Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 17:41

Sab, 27/12/08

Harold Pinter foi um dos dramaturgos contemporâneos mais importantes da segunda metade do século XX. Morreu na véspera de Natal. Para a história ficará uma obra sobre a prepotência, a origem do poder e o poder do silêncio. Peças como Serviço, Regresso A Casa, Um Para O Caminho, são marcos da dramaturgia do século XX.

Quando traduzi as peças de Pinter ele ainda não tinha sido laureado com o Prémio Nobel. Hoje não me atreveria a fazê-lo. Só que o meu objectivo era saber por que é que aquele jogo com a linguagem era tão importante. Por que é que os silêncios e as pausas em Pinter eram tão cuidadosamente pesados? Por que é que o Jon Fosse falou tanto dele? O que é que acontece quando se estende o silêncio? O que é que acontece quando se repete a mesma palavra? Por que é que é tão importante o som das palavras como o significado delas? É isso que se aprende com Pinter.

Lembro-me de passar tardes com o João Saboga no primeiro andar do edifício da Capital em sessões fantásticas de descoberta do texto. Traduzíamos Serviço, que ainda não se chamava nada. Como é que traduzíamos The Dumb Waiter? Íamos aos restaurantes perguntar se aquelas coisas espécie elevadores tinham nome específico. Nâo. Não tinham. Como é que resumíamos numa só palavra todos os diferentes níveis de interpretação do título? Quando dizíamos Criado Mudo sorríamos, pensávamos na tradução dos anos 60 que lhe chamou Monta-Cargas, também não era isso. Depois pensámos que o elevador por onde vão os pedidos e depois vêm é muito parecido com a situação dos dois assassinos que esperam alguém para matar. O elevador é uma metáfora da arbitrariedade da autoridade. Foi por isto que decidimos chamar-lhe Serviço. Ben e Gus vão fazer um serviço, o elevador também faz um serviço. Assim, mesmo afastando-nos da palavra em inglês sabíamos que estávamos a ir ao coração do texto. Para os línguistas suspeito que este argumento não é suficiente, mas para o teatro é. E Pinter é um poeta do teatro.

Para o seu funeral, Pinter pediu a Michael Gambon que lesse este pequeno texto de Terra de Ninguém, que Gambon representa actualmente:

 

"Até lhe podia mostrar o meu álbum de fotografias. E o senhor até podia ver nele um rosto que talvez lhe fizesse recordar o seu, aquilo que o senhor em tempos foi. Podia ver rostos de pessoas, na sombra, ou as faces das pessoas, quando se viravam, ou mandíbulas, ou nucas, ou olhos, obscurecidos por chapéus, que talvez lhe fizessem lembrar pessoas que terá um dia conhecido, pessoas que julgou mortas há muito, mas de quem ainda receberá um olhar de soslaio, se por acaso for capaz de encarar os espíritos benfazejos. Acolha o amor dos espíritos benfazejos. Eles possuem uma grande emoção... aprisionada. Curve-se perante isso. Seguramente que não bastará libertá-la, mas, quem sabe... que alívio... lhes pode trazer... quem sabe se não os reanima... nos seus grilhões, nas suas jarras cristalinas. Acha cruel... reanimá-los, quando estão fixos, encarcerados? Não... não. Lá bem no fundo, bem no fundo, eles desejam reagir ao seu toque, ao seu olhar, e quando o senhor sorri, a alegria deles... é ilimitada. E por isso lhe digo, entregue-se aos mortos, tal como você mesmo se entregaria, agora, àquilo que é a sua vida."