Uma das coisas mais fascinantes e, de facto, insuperáveis da internet é a possibilidade de podermos ver filmes de autores e épocas que pensávamos ter atirado para trás das costas para sempre. Hoje em dia, fala-se nos direitos de autor dos artistas, no suposto roub
o que se faz às diversas indústrias, da música ao cinema, mas se formos bem a ver as coisas, os próprios artistas são os únicos que não estão preocupados. Por que raio se deviam preocupar? Em princípio os artistas querem que as suas obras sejam ouvidas, conhecidas, o seu ganha-pão é directamente proporcional ao interesse que suscitarem. Quem se preocupa e mexe mundos e fundos para salvaguardar a suposta 'honra' do artista são as indústrias, os agentes e todos os intermediários que pululam pelas artes. Isso mesmo: os parasitas onde ocasionalmente se incluem os críticos.
Se não fosse por este pequeno milagre da informática, não teria nunca conhecido e tido a oportunidade de me deleitar com a obra do realizador de cinema que vos quero apresentar: Grigori Kozintsev. Já vos mostrei uma fotografia do último filme dele, mas nunca vos disse quem é o senhor. Eu próprio sei muito pouco, sei que nasceu a 9 de Março de 1905 e morreu a 11 de Maio de 1973 em São Petersburgo. Começou a realizar filmes nos anos 20, mas é dos últimos três filmes que eu quero falar: Don Quixote (1957); Hamlet (1964) e Rei Lear (1970).
Depois de ter lido o livro de Miguel de Cervantes nunca pensei que alguém conseguisse transpor satisfatoriamente para o cinema uma obra tão vasta, sem que ela fosse privada dos seus múltiplos níveis de leitura. Mas enganei-me. E em boa hora. O filme deste magnífico realizador soviético é uma obra-prima da cinematografia mundial, tal como os seus outros dois filmes baseados nas peças de teatro de Shakespeare.
Para além da representação absolutamente magistral de Nikolai Cherkassov em Don Quixote e Yuri Tolubeyev em Sancho Pança, a realização e o argumento são irrepreensíveis. Sem deixar de lado a ironia e humor do original de Cervantes, o filme consegue ser profundo e sintetizar ao mesmo tempo as diversas forças que motivam as personagens do filme: o amor desmedido de Don Quixote pela sua Dulcineia del Toboso, a sede de poder de Sancho Pança, sua ascensão e queda, o prosaismo do doutor que finalmente, e através das regras da cavalaria, consegue trazer Don Quixote para casa, e o desejo por um amor verdadeiro de Aldonza, a rapariga que inspira Don Quixote nas suas andanças.
É esta camponesa Aldonza, de ar radioso, que passa tragicamente ao lado do amor, invejando a dedicação de Don Quixote a Dulcineia del Toboso, sem saber que é ela própria o objecto desse amor. As cenas iniciais instalam este pequeno enredo e o filme levanta voo exactamente a partir desta disfunção trágica.
As aventuras vão-se revelando um falhanço, tal como no livro, o episódio com o miúdo pastor que Don Quixote salva de uma carga de porrada do amo e que no fim voltará para demonstrar que os cavaleiros estão desfasados da realidade, ao revelar que o amo lhe bateu ainda mais depois do famoso cavaleiro da Mancha se ter ido embora; os prisioneiros que ele liberta e que depois se voltam contra ele, apedrejando-o, a dama que representa a corte e que demonstrará, tanto a Don Quixote como a Sancho Pança, a ilusória realidade em que vivem. Mas o que fica é a intrépida e tenaz luta destas duas personagens que congregam em si próprias todas as aspirações do mundo: a boçalidade da justiça e a metafórica realidade do amor e dedicação.
Inesquecíveis os momentos em que Don Quixote fala com o leão, ou os juízos que Sancho Pança sentencia quando finalmente é governador da sua 'ilha'. As cenas na corte são magistrais. A lenta coreografia dos figurinos, pontilhada de castiçais. Os vultos como abutres dos fidalgos e cortesãos contrastam com a capa vermelha de veludo que Sancho Pança usará na sua reencarnação de um qualquer Juiz da Beira tirado de Gil Vicente.
A cena da declaração de Don Quixote à dama que se finge morta com a conivência de toda a corte é magnífica: "o verdadeiro amor é imortal", diz Don Quixote. É difícil não acreditar nele, ainda que toda a vida nos diga o contrário. Confessando ao mesmo tempo que o seu amor só pertence às regras da cavalaria e à sua imaginária Dulcineia del Toboso.
Engenhosamente, Kozintsev coloca a cena mais emblemática do romance de Cervantes, a cena com os moinhos, como aventura final de Don Quixote, e não em primeiro lugar como no livro, desenhando toda a inconsequência do espírito cavalheiresco do cavaleiro da Mancha na época que já se fazia sentir por toda a Europa: o fim inequívoco da Idade Média.
Será esse também um dos temas de Rei Lear de Shakespeare. O rei que está inexoravelmente atado à corda da idade média, tal como o seu fiel companheiro Kent que ignora. Do outro lado, do lado do tempo e pensamento renascentistas estão as suas filhas Goneril e Regan e o bastardo Edmundo, conde de Gloucester.
Mas isso será matéria para outra posta...
Para já, recomendo-vos a ir amanhã, dia 25, à Cinemateca na Rua Barata Salgueiro, às 21.30h ver Rei Lear de Grigori Kozintsev. Eu não faltarei.
Rei Lear e as suas três filhas: Goneril, Cordélia e Regan. Do filme do realizador russo, Grigori Kozintsev. 1970.