Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 17:32

Qua, 12/09/07

Se é certo que os ciclos das estações se sucedem e que os ciclos de moda se sucedem da mesma maneira, embora a um ritmo ligeiramente mais programado, também é verdade que a arte em geral, e em particular o grande cinema é tão mais extraordinário quanto mais for intemporal. A intemporalidade, por definição, não se sabe o que é em concreto, mas quando se vê um filme e somos atraídos por algum pormenor que por qualquer razão nos toca de um modo indizível, estamos perante uma qualquer quantidade de intemporalidade. Foi o que me aconteceu com o Zabriskie Point, filme do realizador italiano Michelangelo Antonioni.
Apesar de o filme ser passado nos finais dos anos sessenta na Costa Oeste dos Estados Unidos, em plena convulsão estudantil das flores, no final do filme ficamos com a sensação que vimos alguma coisa mais que um retrato social e crítico da sociedade ocidental, e como paradigma, da sociedade norte-americana.
O filme inicia aí a sua viagem para inesperadas descobertas. Acompanhamos a história de dois jovens, um rapaz e uma rapariga, que se encontrarão casualmente (?) no meio do deserto, ele num avião e ela num carro. Quando finalmente chegamos ao Zabriskie Point (miradouro no Vale da Morte na Califórnia) e contemplamos a paisagem desolada à frente deles de colinas intermináveis de sol e sal, sentimo-nos impelidos também nós em saltar para o deserto e nos perdermos. Esta necessidade de novidade, de explicação, de saltar para o que não se conhece nasce da encruzilhada de ruas, dos intermináveis painéis de publicidade que o realizador nos mostrou com tanto fascínio irónico, dos arranha-céus e da sua frieza (os planos magníficos de interiores de escritório com a cidade e a bandeira americana em fundo (ver fotografia).
Mark Frechette é um estudante radical que compra uma pistola para matar um polícia mas que nunca o chega a fazer. Durante o motim alguém dispara primeiro que ele. Mas para a personagem o gesto já está feito e decide roubar um avião e ir para o deserto, sacrificando-se, transgredindo as normas e atraindo as atenções. Quando finalmente regressa no seu avião grafitado e pintado com as cores da revolução das flores o seu ciclo está completo e a sua revolução/revelação já nos chegou. Por esse motivo será facilmente identificado no aeroporto e será morto inapelavelmente.
Daria Halprin é uma secretária pronta a entrar no mercado do sistema. Irá encontrar-se com o chefe numa estalagem no meio do deserto onde se decide o futuro urbanístico daquela grande paisagem desoladora. Ela retoma o caminho depois do encontro em Zabriskie Point com o rapaz, chega à estalagem e ouve na rádio que o rapaz que conhecera tinha sido morto à chegada ao aeroporto. Nesse momento o rosto dela não revela quase nada, mas a realização mostra-nos o que passa na sua cabeça: a estalagem a explodir em mil bocados, a explosão captada de todos os vários ângulos possíveis com um fascínio exagerado pelos pormenores, as várias explosões assumem proporções alucinantes até os estilhaços sem dirigirem a nós em câmara lenta tendo como fundo uma versão de "Careful With that Axe, Eugene" dos Pink Floyd.
O final pretende explodir as nossas consciências, cortar com névoa mística e complacente do poder das flores. Hoje em dia o filme ganha contornos quase proféticos e maior actualidade, mas acredito que na altura tenha sido visto de algum modo redutor. Contudo Antonioni tem a favor do seu lado marxista o facto de ter tentado terminar o filme com o plano de um avião em pleno voo onde se podia ler "Fuck You America" e não ter conseguido por ter sido censurado pelos executivos da MGM. Tal declaração teria sido de facto bastante redutora para o filme, mas a censura de que foi alvo diz-nos que a crítica implícita seria realmente bem-fundada.
A realização de Antonioni procura captar o frenesim do momento mas também lhe encontra recantos ou pode tomar atitudes mais contemplativas. Lembro o genérico do filme com a câmara à mão, no meio da discussão dos estudantes, os planos saturados dos motins e da confusão citadina, o intricado das auto-estradas e viadutos vistos do avião, em contraponto com a longa cena quase sem diálogos no deserto até à belíssima cena de sexo no meio da poeira quando os dois corpos se multiplicam e aquela paisagem outrora árida quase fervilha de vida e amor. A música da guitarra de Jerry Garcia é inesquecível - mais um momento intemporal.
Para além da música, também a fotografia é brilhante. Quando confrontado com as cores do filme Antonioni disse "as cores de um filme também contam uma história", é desse modo que também o vamos percebendo.
Michelangelo Antonioni nasceu em Ferrara na Itália, a 29 de Setembro de 1912 e morreu a 30 de Julho de 2007. Começou a sua carreira cinematográfica em 1943, mas teve de realizar dezassete filme para ser finalmente reconhecido com L'Avventura de 1960. Seguir-se-ia La Notte de 1961, Eclipse de 1962 que com Deserto Vermelho de 1964 completam um tetralogia onde Monica Vitti (que representa nos quatro filmes) pontifica com papéis de mulheres da classe média alta sem perspectivas de futuro, numa burguesia apodrecida e sem horizontes. Em 1966 seria Blow-Up, o seu primeiro filme em Inglaterra que nos conta a história de um fotógrafo que regista um crime e depois não o participa às autoridades. Depois deste Zabriskie Point de 1970, realiza ainda sem sucesso, com Jack Nicholson como protagonista, The Passenger e já muito debilitado, com a ajuda de Wim Wenders, Eros em 1995 e finalmente Além das Nuvens em 2005 com Steven Soderbergh e Wong Kar-Wai.