Happy-Go-Lucky é o novo filme do realizador inglês Mike Leigh, o mesmo de Nu, Segredos e Mentiras ou Vera Drake. Quem o conhece sabe que normalmente os seus filmes são concentrados nas personagens, filmes sobre pessoas e os seus dilemas, tendo como pano de fundo as cidades e uma sociedade cada vez mais desumana. Mas neste filme não é bem assim. Seria interessante comparar este filme a Nu.
Se na personagem de David Thewlis, o Johnny de Nu, o mundo era um lugar sombrio de onde se podia esperar dor e amargura, onde o melhor seria não viver com esperança, onde a resolução dos problemas do dia a dia se resumem a uma série de batalhas, em Um Dia de Cada Vez, a tradução portuguesa de Happy-Go-Lucky, Poppy (ou Pauline) é uma professora primária de 30 anos cuja visão do mundo é exactamente oposta. Para ela o mundo é uma miríade quase infinita de oportunidades que devem ser aproveitadas o melhor que se puder: aprender a conduzir depois de ter ficado sem a bicicleta, aprender Flamengo, apaixonar-se pelo psicólogo de crianças, etc.
Para além de ser uma comédia, onde os homens desempenham quase sempre o desconhecido enigmático, o filme de Mike Leigh tem ainda tempo para nos levar às profundezas das dificuldades quotidianas, à vida sem amor (tão bem retratada na personagem do sem-abrigo ou do professor de condução), às opções erradas que se mascaram (a irmã grávida que se vai casar). Ainda assim aquilo que vai ficando do filme é a paixão pela personagem construída por Sally Hawkins que vamos aprendendo a gostar. Ao princípio parece uma criança, ficamos desconcertados com o seu carácter aberto, mas aos poucos vamos descobrindo que as mesmas atitudes revelam uma sabedoria especial, Poppy já descobriu o seu lugar no mundo e sabe qual é o truque para se ser relativamente feliz (e não passa pela alienação).
Mike Leigh é nomeado aos Óscares para o melhor argumento original e, se ganhar, fica bem entregue. Dos diálogos às personagens, tudo é pensado até ao mais pequeno pormenor e a sua escrita carpinteirada revela uma mestria a que não deve ser alheio o facto de também escrever teatro. (Tem aproximadamente o mesmo número de peças de teatro e guiões de cinema).
É um filme belíssimo mas que conserva uma espécie de antídoto para a magnanimidade. Neste filme nada quer ser maior do que realmente é. Tudo é simples como andar de bicicleta.