Aprende as boas artes, esse é o meu conselho, ó juventude de Roma,
e não apenas para defender réus temerosos;
tal como o povo e o juiz severo e os eleitos do senado,
assim também a mulher, vencida, há-de render as mãos à tua eloquência.
Deixa, porém, a força a bom recato e não mostres um ar confiante;
arreda da tua conversa palavras enfadonhas.
Se não for falho de juízo, quem se põe a discursar diante de uma amante delicada?
Muitas vezes uma carta foi sério motivo de má vontade.
Usa linguagem credível e palavras comuns,
embora delicadas, por forma a parecer que estás ali a falar, em pessoa.
Se não receber a tua mensagem e a devolver sem a ler,
mantém a esperança de que venha a lê-la e conserva o teu propósito.
Com o tempo os bezerros rebeldes afeiçoam-se ao arado,
com o tempo os cavalos aprendem a suportar a dureza do freio;
a anilha de ferro vai-se gastando à força do uso;
a relha recurva da charrua fica corroída, de tanto mergulhar na terra.
Que é que existe mais rijo do que a pedra, mais mole do que a água?
a pedra dura, porém, é escavada pela água mole.
(...)
Se te ler e não quiser responder, não a forces;
procura, apenas, que leia as tuas palavras delicadas até ao fim;
se quis ler, há-de querer responder ao que leu;
a resposta chega com o seu ritmo e seu passo;
talvez te chegue, primeiro, uma carta triste,
a pedir-te que não mais a procures;
se pede, é porque receia que não aconteça; se não pede deseja que insistas.
Prossegue! Bem cedo verás realizado o teu desejo.
Arte de Amar, Ovídio. Tradução de Carlos Ascenso André. Biblioteca Editores Independentes, 2008.