. Ao menos não passaria por ignorante aos olhos dos estropiados. E olhe que são muitos os portugueses incomuns, estou em crer que até são muitos mais do que os comuns (mas quem serão esses?). Ao menos dava-lhe um certo charme. Mas eu desconfio dessa ignorância, sabe? Acho mesmo que é um disfarce. Um truque sujo a ver se pega. A tentar convencer o português comum que, cá para mim, deve ser o povo de outros tempos que se quer entretido a ver folclore para não se agitar muito. O pior é que, de facto, a nossa natureza não é agitada e o Pacheco Pereira sabe isso muito bem. Como também sabe que ninguém venceu a Ministra – que recuou no corte de 10% sobre verbas de contratos assinados pelo Ministério da Cultura – porque a Ministra (que confunde dependentes com independentes) apenas estava a apalpar terreno, a medir forças com um meio que, ao contrário do que o Pacheco Pereira sugere no seu artigo, é infelizmente muito desunido no que concerne aos seus direitos mais básicos e só se junta em situações limite. Assim tem sido, pelo menos na última década. E sabe qual é o mal disto tudo? (se calhar aqui até estamos de acordo) são os malditos subsídios, que não subsídios nenhuns, mas sim concursos públicos que funcionam mal e que se traduzem unicamente em dinheiro que nem numa bica afectam na contribuição do povo (chamemos-lhe assim apenas para usar o seu léxico) e que na realidade, depois, subsidiam o preço do bilhete. Se o subsídio (infeliz nome para um concurso público) fosse mais estruturante – apoio à divulgação, cedência de espaços para ensaios e espectáculos, material, apoio a itinerâncias nacionais e internacionais, etc, se calhar já não falávamos de subsídios. Mas isso dá muito trabalho e é um incentivo à autonomia. E isso não é bom porque assim o português comum desaparecia e o país ficava cheio de portugueses incomuns.

Tantos artistas que nós temos! Diz o Pacheco Pereira. Compreendo que lhe faça confusão tanta diversidade, mas olhe, no teatro não são assim tantos e pode crer (sabe isso muito bem) que artistas por cá, de facto há muitos, mas estão noutros sítios.
Sabe uma coisa, Pacheco Pereira, artigos como o seu enchem-me de optimismo.

Bruno Bravo




Pedro Marques @ 14:55

Dom, 11/07/10

Ao mesmo tempo que penso que o Estado devia ter uma política cultural clara e justa (afinal COMO é que se subsidia?), não posso deixar de pensar que aos artistas serve sempre a sua independência e que se o Estado não cumpre essa função então devem ser os artistas a fazer valer o seu trabalho. Sob pena de paralisação de todo o tecido cultural, como vamos assistindo no caso de Portugal - que Estado somos? Que país somos?

Desde os gregos, pelo menos, que o poder esteve ligado à arte, por aquilo que ela era, e não pelo dinheiro a ela associado como agora é, mas, essa ligação não é inevitável, nem, digamos sinceramente, muito proveitosa para os artistas (naquilo que diz respeito à sua arte). Prova disso foi o que aconteceu a determinada altura, ao mesmo tempo que o dinheiro ganhava um papel inusitado na nossa sociedade (a partir do fim do séc. XIX) os artistas foram percebendo que essa ligação era perniciosa - os vários movimentos das duas primeiras décadas do século demonstram-no.
O séc XX demonstra a ligação promíscua e desastrosa do poder com a arte - os filmes de propaganda nazis, soviéticos ou norte-americanos, p. ex. - até que chegámos a um ponto em que a arte TEM DE viver com o dinheiro (o novo poder). TEM DE jogar esse jogo, e aos artistas cabe a tarefa de demonstrar como essa sociedade baseada numa valorização absurda da economia é injusta, estúpida, obtusa e completamente obsoleta. Ainda que o dinheiro para comprar as tintas, contratar músicos e pagar película TENHA DE existir dentro de uma indústria.
É este o paradoxo dos artistas hoje em dia. TER DE lutar contra uma estrutura económica cruelmente brutal sem deixar de abdicar dela.
A meu ver, quanto mais depressa os artistas se libertarem da corda na garganta que é o dinheiro que vem do Estado, melhor. Eu não a quero. Não gosto de cordas ao pescoço, nem de gravatas, nem de qualquer tipo de acessório. Não devemos ter um discurso subserviente e miserabilista.
Quando os artistas forem totalmente livres será o Estado a pedir-lhes que se juntem, que os ajudem nas eleições, etc. é exactamente nessa altura que temos de lhes dizer: "Não queremos".
Não são os artistas que precisam do Estado, o Estado é que precisa dos artistas!




Pedro Marques @ 14:45

Sab, 21/03/09

Bertolt Brecht escreveu A Mãe - adaptação do romance homónimo de Maxim Gorki - durante os anos 30 do século XX. A primeira versão estreou em 1932 e aquela que foi apresentada ontem à noite na Culturgest e que chegou até nós através da tradução de Lino Marques publicada na Cotovia em 2005 é a versão de 1938 fixada pelo próprio autor.

É uma peça que fala da eterna e inevitável luta do proletariado contra os patrões. Uma mulher envolvida na luta de classes, sem querer, pelo próprio filho, acaba por ser símbolo dessa mesma luta. Quando ele acaba na prisão ela decide aprender a ler e escrever para continuar a luta. Mesmo depois do filho morrer, ao tentar passar a fronteira da Rússia para a Finlândia, a tenacidade de Pelagea Vlassova não diminui:

 

E eu, Pelagea Vlassova, viúva de um operário e mãe de um operário, ainda tenho tanto para fazer! Quando, há muitos anos, via, com preocupação, que o meu filho já não tinha o suficiente para comer, só lamentava a minha sorte, o que não adiantava de nada. Depois ajudei-o na luta do copeque. Antigamente participávamos em pequenas greves por melhores salários. Agora participamos numa greve gigantesca nas fábricas de armamento e lutamos pelo poder do Estado.(...)

Quem ainda for vivo, não diga "nunca"!

Neste mundo não há certezas.

As coisas não irão ficar como estão.

Quando os opressores tiverem falado

Falarão os oprimidos.

Quem se atreve a dizer "nunca!"?

De quem é a responsabilidade se a opressão continuar?

É nossa.

De quem é a responsabilidade se ela for destruída? Também será nossa.

Levante-se, quem for derrubado!

Lute, quem estiver perdido!

Quem poderá deter aquele que está consciente da sua situação?

Pois os vencidos de hoje serão os vencedores de amanhã

E o "nunca" transforma-se em "Hoje ainda!"

 

Nos dias que correm parece que cada vez faz mais sentido falar destas coisas, Marx começa a ser relido (se é que alguma vez foi lido convenientemente...), o público de ontem na Culturgest estava sintomaticamente silencioso nas passagens mais complexas e filosóficas, a música de Hanns Eisler através do piano magistralmente tocado por João Paulo Esteves da Silva inundava o espaço do teatro de modo justo, acompanhado por um coro que fazia ouvir a cidade e as preocupações tanto da plateia como dos artistas no palco. A mestria de Brecht reside principalmente nesta relação que se consegue estabelecer entre a plateia e a história contada pelos actores.

Quanto ao espectáculo propriamente dito: uma maravilha. Não é muito usual vermos espectáculos desta qualidade em Portugal, e muito menos feitos por companhias portuguesas e profissionais portugueses. Da música à representação, passando pelos figurinos e cenários ou os apontamentos de vídeo, tudo é relacionado e carpinteirado primorosamente, o grupo dá atenção a pormenores e valoriza-os, mas ao mesmo tempo o espectáculo fica em aberto, há lugar para a improvisação e para o puro prazer dos sentidos; nada é deixado ao acaso, mas a atenção para o pormenor é dadaísta, onde a proveniência dos diferentes materiais não sofre qualquer julgamento de valor mas é alvo de cuidadosa análise e refinamento estético.

Os nomes dos responsáveis vão na ficha técnica que reproduzo mas talvez nunca seja demais referir dois ou três que estão por trás destas inciativas e que de modo consistente vão criando estas pérolas para nosso deleite: Bruno Bravo, Gonçalo Amorim e Francisco Frazão. A eles: muito obrigado e um abraço.

 

Título original | Die Mutter (1931) 
Tradução | Lino Marques (Teatro III de Brecht, Livros Cotovia)
Encenação | Gonçalo Amorim
Assistência e pesquisa dramatúrgica | Ana Bigotte Vieira 
Cenografia | Rita Abreu 
Figurinos e adereços | Ana Limpinho e Maria João Castelo 
Tradução das canções | Pedro Boléo e João Paulo Esteves da Silva
Músico |João Paulo Esteves da Silva
Pesquisa e recolha musical | Pedro Boléo
Sonoplasta | Sérgio Milhano 
Movimento | Vânia Rovisco
Desenho de luz | José Manuel Rodrigues
Construção de cenário | Nuno Tomaz e Carlos Caetano
Design gráfico | Rosa Baptista
Imagem | Frederico Lobo
Produção | Mafalda Gouveia
Assistência de Produção | Andreia Carneiro

Interpretação | Bruno Bravo, Carla Galvão, Carla Maciel, Carloto Cotta, David Pereira Bastos, Mónica Garnel, Paula Diogo, Pedro Carmo, Raquel Castro e Romeu Costa

Co-produção | Gonçalo Amorim, Culturgest, Centro Cultural Vila Flor e TEMPO – Teatro Municipal de Portimão




Pedro Marques @ 08:03

Seg, 25/06/07

A sociedade portuguesa tem uma má imagem dos artistas em geral. Isto é facto assente. Ninguém tem dúvida. Para uma pessoa como eu, que trabalha com e a partir de formas artísticas, é um problema. Mas como fugir a este preconceito? Qual é a razão para esta animosidade da sociedade, em geral, em relação aos artistas?
Segundo a minha muito humilde opinião (que para além de ser humilde, sente na pele o absurdo) deve-se ao facto de se ter mitificado a arte e o trabalho dos artistas. As pessoas em geral estão muito longe de perceberem que os artistas são pessoas normais como todas as outras. Óbvio. É claro que isto é devido a um quase total desconhecimento de obras de arte nacionais e internacionais por parte de grande parte da população portuguesa, asfixiada que foi por sessenta anos (pelo menos) de ditadura. A arte e os artistas foram sempre marginalizados e vistos como supérfluos, uma elite, uns comunistas… quando, na realidade, o trabalho que fazem é para a sociedade e constantemente escorado nela.
Em Portugal estamos ainda muito longe de considerar, como acontece em muitos outros países da Europa, a arte e as formas artísticas como primordiais para o desenvolvimento integrado e social do indivíduo e das estruturas da sociedade.
Os textos do Edward Bond que traduzi e já inclui aqui no Fora de Cena dizem que o ser humano é uma entidade vazia que espera ser preenchida com cultura. E cultura, neste caso, queria dizer: sinergias, comportamentos, reflexões, cumplicidades, consciência de nós próprios, coisas que nos permitem criar conhecimento e desenvolvimento sustentado.
A origem da arte teve lugar há muitos milhares de anos quando o homem decidiu olhar para si próprio visto de fora, isto é, representando-se. As primeiras pinturas nas cavernas atestam o facto. O homem tinha necessidade de não esquecer aquele acontecimento extraordinário, aquela caçada importante para a composição, sobrevivência e alargamento do grupo. A necessidade de se ver de fora constituía um factor de união entre as pessoas da comunidade. Uma maneira de agradecerem e honrarem a própria vida. Um combate com a morte.
Nessa altura o artista que desenhava era visto como um feiticeiro, um homem iluminado que lia os sinais cósmicos inexplicáveis da natureza: as trovoadas, os eclipses, os incêndios, etc. A importância desses “sacerdotes” levou ao nascimento e posterior crescimento das artes: a criação de templos em louvor dos deuses, sacrifícios antecedidos ou precedidos de festas ou actos litúrgicos que congregavam as comunidades e as uniam em torno de algo que representava ou interpretava os signos da natureza.
À medida que o homem foi tendo mais tempo livre, sedentarizando-se, porque não o gastava todo na caça, começou a criar outras formas de interacção e a desenvolver o cérebro em actividades novas. Foi o nascimento do embrião de sociedade que conhecemos. Olhando para a arte dos dias de hoje vemos que ela ainda tem o mesmo significado para os homens – a representação da natureza nas suas mais variadas formas – mas, ao mesmo tempo, assistimos a um afastamento dos artistas e das artes em geral (aqui distingo arte de entretenimento) em relação ao seu público. A que se deve?
A arte ainda não conseguiu criar mecanismos para chegar àquilo que se convencionou chamar grande público. Isto é, em parte, culpa dos artistas que não conseguem integrar na sua arte uma visão mercantilista e puramente materialista, rebolando ainda numa concepção romântica e mítica da arte e considerando que o modo como se chega ao público não é interessante para o artista. Quanto a mim, isto é um erro. Se podemos admitir que a obra de arte não se deve modificar depois de concluída e ao sabor dos ventos do possível mercado também é verdade que cada vez mais deve ter em conta o sentimento alienante e contraditório intrínseco à fruição de qualquer obra de arte sob um sistema capitalista. A arte deve questionar esse sentimento, interpelando-o de todas as formas mas nunca o ignorando. A outra questão tem a ver com o estilo de vida que levamos que nos obriga a ver as coisas de um modo simplesmente consumista desligado de quaisquer valores profundos.
Em Portugal o facto é mais grave. O nível educacional da população e o estilo de vida consumista, esquizofrénico e neurótico, em geral, não permite às pessoas ter necessidade de se verem representadas.
Para que é que eu me vou ver representado num sítio qualquer se a vida que levo me rouba todo o tempo que tenho? Não quero ser confrontado com coisas que me podem fazer pensar na esterilidade da minha vida, posso vir a perceber que ela é uma mentira, posso vir a perceber que eu próprio sou uma mentira. Ou seja, aquilo que me é oferecido (representado, interpretado) não está de acordo com aquilo que eu penso. O acto de ver uma exposição, assistir a um concerto de música, pressupõe uma partilha e uma entrega das duas partes. É uma espécie de viagem. Enriquecedora e ao mesmo tempo precedida de medo pelo desconhecido.
É este medo que deve ser combatido. Quando as pessoas decidem ficar em casa a olhar para o computador ou para a televisão, quando consideram e põem em pé de igualdade entretenimento e arte, quando põem na mesma balança a fruição de um DVD e a ida a um cinema ou uma exposição, estão a ignorar o acto social, ritual que possui uma “aura” própria e dá significado e valor ao acontecimento. Quando decidem não ir a uma peça de teatro porque pode ser uma seca estão a contribuir para o atrofiamento da sociedade e de si próprios. Para a sua decomposição.




Pedro Marques @ 12:54

Qui, 21/06/07

Segundo as conclusões surpreendentes de um estudo da União Europeia publicado no Público há uns meses, o sector da Cultura é o terceiro principal contribuinte para o Produto Interno Bruto português. Este sector inclui actividades como o teatro, a literatura ou a música mas também áreas que em Portugal normalmente não associamos à cultura como a televisão ou os jogos de vídeo.
O que é certo é que a indústria cultural cresce em média mais 12,3% que o resto da economia da União Europeia. Em 2003, o sector da Cultura foi responsável por 2,6 do PIB da União Europeia. Como em tudo, Portugal encontra-se abaixo da média europeia, com 1,4% de contribuição para o PIB, e abaixo da indústria de produtos alimentares e bebidas e dos têxteis, com 1,9% cada. O país que contribui mais para o PIB através da cultura é a França, com 3,4%, a que não deve ser alheio o facto de o Ministério da Cultura francês incluir na sua pasta e, por isso, na sua estratégia, a televisão e o sector audiovisual – áreas que movimentam muito dinheiro.
O estudo revela que a Cultura é um sector em pleno crescimento. O estilo de vida das sociedades europeias estimula a procura de bens culturais à medida que a educação e inovação se tornam vitais. Segundo o mesmo relatório, a União não consegue incluir Portugal em nenhum dos modelos de economia cultural: o inglês (indústrias criativas), o francês (indústrias culturais) e o nórdico (economia da experiência).
Obrigado UE, isso era coisa que já tínhamos percebido. Portugal não tem uma política cultural definida há muitos anos e continua a não ter. Um dia até gostava de falar do meu trabalho com orgulho e sentir que contribuo para a riqueza do país. Que não são só os aeroportos e as autoestradas que fazem avançar o país.
Talvez a importância a nível económico abra agora os olhos aos governantes… Fico contente, afinal não sou assim tão pelintra como isso, até gero riqueza…




Pedro Marques @ 17:38

Sex, 25/05/07

Depois de ter visto o debate do programa "Prós e Contras" da RTP e ter visto a Maria do Céu Guerra intervir e ser cilindrada pelo argumento de que as pessoas já não querem teatro, querem é o Cream Fields e o Rock in Rio, fiquei sinceramente preocupado. Será que as pessoas acreditam realmente no que dizem ou estão a constatar um facto? Será o teatro irrelevante para a sociedade de um país? Será que o pouco interesse que o teatro suscita nas pessoas se deve à falta de qualidade dos profissionais do teatro portugueses ou devido à falta de curiosidade intelectual do público? Quanto a mim, as duas coisas são verdade.
Começando pelo princípio.
O teatro é uma actividade artística milenar. As transformações que o mundo sofreu em 100 anos reduziram o público potencial do teatro tradicional. O teatro também mudou, por isso. Mas mudou o suficiente? Mudou em quê?
Em Portugal, a estrutura produtiva de espectáculos de teatro continua a assentar em grande parte naquilo que as chamadas companhias convencionadas (Cornucópia, Comuna, Barraca, Almada, Aberto, AU) conseguem realizar. Para além desses gigantes do teatro português (companhias independentes que transportam dos anos 70, quase todas, toda a sua obsoleta estrutura produtiva) há várias pequenas companhias principalmente sediadas em Lisboa e no Porto que tentam sobreviver com as sobras que caem dos furos das programações dos diversos teatros. Tirando estas companhias convencionadas e os dois teatros nacionais, mais nenhum profissional do teatro pode assegurar que trabalhará durante todo o ano naquilo que sabe fazer.
Quando falo da estrutura produtiva, falo do dinheiro que é preciso para levantar um espectáculo de teatro e realizá-lo. Quando os apoios pontuais abrem os concursos de atribuição de subsídios é normal que os felizes contemplados consigam, digamos, 20.000 euros para fazer uma (1) peça de teatro. Ora, todos nós sabemos que as companhias convencionadas recebem perto de 500.000 euros para fazer três (3) ou quatro (4) peças de teatro por ano. Algo não bate certo.
Quando falo de estrutura produtiva falo daquilo que se podia fazer com o mesmo dinheiro e não se faz porque as estruturas destes teatros estão obsoletas e vivem em paradigmas assentes em modelos dos anos 70 (na melhor das hipóteses) e sabemos que o mundo e o país mudaram muito em 40 anos.
Quando trabalhei na Capital percebi que com o mesmo dinheiro podíamos fazer muito mais. Os AU recebiam um subsídio próximo deste valor mas com ele estreavam por ano cerca de 10, 12 produções de teatro entre outras iniciativas (tradução e edição de livros de teatro e da revista de teatro, leituras públicas, acolhimentos de outras companhias, etc). Esta capacidade de trabalho da companhia de teatro não foi reconhecida, nem pelos seus pares (muitas vezes por inveja e medo), nem pelo Estado (que, como se sabe, não quer saber). Quando o grupo saiu da Capital a experiência realizada morreu. A importância do que era feito não foi reconhecida.
Se o Estado não quer apoiar o teatro, porque não sabe como o fazer, ou não tem dinheiro nem política para divulgar as actividades teatrais (produção, escrita, encenação, representação), então que o diga. Pior que isto deve ser difícil. A quantidade de oportunidades desperdiçadas pelo Estado durante os últimos vinte anos para desenvolver as artes e a educação mostram bem a importância que dão ao desenvolvimento do país. Começando nos primeiros governos de Cavaco e acabando no Sócrates mais profundo, a política cultural é inexistente ou, no máximo, muito subestimada.
Mas, se pelo contrário acha importante o desenvolvimento intelectual do país, o desenvolvimento artístico e criativo das pessoas, então tem de pensar seriamente nas políticas que quer desenvolver, doutra maneira o teatro terá de se libertar da corrente aos seus pés - um grilhão chamado subsídio que impede um desenvolvimento autónomo, útil e vital do teatro.