
Quando olho para 25 de Abril de 1974 na minha memória, vejo a minha mãe grávida de sete meses e meio da minha irmã, de manhã, no quarto dos meus pais, a cabeceira da cama e a cómoda recortadas contra o azul da janela em frente, o vulto da minha avó. As cortinas completamente abertas. Devem ser umas nove-dez da manhã. Filha e mãe fortemente recortadas contra o azul luminoso do céu. Eu ali muito pequeno. Vejo uma manhã azul e branca e eu com cinco anos, a olhar para tudo de baixo.
Nessa manhã da minha mente a que inevitavelmente regresso, a minha avó falou com uma entoação que eu não lhe reconhecia. Era uma alegria irreprimível, acho. Dizia "o povo está na rua", ainda com medo que a pudessem ouvir e talvez denunciar, sussurrava de facto, o medo não se vai embora de um momento para o outro. Eu estava perto, por isso ouvi tudo, e entendi o que podia: "O povo está na rua". Naquela altura eu já sabia que o povo éramos todos nós. Todos. Dentro das minhas limitadas capacidades já era muita coisa. Mas foi a minha avó que me ensinou o verdadeiro significado da palavra. Com a sua emoção. Aquela avó sempre de avental azul clarinho, às flores, que parecia quase um azulejo, frio, que contrastava com o calor das mãos. A minha avó: uma pessoa doce e melancólica como um oceano. Ainda conservo muitas quadras tristes escritas à máquina por ela, uma pessoa que mal aprendeu a escrever. Mas nesse dia ela estava alegre. Estranho.
Não pensei mais no "povo", naquela altura. Os pormenores eram confusos, cheios de outras palavras.
Depois o meu pai entrou pela porta de casa cerca da uma hora da tarde. Isto sim, era estranho. Seria aquela coisa do "povo"? Se "o povo" estava na rua e o meu pai em casa, o que é que isso queria dizer? Então, afinal? O meu pai a almoçar em casa? Sem ser nas férias ou fins de semana ou feriados? Impossível. Não. Possível. E estranho.
Já não me lembro o que almoçámos. Sei é que havia sopa. Sei é que eu não gostava muito de sopa naquela altura. O meu pai estava alegre mas não condescendente. E a sopa que não descia naquele dia em que tudo era diferente... por que é que eu havia de comer a sopa naquele dia que parecia diferente para todas as outras pessoas, para o povo? Falavam de liberdade, enchiam a boca com essa palavra de uma maneira que chegou a ser nauseante e eu tinha de encher a boca agora com uma sopa execrável? Perante a minha recusa, o meu pai disse, "Se comeres a sopa toda vais comigo para Lisboa." Ele não devia ter posto as coisas nestes termos. Eu não comi a sopa.
É claro que era difícil eu ir, o meu pai não sabia o que se podia passar, estávamos no próprio dia 25 de Abril de 1974 - O Dia da Revolução dos Cravos -, senti depois que ele estava hesitante ainda, mas podia haver violência... mais tarde as paredes da minha casa encher-se-iam de frases de Che Guevara, o quarto do meu melhor amigo teria um cartaz daquela fotografia famosa da criança a pôr um cravo dentro de uma G3, o meu pai discutiria política em minha casa com o meu tio Zé Luís enquanto no pátio, por baixo, eu jogaria à bola com o meu primo João Pedro.
As vozes ecoavam nesse final de tarde dos fins de semana, mas não se cansavam, só a noite trazia o cansaço nesses tempos. Todo o dia era para viver. Para falar.
O meu pai engordaria e usaria óculos para ler, leria o jornal O Jornal e usaria pochette. As coisas seriam sérias, com dinâmica no ar. Seria formado o Grupo Desportivo das Areias que não havia de ter Sede (nem nunca ter), mas que arrebataria inúmeras taças em futebol e atletismo e morreria uns cinco anos depois quando os anos 80 começaram a mostrar as garras do conformismo. Seria a época da televisão a cores e do aparecimento de uma realidade ainda mais real.
Faz trinta e quatro anos hoje que vivo com a ideia de que não assisti à festa da Liberdade em Lisboa por causa de um prato de sopa. A minha consolação é que isso me aproxima, embora tragicamente, de uma personagem que também habita este blog: a Mafalda. E por isso: as minhas homenagens à Mafaldinha do Quino. Um beijinho para ti.