René Magritte nasceu em 1898 na Bélgica, um país dividido pela influência holandesa, a Norte, e a francesa, a Sul. Em certa medida, este seria um país ideal para o desenvolvimento de uma alma surrealista.
O pintor nasceu na parte Sul e desde muito novo que desenvolveu ideias não conformistas que o levaram a inscrever-se no Partido Comunista depois da II Guerra Mundial. Contudo, todos os seus desenhos para cartazes do partido foram rejeitados porque, sintomaticamente, a sua arte não se podia confinar a qualquer ideologia ou partido.
A própria infância tinha sido estranha. Costumava brincar num cemitério com uma rapariga amiga. Dirá mais tarde: «Adquiri assim uma total desconfiança da arte e dos artistas, quer fossem oficialmente reconhecidos, quer se esforçassem por sê-lo e senti que nada tinha em comum com este grupo. Tinha um ponto de referência que me prendia a outro lado, especificamente essa magia que há na arte e que eu conhecera em criança.»

O reino do pintor belga será delineado por estas memórias. O seu sentido de visão libertária começou a invadir os quadros. O estranho e nunca visto começou a ser objecto: em 1954, Magritte pinta
O Império das Luzes onde se vê uma paisagem nocturna, identificada por uma casa com as suas luzes no interior e um candeeiro de rua aceso, onde o céu é diurno. Antes o pintor tinha feito o contrário: um céu nocturno numa paisagem diurna –
O Salão de Deus, 1948.
Esta mistura de ambientes aparen- temente contraditórios ganha uma pungência e uma veemência gri- tantes, simbólicos de uma arte onde os assuntos são abandonados em detrimento das ideias.
Um dos seus quadros mais famosos será sempre
A Traição das Imagens onde Magritte desenha com todo o pormenor realista um cachimbo acompanhado da legenda:
Ceci n’est pas une pipe (
Isto não é um cachimbo). Deste modo o pintor chama a atenção para a relação dialéctica que a sua arte procura estabelecer, em vez de simplesmente retratar o real. Na sua galeria podemos deleitar-nos com ovos gigantes dentro de gaiolas para pássaros, rostos de mulher que são como corpos de mulher, guarda-chuvas que equilibram copos de água, estátuas de carne e osso, rosas e maçãs do tamanho de quartos, montanhas em forma de águias, botas que são pés, peixes com pernas de mulher (sereias ao contrário), homens a chover do céu…
Quando morreu, em Agosto de 1967, em Bruxelas, Magritte legou não só ao mundo da pintura um real mais do que real, como deu ao nosso quotidiano uma esperança que só os artistas podem possuir.