Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 22:46

Sex, 23/11/07

Este é um dos meus grupos preferidos dos anos 70: Matching Mole. Nascido em 1971, é composto por Phil Miller na guitarra, Bill McCormick no baixo, David Sinclair nos teclados e Robert Wyatt na bateria e piano. Robert Wyatt é mais conhecido pelo seu trabalho nos Soft Machine, mas esta banda cujo nome é obviamente uma brincadeira com o nome francês para The Soft Machine (livro de William Burroughs), machine molle não fica nada atrás do outro grupo que deu nome ao rock psicadélico do final dos anos 60. O som não está longe, mas neste caso os jogos tímbricos dos instrumentos são menos jazzísticos, aproximam-se de uma área partilhada por grupos como Weather Report ou algumas das incursões mais free de John McLaughlin.
O grupo lançou apenas dois discos antes de Robert Wyatt cair de uma janela numa festa e ter ficado paralisado da cintura para baixo e desse modo castrado dramaticamente as possibilidades de voltar a expressar-se musicalmente com a mesma pureza e fluidez. Vale a pena ouvir estes discos e ter atenção aos pormenores de dinâmica e musicalidade pura deste músico único. Felizmente para nós, Wyatt é possuidor de uma voz e talento imparáveis, os discos a solo que gravou e continua a gravar são prova que se mantém, há cerca de quarenta anos, como um dos músicos mais interessantes da música contemporânea.
Matching Mole, o primeiro disco, abre com "O Caroline", e podia muito bem ter saído de uma sessão dos primeiros dois discos dos Soft Machine. É uma balada de Wyatt ao piano, íntima, com a melodia cantada no mellotron (uma espécie de teclado sampler analógico) a imitar flautas. A letra fala da sua musa, Caroline, que lhe despedaçou o coração e que ele ainda ama. A letra é auto-referencial, com Wyatt a constatar que as suas rimas poderão não ser muito boas. Depois do instrumental "Instant Pussy", que começa mais uma vez com a voz de Wyatt, agora em eco, alternando com um arpejo de baixo e bombo. A guitarra desliza subtilmente e vai crescendo à medida que as vozes em eco se multiplicam e o prato ride da bateria nos conduz para um ambiente mais jazzístico pontuado pelos gemidos cantados de Wyatt.
A banda aterra suavemente em "Signed Curtain". Mais uma belíssima balada ao piano com uma letra auto-referencial cheia de humor e poesia:

This is the first verse
This is the first verse
This is the first verse the first the verse
This is the first verse verse first verse
This the first verse the first
This is the first verse
And this is the chorus
Our perhaps it's a bridge
Or just another part of the song that i'm singing

And this is the second verse
It could be the last verse
And this is the second verse second verse second verse
It could be the last verse
And this is the second verse
It's probably the last verse
And this is the chorus
Or perhaps it's a bridge or just another key change
Nevermind
It doesn't hurt
It only means that i lost faith in this song
Because it won't help me reach you

ao que se segue o instrumental "Part of the Dance", com o seu tema de oito notas, recorrente, um leitmotiv que sugere diversas sonoridades alternantes de improvisação, para os teclados de David Sinclair e Dave McRea e a guitarra de Phil Miller que também assina a composição. São nove minutos de improviso puro onde a bateria de Wyatt transporta os outros instrumentos cheia de imaginação e acentuações que ao mesmo tempo unificam todo o som.
"Instant Kitten" abre com fitas gravadas a andar de trás para a frente em velocidades aceleradas e a voz de Wyatt regravada a criar harmonias surpreendentes que desaguarão numa sessão de acordes repetitivos que servirão de fundo ao órgão de som Caravan característico de David Sinclair. A linha melódica do baixo conduz-nos, repetindo-se, e ganhando intensidade, até o grupo se esvanecer e deixar para trás um solo atonal de mellotron.
"Dedicated to Hugh, But You Weren't Listening" é mais uma brincadeira no título, desta vez de "Dedicated to You, But You Weren't Listening" de Soft Machine 2. O Hugh referido é Hugh Hopper, baixista dos Soft Machine e compositor da canção. É uma balada em guitarra acústica com uma melodia cheia de cantos e belezas. No caso desta música dedicada a Hugh, trata-se de mais uma sessão livre de improvisação de Phil Miller, Wyatt, McCormick e dos Davies dos teclados.
Depois desta sessão as coisas ainda ficam mais abstractas com "Brain As In Braindeer", um instrumental que estilhaça qualquer possibilidade de identificação, estamos em território desconhecido. O orgão borbulha, a guitarra arranha, a bateria arranca e pára. A paisagem musical é indefinida e complexa como um cérebro em ebulição.
Serve de passagem para "Immediate Curtain" que tem no seu coração o mellotron, desta vez com samplers de cordas. São melodias que se vão sobrepondo até encontrarem um acorde num ponto de paragem, para depois percorrerem a área mais aguda do instrumento e repetirem a sequência de acordes de "Instant Kitten" e deslizarem num final em crescendo com um único acorde que se vai esfrangalhando até restar apenas um cluster dissonante...
O acorde dissonante que termina o primeiro disco mantém-se de alguma maneira na música de abertura de Little Red Record, o disco seguinte, produzido por Robert Fripp e que conta com um convidado de peso: Brian Eno. "Starting In The Middle of the Day We Can Drink Our Politics Away" mostra mais uma vez a voz de Wyatt, mas agora num contexto bem mais estranho. As baladas adolescentes parecem ter ficado para trás. Quando "Marchides" levanta voo, percebemos que a banda está mais solta, apesar de Sinclair ter partido para gravar For Girls Who Grow Plump in The Night dos Caravan, e ter sido substituído pelo convidado do outro disco Dave McRea. Neste tema pode ouvir-se o talento do último, com novos timbres para o seu órgão, por instantes a solo, e depois com a banda que finalmente o transporta para viagens cada vez mais estranhas. O som parece mais coeso, mais pensado, mais confiante.
O unísono de "Nan True's Hole", baixo, bateria e voz, conduz-nos à conversa de uma prostituta e o seu cliente. Podia ser uma espécie de Gentle Giant meets Frank Zappa acompanhado pelos Soft Machine.
A melopeia de "Righteous Rhumba" conduz-nos a um tema introduzido pela guitarra de Phil Miller. Bill McCormick e a bateria de Wyatt conduzem o solo.
"Brandy As In Benj" começa com um uníssono de baixo e teclados para entrar num tema relativamente complexo, com assimetrias da bateria e do piano eléctrico. Isto dá lugar a um solo de baixo onde McCormick dá conta da confiança e comunicação que a banda partilha neste momento. Sente-se neste disco uma alegria despreocupada que a ligeira melancolia das baladas do primeiro disco não deixava crescer.
Brian Eno ouvir-se-á em "Gloria Gloom", o instrumental que podia ter saído do disco Music for Airports do mesmo. Depois de uma introdução em sintetizadores, uma conversa gravada mostra o lado mais contemplativo da toupeira. Afinal estes animais roedores conseguem sair debaixo do chão e elevar-se a alturas estratoféricas. Depois da conversa crescer, Wyatt embala-nos com uma das suas melodias características cheias de esquinas dobrada pela guitarra e mais tarde o baixo. Nos últimos dois minutos Brian Eno surge mais uma vez para nos levar para fora da atmosfera aérea.
"God Song" é uma balada à maneira de "Dedicated to You..." mas desta vez com o baixo de Bill McCormick em grande proeminência. Robert Fripp parece tocar guitarra nesta estranha e complexa harmonia. A letra queixa-se de um Deus que não liga a palavra à acção - "Give us a sign for Christ Sake". Pela terceira vez há a referência ao álcool que Wyatt até aí nunca tinha tocado e que nesta altura parece ser o seu referente principal e seria a sua infelicidade.
"Flora Fidgit" começa com um tema que faz lembrar "Instant Pussy" do álbum precedente. Contudo, este tema tem mais esquinas. A música da toupeira está no auge da sua confiança. Principalmente Bill McCormick que está imparável. Cheio de imaginação, seja nos seus ostinatos, com um tempo bem firme, seja nos uníssonos com a guitarra, que emprestam uma expressão aos temas que relega a bateria para uma posição secundária. Se o primeiro disco era de Wyatt, o segundo é de McCormick e da sua invenção.
"Smoke Signal" termina o álbum com uma música que, na sonoridade, na junção dos timbres faz lembrar aquilo que os Weather Report gravariam mais tarde em Black Market. De acordo com o nome da música, ouvimos a expressão sonora de um sinal de fumo que se revelaria premonitório. O baixo é martelado e crivado de ecos e efeitos esquisitos, a bateria rodopia como se fosse o bater de asas de morcego e o piano eléctrico percorre a sua zona mais aguda até a banda retomar o tema inicial com os seus acordes e progressões diatónicas acentuadas por acordes suspensos.