Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 13:28

Qua, 30/07/08

Cinema dentro do cinema? Sim. Mas aquilo que podia ser uma coisa já vista, no filme de Robert Altman, O Jogador, é uma história de mistério e sedução, de mentira e hipocrisia.

O filme começa com um fabuloso plano-sequência de oito minutos onde Altman expõe a história e o ambiente onde ela se desenrola: Hollywood. Vêem-se gabinetes com argumentistas que apresentam histórias, conversas sobre o estado da arte: o vídeo, onde o filme Absolute Beginners é louvado. Um encontro com um sósia de Martin Scorsese - "Adorei o Cabo do Medo!", diz o carteiro ao cruzar-se com ele.
A história é simples, aparentemente. Griffin Mill (o fabuloso Tim Robbins) é produtor executivo de um estúdio de Hollywood que recebe cartas ameaçadoras de morte. Ao mesmo tempo que o seu cargo corre perigo pela admissão do novo executivo Larry Leavy (Peter Gallagher) ele decide descobrir quem poderá estar a mandar esses postais de morte. Concerteza que é um escritor que ele tratou mal e que agora quer vingança. Mas qual? A pesquisa leva-o a casa de David Kahane (Vincent D'Onofrio), ele fala ao telefone com a namorada do escritor e sabe que ele se encontra no cinema: foi ver o filme Ladrão de Bicicletas de Vittorio de Sica (1948). Depois de uma bebida no bar, onde Griffin tenta apaziguar o furioso argumentista usando do seu poder, uma luta entre ambos acaba com a morte do escritor. Griffin goza de alguma protecção devido ao seu cargo e consegue ir fugindo à justiça e à polícia acabando por se safar no fim.
Ao tentar resumir a história dei-me agora conta que ela é quase irrevelante. O que está em causa é a transformação que a personagem de Robbins sofre do princípio ao fim do filme. Especialmente num ambiente onde nada pode mudar. Embora os produtores queiram acabar com os artistas e os escritores acabar com os produtores até ao veredicto final onde todos dão as mãos ao lado de uma piscina, numa festa, com os bolsos cheios de notas.
Griffin é um produtor enredado na teia de relações superficiais e mentirosas do cinema onde não faltam nomes conhecidos que no filme se representam a si próprios, Angelica Huston, John Cusack, Nick Nolte, entre outros. A única maneira de sair dessa vida é, paradoxalmente, abraçar a viúva do homem que ele matou. Sabemos que da primeira vez que falaram ao telefone, Altman nos mostrou a atracção que ele sofre por esta pintora June (Greta Scacchi). Ele acaba por se aproximar dela, inexoravelmente, depois de um encontro com uma cobra cascavel no seu carro. O encontro em casa dela contém um dos diálogos mais belos do filme, ele está sentado no chão contra uma parede branca, ela também está, com o seu novo desenho à frente:

Griffin - Quase que morri hoje. E a única coisa que pensava era em ti. Nem sequer te conheço. Mas vinhas-me à cabeça. Não conseguia pensar em mais nada. Lembras-te daquela noite em que falámos. Ao telefone. Estava do lado de fora destas janelas. A observar-te. Foi tão intenso. Tão... novo. Estranho. Não te consigo tirar da cabeça.
June - Estás a fazer amor comigo?

Griffin - Sim. Acho que sim. (
Sorri.) Acho que sim. Quero fazer amor contigo. Quero fazer amor contigo.
June - É cedo demais. É cedo demais, não é? É estranho como estas coisas acontecem. O David estava aqui. Depois foi-se. Tu chegaste. Não sei se é a altura certa, mas acho que podia ir para qualquer sítio contigo. Se me pedisses. Não podemos precipitar estas coisas. Não podemos. Tanto quanto não as podemos parar.


A partir daqui Griffin muda. Decide ir em frente. Termina com a antiga namorada. Joga o jogo hipócrita da produtora, decide coisas, é perseguido pela polícia, passa um fim de semana no meio do deserto com June. Deixa o seu ar perdido e age.
Quando tudo acaba por correr bem, um ano depois, e assistimos ao hollywoodesco final feliz, com June grávida, a morar numa casa nova, vemos que depois de satirizar de modo subtil e quase imperceptível os bastidores da Tinseltown, Altman permite-se jogar com os mesmos mecanismos mas dando-lhes uma nova visão. A nossa perplexidade é parecida (só me lembrava disto) com a que temos quando assistimos ao final de Blue Velvet de David Lynch, onde o filme roça deliberadamente o kitsch com a cena do passarinho mecânico. Mas se no filme de Lynch não percebemos porquê, aqui vemos que Altman está apenas a sorrir com a história, com o ciclo que se completa, um sorriso sincero e não escarninho, um sorriso de quem brinca com as histórias e lhes consegue dar uma nova perspectiva. Talvez deva ser por isso que o filme se chama The Player. O jogador não é apenas Griffin no modo como usa as outras pessoas para os seus fins, como no caso da ex-namorada que fica completamente destroçada, mas sim o jogo que o cinema faz consigo próprio e Altman faz com o cinema de onde veio. Ele não cospe no prato onde comeu. Permite-se apenas olhar para ele com ternura.
Um filme obrigatório de um dos maiores nomes do cinema norte-americano: Robert Altman. Imperdível.