O filme começa com um fabuloso plano-sequência de oito minutos onde Altman expõe a história e o ambiente onde ela se desenrola: Hollywood. Vêem-se gabinetes com argumentistas que apresentam histórias, conversas sobre o estado da arte: o vídeo, onde o filme
Absolute Beginners é louvado. Um encontro com um sósia de Martin Scorsese - "Adorei o
Cabo do Medo!", diz o carteiro ao cruzar-se com ele.
A história é simples, aparentemente. Griffin Mill (o fabuloso Tim Robbins) é produtor executivo de um estúdio de Hollywood que recebe cartas ameaçadoras de morte. Ao mesmo tempo que o seu cargo corre perigo pela admissão do novo executivo Larry Leavy (Peter Gallagher) ele decide descobrir quem poderá estar a mandar esses postais de morte. Concerteza que é um escritor que ele tratou mal e que agora quer vingança. Mas qual? A pesquisa leva-o a casa de David Kahane (Vincent D'Onofrio), ele fala ao telefone com a namorada do escritor e sabe que ele se encontra no cinema: foi ver o filme
Ladrão de Bicicletas de Vittorio de Sica (1948). Depois de uma bebida no bar, onde Griffin tenta apaziguar o furioso argumentista usando do seu poder, uma luta entre ambos acaba com a morte do escritor. Griffin goza de alguma protecção devido ao seu cargo e consegue ir fugindo à justiça e à polícia acabando por se safar no fim.
Ao tentar resumir a história dei-me agora conta que ela é quase irrevelante. O que está em causa é a transformação que a personagem de Robbins sofre do princípio ao fim do filme. Especialmente num ambiente onde nada pode mudar. Embora os produtores queiram acabar com os artistas e os escritores acabar com os produtores até ao veredicto final onde todos dão as mãos ao lado de uma piscina, numa festa, com os bolsos cheios de notas.
Griffin é um produtor enredado na teia de relações superficiais e mentirosas do cinema onde não faltam nomes conhecidos que no filme se representam a si próprios, Angelica Huston, John Cusack, Nick Nolte, entre outros. A única maneira de sair dessa vida é, paradoxalmente, abraçar a viúva do homem que ele matou. Sabemos que da primeira vez que falaram ao telefone, Altman nos mostrou a atracção que ele sofre por esta pintora June (Greta Scacchi). Ele acaba por se aproximar dela, inexoravelmente, depois de um encontro com uma cobra cascavel no seu carro. O encontro em casa dela contém um dos diálogos mais belos do filme, ele está sentado no chão contra uma parede branca, ela também está, com o seu novo desenho à frente:
Griffin - Quase que morri hoje. E a única coisa que pensava era em ti. Nem sequer te conheço. Mas vinhas-me à cabeça. Não conseguia pensar em mais nada. Lembras-te daquela noite em que falámos. Ao telefone. Estava do lado de fora destas janelas. A observar-te. Foi tão intenso. Tão... novo. Estranho. Não te consigo tirar da cabeça.
June - Estás a fazer amor comigo?
Griffin - Sim. Acho que sim. (Sorri.
) Acho que sim. Quero fazer amor contigo. Quero fazer amor contigo.
June - É cedo demais. É cedo demais, não é? É estranho como estas coisas acontecem. O David estava aqui. Depois foi-se. Tu chegaste. Não sei se é a altura certa, mas acho que podia ir para qualquer sítio contigo. Se me pedisses. Não podemos precipitar estas coisas. Não podemos. Tanto quanto não as podemos parar.A partir daqui Griffin muda. Decide ir em frente. Termina com a antiga namorada. Joga o jogo hipócrita da produtora, decide coisas, é perseguido pela polícia, passa um fim de semana no meio do deserto com June. Deixa o seu ar perdido e age.

Quando tudo acaba por correr bem, um ano depois, e assistimos ao hollywoodesco final feliz, com June grávida, a morar numa casa nova, vemos que depois de satirizar de modo subtil e quase imperceptível os bastidores da Tinseltown, Altman permite-se jogar com os mesmos mecanismos mas dando-lhes uma nova visão. A nossa perplexidade é parecida (só me lembrava disto) com a que temos quando assistimos ao final de
Blue Velvet de David Lynch, onde o filme roça deliberadamente o
kitsch com a cena do passarinho mecânico. Mas se no filme de Lynch não percebemos porquê, aqui vemos que Altman está apenas a sorrir com a história, com o ciclo que se completa, um sorriso sincero e não escarninho, um sorriso de quem brinca com as histórias e lhes consegue dar uma nova perspectiva. Talvez deva ser por isso que o filme se chama
The Player. O jogador não é apenas Griffin no modo como usa as outras pessoas para os seus fins, como no caso da ex-namorada que fica completamente destroçada, mas sim o jogo que o cinema faz consigo próprio e Altman faz com o cinema de onde veio. Ele não cospe no prato onde comeu. Permite-se apenas olhar para ele com ternura.
Um filme obrigatório de um dos maiores nomes do cinema norte-americano: Robert Altman. Imperdível.