Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 20:43

Sab, 02/10/10

Estava com alguma curiosidade para ver a entrevista de Constança Cunha e Sá a José Sócrates na TVI, hoje. Não por causa da entrevistadora, claro, mas por causa da "situação especial" que o país vive.

Mais uma vez, aquilo que vi foi uma jornalista que se limitou a fazer umas perguntas de algibeira, baseadas em factos empolados pelos meios de comunicação, observações com alguns números sobre os quais diz que "é fácil fazer as contas" (que audácia!), umas polémicas que se suspeitam serem sopradas aos seus ouvidos por pessoas muito próximas de Paulo Portas, etc. Até as perguntas são formuladas como seriam no Parlamento, com aquela arrogância e distanciamento de quem não é do governo nem do PS. Só que esta excelsa jornalista se esquece que está a entrevistar o Primeiro-Ministro do seu país, uma pessoa que deve ser confrontada realmente com as medidas que toma e que as deve explicar o mais claro possível e não deve deixar-se levar por distracções. Não podemos ficar à espera que rapidamente Constança Cunha e Sá suspeite que o PM está a mentir e tente entrar em conversa com ele. Isso, não só é uma péssima maneira de conduzir uma entrevista, como, no caso, é de uma insolência absolutamente indesculpável para jornalistas deste gabarito.

Quanto às medidas do governo. Perfeitamente claras. As medidas de austeridade vão servir para acalmar os mercados. Garantir que a despesa pública vai baixar parece que acalma a voragem implacável dos crocodilos financeiros. Até aqui o governo tentou perceber se as medidas que tomava, medidas que não tinham o carácter áustero como estas, tinham reflexos na economia. Chegaram à conclusão que sim. O país cresce mais do que a média europeia, mas isso parece que não é muito bom para quem quer retalhar o país economicamente e olha para as grandes empresas estatais, que são monopólios, como empresas a serem colonizadas pelo capital financeiro "global". Qualquer outro governo (um do PSD ou do CDS, por exemplo) teria vendido rapidamente as jóias da coroa tal como no passado o fizeram Ministro das Finanças como Ferreira Leite e outros que tais.

No fundo, foi mais do mesmo. Um PM crispado, com a sensação de que para falar aos portugueses tem de passar por cima do muro da desinformação que são os meios de comunicação portugueses actuais.

Numa altura em que da esquerda à direita, toda a gente "bate" no PM, gostava de reiterar aqui a minha afirmação de sempre: José Sócrates é o melhor PM de Portugal desde que entrámos para CEE. Não é grande coisa. É um político liberal com laivos de esquerdismo na carinho que nutre pelo Estado Social. Mas não é um revolucionário, não é um visionário, não tem os tomates que devia ter, nem sequer é socialista. Mas acompanho há algum tempo a sua governação e percebo sempre todos os seus pontos de vista.

Mas talvez seja só eu que não me deixo entoxicar pelos meios de comunicação e os vejo com o mesmo desprezo com que eles atacam o governo, apenas porque é o "governo". Digo isto, de consciência tranquila porque a minha opinião não é suspeita: não voto PS, nunca votei, nem vou votar PS. E voto...


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Pedro Marques @ 11:37

Seg, 15/03/10

E o governo começou a descarrilar. Não é que eu não estivesse à espera. É claro que em todas estas negociações para aprovar o Orçamento de Estado, e agora o PEC, o governo teve de fazer concessões, falar com a oposição, dialogar, negociar, alterar a sua posição, dar e receber bofetadas e no final aparecer com um documento que possa apaziguar os mercados europeus e estabilizar a credibilidade do país que se podia começar a parecer com a Grécia.

Assim, Sócrates anunciou um PEC sem aumentos de impostos a não ser para os que já ganham bastante. Só que, se formos a ver, já não se pode deduzir tanto na educação e saúde. Os senhores que faziam das facturas falsas um equilíbrio do seu orçamento estão lixados, os outros que deduziam honestamente também. Não aumentam os impostos, o contribuinte é que já não pode educar-se tanto nem ter uma saúde de ferro. Entre a semântica do aumento de impostos e a redução de deduções ponho o meu nariz (que é grande) e ele diz-me que isto está a cheirar mal.

E ainda fico mais desconfiado quando vejo o conjunto de privatizações que o estado quer promover. O governo do PS ainda não se tinha atirado a esta, mas deve ter sido uma concessão aos partidos da direita, com toda a certeza. Vender aquelas empresas que dão ainda alguns dividendos ao estado, passá-las para os privados e dar-lhes mais subsídios quando estão em crise é ideia que só pode vir da direita. Ossos do ofício. Privatizações? Vender para abater a dívida? Não. Promovam o tecido empresarial para ele, sim, abater a dívida. Apostem nalguma coisa que achem que é realmente importante. É a energia eólica? É o quê? Pensem numa política. É para isso que vos pagamos. Não para vender as coisas na primeira Feira da Ladra que promovem.

Aquilo que me começa realmente a meter nojo é a salvação que o Governo teve de fazer aos bancos para os salvar da falência e o modo como esse princípio não se aplicou ainda a outras empresas e instituições, o modo como esse princípio nunca mais funcionou para nada. Que  rápidos eles foram para as instituições de crédito. Que lentos que são a arranjar soluções para o desemprego.

Isto tudo para dizer que agora que começamos a sair da crise, ou lá o que é, quando o governo começa a governar pela segunda vez, as coisas estão a voltar àquilo que eram dantes. Concessões, negociações, privatizações, impostos mal esclarecidos mascarados de demagogia, porta-vozes do PS (Vitalino Canas) a comentar a vida interna do PSD - se eles querem fazer uma lei stalinista é lá com eles! - (porque será que estão tão interessados?), o Bloco de Esquerda à deriva, atirado fora das negociações sem apelo nem agravo (e agora arrependido por não poder influenciar o governo), o PCP à deriva anda (e com muito gosto devem eles acrescentar - para grande infelicidade minha, digo eu), e o CDS a subir nas sondagens à conta de um Portas de estado, com um cuidado especial na comunicação aos telejornais: sintético, demagogo, claro nas suas propostas parvas (tudo o que um partido precisa para subir nas sondagens) e ainda por cima a negociar com o governo, a saber mais do que o resto das pessoas.

Os casos escandalosos foram caindo, com o aproximar deste congresso para a eleição do novo messias do PSD e o folclore associado esqueceu-se as Faces Ocultas e os Freeports e os outros fait-divers inventados pelos jornalistas. Mas eles não tardarão a aparecer, um novo caso deve estar a ser forjado neste preciso momento num qualquer gabinete da direcção de um canal de televisão ou num jornal. Não esperem pela demora.




Pedro Marques @ 18:42

Sab, 13/02/10

Porque será que me cheira mal toda esta campanha contra o Primeiro-Ministro? Porque será que me cheira mal todas as notícias dos jornais? Porque será que vejo neste novo caso o dedo da Manuela Moura Guedes, do José Eduardo Moniz e de grande parte da direita portuguesa? Eles não olham a meios para atingirem fins. Depois de terem sido derrotados nas eleições e do povo ter eleito democraticamente um novo governo, as acusações voltam à carga. Como sempre. Primeiro foi a questão de ser ou não engenheiro, depois os professores, a seguir o Freeport, agora as escutas, o que virá a seguir? Eles só vão descansar quando derrubarem o governo.

É óbvio que o Sócrates não gostava do telejornal da TVI. Mas isso não quer dizer que o quisesse controlar. Aliás, se o quisesse controlar subrepticiamente a última coisa que faria seria acusá-lo publicamente como fez numa entrevista. Serei o único a ver isso? Se o Sócrates tivesse um plano para controlar toda a comunicação social, como diz "toda a comunicação social", ter-se-ia ele insurgido contra a Manuel Moura Guedes e o Jornal Nacional da TVI?

Porque será que tudo isto me cheira mal? Porque será que o Presidente do Supremo Tribunal diz para se destruirem as escutas e isso não acontece? Quem é que ganhou com as duas tiragens do jornal Sol de ontem? Foi o esclarecimento público ou os cofres do jornal? Estamos a falar de quê?

São vergonhosas todas estas suspeitas e cada vez me convenço mais que os jornalistas portugueses são a maior corja que há em Portugal e constituem eles próprios, com a desculpa do direito à livre expressão, um grupo avançado de promoção de delitos e crimes que só por manifesta ineficácia, incapacidade e cobardia do estado de direito não é devidamente julgado na justiça.


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Pedro Marques @ 15:11

Sex, 13/11/09

O caso Freeport acaba de ser arquivado em Inglaterra. Em Portugal, a porcaria continua. Ainda que tenha sido a Inglaterra a despoletar todo este absurdo, em Portugal o que se visava era apenas denegrir o primeiro-ministro.

É mais um caso, apenas. Um caso de tentativa de assassinato político, baixo, rasteiro, impróprio de um estado que se quer civilizado. Trata-se de uma tentativa política, com objectivos bastante claros. Tal como todos os outros. Tentar tornar a governação do governo minoritário do PS insuportável. Carregando no pedal da educação e da sua luta, fazendo dos tribunais os seus cavalos de tróia. Inventando casos. Casos que seriam com toda a certeza outros casos se estivesse o PSD no governo.

Tal como muita gente neste país, estou farto das notícias que rebolam no "diz que disse" e no "terá dito" e no "alegadamente", apoiados na multiplicidade de notícias fabricadas pela corja de jornalistas que pulula nos jornais, televisões, rádios e outros órgãos de comunicação corruptíveis. Em constantes violações do sigilo a que são obrigados, e muitas vezes sem provas válidas juridicamente.

Entretanto o PIB cresceu 0,9% neste último trimestre. Talvez seja uma notícia má para a oposição obtusa, que se apressará a dizer mais uma ou duas parvoíces para lhe retirar o significado, falando da educação outra vez, ou da gripe A, ou da selecção, ou do Gato Fedorento, mas o que é certo e era o que se devia dizer para podermos sair do buraco gigantesco em que estamos por anos e anos (séculos?) de mediocridade, o que se devia dizer é que estamos à frente, de muitos países, inclusive a Espanha (durante muito tempo o exemplo acabado de país desenvolvido), os esforços para conter a crise internacional resultaram, de alguma maneira, e não há volta a dar. O que há a fazer é aproveitar isto e não destrui-lo da forma mais imbecil que há - com casos...

Gostava que, à falta de um governo verdadeiramente de esquerda, socialista, com coragem para acabar com os offshores, com os lucros astronómicos dos bancos que não param de aumentar, com um verdadeiro interesse na cultura portuguesa, com vontade de educar o povo para que possamos ser melhores, os partidos se reunissem à volta de um pacto de regime. Precisamos disso como do pão para a boca.

Mas como sentar à mesma mesa PCP e CDS? É a mesma coisa que pôr um taliban e um americano a jantar.




Pedro Marques @ 13:22

Qua, 02/09/09

Tenho o hábito de comentar as entrevistas ao José Sócrates na televisão. A de ontem foi apenas mais uma quase igual às outras. Mais uma vez a jornalista Judite Sousa procurou centrar as perguntas na ordem do dia mediática a que o primeiro-ministro foi respondendo com cada vez mais relutância. Para imaginar o absurdo a que as entrevistas da RTP chegaram é preciso ter em atenção a última pergunta da entrevista. Que nem é uma pergunta, mas sim uma observação de uma revista cor-de-rosa: "O senhor foi considerado um dos primeiros-ministros mais sexys da Europa...", etc. Que parvoíce! - uma pergunta gira - dizia ela. Eu acho que é mais uma pergunta imbecil. Principalmente depois da medíocre entrevista em que as perguntas quase nunca tinham a ver com as respostas dadas. Ou seja, o senhor respondia e na formulação de pergunta seguinte vinha exactamente o contrário do que aquilo que o primeiro-ministro tinha dito. Trata-se de jornalismo de muito má qualidade e sem qualquer atenção (!)  por aquilo que a pessoa diz na própria entrevista. Mas não há ninguém que substitua estes dinossáurios fémea das "grandes entrevistas" da RTP?

Sobre aquilo que o primeiro-ministro disse: nada de mais, a não ser o pedido de desculpas aos professores por nem sempre os ter ouvido com a atenção que mereciam. Eles realmente fizeram muito alarido. E convém baixar uma bocadinho a guarda se se quer ganhar mais uns votos. Sócrates mostra que sabe jogar o jogo das sondagens e sabe quando há-de voltar atrás. Isso torna um líder menos inalcançável, menos mitificado, aproxima-o das pessoas. Ele que sempre pareceu tão acima de tudo.

Mas aquilo que eu queria ouvir, não ouvi. Perguntas bem feitas sobre a estratégia do governo que pensa formar. Que estratégias? De que forma as estratégias que propõe podem ser desvirtuadas por uma eventual coligação que tenha de fazer. Queria ouvir o primeiro-ministro falar sobre prazos, quotas de energia alternativa. Que esforço na educação, em termos de dinheiro, se vai fazer. Que esforço se vai fazer na cultura. Etc.

Felizmente que o senhor foi evitando todas as perguntas mais imbecis, com um enfado genuíno e displicente, que lhe permitiu ainda fazer alguns comentários mais jocosos, do tipo "não precisa de me fazer uma pergunta gira". Para estes jornalistas então devo fazer uma pergunta gira, já que eles gostam tanto de tornar as coisas cor-de-rosa para os seus bolsos: "Por que é que não vão abrir uma revista cor-de-rosa e deixam as entrevistas sérias a pessoas que exercem cargos públicos importantes para pessoas que querem realmente falar das coisas e não querem apenas chafurdar em percentagens de audiência e justificações vãs para perguntas imbecis? Que tal como pergunta gira?


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Pedro Marques @ 08:30

Dom, 23/08/09

Enquanto o país agoniza na chamada época da parvoíce, ou silly season, penso naquilo que ele se vai transformar depois da crise, depois das eleições, depois do Sócrates ou simplesmente depois.

Da esquerda à direita, toda a gente diz que o governo do Sócrates foi mau. Nunca houve tanto desemprego, a crise agravou a situação financeira do país, a arrogância de um governo de maioria exasperou os pobres portugueses que gostam de tudo menos de alguém que saiba o que quer fazer. Goste-se o que se gostar, mas dizer que este governo foi mau é esquecer como foram os últimos 20 anos de vida política em Portugal: Cavaco (o pior primeiro-ministro que Portugal teve, que conseguiu esbanjar os fundos estruturais da CEE em políticas conjunturais de auto-estradas e corrupção generalizada - curiosamente agora consegue ser também o pior Presidente da República do pós 25 de Abril, este senhor não tem mesmo jeito para cargos políticos, pudera! Ele nem sabe falar!); Guterres que bazou depois de constatar o pântano que era Portugal (olha que novidade! Então ele não sabia disso antes?); Durão Barroso que bazou  também (nova tendência dos políticos portugueses do final de século: bazar depois de impadamente chegarem ao poder) e Santana Lopes que foi bazado. Por isso o Sócrates até nem foi mau: para já não fugiu como 50 % dos primeiros-ministros pós CEE, não desperdiçou tantos fundos estruturais porque já quase não os recebe e não foi demitido. Não digo que tenha sido bom, mas para a habitual mediocridade, foi o menos mau. Só que, para os portugueses, quando se trata de um governo, convém que seja sempre um que deixe tudo em águas de bacalhau e não faça nada. Eu sei, eu conheço o tipo, sou português.

Isto vem de longe, como o porto sandeman, são uma fama e um proveito (infelizmente) que vêm, pelo menos, desde o final do século XIX, quando Regeneradores e Progressistas alternavam em governos com o beneplácito do nosso Rei D. Carlos. Está claro, nem toda a gente votava, as coisas eram ligeiramente diferentes, mas eram? A conclusão é que também não saíamos da cepa torta, porque os partidos constantemente guerreavam por uma coisa que nem eles sabiam o que era, mas que agora pode ser nomeada: a sede do poder. O poder pelo poder. O poder por vaidade. E quem melhor que um rei para compreender esta sede de poder? Principalmente um rei como D. Carlos que não tinha nenhuma sede dele. Vivia pura e simplesmente na certeza de que de rei não passaria. Um rei de um povo atrasado que ele queria iluminar com o seu talento...

A conclusão foi uma ditadura. Ou seja, quando o rei se chateou com a merda que os governos faziam à vez, fossem quais fossem (como agora a alternância PS - PSD), decidiu instaurar uma ditadura. Mas atenção, não era um ditadura como a que depois conhecemos. Era apenas governar com o Parlamento fechado. Era como se o Cavaco agora escolhesse a Ferreira Leite para governar sem dar cavaco a ninguém (jogo de palavras intencional)... o que é que acontecia ao país? As pessoas diriam, se isto é uma República, prefiro a monarquia. Desconfio que havia muito mais gente a içar bandeiras azuis em Câmaras Municipais.

Isto para dizer o quê? Para dizer que a alternância PS - PSD cheira mal e já é recorrente neste país desde sempre. Esta alternância é o mal do país. E pior ainda, quando não há esta alternância o país cai numa ditadura. Que fazer então?

Pensem bem antes de votar PS ou principalmente PSD nestas eleições. Pensem que estão a contribuir para a alternância entre dois partidos iguais nos seus autismos mas diferentes nos seus processos. Pensem que a verdadeira mudança de que a maior parte dos países começa agora a falar não vem destes dinossáurios da incompetência e da falta de visão estratégica. Mais alternância, mais PSD ou mais PS é mais um passo certo na mesma direcção que temos seguido durante pelo menos 150 anos. Pensem bem antes de votar. Ou seja, votem, mas votem bem.

(Fui só eu que reparei ontem a SIC Notícias a dar em directo uma boa meia-hora de comício do CDS? Fui só eu que reparei como um comentador disse que a avaliar pelo trabalho do CDS no Parlamento o partido merecia mais votos? Fui só eu que reparei que a comunicação social está a obrigar o país a mudar à direita?)

Pedro... já estou a fazer as malas... :-)


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Pedro Marques @ 17:28

Qui, 13/08/09

Hoje o primeiro-ministro disse que Portugal saiu da recessão técnica. Boas notícias? Parece-me que sim. Quero ver como é que os opinion makers vão distorcer esta realidade agora. Pela primeira vez em muitos anos somos do primeiro pelotão de países da Europa (juntamente com a França, Espanha, Grécia e Eslováquia) no crescimento. Estaremos nós com uma ligeira possibilidade de vencermos o atávico atraso? Gostava de acreditar que sim.

Mas o facto é que continuamos a dar mais importância ao futebol que a qualquer outra coisa. Interessa-nos mais o facto noticioso que a própria notícia. Rebolamos mais facilmente no lodo da intriga que na elevação da ciência e da arte. As prioridades ainda não são aquelas que esperamos, mas é preciso tempo, muito tempo.

As eleições aproximam-se e a notícia veio mesmo a calhar ao governo. O Sócrates quase que conseguiu disfarçar a alegria na conferência de imprensa. Pode ser que esta notícia tenha acabado de vez com a possibilidade do PSD formar governo. Depois de um terramoto gigantesco, um tsunami, uma catástrofe nuclear seria a pior coisa que podia acontecer a este país. Pelo menos isso é bom.

O PS ganhou um novo fôlego, o PSD afunda-se cada vez mais nos gaguejos da Ferreira Leite que inacreditavelmente pensa ainda que poderá ganhar as eleições. Como pode ser possível? Só se o país estivesse todo a dormir.

(Eu digo aqui, se o PSD ganhar as eleições eu emigro!)




Pedro Marques @ 15:26

Sab, 21/02/09

Parece que o caso Freeport está para durar. Hoje o Procurador Geral da República disse que serão ouvidas todas as pessoas que forem consideradas arguidas no processo, e perante a insistência dos jornalistas acrescentou que qualquer um deles (jornalistas) poderia responder no caso. O quê?

Bem, eu percebo o Procurador, quis dizer que não vai parar sejam quais forem as pessoas envolvidas. Eu sei. É isso que a justiça deve fazer. Mas dizer que os jornalistas podiam ser envolvidos, deixou-me de antenas no ar. Será que vamos assistir ainda à condenação de algum jornalista por violação do segredo de justiça, ou de qualquer outro segredo?

Cá para mim, eu cheiro que o caso Freeport se resume àquele priminho do Sócrates que aparece todo luzidio nas fotos divulgadas e foi para a China de onde não tenciona sair tão depressa. Foi ele que envolveu o nome do priminho nuns negócios que fez, tentando pressionar a autarquia, chegando mesmo a conseguir que o primo estivesse presente numa reunião. Por que é que o Sócrates lá foi parar é algo que me parece que nunca saberemos. Foi lá. Ponto. Foi lá mostrar-se apenas.

Aliás, Sócrates gosta de mostrar-se. Gosta. Ele faz alarde da sua posição, assume-a, e é bom que um político faça isso. Mas também que não seja um tique. E aquilo que começa a parecer em Sócrates é que toda aquela pose não passa de um tique. É claro que é apoiada por uma retórica inteligente, mas continua a ser um tique.

Isso foi claro na maneira como ele se dirigiu às pessoas que estavam no apoio à candidata do PS para o Porto Elisa Ferreira. O discurso foi desproporcionado, quase que parecia que o primeiro-ministro estava a discursar para a Europa ou o Mundo. Será que ele está a perder o sentido das verdadeiras dimensões das coisas? Com o aproximar-se da campanha eleitoral vai começar a ficar histérico? Ó Sócrates, calma. Já basta a tão afamada "crise dos ricos" para nos pôr os cabelos em pé.

Enquanto milhares de trabalhadores vão para o desemprego todos os dias, vítimas de uma sociedade em desenfreada corrida para comprar nadas, o nosso carnaval lusitano prossegue, com censuras e ignorância, olhando com saudade para o samba do outro lado do Atlântico e a perguntar-se, fomos nós mesmo que fundámos aquele país da Alegria?




Pedro Marques @ 00:28

Ter, 10/02/09

Sabem por que é que eu não acredito nesta treta toda do freeport? Porque não vai acontecer nada! Nunca os poderosos foram apanhados. Digam-me lá quantos poderosos estão presos?  O tipo do BPN e mais...?

Quer dizer, os pedófilos da Casa Pia safam-se, o Valentim Loureiro, o tipo de Marco de Canavezes, a tipa de Felgueiras, o Pinto da Costa, o Vale e Azevedo, andam todos a monte, sem vergonha nenhuma e o Sócrates ia lixar-se...? Claro que não. Impossível.

(Isto para dizer que acredito na inocência dele.)

Tal como acredito na inocência de todos os portugueses que já favoreceram um familiar ou amigo. Eu gostava de saber quantos portugueses se podem orgulhar (?) de nunca terem indicado o nome de um amigo ou familiar quando se tratou de arranjar dinheiro ou trabalho ou ambas as coisas. Quem é que nunca fez isso? Digam-me. Quem é que acredita?

 

É claro que mudar os limites de uma área ecológica é mais grave, fazê-lo rapidamente antes das eleições e deixar outro governo com a batata quente na mão, não é bonito. Mas quem sabe se a área podia ou não ser mudada? Quem sabe se o projecto não andou para trás e para a frente a tentar cumprir todos os requisitos para poder ser aprovado? Quem sabe se não foi por isso que quando finalmente reuniu todos os preceitos o projecto foi aprovado. Quem sabe se não foi o primo do Sócrates que apressou a questão para garantir que o projecto ainda era aprovado com priminho no Ministério? Não é o Ministério do Ambiente que decide se uma área  é reservada ou não? Decidir se essa área pode ser mudada ou não? Sim. Devia ser mudada? Quem sabe? Eu não sei. Quem sabe?

 

Receberam eles luvas para mudar a área? É isso que se pergunta? Ou foi o facto do José Sócrates ter estado numa reunião que fez com que ele recebesse luvas?

 

Tudo isto me parece muito mal parido. Tanto a acusação como a defesa. Não os percebo. Nem a uns nem a outros. Uns por que querem denegrir tanto quanto possível a pessoa do primeiro-ministro e este porque se quer defender com unhas e dentes.

 

Eu, se fosse a ti, caro José Sócrates, não me crispava muito. Temos o direito à indignação, certo. Mas também temos a nossa honra.

Se realmente estás inocente e nunca foste aliciado pelo teu primo ou tio ou pela frreeport, mostra um ar mais seguro. Podes indignar-te, mas não te vitimizes. O pessoal não gosta de queixinhas.


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Pedro Marques @ 20:18

Qui, 08/01/09

Mais uma vez o primeiro-ministro foi à televisão, neste caso, à SIC, para falar do país. Mais uma vez tivemos oportunidade para fazer uma entrevista profunda e, como de costume, a oportunidade perdeu-se. Dois jornalistas que estão mais preocupados em fazer voz das polémicas que fazem aberturas de telejornais, arrogantes, intrusivos, que fazem perguntas para obterem respostas polémicas. Nada de extraordinário, já sabemos o que a casa gasta, mas às vezes podíamos ver um bocadinho mais longe. A maneira como interrompiam o entrevistado chegava a ser insultuosa para os espectadores, imaginem agora para a própria pessoa. Eu, às tantas, imaginava quando é que o Sócrates se levantava para lhes dar um par de estalos. Mesmo assim, e inevitavelmente, ficámos a saber coisas interessantes.

Vamos entrar em recessão, já não me lembro há quanto tempo não ouvia uma notícia tão boa. Eu explico. Estou desempregado. Pior não posso ficar. Para além disso, se arranjar um trabalho que me dê dinheiro as coisas vão ficar mais baratas. Não foi ele que disse que quem tem emprego vai ficar melhor? Os juros descem, os preços descem, que mais coisas boas podem acontecer? Aliás, para que é que queremos crescer mais? Queremos crescer para onde?

Crise? Para quem? Para a malta que tem muito dinheiro, fazia dinheiro com dinheiro e o tinha investido em acções duvidosas e agora ficou a arder...? Oh que pena. Quem trabalha e ganha dinheiro com o seu trabalho, estará melhor, e é isso que interessa.

Deflação. Quando havia inflação víamos isso como uma coisa má, agora temos a deflação que é o contrário e continua a ser mau? Expliquem-me por favor, porque não percebo.

Eu só quero saber se estamos a apostar na formação das pessoas. Estamos? Mais e melhores frutos virão. Estamos a apostar em energias alternativas? Ainda bem. Isso só pode ser bom a médio e longo prazo. São estas as verdadeiras políticas que interessam. É isso que o governo diz que faz. Mal? Bem? Talvez as duas coisas. Mas temos tempo para corrigir pormenores. Não temos é tempo para inverter essa marcha. Se por algum acaso se invertesse esta política de aposta na reforma da educação que, quer se concorde ou não, está a ser feita, isso seria avisado? Não me parece. Apostar na energia solar, eólica, explorar os recursos hídricos é mau? Não me parece.

O governo é bem intencionado, e mais do que isso, sabe bem aquilo que quer e o que pode fazer. A conjuntura internacional não é boa. Mas quando ela melhorar estaremos mais aptos se apostarmos nas coisas que realmente interessam: informação, formação, ecologia.

Só falta termos um Ministério da Cultura com política definida e vista como estrutural para a mudança que se quer fazer. Enquanto a Cultura (no sentido mais lato que se quiser dar - a sua articulação com a educação, a ciência) não for vista como meio de proporcionar aos cidadãos portugueses uma vida de qualidade, estaremos a desperdiçar os recursos que tão carinhosamente alimentamos na educação e ecologia. A criatividade dos portugueses tem de ser despertada, temos de acreditar que podemos fazer coisas diferentes e não apenas aquilo que já foi feito lá fora (como dizia o nosso actual Presidente da República quando era primeiro-ministro.).

Precisamos dessa coragem. A coragem de não ter medo da crise. A coragem da criatividade.  Não devemos ter medo do erro. Aliás, a crise não existe. A crise é uma finta deles, é uma mentira, mais uma, não devemos acreditar nela. Em crise andamos nós há muito tempo...

Desejo a todos um bom ano.