À medida que vou vendo mais filmes de 2008 nomeados para os óscares (ou não, como é o caso de Revolutionary Road) vou percebendo como a Academia de Hollywood se espalhou ao comprido este ano. Não acredito que seja o caso de não haver bons filmes, que os há, este ano, porém, a política, como ouvi o Danny Boyle dizer, parece ser juntar Hollywood a Bollywood numa parceria que pode dar muitos e bons frutos, mas aos quais obviamente não se pode juntar Slumdog Millionaire pelos motivos já aqui e aqui descritos.
Seja como for, nos últimos dois dias vi Milk dirigido por Gus Van Sant e Revolutionary Road de Sam Mendes. O primeiro com várias nomeações para os óscares, o outro com nenhuma. Depois de ver os dois pergunto-me mais uma vez: porquê? Eu sei que tudo é subjectivo, muito mais na questão da arte, mas por que é que Leonardo di Caprio não recebe nem sequer uma nomeação?
Em Milk, Sean Penn tem uma interpretação magnífica como Harvey Milk (embora não seja a melhor que o vi fazer), o famoso activista gay dos anos 70 de São Francisco que acaba assassinado por um amigo. O filme vale realmente pela interpretação dele e de Josh Brolin já que a história verídica é mais uma vez igual à de muitos outros filmes que falam da luta pela liberdade de homens que parecem estar à frente do seu tempo. Mais uma vez se filma o sonho americano e a luta para o conquistar - filma-se as escolhas de uma vida na procura do sonho. Harvey Milk era um desses visionários, que por acaso se dedica a essa luta árdua que enfrenta sempre com um sorriso nos lábios. Política e eleições contra escolhas individuais - Harvey Milk é mais um numa longa fila de vítimas que incluem Antígona, Julieta, Larry Flint. O público e o privado em confronto.
O modo como Gus Van Sant junta documentário e ficção e alterna noticiários da televisão dos anos 70 com remontagens de ficção é parecido com o seu outro filme Elefante sobre o massacre de Columbine. A realização é cuidada e remete-nos cuidadosamente para aquela época de militância, mas sem nunca nos deixar levantar voo, como se tivesse algum pudor. Sentimos, de alguma maneira, que a morte de Harvey Milk já está no ar. As relações, por muito superficiais ou profundas que sejam têm sempre um carácter efémero, tal como em Elefante. Se por um lado apreciamos a delicadeza de Van Sant, por outro sentimos falta de nos relacionarmos de uma maneira mais emocional com o filme.
Por contraste, Revolutionary Road do realizador Sam Mendes é um autêntico turbilhão de emoções. A história de Frank e April (Leonardo di Caprio e Kate Winslet), um casal de cerca de trinta anos que enfrenta os problemas do casamento. Depois de ver a interpretação de Leonardo di Caprio que exige muito mais variações que a de Sean Penn, por exemplo, ficamos completamente rendidos à sua mestria e não percebemos a Academia. Kate Winslet acompanha-o e excede-o nos delírios.
É claro que é um filme sobre um tema milenar, estafado, da família e do casamento, mas as voltas e reviravoltas do argumento, a frieza e honestidade, mantêm-nos sempre em bicos de pés. Nunca sabemos o que se vai seguir.
A realização é sóbria, concentrada nos actores e no naipe de secundários que ainda têm tempo para fazer um retrato bastante neurótico de uma sociedade em pleno boom económico dos anos 50. Ecos de Tennessee Williams pairam sobre as personagens em permanente conflito interior. Numa altura em que o cérebro e o seu estudo são objecto de contínuo exame e castração - uma das personagens sofreu tratamento de choques eléctricos encontrando-se parcialmente paralizado e a quem, curiosamente, está reservado o papel de anjo apocalíptico daquela(s) família(s).
Na nossa cabeça fica o sonho de Frank e April de viver em Paris com os filhos. A distância entre sonhar uma vida e viver outra.