Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 19:42

Ter, 18/08/09

Para a maior parte de nós o amor é, em grande parte, a partilha de uma série de prestações de hipotecas, de noites enrolados no sofá à frente do vídeo, ou talvez de uma noite num hotel na ocasião de um aniversário. Mas Cristina Nehring tem uma ideia diferente. A sua polémica ardente no livro Em Defesa do Amor sugere uma visão mais exigente e escura do amor. Não é, tem de se dizer desde já, um livro sem ambições: o subtítulo é Exigindo romance para o século vinte e um, Nehring não fala da vida romântica, mas sobre uma visão da paixão mais vital e difícil que ela acredita que se perdeu.

"Temos sido muito pragmáticos e básicos sobre as nossas vidas eróticas durante muito tempo,” escreve ela, e numa análise de personagens inventadas e reais desde A Esposa de Bath a Frida Kahlo, diverte-se com casos amorosos que não estão de acordo com as nossas histórias mais triviais. O resultado da pesquisa literária e histórica de Nehring é uma comemoração das ligações mais loucas e destrambelhadas. As suas heroínas e heróis, como o jovem Werther, que se suicida; ou tentam morrer, como Mary Wollstonecraft, que se atira de uma ponte; ou sofrem, como Abelardo e Heloísa, um dos quais é castrado e a outra acaba num convento. Mesmo assim Nehring admira estes homens e mulheres vistosos pela força criativa das suas relações, pela capacidade de viverem fora das linhas, pela ferocidade dos seus sentimentos. Ela vê os objectivos dos casamentos modernos, a segurança e o conforto como limitados e tristes, e cita, concordando, a declaração de Heloísa a Abelardo: “ ‘Eu não procurei uma ligação matrimonial,’ disse ela de repente, ‘Eu nunca procurei nada em ti senão a tua pessoa’.”

Nos seus capítulos mais interessantes e provocantes, Nehring justifica o valor do sofrimento, a importância do fracasso. A nossa ideia de um casamento com final feliz é demasiado pacífica e domesticada para ela. Nós desejamos aquilo que ela chama uma “felicidade esforçadamente exibicionista” – pensem nas fotos de família no Facebook – em vez disso devemos concentrar-nos na intensidade e cumprimento da emoção. Ela escreve sobre Margaret Fuller: “Os fracassos de Fuller são muitas vezes mais sumptuosos do que os sucessos dos outros. E talvez seja isso que devamos admitir sobre o fracasso: pode ser muito mais sumptuoso que o sucesso... algures no nosso inconsciente colectivo sabemos – mesmo agora – que ter fracassado é ter vivido.”

Nehring vê na grandiosidade do sentimento uma espécie de heroísmo, mesmo que a relação não tenha uma forma convencional ou prossiga de uma forma não convencional. Para Nehring, o verdadeiro fracasso é vaguear numa relação aborrecida, e nós sentimos isso, passar anos preciosos da nossa vida num casamento que não é estimulante nem satisfatório, viver com cautela, responsavelmente. A força do sentimento é redimida pela chama da paixão ainda que não acabe de uma maneira feliz? A felicidade é um objectivo demasiado modesto e fraco?

Mais tarde, Nehring interroga a nossa inabalável insistência em relações equilibradas, saudáveis, o nosso voluntarismo para condenar ligações impossíveis e condenadas. Ela argumenta que pode de facto ser um sinal de sanidade entrar numa relação turbulenta, exigente e não ortodoxa. Ela louva relações à distância, relações dolorosas, relações com homens evasivos, relações a que a cultura terapêutica se opõe inexoravelmente. Ela pergunta, “Poderá dar-se o caso de a escolha de um objecto amoroso exigente mostrar sinais de força e de grandes recursos em vez de mostrar insegurança e problemas psicológicos como muitas vezes ouvimos?”

(...)

Katie Roiphe lecciona na Universidade de Nova Iorque. 19 de Junho de 2009