Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 15:42

Seg, 23/07/07

Há uns tempos o Xavier comentou o post 25 das Dialécticas dizendo que era uma,
"demonstração de virtuosismo intelectual, gratuito, de Ben Watson, sem real interesse para a compreensão dos trabalhos de Frank Zappa, que queria lá saber do psicótico "Althusser", da estrutura dos contos de "Vladimir Propp" ou da Sinfonia nº. 0 de "Alfred Schnittke", por exemplo. Aliás, duvido que Zappa soubesse quem eram e por isso não sofreu influências directas dessa gente."
Acho que percebo o que ele quer dizer. E até tem razão. Em parte. Realmente, Zappa não teve conhecimento de muitas das erudições de Ben Watson.
Mas o interessante é que Zappa ecoa as obras desses outros artistas de um modo não escolástico, revelando um subtexto comum que está muito longe dos intelectualismos elitistas a que certas vezes se reduz a sua música.
No final do livro de Ben Watson há uma entrevista com Zappa, feita dois meses antes de ele morrer, onde o compositor se mostra fascinado com as ligações estabelecidas por Watson. O escritor lê a Zappa um capítulo dedicado a Apostrophe (') onde são estabelecidas ligações entre o Rei Lear de Shakespeare e as rimas de "Don't Eat the yellow Snow". Zappa e Gail chegam a perguntar-lhe "onde é que estiveste metido este tempo todo?", revelando que há muito esperavam um reconhecimento sério para a sua arte e não apenas críticas de revistas da moda que relevam as obras com um desprezo irresponsável.
É certo que o livro de Ben Watson se torna, às vezes, demasiado racional e se esquece do gozo de ouvir a melodia de "The Idiot Bastard Son" sem pensar em tais considerações. Mas o objectivo de Ben Watson não é angariar ouvintes para a arte de Zappa mas sim mostrar a pertinência artística da sua obra. É um ensaio sobre a obra e não um tributo.
Em meados de Agosto retomaremos o livro com o segundo capítulo: O MOVIMENTO FREAK E OS HIPPIES.
Um abraço.