Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.



Pedro Marques @ 02:15

Seg, 02/03/09

Nas escolas, cada vez mais crianças mostram debilidades motrizes designadas como sintomas de Distúrbio de Hiperactividade e Défice de Atenção (DHDA). A neurobiologia já atestou que em numerosos casos estamos aí na realidade confrontados com danos psicológicos e orgânicos derivados do consumo de meios electrónicos na primeira fase da infância. Os apregoadores pró-digitais gostam muito da frase "Os computadores ensinam as crianças a lidar com computadores". Mas imaginar que isto já constitui uma preparação para a vida é entregar-se a uma ilusão bastante elementar. A única coisa que as crianças em idade do nível escolar primário conseguem realmente aprender com os computadores é a manipulação dos mesmos, o que não deve ser confundido com uma competência medial. Para uma competência medial é preciso primeiro ter-se uma suficiente capacidade de auto-avaliação do uso individual de qualquer aparelhagem, mais uma criatividade suficientemente desenvolvida, e ainda um saudável discernimento crítico acerca dos conteúdos recebidos audiovisualmente – coisas que as crianças só alcançam após o período primário. Por outras palavras: para as crianças saberem usar os meios electrónicos, em vez de serem elas próprias usadas pelos mesmos, elas precisam de maturidade.

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Um computador permanentemente à disposição das crianças constitui assim na realidade um obstáculo e um factor distractivo para uma aprendizagem que envolva uma actividade mental criativa. Entretanto, uma nova estirpe de tecnocratas desinformados, dispersos por empresas milionárias e ministérios, sonha obstinadamente com meios electrónicos aplicados à educação como forma de divórcio do contacto professor-aluno. Tipicamente eles gostam de argumentar aos quatro ventos que "saber manipular desde cedo um computador" é algo que promove habilidades comunicativas fundamentais para o futuro, aumentando as chances do sucesso profissional na vida adulta. O aspecto pernicioso, e deliberadamente escondido da opinião pública, é que ocorre um sacrifício de outras aptidões, anímicas e sociais, essenciais para a vida. O desastroso efeito final resulta fatal para uma educação equilibrada, pois são precisamente aquelas aptidões sacrificadas – e não a capacidade de manusear uma máquina – que mais tarde se revelam como críticas para a estabilidade da personalidade pós-pubertária e para a integração dos jovens-adultos no mundo do trabalho e na interacção puramente humana.

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Em 1840, após séculos de educação infantil atrelada às pesadas obrigações laborais das famílias, o genial pedagogo Froebel foi o primeiro a usar a expressão "jardim" para designar locais de abrigo e recolha das crianças, reconhecendo já nessa época a importância marcante das práticas lúdicas e naturais para a completa formação da personalidade humana. Nos últimos anos, sob o influxo de personalidades intelectualistas ultra-ortodoxas como a Dra. Donata Eischenbroich, que distribuíu pelo mundo a perspectiva cientifista abstracta do "aproveitamento estratégico da inteligência infantil nos primeiros anos de vida", está em curso em muitos países avançados um processo de perversa robotização até de jardins de infância, com a instalação de potentes centros de computação disfarçados como brinquedos. Por outro lado, o mercado extremamente lucrativo dos produtos para crianças, apoiado por estratégias de marketing e publicidade sumamente refinadas e sem controlo ético ou educativo, vem igualmente alimentar um amadurecimento prematuro das crianças, ao promover uma "compressão ectária", de modo que produtos concebidos para crianças maiores, ou até para adultos, sejam consumidos por crianças de cada vez menos idade. Iludidos por promessas tecnocratas de modernização das suas actividades, muitos pedagogos passaram assim a menosprezar como factor supérfluo as actividades de tempos livres das crianças, e o seu papel essencial para a aquisição de uma série de habilidades anímicas permanentes, que são impossíveis de obter de qualquer outro modo.

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Uma recolha de dados dos muitos estudos existentes permite sumarizar dez efeitos negativos que os meios electrónicos exercem sobre crianças na fase pré-pubertária:

(1) Inducão de uma admiração desmesurada por máquinas, conforme o complexo funcionamento intrínseco dos computadores permanece incógnito

(2) Estímulo para a ideia que máquinas dotadas de "inteligências artificiais" podem em muitos casos ser mais perfeitas do que seres humanos

(3) Cultivo de uma concepção materialista do mundo, com uma visão fatalística da humanidade e da vida, do tipo "tudo é previsível e programável"

(4) Inclinação para uma estratégia de vida baseada na fé computacional de "dividir para conquistar", ou seja, subdividir sempre um problema em partes menores, a fim de resolvê-las separadamente – o que resulta desastroso quando aplicado a seres humanos

(5) Deterioração dos valores de sociabilidade, uma vez que os computadores são usados individualmente e os contactos via internet, blogues, skype, emails, etc. permanecem sob a nervosa máscara cibernética

(6) Provocação de impulsos tendentes a realizar tudo na vida rapidamente e com variadas acções ao mesmo tempo

(7) Debilitamento das capacidades de concentração mental, contemplação e paciência

(8) Degeneração da memória e distorção da capacidade do pensamento criativo, conforme deixa de ser necessário memorizar tudo que é facilmente arquivável em gigantescas memórias electrónicas

(9) Incitamento à utopia de "aprender é fácil, aprender é como brincar", devido à pobre e infantilóide concepção dos softwares

(10) Danos irreparáveis para a habilidade de escrever e para os órgãos de visão, e eventualmente degeneração de funções neurocerebrais, devido à prolongada exposição a campos electromagnéticos nas proximidades da cabeça.

 

Raúl Guerreiro