Edward Hopper é um dos meus pintores preferidos. Durante toda a primeira metade do século XX ele conseguiu construir o seu olhar próprio à margem de todas as vanguardas da pintura. O seu trabalho é de uma beleza indescritível como podem ver nesta água-forte de 1921.
A posição da mulher, a cama meia desfeita, o vento que entra pela janela. A noite do título que no desenho nos aparece totalmente branca através da janela é enigmática. Quase que sentimos a respiração ofegante da rapariga. O corpo dela está magnificamente desenhado. O comprimento dos cabelos, a cara coberta por eles, tudo me é estranhamente familiar. Porquê?
Mark Strand diz: "Quanto mais realistas são as imagens, mais elas nos pedem que construamos uma narrativa do que aconteceu." Acho que este é o caso. Quando a sensibilidade de um pintor nos atinge desta maneira podemos estar certos que estamos diante de Arte com "A" maiúsculo.
Diz Edward Hopper: "Quando estou a pintar procuro sempre utilizar a natureza como meio, tentando fixar na tela as minhas reacções mais íntimas ao objecto, tal como ele me aparece no momento em que mais gosto dele, quando os factos correspondem aos meus interesses e ideias interiores: não posso dizer porque motivo gosto mais de escolher uns objectos do que os outros, não sei mesmo especificar porquê, só posso dizer que penso que são o melhor meio para um resumo da minha experiência interior."
E ainda bem.
Edward Hopper nasce a 22 de Julho de 1882 em Nyack, Nova Iorque. Frequenta a New York School of Art entre 1900 e 1906, ano em que faz uma viagem pela Europa. Em 1908 fixa-se definitivamente em Nova Iorque, trabalha como desenhador de anúncios publicitários e pinta ocasionalmente. Os seus primeiros quadros são influenciados pelo movimento impressionista, mas cedo se nota um olhar diferente, onde a atenção dada ao pormenor e à direcção da luz se destacam e começam a criar um mundo novo.
Isto tem talvez a ver com o facto de Hopper ter vivido sempre com a mesma pessoa, a sua mulher Jo, também pintora e que ficará sempre com ele. Particularmente estranho e simbólico é o quadro que Hopper pinta no final da vida, Dois Comediantes, onde se vê um homem e uma mulher de mão dada naquilo que parece ser o proscénio de um palco olhando em frente como que agradecendo a um imaginário e invisível público. O quadro é tão inusitado como revelador. O plano de baixo, como se o público estivesse de facto na plateia a ver os comediantes, reforça a impressão simbólica que Hopper quis conferir a esta extraordinária obra.
Hopper é certamente um dos primeiros modernistas, mas o uso que faz da cor é reminiscente da atenção que Caravaggio tinha para com a luz. Os seus quadros emanam do escuro e vão-se revelando aos poucos. O uso que faz da luz é absolutamente magnífico como num dos meus quadros preferidos (Domingo de Manhã Cedo, de 1930), os ângulos que escolhe para pintar, o contraste entre arquitectura e natureza, as histórias que evoca, os ecos que cria despertam a imaginação do espectador. Nos seus quadros podem encontrar-se os contrastes oníricos de De Chirico, o surrealismo de Magritte ou a psicologia atormentada de Munch. Edward Hopper é um pintor do novo mundo, talvez aquele que tenha pintado com mais pormenor e poesia a solidão da vida moderna e a relação privado/público.