Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 21:41

Dom, 14/09/08

O título do filme nasce de um verso de William Wordsworth (1770-1850) do livro Intimations of Immortality from Recollections of Early Childhood. Em boa hora adoptado por William Inge (que recebeu o óscar para melhor argumento original por ele) e realizado por Elia Kazan.
É a história do amor de dois adolescentes, castrados, cada um por seu lado por pais retrógrados e preconceituosos. Bud (Warren Beatty) é um jovem desportista apaixonado pela namorada, com pouca vocação para estudos que é atirado para Yale e para uma vida que não quer por um pai rico e intrusivo. Deanie (Natalie Wood) é a jovem com medo de se envolver sexualmente com o namorado, a mãe assegura-se de que ela permanece virgem. Em plenos anos 20, no Kansas, quando o jazz e jive revelavam o corpo e o sexo em todo o seu esplendor.
O filme começa com a cena de namoro no carro, junto a uma queda de água. O local não é casual, a vida simbolizada pela água é cerceada pelos preconceitos em relação ao sexo. A noite que seria de amor torna-se assim o motor de uma história que nunca será concretizada.
É curioso ouvir os vários discursos que as personagens vão tendo sobre o sexo e a sua sexualidade: a mãe de Deanie que diz que o pai da filha nunca lhe tocou até ao dia do casamento e que ainda assim o fez porque a mulher tem de ter filhos. O pai de Bud diz "eu compreendo, eu compreendo", ao fogo que Bud não consegue apagar dentro de si, mas nem sequer ouviu a profundidade do amor do filho pela jovem. São as forças em conflito que não deixam que os jovens concretizem o seu amor. A castração é tal que ambos os jovens sofrerão de depressão, no caso da jovem isso leva-a mesmo a uma instituição mental onde permanece dois anos e meio.
A descoberta da sexualidade e a passagem dos ideais de juventude para o pragmatismo da vida adulta, o aprender a ser derrotado, é magnificamente retratado na cena em que Deanie tenta ler por entre as lágrimas o famoso poema de Wordsworth:
A luz que brilhava tão intensamente / Foi agora arrancada dos meus olhos, / E embora nada possa devolver os momentos / De esplendor na relva e glória nas flores, / Não sofreremos, melhor, / Encontraremos força no que ficou para trás.
É a força destas palavras, a realização de que o momento de esplendor e glória, efémero, pode já ter passado e permanecerá estéril, e que não se olha para trás senão para se procurar a força para andar em frente. É a compreensão desta condição que desespera a jovem e a faz sair a correr da sala de aula depois de ter lido o poema, e em última análise a leva ao hospício.
A história retrata o famoso conflito de gerações, mas é a representação dos actores - Natalie Wood, Warren Beatty, Barbara Loden no papel da emancipada irmã de Bud, Pat Hingle, o magnata do petróleo, pai de Bud, que acaba a suicidar-se por causa da crise financeira de 1929, Audrey Christie e Fred Stewart como pais da jovem -, e a direcção de actores de Elia Kazan que são irrepreensíveis.
O buraco que afasta as gerações é inteligentemente retratado por Kazan e Inge. Os pais castradores foram por sua vez castrados quando eram jovens e não há culpas a atribuir nem nada a lamentar. Só o tempo, sempre ele, o tempo, sarará as feridas e trará à luz do dia o verdadeiro sentido das coisas, como os jovens acabarão por perceber no final.
A cena final, quando Deanie visita Bud, que acabou por regressar para trabalhar na sua quinta, como foi sempre o seu sonho, é reveladora de que o amor tem o seu tempo certo e que não se pode ficar a olhar para trás, a chorar sobre o leite derramado.
Bud casou entretanto com a filha de imigrantes italianos, tem um filho de cerca de 2 anos e espera outro. Deanie com o noivo de Cincinatti à espera, mesmo assim decide enfrentar os seus fantasmas.
É essa aprendizagem que o filme aborda, quando a amiga de Deanie lhe pergunta no carro, depois da visita a Bud, quando vão de regresso, "Ainda o amas?" e ela, sem responder, ouve claramente na sua cabeça os versos do poema de Wordsworth.
Um filme passado em 1929, filmado em 1961 que ainda é verdade em 2008. A isto se chama intemporalidade.
A isto se chama bom cinema.