Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 18:32

Sab, 10/01/09

Aprende as boas artes, esse é o meu conselho, ó juventude de Roma,

e não apenas para defender réus temerosos;

tal como o povo e o juiz severo e os eleitos do senado,

assim também a mulher, vencida, há-de render as mãos à tua eloquência.

Deixa, porém, a força a bom recato e não mostres um ar confiante;

arreda da tua conversa palavras enfadonhas.

Se não for falho de juízo, quem se põe a discursar diante de uma amante delicada?

Muitas vezes uma carta foi sério motivo de má vontade.

Usa linguagem credível e palavras comuns,

embora delicadas, por forma a parecer que estás ali a falar, em pessoa.

Se não receber a tua mensagem e a devolver sem a ler,

mantém a esperança de que venha a lê-la e conserva o teu propósito.

Com o tempo os bezerros rebeldes afeiçoam-se ao arado,

com o tempo os cavalos aprendem a suportar a dureza do freio;

a anilha de ferro vai-se gastando à força do uso;

a relha recurva da charrua fica corroída, de tanto mergulhar na terra.

Que é que existe mais rijo do que a pedra, mais mole do que a água?

a pedra dura, porém, é escavada pela água mole.

(...)

Se te ler e não quiser responder, não a forces;

procura, apenas, que leia as tuas palavras delicadas até ao fim;

se quis ler, há-de querer responder ao que leu;

a resposta chega com o seu ritmo e seu passo;

talvez te chegue, primeiro, uma carta triste,

a pedir-te que não mais a procures;

se pede, é porque receia que não aconteça; se não pede deseja que insistas.

Prossegue! Bem cedo verás realizado o teu desejo.

 

Arte de Amar, Ovídio. Tradução de Carlos Ascenso André. Biblioteca Editores Independentes, 2008.