Menos de um mês depois de termos a cobertura das eleições importantíssimas
do PSD em todos os canais de televisão, é a vez de vermos nos mesmos canais (não vejas televisão! dir-me-ão...) a cobertura do congresso do mesmo partido em Carcavelos. Em todos os canais, excepto na RTP2 claro, são entrevistas a dirigentes do partido, comentários, excertos do discurso do presidente, mais comentários, todos a falar em "unidade", "alternativa" e "novo fôlego". O presidente diz que não tem urgência de ser primeiro-ministro (pudera!, as eleições foram há menos de um ano), mas que quer construir uma alternativa. Estão convencidos que depois do PS só poderá vir o PSD, como se a alternância fosse segura. Depois do desgaste do Sócrates só pode vir o neo-liberal Pedro P. Coelho. Ainda bem que faltam 4 anos...
Agora que o PSD começa a reunir tropas é preciso dizer o que significou este partido para o país na altura das vacas gordas. Quando o país começou a receber fundos estruturais da CEE no final dos anos 80, estes mesmos senhores (só que um bocadinho mais novos) apressaram-se a desbaratar os dinheiros pelos seus amigos, sem olhar a ideias, inovação, educação, cultura. Na altura era diferente. Precisávamos era de bancos, cimento, jipes e alcatrão. Vejam aonde isso nos levou. A um país sem tecido produtivo. Um país que até à entrada em força da China no mercado global fazia sapatos e apertava parafusos nas fábricas de automóveis das multinacionais e que agora nem isso. Um país atirado à pseudo-auto-regulação dos mercados. Um país onde o primeiro-ministro Cavaco Silva dizia "se os outros já o fizeram e resulta não há razão para não o fazermos" -, sem pensar que "aquilo que resulta" às vezes não é bom para o nosso país, como se viu na recente crise.
Por isso, meus amigos, antes de começarmos todos a dar as boas-vindas a uma alternativa, com a esperança de melhores dias, antes de começarmos a dizer mal do Sócrates e a fazer greves, pensemos antes porque o fazemos e como o fazemos. Poderemos estar a entregar o país a pessoas que, à parte das boas intenções de que o inferno parece estar cheio, não só querem tomar o poder a todo o custo para garantir a sua "felicidade", como dizia o Pedro P. Coelho ontem, como podem não saber o que vão fazer para o governo.
Eu tenho a certeza de que não sabem, porque o discurso que têm é o mesmo que nos conduziu à crise de 2008. A mesma aposta nos mercados para se auto-regularem, a mesma fé no sistema financeiro apoiado em belas passeatas a jogar golfe, o mesmo discurso inócuo sobre as PME's, o mesmo desprezo por tudo o que seja "estado". O problema do PSD ainda continua a ser o PS. O discurso possível do PSD foi preenchido pelo neo-liberalismo do PS, e isso diz tudo do beco sem saída em que o PSD se viu por não ter políticas credíveis e a que conduziu o país durante os anos 90.
Acompanhava a noite das autárquicas. Ouvia todas as declarações, as melhores, as piores, as oportunistas, as inteligentes (a do Luís filipe Meneses), quando surgiu o Jerónimo de Sousa a falar dos resultados da CDU. Nada de esquisito, pensei, ele dizia que a CDU "reforçava" as suas posições, e que em Lisboa e no Porto era ainda mais meritório por causa da grande polarização devida ao voto útil e à campanha mediática, bla bla bla.
E eu pensei, "ó camarada, tudo bem quanto ao reforço, etc, eu já esperava e ainda bem que assim é, mas quanto a essa suspeita de manipulação mediática acho que estás a exagerar, também não é preciso ser assim..."
No momento em que disse isto aos meus botões não pensei duas vezes, mas devia ter pensado, porque o senhor, afinal, é bem mais velho do que eu. Alguns segundos depois o orelhudo pseudo-escritor-jornalista decidiu cortar-lhe o pio. Pensei eu, para passar para o Santana Lopes (como que em vingançazinha por causa do episódio Mourinho, ai o futebol, sempre o futebol)... mas não, era para ir para anúncios. Irritado decidi mudar de canal. Agora queria ouvir aquela declaração. Mas não. Não podia. Tanto a SIC como a TVI já tinham feito o mesmo que a RTP.
Estão-se a rir? Eu não. Será que RTP foi a reboque das outras estações? Trata-se então realmente de um arranjinho para prejudicar o PCP? Tenho de acreditar nisto? Será que a terceira maior força autárquica do país não interessa quando o seu secretário-geral fala? Estas e outras perguntas ficaram a cirandar na minha cabeça à espera de resposta.
Eu, confesso, já tentei tudo. Já tentei emigrar, mas mesmo isso me saiu furado. Que devo fazer? Ai, ai (suspiro).
Gostei dos debates sobre o balanço da campanha. A sério. Os comentadores disseram consternados que não se falou de política. Foi uma campanha de casos. A sério? Quais foram os jornalistas que fizeram perguntas que não falassem de casos e concursos de beleza?
Mas o mais confrangedor é a assumpção de que os Gato Fedorento foram importantes na campanha. Não digo pelos Gato Fedorento, que aprecio, digo isto pela mediocridade que revela. É preciso que alguém faça uma piada para interessar as pessoas pelo país e pelo seu próprio futuro.
Ricardo Araújo Pereira, tocado pela sensibilidade e audácia do entrevistado Garcia Pereira confessa que vai votar PCTP/MRPP nas próximas eleições legislativas.
Fonte Fora de Cena: anónima, mas com bastante credibilidade...
Último dia de campanha eleitoral para as legislativas. O PS está à frente nas sondagens, o PSD acredita que vai ganhar porque nas europeias também foi assim, o BE está contente com a queda da maioria absoluta, o PCP faz-se ao piso do governo socialista e o PP toca pandeireta. (Parece que já não tenho que emigrar...)
O facto de Sócrates ter sido o melhor primeiro-ministro desde a entrada na CEE ainda não me faz votar nele. Lamento imenso, mas continuo a achar que não se pode contar com o partido socialista. Foi o melhor governo, sem dúvida, mas não chegou a ser bom. De 1 a 10 dava-lhe 5, quanto muito um 6. Por isso não baixo as minhas exigências para se adaptarem à mediocridade normal do país. Prefiro votar na utopia comunista.
Para além de que algo me diz que este governo vai ser pior. Não acredito que Sócrates com toda a sua arrogância consiga fazer o golpe de rins necessário para governar à esquerda com o BE e o PCP. Não acredito que se forme uma novca coligação sob o signo da constelação Alegre. O PS é imprevisível, sempre foi, aliou-se sempre aos mais inesperados adversários, CDS, o bloco central com Cavaco, etc. O PS sempre arranjou maneira de pôr o socialismo na gaveta. Eram outros tempos, é certo, mas o pensamento lá está. Soares ainda faz comícios e Sócrates ainda o apoiou para Presidente.
O PS vai ganhar as eleições, ao que parece, e ainda bem, a Manuel F. Leite pode ir pendurar-se como verdadeiro bacalhau empalhado numa qualquer sala sem humidade para ver se resiste ao desfazer-se do seu partido. Fico preocupado pela quantidade de apoiantes que o PSD ainda tem, e a quantidade de pessoas que ainda acreditam na demagogia do CDS. Paulo Portas é um belo e porreiro bobo. Acreditam na vitória. Mas parece que não é para já. A direita terá de esperar por mais umas europeias para se vangloriar.
Que me resta então? Se não voto PS nem PSD nem CDS, por algumas das razões acima apresentadas, que voto me sobra?
O BE? Ficou claro que o Louçã seria o melhor primeiro-ministro do país. Eu também quero a energia e as bancas nacionalizadas. Eu quero a banca a pagar os impostos que toda a gente paga. Eu quero saúde e educação pagas pelo estado. É uma utopia? Talvez. Mas é por isso mesmo que eu voto no BE. Porque é uma utopia.
(Nas autárquicas voto no PCP, não consigo pensar em melhor maneira de homenagear todo o trabalho que o partido tem feito no país desde há quase 100 anos.)
Seja como for, exorto (ou enxoto) todos os meus compatriotas a ir votar. A inércia não muda nada. Votar é direito e dever.