Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 13:45

Qua, 05/05/10

Imaginem-se numa qualquer noite há alguns milhares de anos atrás, naquela noite precisamente em que pela primeira vez se pintaram os acontecimentos de uma caçada. – A emboscada, o animal morto, as armas da caça, a chegada a casa. Imaginem o fascínio de todos a olhar para os traços negros de carvão riscados na pedra. Pensem no que devem ter eles sonhado nessa noite.

Eles tinham aprendido a representar-se. A ver-se de fora.

Tal como Deus.

O teatro é aquilo que Deus nos deixa para fazer.

Fazer de nós.

Primeiro fizemo-lo falado e cantado e dançado.

Depois, escrito.

Realmente, é aqui que começa a nossa história.

No séc. V antes de cristo.

Ésquilo, o primeiro dos dramaturgos.

Depois, Sófocles – Rei Édipo, Eurípides. Aristófanes, das comédias.

Durante um século.

Depois tivemos as comédias romanas, as tragédias romanas não eram representadas. Aborreciam o público.

Depois, silêncio.

As constantes guerras e pestes da idade média não deixavam as pessoas pensarem nelas próprias.

Era Deus que mandava. O teatro era feito à margem da sociedade.

Mesmo assim sobreviveu.

E foi reconhecido. Pelo poder.

No séc xv, Maquiavel inaugura o teatro moderno. A Mandrágora é a vitória da inteligência sobre a credulidade, a burrice, o caduco.

Desse gesto de que muitos já partilhavam, nasce uma nova maneira de fazer teatro.

A intriga, a surpresa, a maquinação, o artifício, começam a fazer parte do vocabulário do teatro. O engano começa a ser admitido, glorificado.

O teatro passa a ser manifestação da liberdade do homem.

Ter a liberdade de ver o mundo tal como ele é.

Em Portugal é Gil Vicente que fixa primeiro esse mundo da farsa.

Teatro da Corte. Teatro do poder.

Cervantes, Calderon de la Barca.

Depois, Shakespeare. Rei Lear.

Em Itália, Goldoni.

O teatro como mercadoria. Burguesia.

Em França, Moliére, Pierre Corneille.

Teatro barroco. Teatro dentro do teatro.

Marionetas em Portugal.

Depois, vazio.

Até ao teatro naturalista de Ibsen, Tchékhov – Três Irmãs, Strindberg.

O teatro político de Odon Von Orvath – Histórias do Bosque de Viena.

O teatro épico e didáctico de Bertolt Brecht.

A segunda guerra-mundial.

A morte das ideologias.

Existencialismo – Jean- Paul Sartre, Albert Camus.

Depois, Samuel Beckett, Dias Felizes, a condição humana.

Harold Pinter, o teatro do medo.

George Devine funda em Inglaterra, o Royal Court Theatre.

Um teatro dedicado a dramaturgos.

Até aos dias de hoje:

Edward Bond – Setembro, Jon Fosse, David Hare, Antonio Tarantino, Anthony Neilson, Sarah Kane – Falta.

São alguns teatros possíveis...




Pedro Marques @ 18:11

Sex, 05/02/10

Durante aproximadamente 40 000-50 000 anos, à medida que as linguagens se foram desenvolvendo, inventaram-se novas tecnologias, mas também manifestações culturais orais e expressivas que permitiam que determinadas sociedades e grupos se lembrassem, reflectissem, celebrassem e interpretassem as histórias em permanente evolução e as respectivas identidades através de manifestações orais/verbais, corporais e artísticas. Os percursores dos sistemas de escrita apareceram há cerca de 100.000 anos, quando os humanos inventaram uma larga variedade de símbolos gráficos e mnemónicas (auxiliares de memória) para armazenar informação. Os símbolos gráficos eram naturalmente reproduções de fenómenos comuns do mundo material, como o sol, as estrelas, a fauna, a flora, as figuras humanas, etc. Os auxiliares de memória, como os nós (laços), os entalhes feitos em osso ou em bastões, os ideogramas, tinham funções linguísticas. Os nós datam do primeiro período Neolítico e atingiram o auge nos Incas sul americanos quipus - através do seu sistema elaborado de contagem. Enquanto os nós e os entalhes gravam números, avivam a memória e sugerem categorias, as imagens podem gravar muito mais informação e ao mesmo tempo sugerir características e qualidades. Há dezenas de milhar de anos, a comunicação por imagens apareceu na primeira arte das cavernas e, em alguns nativos americanos, os ideogramas foram usados bastantes vezes para transmitir mensagens complexas sem terem de recorrer à linguagem. Nós, entalhes e ideogramas ficam "incompletos" ou são uma "pré"-escrita, no sentido em que não usam as marcas ou imagens para comunicar um discurso articulado.

Os sistemas de escrita não evoluiram como a linguagem, foram antes inventados para transmitir discursos articulados através da gravação de marcas convencionadas e artificiais numa superfície dura. A palavra escrita transformada em signo representativo. Na Mesopotâmia, eram usadas fichas em barro cerca de 8000 a.C. para contar grão e animais nos acampamentos rurais da região. Cerca de 3000 a.C., os sumérios, na Mesopotâmia, conseguiram desenvolver, a partir de um reportório de ideogramas e símbolos, o primeiro sistema de escrita - a escrita cuneiforme. A escrita cuneiforme é uma forma de escrita raspada ou inscrita em pedaços de barro com uma ferramenta pontiaguda (agulha). Com essa invenção dos sumérios, os indivíduos começaram a ler um sinal inscrito em barro e a vê-lo como um som de valor independente.

Por volta de 2500 a.C., a escrita cuneiforme simples era capaz de "comunicar qualquer pensamento... preenchendo exatamente as necessidades da sua sociedade". As primeiras inscrições são listas de pagamentos, de bens, de pessoas, etc. De todas as inscrições cuneiformes descobertas, 75% são administrativas e contabilísticas. Os outros 25% são escritos legais, religiosos, astronómicos e médicos, dicionários e receitas. Ainda, nestes 25% - e mais significativo, para os nossos propósitos - são as primeiras e mais antigas das literaturas do mundo. Incluem hinos, lamentos, descrições de actividades dos deuses e histórias quase épicas. Os trabalhos poéticos existentes incluem dois poemas de Enmerker, dois poemas de Lugulbanda e um ciclo de cinco poemas conhecido como Gilgamesh. Os ciclos Gilgamesh datam aproximadamente de 2700 a.C.. Tal como os tardios épicos gregos, a Ilíada e a Odisseia, o épico Gilgamesh foi provavelmente uma compilação de histórias díspares relacionadas, juntas e elaboradas por contadores de histórias e finalmente escritas após centenas de anos de actuações e transmissão oral. Gozava de grande popularidade por todo o Próximo Oriente e existem versões sumérias, hititas e hurritas.

A transição da comunicação oral para a escrita não foi universal e o seu desenvolvimento teve lugar em épocas diferentes, com sistemas diferentes, em culturas diversas e períodos diferentes. O segundo caso de desenvolvimento independente de escrita que se pode documentar é entre as sociedades de nativos americanos na América Central, provavelmente no sul do México desde aproximadamente 600 a. C. É possível que os modos de escrita de chineses, egípcios e da Ilha da Páscoa se possam ter desenvolvido independentemente. Quer isto seja o caso ou não, os linguistas concordam que todos os sistemas de escrita foram inspirados, ou descendem directamente dos sistemas sumérios ou centro-americanos.

Os primeiros povos letrados que desenvolveram a escrita, fizeram-no ao adaptarem e copiarem sistemas de escrita que encontravam. Por exemplo, na costa Norte da Síria, os escribas ugaritas semitas basearam-se nas formas da escrita cuneiforme suméria para escrever a linguagem hurrita. No Leste da Ásia, alguns estudiosos acreditam que foi no estado Shang na China central do Norte (cerca de 1500-1545 a.C.) que a primeira versão do sistema de escrita de caracteres chinês se desenvolveu (discute-se se originário da Mesopotâmia), que mais tarde influenciou o desenvolvimento dos sistemas de escrita usados na Coreia, Japão e Vietname. No subcontinente da Índia onde se desenvolveram mais de 200 escritas, todas derivam de uma fonte - a escrita Brahmi - ela própria originária de uma fonte semita (provavelmente aramaica) de c253-250 a.C. O sucesso de um sistema de escrita em particular não quer dizer superioridade mas adaptabilidade. Não é "a eficiência de um sistema de escrita que determina a sua longevidade e influência, mas sim o poder económico e o prestígio daqueles que o usam... Um poderoso sistema de escrita da sociedade - o alfabeto de consoantes - marcará a história, enquanto uma sociedade fraca desaparecerá".

Os historiadores dos primeiros sistemas de escrita argumentam que a escrita nasceu apenas quando e onde havia necessidade de um sistema de escrita, num contexto que fornecia as infra-estruturas sociais, económicas e humanas necessárias para ajudar os especialistas da linguagem escrita, como copistas, bibliotecários, professores, especialistas religiosos, poetas, e finalmente em alguns casos, dramaturgos e as companhias de actores/bailarinos que podiam fazer a apresentação de uma peça. Todas as sociedades que inventaram a escrita (Suméria, América Central, China, Egipto) ou foram precoces na criação dos seus próprios sistemas (Creta, Irão, Turquia, o Vale de Indus, as culturas Maia) "eram sociedades socialmente estratificadas, com instituições políticas complexas e centralizadas." Armazenavam os excedentes de comida crescentes dos camponeses que apoiavam estas instituições e especialistas.

A escrita nunca se desenvolveu em sociedades organizadas de caçadores-colectores, em bandos ou em tribos ou entre chefaturas mais sedentarizadas, porque não havia necessidade, instituições ou estruturas agrícolas necessárias para a apoiarem. Por exemplo, em muitas das ilhas do Pacífico, a escrita foi desnecessária durante séculos. Muitas sociedades do Pacífico nunca desenvolveram estados elaborados porque não havia necessidade de um sistema complexo de registo.

 

Philip B. Zarrilli

Traditore, Pedro Marques




Pedro Marques @ 00:57

Ter, 21/04/09

Grupo, tribo, chefatura, estado

 

A necessidade de sobrevivência e o sentido de pertença ou ligação aos outros leva os seres humanos a organizarem-se em comunidades. Cada tipo e escala de organização social envolve de diferentes modos as nossas faculdades comunicacionais, a imaginação de nós próprios e as nossas relações com os outros. Jared Diamond identificou quatro tipos de sociedades que vão da intimidade dos relativamente simples grupos nómadas, passando pelos povoados organizados por tribos e chefaturas, até aos altamente complexos e centralizados modelos de estado.

Quando o discurso completamente articulado se desenvolveu (há 35.000 anos), todos os humanos viviam em grupos. Muitos continuaram a fazê-lo até há cerca de 11.000 anos. Hoje em dia apenas alguns grupos vivem autonomamente em regiões remotas da Nova Guiné e na Amazónia (outros grupos como os San sul africanos, os aborígenes australianos e os Inuit norte-americanos ficaram sob o controle dos estados, tendo sido ameaçados de extinção, e/ou assimilados). Os grupos variam em tamanho, entre cinco a 80 pessoas, e são as formas mais pequenas e íntimas de sociedade humana, com todos os membros do grupo relacionados por nascimento ou casamento. Os grupos são nómadas; baseiam as suas relações no parentesco; partilham uma linguagem comum; trocam histórias, palavras, danças, música, rituais e bens; tomam decisões de modo relativamente igualitário e informal. Dentro dos grupos não há estratificação por classe, nem há modos hereditários ou formais de liderança, ou monopolização da tomada de decisão. Os líderes emergem informalmente através da força de carácter, inteligência e/ou capacidade de luta. Porque nas pessoas que vivem em grupos a experiência é moldada em primeiro lugar através de relações totalmente envolventes com o ambiente imediato e através do contacto cara-a-cara com aqueles com que se envolvem diariamente, muitas vezes moldados por acções culturais colectivas e rituais.

Há 14.000 anos, o Homo Sapiens era a única espécie de hominídeo sobrevivente, diferenciado por centenas de famílias e milhares de línguas, organizadas em pequenos grupos. Há 12.000 anos, um clima mais quente empurrou a Idade do Gelo para os pólos. Os níveis de subida dos oceanos dividiram os povos. O clima cada vez mais quente permitiu o crescimento e domesticação de sementes selvagens, acabando por produzir uma revolução biológica. A maior parte dos agrupamentos de populações podia desenvolver-se e subsistir em regiões do mundo ricas em recursos, ao cultivar trigo e cevada, e possuir cabras e ovelhas. No Crescente Fértil no Médio Oriente (no Iraque de hoje entre o os rios Eufrates e Tigre) e talvez em mais alguns, poucos, sítios do mundo, uma nova forma de organização social estabelecida começou a emergir - as tribos. Foram construídas habitações permanentes onde centenas, em vez de dezenas, de pessoas viviam em povoados, partilhando uma linguagem e cultura comuns, onde se incluíam as acções culturais e rituais. A organização tribal é caracterizada pelo seu padrão de residência fixa, e os seus grupos maiores consistem de mais de um grupo de parentescos (clãs). Os clãs particulares possuem direitos sobre pedaços de terreno. As tribos ainda são suficientemente pequenas para os seus indivíduos serem conhecidos pelas relações e nomes. Como nos grupos, as tribos podem ser governadas por um sistema de alguma maneira informal e "igualitário" onde as informações e a tomada de decisões são partilhadas por todos. Em algumas tribos pode emergir um "homem-importante" que alcança um estatuto elevado através da força do seu carácter. A troca recíproca e o modo de organização sócio-económica participativa continua a caracterizar a interacção tanto nas tribos como nos grupos. À medida que os povos se vão fixando, determinadas linguagens começam a ficar associadas com regiões geográficas específicas. A linguagem associa-se à terra.

As chefaturas nasceram cerca de 5000 a. C. na região do Crescente Fértil, e à volta de 1000 a. C. na Mesoamérica e nos Andes. As chefaturas são consideravelmente maiores que as tribos, indo de alguns milhares a várias dezenas de milhar de pessoas. As chefaturas foram as primeiras sociedades organizadas à volta de uma figura da autoridade central e hereditária, que muitas vezes detinha o monopólio do exercício do poder, centralizando a informação e as decisões. As decisões do chefe eram normalmente implementadas por um ou dois níveis de burocratas que muitas vezs desempenhavam vários papéis, tal como no Havai polinesiano onde os konohiki tomavam conta do trabalho, irrigação, e de um conjunto de tributos. Alguns chefes, tais como esses do Havai, eram tidos como divinos, ou de descendência divina, e em ambos combinavam a autoridade do papel de ser padre-chefe, ou apoiavam um grupo à parte de padres que encontravam justificação para a sua autoridade. Enquanto os grupos e as tribos possuíam crenças sobrenaturais e práticas rituais, estas crenças e práticas não estavam habituadas a

 

justificar a autoridade central, justificar transferências de riqueza, ou manter a paz entre indivíduos que não estivessem relacionados. Quando as crenças sobrenaturais assumiram essas funções e se institucionalizaram, foram, por isso, transformadas naquilo que designamos religião.

 

Algumas chefaturas eram suficientemente grandes para coexistirem em múltiplas aldeias (com o chefe da aldeia como superior), e a terem pessoas com faculdades especiais para produzirem bens de luxo especiais, e a delegar os trabalhos mais baixos a escravos - aqueles que eram capturados em ataques. As chefaturas mudaram da confiança em trocas recíprocas características de grupos e tribos para uma forma de tributo onde uma porção da colheita de cada um era dada ao chefe - a maior parte ficava retida centralizadamente e uma pequena porção podia ser redistribuída como parte de uma festa ou de qualquer outra ocasião pública. Os chefes podiam também pedir que os membros trabalhassem, por exemplo, erigindo uma peça de arquitectura pública, como templos, jazigos funerários, henges (grandes estruturas circulares), ou sistemas de irrigação. Os bens de luxo eram normalmente reservados aos chefes, como as escavações arqueológicas dos seus túmulos revelam.

O desenvolvimento de modos de organização social mais abrangentes e complexos como as chefaturas (e os estados) cria um cenários social onde, pela primeira vez, os indivíduos compreendem que estão ligados a pessoas que nunca viram. Por exemplo, os aldeões javaneses e indianos, por tradição, sabem que estão ligados a pessoas que nunca conheceram através de laços especiais de parentesco e/ou clientela. Por isso, até há muito pouco tempo não havia nenhuma palavra em javanês que designasse o conceito abstracto de "sociedade". A identificação do lugar de determinados indivíduos na sociedade era identificado por epítetos como "senhor de X" ou "mãe de Y" ou "cliente de Z." As ligações de uns aos outros não eram necessariamente baseadas apenas no grupo ou ambiente mais próximo, mas sim "imaginadas". Dentro de grandes comunidades como as chefaturas (e estados), a imaginação de uma comunidade maior a que se pertence é moldada e estilizada distintamente em épocas diferentes e em culturas diferentes.

Só em 1492 d. C., as chefaturas se tornaram comuns em áreas produtivas da América Central e do Sul e em algumas partes da África sub-sahariana, no leste dos Estados Unidos e na Polinésia. Mas no século vinte desapareceram depois das chefaturas terem sido conquistadas pelos estados. Hoje em dia, os estados são a forma mais familiar de organização social, política e económica; realmente, toda a terra do mundo, com excepção da Antártida, é agora governada por estados-nação modernos. Tanto os estados modernos como os antigos partilham as mesmas características. Ambos têm um alto grau de controle centralizado e de especialização económica, o que muitas vezes inclui a produção em massa e execução de trabalhos públicos. Em ambos encontramos a redistribuição económica (impostos em vez de tributos) e uma proliferação de administradores especializados e profissionais, escolhidos, pelo menos em parte, com base na sua preparação e competência. Em ambos, os conflitos internos são resolvidos com recurso a leis. Ambos têm um sistema judicial e polícia, e em ambos, os modos de organização são baseados não no parentesco mas em lealdade política e linhas territoriais. Ao contrário dos grupos, tribos, e chefaturas, que consistem apenas de um único grupo étnico e linguístico, os estados e especialmente os impérios (formados a partir da conquista de vários estados) são pulrilíngues e multi-étnicos.

As primerias formas de organização estatal cresceram em 3700 a. C. na Mesopotâmia e 3000 a.C. na Mesoamérica, há cerca de 2000 anos na China, Sudeste da Ásia, e na região dos Andes na América do Sul, e há mais de mil anos na África Ocidental. As características desses primeiros estados eram: a liderança de um líder honorífico e hereditário - tanto um rei considerado divino como um líder equivalente; a adopção da escravidão numa escala maior que no caso das chefaturas; e o desenvolvimento de religiões estatais, muitas vezes acompanhadas de templos padronizados. Nenhuma chefatura desenvolveu a escrita, excepto aquelas que se encontravam no processo de se tornarem estados. Realmente, os primeiros sistemas "completos" de escrita desenvolveram-se mais ou menos ao mesmo tempo que a formação dos primeiros estados da Mesopotâmia e da Mesoamérica. À medida que esses sistemas de escritam se desenvolviam, nasciam as elites letradas nos primeiros estados, criando uma tipo de condições sócio-culturais onde a arte dramática e o teatro se desenvolveram.

 

Philip B. Zarrilli in Theatre Histories - an Introduction. Tradução minha.




Pedro Marques @ 15:09

Ter, 07/04/09

 

Australopitecus (há 4.1 milhões de anos)


Gestos e sons vocais (grunhidos, guinchos, suspiros, etc.)

Homo habilis (há 2.4 milhões de anos)


Há aproximadamente 2.4 milhões de anos em África, desenvolveu-se uma forma primitiva de linguagem vocal com o género Homo habilis. O habilis também desenvolveu a faculdade de fazer ferramentas em pedra e de controlar o fogo. Ao possuir um cérebro maior, e ao obter provavelmente excedentes de comida, o habilis desenvolveu grupos sociais maiores e mais complexos, necessitando de um processo cinergético de desenvolvimento mais complexo numa parte do cérebro (área Broca s) fundamental para a produção de linguagem com signos e de um discurso. Mas tanto para o habilis como para o seu sucessor, o Homo ergaster, o grupo completo de atributos físicos na laringe (aparelho vocal) e o controlo da expiração ainda não estavam suficientemente desenvolvidos para fazer surgir o discurso articulado nos humanos; por isso, a comunicação permaneceu essencialmente em gestos, grunhidos, guinchos, etc.


Homo erectus (há 2 milhões de anos)


É apenas com uma inteiramente nova espécie, o Homo Erectus, que acontece uma mudança significativa na evolução dos hominídeos. Com o erectus, uma qualquer forma de discurso evoluiu há cerca de 900.000 anos. Este deve ter sido constituído por pequenas elocuções, com proposições condicionais.


Do erectus nasceram aparentemente duas correntes principais


1. Homo neanderthalensis (300.000 a 30.000 anos atrás)


Durante a era do Plistocénico Médio entre 300.000 e 230.000 anos atrás, a manufactura de ferramentas e o elevado nível de complexidade social que caracterizou o Homo neanderthalensis apontam para o uso de um modo rudimentar de vocalização de alguma maneira próximo do Homo sapiens. A anatomia do neanderthalensis sugere que a tonalidade e a melodia desempenhavam um papel chave na faculdade de comunicar ideias complexas e no desenvolvimento de uma sociedade baseada no discurso/som/canção. As vozes devem ter sido agudas em tonalidade e melódicas, mas os sons [i], [a] e [u] não devem ter sido pronunciados por esta espécie.


2. Homo sapiens (há 300.000 anos)


O desenvolvimento de processos de pensamento complexos e de frases complexas permitiram que as sociedades baseadas no discurso se desenvolvessem. Enquanto as formas arcaicas de sapiens se desenvolveram provavelmente há cerca de meio milhão de anos, demorou cerca de 100.000 anos para o Homo sapiens substituir o Homo neanderthalensis na Europa e no Médio Oriente, e o erectus no Extremo Oriente.


Humanos modernos (há 150.000 anos)


Possuíam todas as faculdades físicas necessárias para o discurso tal como o conhecemos hoje em dia.

 

Phillip B. Zarrilli. Tradução minha.

*Adaptado de Steven Roger Fischer, History of Language (1999). A partir de Theatre Histories (2006).




Pedro Marques @ 00:11

Sex, 03/04/09

Depois de muita luta consegui um bilhete para ir ao Teatro Nacional D. Maria II ver Esta noite Improvisa-se, peça do magnífico dramaturgo siciliano Luigi Pirandello. A obra dele é conhecida por pôr em cena os actores e não as personagens, ou melhor, as personagens são os actores e ao mesmo tempo as personagens (ou será ao contrário?), tornando o palco num local dúbio, fugidio, efémero, não rotulável, e por isso, estranhamente muito mais próximo da vida.

Neste espectáculo do Teatro Nacional, Jorge Silva Melo com os seus actores e técnicos conseguem magistralmente criar essa zona de indefinição, cavando mais fundo naquilo que seria apenas teatro dentro do teatro. Como eles viram bem, Pirandello não estava interessado no teatro e nas suas mecânicas para puro e simples jogo teatral, o autor sabia que ao expor os actores e o seu jogo com as personagens, jogando este jogo, equilibrando-se nessa ténua linha, conseguiria de alguma maneira chegar mais perto da complexidade da representação. Shakespeare descobriu isso também, na famosa cena de Hamlet onde se representa a peça ao rei. Mas Pirandello leva isso mais longe, é um homem do século XX, para ele, o palco, como local apocalíptico, estende-se ao público.

Para os Artistas Unidos este espectáculo assenta que nem uma luva (ficamos a aguardar as Seis Personagens à Procura de um Autor), o universo de Pirandello é superiormente interpretado por toda a companhia. O jogo teatral em todas as suas subtilezas e formas é-nos revelado com calma e prazer, encenadores, actores, personagens, sucedem-se, substituem-se, dirigem-se ao público, cantam, emocionam-se e quase não contam história nenhuma. Estar no teatro é que é o pretexto e não a história. Enquanto jogamos este jogo de emoções, criando mini-acontecimentos, na nossa imaginação vai-se formando uma história, um universo que inclui personagens, actores, encenadores e nós próprios.

Quando a ficção irrompe definitivamente através do monólogo de Mommina (numa interpretação comovente de Sílvia Filipe), nós estamos completamente apanhados nela. Porque para o público já não interessa se aquela é na realidade a actriz a representar a Mommina, isso já é óbvio, ao público só lhe interessa viver aquela ficção, que sabe efémera desde sempre, mas que quer viver, com toda a simplicidade e profundidade.

Um espectáculo a todos os títulos notável, com excelentes actores e uma encenação inesquecível de Jorge Silva Melo para um texto brilhante de Luigi Pirandello.

No programa, ele escreve: "O que me interessa ao voltar a Pirandello é voltar a ver o palco como o lugar da incerteza. Incerteza psicológica, narrativa, social, desequilíbrio sobre o qual se ergue a permanente, ininterrupta, imperiosa necessidade de voltar a contar histórias, de efabular, de especular."

E em boa hora, caro Jorge.

 

Título original | Questa Sera Si Recita a Soggetto (1929) 
Tradução | Luís Miguel Cintra e Osório Mateus (Editorial Estampa)
Encenação | Jorge Silva Melo
Assistência | João Miguel Rodrigues e Luís Godinho
Cenografia e figurinos | Rita Lopes Alves
Assistência de cenografia | João Prazeres
Assistência de figurinos | Helena Rosa
Direcção musical | Rui Rebelo
Desenho de luz | Pedro Domingos
Músicos | António Pedro, João Cabrita / Elmano Coelho, Miguel Tapadas e Vitor Ilhéu.

Interpretação | António Simão, Cândido Ferreira, Lia Gama, Sílvia Filipe, Pedro Lacerda, Alexandre Ferreira, Andreia Bento, Cecília Henriques, João Meireles, John Romão, Pedro Luzindro, Sara Belo, Victor Gonçalves, Crista Alfaiate, João Miguel Rodrigues, Joaquim Pedro, Alexandra Viveiros, Luís Godinho / Pedro Carraca, Miguel Telmo, Miguel Aguiar, Carlos MArques, Jéssica Anne, João Abel, António Rodrigues, Rocardo Batista, Sara Moura, Vânia Rodrigues

Co-produção | Artistas Unidos / Teatro Nacional D. Maria II.




Pedro Marques @ 14:41

Sab, 28/03/09

Dia Mundial do Teatro - 27 de Março, 2009

Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida! Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!
Não só casamentos e funerais são espectáculos, mas também os rituais quotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática – tudo é teatro.
Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espectáculos da vida diária onde os actores são os próprios espectadores, o palco é a plateia e a plateia, o palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver, tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida quotidiana.
Verdade escondida.
Em Setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro, apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós, em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da bolsa quando fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias.
Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre: no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus actores: "Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida".
Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, géneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.
Actores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!

Augusto Boal



Pedro Marques @ 23:51

Seg, 23/03/09

Há cerca de 120.000 anos, o Homo Sapiens reconhecível como nosso idêntico ancestral já tinha emergido. Um grupo em particular de Homo Sapiens "moderno" instalou-se permanentemente numa gruta na boca do Rio Klasies na África do Sul entre 120.000 e 60.000, desenvolveu uma vida doméstica complexa, abateu búfalos gigantes com lanças, possuiu um conhecimento complexo do seu meio ambiente, praticou música e arte (usando "lápis" vermelhos ocre), desenvolveu rituais de enterro dos mortos e usou a linguagem de uma maneira parecida com a nossa de hoje. O Homo Sapiens tanto absorveu como substituiu o Homo Neanderthalensis e o Homo Erectus.

Esse período trouxe consigo uma "explosão cultural". A espécie conseguia representar humanos, animais, símbolos, e talvez até anotar a passagem do tempo (em calendários lunares) em osso e marfim, pedra e madeira. Produziram flautas, tambores e instrumentos de cordas, pintaram ou gravaram as paredes das grutas. Como Fischer assinala, "Por esta altura o discurso articulado - e o racionalismo simbólico que ele permitia - era com certeza usado das mesmas maneiras que conhecemos hoje, os hominídeos já não eram apenas o "macaco falante", mas sim o "macaco simbólico".

As primeiras formas de discurso permitiram uma comunicação e planeamento suficientes para os seres humanos atravessarem mares, fundarem aldeias, e mais tarde desenvolverem tecnologia, caça, música, dança, rituais e narrativas. De acordo com Merlin Donald, a evolução do discurso e linguagem humanos transformou as nossas capacidades miméticas numa fase "mítica" do nosso desenvolvimento. Contar histórias sobre nós, as nossas comunidades e o nosso lugar no mundo, permitiu um modo completamente novo de compreender e representar a realidade. Estas acções culturais primárias e pré-letradas orais, rituais e xamânicas serão examinadas aqui à medida que se desenvolveram em aglomerados de comunidades íntimas e pequenas.

 

Phillip B. Zarrilli

Tradução minha




Pedro Marques @ 00:03

Qui, 05/03/09

A linguagem é um termo que agora é normalmente aplicado a uma miríade de formas de comunicação que se desenvolveram durante milhões de anos e que permitiram que todos os seres vivos comunicassem uns com os outros, principalmente entre os que são da mesma espécie. Os etnólogos estudam tudo, desde a linguagem da dança das abelhas do mel, até à "linguagem" química das formigas, ou aos variados modos bio-acústicos de comunicação, como sejam os das aves, rãs, baleias azuis e elefantes. As frequências das "linguagens" acústicas estão muitas vezes acima ou abaixo do alcance do ouvido humano. Os cientistas que estudam as baleias corcunda das Bermudas descobriram que elas vocalizam longas "canções de amor" que variam em tonalidade e duram entre 6 e 30 minutos. Essas canções mudam ao longo do tempo, num processo constante de desenvolvimento onde novos elementos são compostos, repetidos e elaborados. Os golfinhos, tal como, principalmente, os chimpanzés anões, os bonobos - com quem os humanos partilham 99% do material genético - podem ser ensinados a comunicar espontânea e criativamente.

Mas a humanidade e os nossos mais próximos antepassados desenvolveram modos mais sofisticados de comunicação tanto natural como artificial. Como é que isto aconteceu? Embora os grandes símios que anteciparam o desenvolvimento hominídeo possuíssem ligações cerebrais necessárias a modos complexos de comunicação expressiva para passar informação, aquilo que os humanos talvez possuíssem de especial eram os lábios, a língua, e alguns modos de expiração controlada que anatomicamente permitiriam que falássemos.

Algumas formas de desenvolvimento humano, tais como a fabricação de ferramentas, não precisam necessariamente de uma linguagem. Mas actividades sociais mais complexas, por exemplo, atravessar um corpo de mar como o Estreito de Gibraltar (entre o Sul de Espanha e o Norte de África) numa migração planeada, certamente que o requeriam. Da mesma maneira, a caça em cooperação precisa do uso da linguagem.

À medida que a faculdade anatómica para respirar bem, de modo a possibilitar a linguagem, se desenvolvia, o cérebro não deixou de aumentar, e à medida que modos mais complexos de processos de pensamento e linguagem evoluíam, as ligações cerebrais que eram necessárias também se desenvolviam. Aquilo que resultou não foi uma única linguagem "primitiva", mas sim a capacidade única de usar a linguagem usando-a como referência, isto é, a faculdade de usar palavras que conduzem a outras palavras através da síntaxe. Este desenvolvimento só terminou anatomicamente quando os humanos modernos, os Homo Sapiens, passaram a ser dominantes, há cerca de 150 000 anos.

 

Phillip. B. Zarrilli

Tradução minha




Pedro Marques @ 23:22

Qua, 25/02/09

Modos de comunicação miméticos e episódicos

 

Para os nossos antepassados mais remotos, a apreensão directa através dos sentidos desempenhou um papel primordial na sobrevivência durante centenas de milhar de anos. Os nossos cinco sentidos permitem-nos apreender directa e imediatamente e responder ao ambiente aqui-e-agora. Embora os nossos sentidos e percepção continuem a ser importantes hoje em dia, já não dependemos deles para sobreviver na mesma medida que um dia o fizemos, excepto no caso de desastres naturais ou conflitos violentos.

Na história humana, participar em actividades colectivas físicas, tais como formas primitivas de caça, música e dança e rituais arcaicos, serviu desde muito cedo para melhorar as percepções e a atenção, e para orientar e sintonizar melhor cada uma das pessoas com os outros membros do grupo e com o meio ambiente. Nestas primeiras actividades, o humano operava em primeiro lugar como perceptor/fazedor/actor-do-mundo. Cada uma das pessoas interpelava o mundo directa e imediatamente sem a mediação do "pensamento" de estar a realizar a actividade. As formas arcaicas de música, dança e rituais pediam às pessoas que se movimentassem ou exteriorizassem com a voz simultaneamente - um meio de sintonizar a atenção sensória de cada um para os outros e de desenvolver laços sociais. O sucesso da caça com armas arcaicas dependia da faculdade do indivíduo e do grupo para se movimentarem em silêncio, rápida e furtivamente, e ao mesmo tempo manterem uma coordenação síncrona através de comunicação não-verbal com os outros. A sobrevivência era sem dúvida mais bem sucedida naqueles mais sincronizados com os seus sentidos e naqueles que, em pequenos grupos de comunidades que lutavam pela vida em condições bastante agrestes, conseguiam estabelecer laços mais fortes com os outros .

Estudos de etnólogos sobre o comportamento animal mostram que muitos animais, e especialmente os nossos antepassados primatas, também se envolviam em mimesis (imitação) simples. A faculdade para aprender através de comportamentos miméticos é essencial à sobrevivência. A mimesis também pode ser autotélica; ou seja, ter as suas próprias recompensas que são vistas como agradáveis e até divertidas. O comportamento mimético pode por isso gerar um sentimento de bem-estar. Merlin Donald usa a palavra "mimético" para descrever a segunda fase do desenvolvimento humano que vai para além do episódico. Na fase mimética, o gesto, a pose e a expressão facial começaram a ser usadas como formas primitivas de comunicação não-verbal.

Tanto o modo episódico de viver o momento como o modo mimético têm sido nucleares nas actividades do intérprete e do actor em todas as histórias e culturas. Os modos mimético e episódico são aspectos sine qua non da acção cultural ou performance, embora tenham sido inventados vários modos de exercitação para satisfazer os vários géneros específicos de acções culturais.

 

Phillip B. Zarrilli

Tradução minha




Pedro Marques @ 22:51

Seg, 16/02/09

INTRODUÇÃO

 

A evolução da linguagem e discurso humanos e a invenção da escrita tiveram um impacto revolucionário na consciência humana. Cada uma delas mudou fundamentalmente o modo como os humanos interagiam uns com os outros e com o seu meio ambiente, e de como se imaginavam a si próprios e ao lugar que ocupavam no mundo. Esta primeira parte analisa as acções culturais e o teatro à medida que cresciam por todo mundo antes de 1600. Olha para a acção cultural e o teatro desde a evolução do discurso humano, através do nascimento da linguagem e o desenvolvimento de sistemas de escrita, até à invenção da imprensa, primeiro na China (século sete) e mais tarde na Europa (século quinze).

A história da humanidade abrange cinco milhões de anos, contudo, a maior parte dos dados históricos dos nossos empreendimentos colectivos concentram-se na vida desde a invenção da escrita, cerca de 3000 a.C. Dada esta concentração em culturas e povos alfabetizados em vez de analfabetizados, 99.9 por cento da história humana recebe muito pouco estudo sério. Os historiadores de teatro e das acções culturais concentram-se normalmente onde há provas sob a forma de textos escritos ou em ruínas arqueológicas de estruturas construídas com o propósito de albergar acções culturais. Discutiremos os problemas historiográficos da interpretação e compreensão da acção cultural em culturas pré-alfabetizadas. Também teremos uma visão geral sobre um vasto conjunto de acções culturais orais, rituais e xamânicas que se desenvolveram durante a história humana pré-alfabetizada mas que ainda informam e interagem com práticas de acções culturais alfabetizadas em muitas culturas hoje em dia. Depois examinaremos como a obra dramática e o teatro se desenvolveram como formas distintas de práticas performativas ao lado de acções culturais orais e rituais existentes em algumas sociedades alfabetizadas.

Aqui, consideraremos o que terá sido a consciência humana antes da linguagem tal como nós a conhecemos, analisando como a percepção, a acção e a imitação foram centrais para a existência humana primitiva. Traçamos uma teoria da evolução do discurso e da linguagem que explica como os humanos desenvolveram a faculdade singular da comunicação simbólica - uma faculdade essencial para o contar de histórias e para a obra dramática escrita e representada.  Analisamos os modos como a imaginação humana e a faculdade de comunicar através da representação são levados a cabo por tipos diferentes de organizações sociais.

Consideramos depois o impacto da invenção de sistemas completos de escrita, pelos sumérios na Mesopotâmia (3000 a. C. aproximadamente), e por sociedades de nativos americanos na Mesoamérica (provavelmente no Sul do México, cerca de 600 a. C.). A invenção da escrita e o acto concomitante da leitura produziu uma revolução tanto na consciência humana como nas organizações sociais tão profunda como a invenção do discurso e da linguagem. Em algumas culturas esta revolução produziu modos altamente reflexivos de escrita/leitura/acção cultural, como a poesia, drama, e crítica.

 

Tradução minha.