Pensei muito e a pedido de um amigo decidi escrever um post sobre futebol. Agora que Portugal foi eliminado do Campeonato do Mundo posso falar.
Primeira coisa: eu estava à espera de um resultado melhorzito. Não sou daqueles que atacam o Carlos Queirós quando perde e o glorificam quando ganha. Glorifico-o sempre porque deu a Portugal dois Campeonatos do Mundo em sub-21, coisa que nunca ninguém fez. Isto é um facto. Portanto, tem valor, é um treinador português, que era adjunto de um dos melhores treinadores do mundo, Sir Alan Ferguson, foi treinador do Real Madrid, ainda que por pouco tempo, seleccionador da África do Sul, etc.
Segunda: ele ontem errou quando tirou o Hugo Almeida. O avançado era o único que estava a dar algum trabalho à defesa de Espanha, quando ele saiu o Ronaldo, que ficou a ponta de lança, não correu mais, amuou, por não jogar no seu sítio (aquele bocado de relva que ele comprou e no qual cai, amiúde, para depois marcar os seus extremamente perigosos livres directos). E com isto chego ao principal problema da selecção. E estão vocês a pensar, "não, o problema não pode ser o Ronaldo". E eu digo-vos. É. O maior problema da selecção portuguesa de futebol chama-se Cristiano Ronaldo. Ou melhor, chama-se O Extraordinário Ego de Cristiano Ronaldo. E perguntam, "porquê?"
Ontem, fui assistir ao jogo ao Campo Pequeno. As equipas entram em campo, parece que estamos no estádio, as pessoas batem palmas, gritam vivas, é colorido e animado. Emociona. Ouve-se o hino. Centenas de vozes entoam a melodia, toda, "os egrégios avós", enquanto a câmara desliza por todos os jogadores, o Eduardo que canta a plenos pulmões, todos os outros cantam, até o Pepe se esforça, todos ali, empenhados, concentrados na união, no grupo, a câmara aproxima-se do capitão de equipa, é ele, é Ronaldo, agora vamos ver a força da nação, a coragem, a determinação, mas, o quê? ele não está a cantar, este cabrão não está a cantar, mas que é que este gajo julga que é? Mas ele pensa que é mais do que todos os outros. E pensamos, "tá bem, porra, ele tem o direito de não cantar", sim, é verdade, mas, por outro lado, por que é que ele não há-de cantar? Não sabe cantar? Não sabe a letra do hino? Que urre! Que grite! Que mexa os olhinhos! E acho que é isto que melhor define Ronaldo a jogar pela selecção: é um tipo que corre por ele, cai para o chão por ele, dá três passos atrás e inspira profundamente enquanto se prepara para marcar um "ganda livre" por ele, apenas por ele, porque todos os outros cantam por todos inclusivé para ele, e ele, não.
É claro que tudo isto pode ser mentira. O Ronaldo não é mais patriota por não cantar, o Ronaldo é tão português como tu, dizes isso porque não estás lá, ele esforça-se muito pelo país. Pois, pois, pode ser mentira, mas, para mim, ele não cantou.
Por uma vez estive tentado a falar de futebol aqui. Quando o Scolari foi castigado e eu pensava que a melhor pessoa para o substituir seria o Mourinho. Escrevi o texto, publiquei-o e ficou no post durante um dia, talvez, mas depois tirei-o porque achei que não era significativo. Hoje, devo dizer que sou obrigado a fazê-lo porque o Cristiano Ronaldo ganhou o prémio de melhor jogador de futebol do mundo, seja lá o que isso quer dizer.
Quero escrevê-lo e comemorá-lo da mesma maneira que ele o fez. Com orgulho e modéstia e regressando ao trabalho no dia seguinte, com convicção e confiança. Ele é o melhor, e a sua mestria na arte de trocar as voltas ao defesa, rematar de sítios impossíveis, dar o efeito 'x' à bola, não quer dizer que ele não seja humano, ele é, pelo contrário, a exaltação das extraordinárias faculdades do ser humano, e nesse sentido podia ser argentino, russo ou italiano.
É claro que gostamos disto porque ele nasceu na Madeira e cresceu no S.C.P. para o futebol. É um produto de Portugal e tem qualidade. Ora, o que é que isto tem a ver com a mediocridade aparente do nosso país? Exactamente. Nada. E foi por isso que decidi escrever o post. Para, por uma vez, não celebrar aquilo que há de mais embaraçante em Portugal e sim aquilo de que nos orgulhamos.
Pena é que não façamos também programas de televisão quando o Saramago ganha o nobel ou o Manuel de Oliveira é premiado e não saibamos dar importância a todos aqueles que como o Ronaldo são bons naquilo que fazem, todos os dias, e ganham significativamente menos que o puto maravilha.
A palavra dinheiro vem-me à cabeça, como argumento final para todos os assuntos, mas com a queda de credibilidade do mesmo, parece-me que vamos ter que começar a definir novos valores.