
Depois de desenhar mobílias e tapetes ao estilo modernista durante os anos 30, emigrar para Berlim sob a supervisão inútil do seu tio e de assumir a sua homossexualidade numa época complicada,
Francis Bacon, nascido em 1909, decidiu dar mais uma vez oportunidade à sua veia artística e, durante a segunda guerra mundial, altura em que viveu em Londres, começou novamente a pintar.
A guerra, com toda a sua monstruosidade e desumanidade, são o tema do tríptico
Três Estudos para Figuras na Base de uma Crucificação (1944), que estão entre os seus quadros mais conhecidos.
Bacon tornar-se-ia, posteriormente, uma das figuras mais expressivas da pintura moderna. Os seus quadros não retratam nenhuma realidade reconhecível, contudo baseiam-se no real. As sensações que invadem aqueles que são confrontados com eles são concretas e penetrantes, ao mesmo tempo que subjectivas. É essa subjectividade que atinge profundamente o espectador. Nos quadros de Francis Bacon, a tragédia da existência humana é vivida através dos sentidos e não apenas veiculada com uma qualquer superioridade do seu olhar.
Um dos seus quadros mais conhecidos é a sua versão da pintura original de Velázquez do Papa Inocente X –
Estudo Sobre o Retrato do Papa Inocente X de Velázquez (1953). No retrato de Bacon, o Papa surge desfigurado através de uma série de linhas verticais que como que o obrigam a abrir a boca e a expressar, de modo involuntário, o desespero humano. No original somos completamente esmagados pelo realismo da pintura e o olhar do retratado – os pormenores são tão verosímeis que quase lhes podemos tocar. Em Bacon, esse olhar é propositadamente desfigurado: depois de Auschwitz e Hiroshima, a humanidade não pode voltar a ser a mesma.

É frequente verem-se, nos seus quadros, linhas geométricas, como estruturas de caixas (ou gaiolas), que envolvem as figuras. Muitas vezes as situações são desdobradas em trípticos. Tal como em Edvard Munch, o pintor procura, por aproximações, uma realidade mais real que o real, sabendo das limitações e alcance da própria pintura. As linhas que envolvem as figuras assemelham-se muitas vezes a um palco, a uma moldura, como se o artista quisesse isolar as figuras dentro do próprio quadro e assim exponenciar a sua exposição, tornando-as mais urgentes e pungentes. Em alguns dos quadros são pintadas setas que nos obrigam a destacar do quadro e a procurar nele algo mais que uma visão do real. Nos seus retratos de cabeças ou rostos podemos ver como Bacon procurava uma arte que se aproximava da fotografia. As caras aparecem sempre desfiguradas como o que acontece quando uma cabeça se mexe ao tirarmos uma foto. Neste sentido Bacon ecoa alguma da visão de Samuel Beckett que faz a sua personagem de
Primeiro Amor dizer que só os mortos, com a sua imobilidade, podem ser vistos em toda a sua beleza, os vivos estão sempre a fazer caretas e não se podem fixar numa imagem única.
Francis Bacon morreu em 1992 em Madrid. Ao partir, deixou-nos uma obra possuidora de uma poesia que procura ainda no meio da angústia, violência, desejo, desespero, amor, a beleza sagrada que há em cada ser humano.