Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 11:30

Sex, 05/06/09

Edward Hopper é um dos meus pintores preferidos. Durante toda a primeira metade do século XX ele conseguiu construir o seu olhar próprio à margem de todas as vanguardas da pintura. O seu trabalho é de uma beleza indescritível como podem ver nesta água-forte de 1921.

A posição da mulher, a cama meia desfeita, o vento que entra pela janela. A noite do título que no desenho nos aparece totalmente branca através da janela é enigmática. Quase que sentimos a respiração ofegante da rapariga. O corpo dela está magnificamente desenhado. O comprimento dos cabelos, a cara coberta por eles, tudo me é estranhamente familiar. Porquê?

Mark Strand diz: "Quanto mais realistas são as imagens, mais elas nos pedem que construamos uma narrativa do que aconteceu." Acho que este é o caso. Quando a sensibilidade de um pintor nos atinge desta maneira podemos estar certos que estamos diante de Arte com "A" maiúsculo.

Diz Edward Hopper: "Quando estou a pintar procuro sempre utilizar a natureza como meio, tentando fixar na tela as minhas reacções mais íntimas ao objecto, tal como ele me aparece no momento em que mais gosto dele, quando os factos correspondem aos meus interesses e ideias interiores: não posso dizer porque motivo gosto mais de escolher uns objectos do que os outros, não sei mesmo especificar porquê, só posso dizer que penso que são o melhor meio para um resumo da minha experiência interior."

E ainda bem.





Pedro Marques @ 15:25

Qua, 11/07/07

Edward Hopper nasce a 22 de Julho de 1882 em Nyack, Nova Iorque. Frequenta a New York School of Art entre 1900 e 1906, ano em que faz uma viagem pela Europa. Em 1908 fixa-se definitivamente em Nova Iorque, trabalha como desenhador de anúncios publicitários e pinta ocasionalmente. Os seus primeiros quadros são influenciados pelo movimento impressionista, mas cedo se nota um olhar diferente, onde a atenção dada ao pormenor e à direcção da luz se destacam e começam a criar um mundo novo.
Edward Hopper será mais tarde conhecido pelo pintor que definiu a América e as suas contradições, mas também a sua poesia, através de uma contemplação feita de tensão e histórias.
Hopper distancia-se progressivamente do impressionismo francês, com o qual aprende na segunda viagem que faz à Europa, pintando quadros que contrastam as realizações humanas, a arquitectura, a vida nas cidades, com as árvores e os céus, a luz e as paisagens.
Ao mesmo tempo, os quadros são simples e apoiam-se num olhar que se quer demorado mas puro. Diz o pintor: «Para mim, a forma, a cor e a figura são principalmente meios para atingir um determinado fim, as ferramentas que emprego no meu trabalho não me interessam em si próprias. A mim interessa-me, em primeiro lugar, o vasto campo de experiências e dos sentimentos que não são objecto nem da literatura, nem de uma arte orientada meramente pelo artificial. (…)»
«Quando estou a pintar procuro sempre utilizar a natureza como meio, tentando fixar na tela as minhas reacções mais íntimas ao objecto, tal como ele me aparece no momento em que mais gosto dele, quando os factos correspondem aos meus interesses e ideias interiores: não posso dizer porque motivo gosto mais de escolher uns objectos do que os outros, não sei mesmo especificar porquê, só posso dizer que penso que são o melhor meio para um resumo da minha experiência interior.»
Contudo, os quadros aparentemente contemplativos contêm sempre uma tensão inerente que advém da confiança de Hopper em relação ao real e de como ele está sempre carregado de contradições e novos momentos de atenção. Seja através de um ângulo mais arrojado ou estranho como em A Cidade (1927) ou Janelas À Noite (1928), seja pela utilização de uma luz decidida e crua como no caso de Casa Junto à Linha Férrea (1925) – um dos seus trabalhos mais emblemáticos –, percebemos que nos quadros deste extraordinário pintor há sempre uma relação entre as linhas rectas, os ângulos das casas, a geometria da arquitectura e as pessoas com as suas curvas moles, as árvores e as suas copas indefinidas, a luz e a sombra que criam novas formas, assustadoras às vezes - Ponte em Paris (1906), Farmácia (de 1927) - ou que definem de modo inexorável as formas: Colina com Farol (1927) e Posto da Guarda Costeira (1929).
A obra de Edward Hopper é de algum modo única, talvez pela sua vida não atribulada, ele não tem várias fases como muitos outros pintores, aquilo que pinta no princípio é muito similar àquilo que irá pintar no final. Isto tem talvez a ver com o facto de Hopper ter vivido sempre com a mesma pessoa, a sua mulher Jo, também pintora e que ficará sempre com ele. Particularmente estranho e simbólico é o quadro que Hopper pinta no final da vida, Dois Comediantes, onde se vê um homem e uma mulher de mão dada naquilo que parece ser o proscénio de um palco olhando em frente como que agradecendo a um imaginário e invisível público. O quadro é tão inusitado como revelador. O plano de baixo, como se o público estivesse de facto na plateia a ver os comediantes, reforça a impressão simbólica que Hopper quis conferir a esta extraordinária obra.
Nos anos 40, Hopper continua a sua obra de contraste. Desta vez as pessoas começam a invadir os seus quadros e começam a ganhar protagonismo. Estas pessoas trazem consigo histórias e, com as histórias, vêm as paisagens e o modo como elas se relacionam com os indivíduos. É frequente vermos nesta fase pessoas perto de janelas (Motel No Oeste, de 1957), de portas (Manhã na Carolina do Sul, de 1955); Verão (1943), no limiar da psicologia e de realidades diferentes, vemos pessoas em escritórios em compartimentos de carruagens, em trânsito. O tom dos quadros é contemplativo mas os ângulos escolhidos por Hopper criam sempre uma tensão estranha que nos põe em bicos dos pés, à espera de uma resolução que muitas vezes só acontece com o olhar do espectador.
Hopper consegue retratar de modo emblemático a imensidão do país e ao mesmo tempo particularizar histórias individuais que se relacionam psicologicamente com as paisagens. Se quiséssemos encontrar um cineasta que usasse o mesmo olhar lembrar-nos-íamos com toda a certeza de Wim Wenders em Paris-Texas ou As Asas do Desejo.
O seu quadro mais conhecido será certamente Noctívagos (1942) onde retrata uma cafetaria a meio da noite. Sobre ele Hopper diz: «Noctívagos mostra a minha ideia sobre uma rua à noite; não se trata necessariamente de algo particularmente solitário. Simplifiquei a cena e aumentei o restaurante, tendo pintado, inconscientemente, sem dúvida, a solidão de uma grande cidade».
Hopper é certamente um dos primeiros modernistas, mas o uso que faz da cor é reminiscente da atenção que Caravaggio tinha para com a luz. Os seus quadros emanam do escuro e vão-se revelando aos poucos. O uso que faz da luz é absolutamente magnífico como num dos meus quadros preferidos (Domingo de Manhã Cedo, de 1930), os ângulos que escolhe para pintar, o contraste entre arquitectura e natureza, as histórias que evoca, os ecos que cria despertam a imaginação do espectador. Nos seus quadros podem encontrar-se os contrastes oníricos de De Chirico, o surrealismo de Magritte ou a psicologia atormentada de Munch. Edward Hopper é um pintor do novo mundo, talvez aquele que tenha pintado com mais pormenor e poesia a solidão da vida moderna e a relação privado/público.
Mas talvez fosse porque Hopper gostava das coisas simples, de si próprio ele dizia : «Talvez não seja muito humano: A minha intenção era pintar a luz solar sobre a parede de uma casa.»