As Benevolentes de Jonathan Littell é um livro extraordinário, enigmático, poderoso, frio, sobre a humanidade e a desumanidade, a traição e a dedicação de Maximilian Aue, o protagonista da história, oficial da SS alemã em plena II Guerra Mundial. Jurista de profissão, os trabalhos de que se encarrega na frente da batalha na Ucrânia e depois mais tarde em Estalinegrado têm a ver com propaganda e o extermínio das populações que iam sendo sistematicamente dizimadas pelo exército alemão - cerca de 20 milhões de mortos só na União Soviética.

O relato deste oficial homossexual, apaixonado incestuosamente pela irmã gémea, é exaustivo e pleno de pormenores de uma atrocidade desarmante, de uma frieza de cortar à faca, mas ao mesmo tempo de uma humanidade pungente. Apesar de estar às ordens de um regime hipócrita, vil e desprezível, como o regime nazi, este oficial conduz-nos pela guerra na frente Leste com a sensação asfixiante de que podíamos nós estar no lugar dele. A simplicidade com que relata a barbárie e o seu desapego em relação a elas questionam os nossos valores de estado e de liberdade individual. Os valores da nossa consciência que, como sabemos, são vilipendiados diariamente pelos outros.
As Benevolentes que dão título a este grosso livro são entidades mitológicas da antiguidade clássica, mais conhecidas por Erínias ou Euménides, que têm por missão castigar os crimes de sangue. As mesmas entidades assumem o nome quando são apaziguadas e cessam o ciclo de crimes de sangue como acontece na peça final da
Oresteia de Ésquilo -
As Euménides. Em certo sentido podemos ver este livro como uma Ilíada revisitada, exaustiva em pormenores ligados à realidade factual, efabulada por viagens oníricas - o sonho do tiro que Max leva durante o cerco de Estalinegrado e que o mobiliza para a Alemanha no final da guerra. Só que os deuses já não estão presentes. A Europa do século XX chafurda na guerra e tudo é vilmente humano. Inexorável - sem um único sonho.
Max Aue é, na altura do relato, um industrial dos tecidos, refugiado em França, que passa em retrospectiva a vida que levou desde que ingressou na SS até ao final da guerra com os russos a ocuparem Berlim. No fim do livro, depois de matar a mãe e o padrasto e o melhor amigo e ficar sozinho com os papéis que lhe possibilitarão fugir para a França, ele diz que as benevolentes encontraram finalmente o seu rasto. Ficamos sem saber se Max Aue é poupado pelas deusas porque o ciclo de sangue tem de chegar ao fim, se "sentia todo o peso do passado, da dor da vida e da memória inalterável, ficava só (...) com o tempo e a tristeza e a dor da recordação, a crueldade da existência e da morte ainda por vir" e que esse seria o peso que ele teria de carregar até ao fim da sua vida, um peso só aliviado pelos relatos que ele faz para "esclarecer as coisas para mim mesmo e não para os que me lêem."
Seja como for, os momentos finais do livro deixam a sensação que o autor quis acabar o livro com uma redenção, um momento de alívio, de esperança e perdão (afinal aquilo que determina a nossa humanidade em pleno século XX e que começou no racionalismo da Grécia Antiga) que contrastam com a desumanidade e horror da guerra e do extermínio.
É certo que a nossa humanidade não está determinada de uma vez por todas, aquilo que é humano hoje, amanhã pode ser considerado obsoleto e vice-versa, mas há valores sobre os quais assentamos as nossas vidas que não podem ser postos em causa sob pena de sermos considerados menos que pessoas...