Criando este elemento imaginário que é o "sexo", o dispositivo de sexualidade suscitou um dos seus mais essenciais princípios internos de funcionamento: o desejo de sexo - desejo de o ter, desejo de a ele aceder, de o descobrir, de o libertar, de o articular em discurso, de o formular em verdade. Ele constituiu também o "sexo" como desejável. E é esta desejabilidade do sexo que fixa cada um de nós na injunção de o conhecer, de trazer à luz a sua lei e o seu poder; é esta desejabilidade que nos faz acreditar que afirmamos contra todo o poder os direitos do nosso sexo, quando, na realidade, ela nos amarra ao dispositivo de sexualidade que fez subir do fundo de nós próprios, como uma miragem em que julgamos reconhecer-nos, o negro esplendor do sexo.
Michel Foucault, A História da Sexualidade, vol. 1 - A vontade de Saber. Relógio d'Água. Trad. Pedro Tamen.