Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 00:33

Seg, 20/09/10

Na penitenciária

A copiar as letras dos maços de cigarros

O trabalhador e revolucionário socialista

Nikolay Vasilyev aprendeu sozinho a ler

Pegou em livros, usou o conhecimento

E escreveu, em maiúsculas,

‘SR. PROMOTOR PÚBLICO, SENHOR, FUI ATIRADO PARA ESTE BURACO

SEM RAZÃO

SEM LUZ, AR, ESPAÇO OU COMPANHIA

NÃO TEM DEUS?’

 

Não teve resposta

Uma noite, empilhou os livros em cima de si próprio

Pegou-lhes fogo e morreu carbonizado

 

Podemos aprender muita coisa com isto

Quando o conhecimento é ensinado por ignorantes

Não devemos temer os que queimam livros

Mas sim os construtores de bibliotecas

 

Edward Bond, tradução minha.




Pedro Marques @ 18:59

Qua, 11/11/09

É sabido que temos autocarros antes de os conseguirmos conduzir, carros antes de os conseguirmos guiar e espadas antes de sabermos lutar com elas. Temos máquinas antes de as sabermos usar porque ao princípio não sabemos tudo o que se pode fazer com elas. A máquina não faz apenas um copo ou um sapato. Os que fazem e utilizam a máquina são alterados por ela. Não lhes dão um novo objectivo, a máquina torna-se necessária para que eles vivam de uma nova maneira. As máquinas desmistificam a terra, os homens e as sociedades. Tornam a velha expressão da humanidade e a sociedade a ela ligada desumanas. A tecnologia transforma-nos e transforma a sociedade. Muda a maneira como vivemos e assim também as nossas crenças, as nossas atitudes, hábitos, comportamentos, a própria consciência — tudo muda. E como a consciência é tanto mental como emocional, a mudança é suficientemente grande para fazer de nós pessoas diferentes. Tornamo-nos ou mais racionais ou mais irracionais. A nossa espécie inova. Quando mudamos os meios mecânicos em que vivemos, alteramos as nossas relações sociais. Desenvolvemos novas atitudes para com o resto da sociedade e o que está nas nossas cabeças muda. Enquanto sobrevivemos mudamos.

Como poderíamos cooperar de outra maneira? E como pode a sociedade funcionar sem cooperação — tanto forçada, como no passado, ou livre, tal como é possível e necessária pela tecnologia moderna? Há uma constante e mútua influência entre tecnologia, espírito humano e ordem social. A sociedade muda para que possamos usar máquinas novas e os utilizadores mudam para que as possam usar e viver numa sociedade nova. Essas mudanças têm de ser racionais, se queremos continuar humanos. De facto, é quando tornamos estas mudanças racionais que criamos a nossa humanidade. As gerações herdam a humanidade da sua sociedade, mas só a absorve quando a recria, resolvendo novos problemas. É isso a humanidade. Todas as gerações enfrentam problemas novos e ao resolvê-los criam uma nova humanidade. É claro que a sociedade feudal não conseguiria gerir a tecnologia moderna. Mas, mais importante, se tentamos gerir a tecnologia moderna com consciência e relações sociais feudais, não obtemos feudalismo. Em vez disso, as relações sociais irracionais distorcem a consciência de maneira a criarem uma ponte que separa a velha ordem social e a consciência tornada necessária pelo funcionamento da tecnologia moderna. Essa distorção chama-se fascismo.

A arma é uma máquina que causa respeito, medo, dor ou morte. Pode ser bem ou mal usada. Bem usada como? Quando a tecnologia muda a consciência humana, também é necessária uma mudança social. A sociedade resiste à mudança. É baseada nas leis e nas relações de propriedade que beneficiam os governadores da velha ordem social. Gerem-na segundo a velha consciência calcificada pelas universidades, igrejas, teatros, hábitos, opiniões e por aí adiante. Vivemos em sociedades que são tão novas como velhas e que são por isso inadequadas a muitas das nossas necessidades. Se a sociedade não é alterada racionalmente, a consciência que as pessoas têm dela é distorcida e por isso tornam-se, como consequência, menos humanas. Muitas resistem a essa mudança mas mesmo nesse caso a mudança racional chega muitas vezes tarde. Não pode ser apenas introduzida através de persuasões pacíficas.

 

Edward Bond




Pedro Marques @ 19:30

Dom, 01/02/09

Um dia, o Billy foi fazer exame. As perguntas eram difíceis. Não conseguia responder a todas. Espreitou por cima do braço do colega. Viu as respostas escritas no teste. Copiou-as para o seu. O professor viu-o a espreitar e copiar. O Billy não passou no exame e foi expulso.
Nessa noite, ele estava tão aborrecido que não conseguia dormir. Desceu as escadas e foi buscar um copo de água. Ao passar à porta da sala de jantar ouviu o pai planear com os amigos o incêndio da casa da esquina. Não gostavam do homem que lá vivia. A pele era diferente da do Billy e do seu pai. O Billy disse para consigo, ‘A espreitar outra vez! Devo dizer ao professor o que ouvi? Se contar ao professor, o homem que vive na casa da esquina fica feliz. Mas eu também fiz batota no exame porque queria passar e fazer o meu pai feliz. O meu pai diz que não tem um bom emprego porque nunca passou num exame. Mas se é errado fazer batota para tornar o pai feliz, deve ser errado fazer batota para o homem da casa à esquina ficar feliz. Não vou dizer nada.’ Mas ficou muito infeliz quando a casa ardeu. O homem também ardeu. Teve de ir para o hospital.
Ora, o filho desse homem era colega do Billy. Brincavam muitas vezes juntos. Mas o Billy já não gostava das brincadeiras. Ficava triste. Decidiu falar com o professor. Foi ter com ele e disse, ‘Eu sabia que o meu pai ía deitar fogo à casa. Não disse nada porque era fazer batota. Agora já não gosto de brincar.’
O professor bateu no Billy. O pai e os seus amigos foram parar à prisão. E claro que os colegas já não se sentavam ao seu lado. Olhavam todos para o Billy e diziam, ‘O que é que tás à espera? Vens de uma família de criminosos.’
O Billy cresceu. Foi trabalhar para um escritório do estado. Um dia encontrou muitos planos numa gaveta. Um dos planos era de uma cidade do país vizinho. Mostrava onde o seu país ía deitar bombas. No plano dizia-se que a cidade e tudo o que existia iriam ficar em cinzas. O Billy pensou na educação que teve. Decidiu avisar as pessoas do outro país de que íam ser queimadas. Pegou no plano e meteu-o num envelope. Um superior suspeitou e viu-o a pôr o plano no correio. O superior suspeitava dele por causa do seu passado criminal. Deram uma ordem especial ao carteiro para abrir a caixa do correio e entregar o envelope a um oficial de alta patente. O oficial leu o endereço do envelope e abriu-o. O plano estava lá dentro. O Billy foi morto.

 

Edward Bond, Fables. Minha tradução.
 




Pedro Marques @ 22:57

Ter, 03/06/08

Encontrei esta entrevista do Edward Bond na BBC 3. Vale mesmo a pena. Nunca o tinha ouvido falar, é bastante impressionante o tom de voz e a velocidade, impossível ter imaginado assim. Peter Hall, um dos maiores encenadores ingleses de teatro contemporâneos dizia que gostava de ouvir o autor das peças, Harold Pinter, a falar. Dessa maneira ele percebia como as personagens se exprimiam... acho que tinha razão.
Neste caso é uma entrevista magnífica conduzida por John Tusa, onde Bond nos conta por que escreve histórias e como o faz. Fica aqui um excerto.
Ora, obviamente que não acredito em nenhum Deus, nem em nenhuma coisa chamada Deus. Mas supondo, mesmo assim, que há um artesão disto tudo, que não quer saber o que está certo ou errado, nem o que é a moralidade, mas é apenas um artesão que junta tudo, e este artesão, ele, ela ou eles, está lá em cima a olhar para nós, olha para o nosso universo e diz... olha para o nosso mundo e diz, bom, os cães estão a dar-se bem, mas estes aqui são seres humanos, estes deixaram de criar humanidade, por isso estão mortos.
Tu estás morto, eu estou morto, vivemos numa sociedade de mortos, não numa sociedade pós-moderna, mas numa sociedade póstuma. Deixámos de criar a nossa humanidade. Podes ir para o hospital a morrer, eles põem-te numa máquina que te mantém vivo. É um sistema que permite manter-te vivo. Nós mantemo-nos humanos da mesma maneira, embora estejamos mortos, ou seja, deixámos de criar a nossa humanidade, através de um sistema que nos mantém vivos, e todas as coisas, a parafernália do consumismo moderno, são as coroas de flores que levamos para o nosso próprio funeral. (...)
Eu disse que a nossa espécie está morta e nós como membros dessa espécie estamos mortos. Olha, supõe que olhas para um mar com muitos peixes a nadar e alguém te diz que esse mar vai desaparecer, então podes dizer, bom, os peixes estão todos mortos. E é neste sentido que eu digo isso.
E mais à frente este excerto que retoma aquilo que eu disse aqui sobre o grupo de Tondela, os Na Xina Lua.
Escrevi há pouco tempo uma peça para jovens, numa escola em Cambridge chamada Manor Community, que devia ser vista como aquilo que eu percebi ser uma escola muito pouco privilegiada. Escrevi uma peça para eles que foi mostrada a alguns adultos que disseram que os miúdos não iam entender, era difícil. E era uma peça exigente, quando escrevo para jovens escrevo sempre sobre as perguntas mais profundas, porque acho que eles estão interessados nas perguntas mais profundas. Estas crianças deram uma récita, uma interpretação daquela peça que era melhor que aquilo que o National Theatre podia fazer, porque eles precisavam da peça. Eles precisavam daquela peça porque lhes mostrava alguma coisa sobre os seus futuros e sobre as suas vidas. Não era entretenimento puro era mais, muito mais divertido que o entertenimento puro. Deram uma óptima récita; todos aqueles jovens têm dentro deles o querer fazer do nosso mundo, para o dizer simplesmente numa frase, um lugar mais humano.




Pedro Marques @ 23:53

Qua, 16/04/08

Diz-se que a violência gera violência
Que o homem violento vive atado a uma roda
Que a luta para se libertar faz girar a roda
E ele faz o pino todos os dias
Existem três sons no mundo
A pedra a partir
As correntes a arrastar na pedra
E os rugidos do homem

Se isto é verdade, o estado deve fazer uma revolução ou uma guerra
O estado é quem mais usa a força
Quando a roda gira o estado cria mais violência
Só que o estado não usa a força de maneira violenta
Tem padres, professores e juízes
Não há pesadelo
Nenhuma dança de guerra que assuste as crianças — uma máscara diabólica de boca vermelha a bailar na ponta de um pau
Nenhum fantoche vestido de ganga, capacete e arma
Que mate como uma criança a brincar com barro
E faça a roda parar

Pensem bem
O juiz mais escrupuloso pondera a lei com mão imparcial,
Manda um homem dez anos para a prisão com bons modos
Ou diz ‘Vai,
Tens a oportunidade de seres bom trabalhador e viveres de acordo com a lei,
Boa sorte’
A última opção é mais violenta que a primeira
Condena o homem a dar a sua vida ao juiz
Ele ensina ao filho que o juiz teve razão em mandar o pai para a prisão
Respeita a escola que o juiz fez
Constrói paredes à volta da sua casa e protege o saque do juiz
Corre todas as manhãs para o trabalho, faz armas para o juiz disparar na praça
Aprende a morrer em casa ou a matar na do vizinho
Ou pior, vive dia após dia calmamente
E assim, o juiz concede uma piedade mais severa que a própria prisão

Tudo seria justificado se em vez de violência houvesse ordem
A roda parava
Não é assim
Aquilo que impede o homem de se conhecer é em si mesmo violento e é a própria causa da violência
Como pode um homem conhecer-se?
Ele que saiba o que é e aquilo que faz

Pensem,
À esquina da uma rua, um homem em liberdade
Dá a mão a um homem nunca visto
Louco há vinte anos, este homem
Deitaram-no velho ao pé de uma parede húmida com o filho morto no bolso
O coração ainda bate, expulsa apenas vida pelas feridas
Demasiado fraco para as estancar ou pedir ajuda
Quem é o homem desconhecido que traz pela mão?
Ele próprio
Se o espírito tivesse forma humana ele seria assim
São coisas feitas pelo juiz que disse misericórdia
Feridas de paz
— A violência da liberdade —
Mais amargas que a fome
Mais cruéis que a guerra
Mais mortíferas que a peste
Não se vêem
Escondem-se dentro da cabeça como se a cabeça fosse uma pedra que escondesse a verdade
Num mundo destes não há paz
O homem sai do tribunal em liberdade
A estação de difusão das bibliotecas universitárias é uma prisão
A rua é a galeria de uma prisão
As casas da rua são celas de uma prisão

Dizem que a violência gera violência
O argumento prova que o estado deve criar uma revolução ou uma guerra
Padres, porque rezais ao deus da guerra a pedir paz?
Actores, porque dançais no templo da razão?
A violência gerará violência até os homens se conhecerem,
Saberem onde estão e aquilo que fazem
E conhecerem os julgamentos e a piedade
Até lá a prisão mais forte é a liberdade
Poucos escapam pelas paredes
Nela vivemos de pernas para o ar
Tal como quando caminhamos na rua

Edward Bond
tradução: minha



Pedro Marques @ 22:38

Sex, 28/03/08



A única coisa que se faz agora é perseguir objectivos privados na sociedade. Em vez de sermos uma comunidade, é-nos pedido que procuremos os nossos fins pessoais. A isto chama-se competição. E competição é antagonismo.


Edward Bond




Pedro Marques @ 20:54

Sex, 28/03/08

Um homem deambula por uma rua de Marrocos, à noite. Ele não conhece a cidade. Por isso, aos grupos de jovens que vê, chama-lhes gangs. Um deles passa por ele. Veste um fato preto. Pára à frente dele, vira-se e barra-lhe o caminho. O homem do fato preto pergunta-lhe, ‘Quer que eu o mate?’ Não está nem zangado nem é violento. Como se o quisesse realmente ajudar. Claro, o outro homem desvia-se dele e apressa o passo. Mas o homem de fato negro segue-o. Ultrapassa-o mais uma vez, pára, vira-se, barra-lhe o caminho e, aparentemente, sem qualquer ofensa pergunta, ‘Quer que eu o mate?’ O homem apressa o passo mais uma vez. Não corre porque tem medo de chamar a atenção. É muito provável que alguns dos jovens dos gangs venham ajudar o homem do fato preto. O homem segue-o uma terceira vez, ultrapassa-o, pára, vira-se, barra-lhe o caminho e faz a pergunta. O homem apressa o passo. Mas desta vez o homem do fato preto não o segue e o homem chega são e salvo ao hotel.
Quando me contaram esta história eu estava com uns amigos. Começaram a tentar explicá-la. Talvez ‘matar’ fosse um código. Talvez significasse ‘Queres drogas?’ Talvez o homem do fato preto fosse homossexual e tivesse dito "beije" em vez de "mate" e o outro tivesse ouvido mal porque estava tenso. Talvez fosse um local especial para convites. Talvez significasse uma visita a uns certos bordéis. Talvez a morte fosse simbólica. Ou uma fantasia. Talvez o outro homem tivesse mesmo compreendido mal. E por aí adiante. Para mim, estas explicações estragaram a história. Explicavam-na mas não lhe davam significado. Suponham que a palavra foi mal ouvida ou mal compreendida — e depois? O facto é que o homem podia andar na rua e acreditar ter ouvido tal palavra. Talvez isto diga mais, não sobre Marrocos, mas sobre Manchester ou Chicago. O que é interessante é que o mistério da história projecta muita luz na realidade. Devemos evitar confusões e misticismos, mas isso não significa que as histórias não devam formar os seus próprios significados.

Edward Bond, Fables



Pedro Marques @ 01:46

Dom, 30/12/07

Num dia quente de Verão
Terroristas mataram um soldado
Este estendido, na rua
Escorria sangue do uniforme khaki
Um bebé a sujar as cuecas
Coberto pelo lençol branco limpo
Dezanove anos; saudável até à morte
Um buraco na cabeça
Boca escancarada — não falava
Portanto, todos disseram o que havia de se dizer

Animais suspirou o PM
Escumalha vociferou a oposição
Cobardes rugiu o coronel
Só o homem morto mudo
Apresentadores de televisão ofendidos
Casa Real comovida
Numa parede do bairro um assassino rabiscou
Cortem-nos aos bocados e dêem-nos a comer aos porcos — o enforcamento é pouco para eles
A imprensa sensacionalista com um furo
Cada gabinete ministerial jurou
Dar até a última gota de sangue do povo
O exército gritou mais mais mais
Malta não gastem a vida com dádivas
Venham buscar arma e boina
É a carreira no exército dentro dum buraco malta
São divertidos os funerais

O negócio funerário vai bem
A libra circula
As lojas de flores vão bem
As escavadoras mecânicas abrem céleres os buracos
Finalmente descobri um objectivo de vida
Enfiar colegas debaixo do chão
Sempre com lençóis limpos e brancos prontos a usar
À sepultura a guarda de honra dispara
Caga tijolos — podiam ser eles lá em baixo — mas que ar corajoso
O chamamento da trombeta soa enorme
Nada como um funeral militar
Para erguer espíritos da terra
Preços a subir — é pegar ou largar
Segue o teu destino com um sorriso amarelo

Deves morrer sem perguntar porquê
Nós tomamos conta dos teus
Damos dinheiro para lhes aliviar a dor
Deitamos terra para cima dos teus restos mortais com uma pá de ferro
Fingimos que a terra é o céu
E à noite, enquanto repousas e apodreces na sepultura,
Nas filas de mortos silenciosos,
A nação que disse o que havia de se dizer,
Tapa a cabeça com lençóis limpos e brancos
Dorme em paz na cama
Mais mais mais
Pega em arma e boina
São divertidos os funerais

Edward Bond, Jackets.



Pedro Marques @ 15:14

Sab, 06/10/07

forneci algumas indicações sobre aquilo que acho que deve ser o papel do artista, e aquilo que a sociedade lhe deve pedir. Mas gostava de responder à velha pergunta “O que é a arte?” de modo mais definitivo. Contudo, só posso oferecer algumas sugestões inadequadas que me ocorreram quando escrevi The Fool e mesmo estas considerações são mais perguntas do que respostas.
Hoje em dia a arte é muitas vezes desprezada por ser irrelevante na solução de problemas sociais. É óbvio que não acredito nisto. Se existe imaginação criativa nas pessoas, ela tem de ter um uso. É demasiado poderosa, e no passado foi demasiado eficiente, para ser um acidente da natureza humana.
Todo o nosso ser biológico funciona como meio de orientação e perpetuação da nossa espécie. Portanto as nossas paixões e emoções são um meio de o realizarmos e de obter conhecimento sobre o mundo (especialmente no sentido de conhecimento “hábil”, ou discernimento), do mesmo modo que o fazemos com os outros cinco sentidos. E o mesmo é verdade para as nossas imaginações criativas. (Seja a imaginação criativa uma capacidade isolada, seja um efeito do trabalho com outras capacidades, isso não interessa.)
O “buraco” na nossa natureza é preenchido com a compreensão e experiências que temos do mundo. Esta compreensão e experiências fazem de nós aquilo que somos, e aquilo que somos pode ser caótico ou racionalmente ordenado. Se é racionalmente ordenado é uma cultura (ou envolve-se na criação de uma cultura). A cultura não é apenas uma colagem de vários conhecimentos, porque no contexto da própria cultura, aquilo que sabemos é a base da própria acção. Um modo de reconhecer o mundo que envolve tanto as nossas emoções como a nossa razão. Uma metáfora simples (nem por sombras no sentido literal) é o “buraco” no estômago, as paredes do estômago são as emoções e a razão os sucos digestivos. Este estômago metafórico funciona com o que entra dentro dele e cria uma cultura sã – um conhecimento racional e emocionalmente evoluído do mundo. É a soma total do indivíduo ou o seu equilíbrio em relação com o mundo, a sociedade e as suas capacidades instintivas. Um conhecimento intelectual e hábil da realidade – onde o indivíduo construiu a realidade através da sua imaginação criativa, não a observou apenas ou suportou o seu impacto. É um processo de auto-criação. O resultado pode ser intelectual ou simples, mas não estúpido. A arte é o processo racional de criação de imagens, sons e dinâmicas – e é por isso que digo que a arte é a imaginação do real e não a invenção de uma fantasia. Se, por outro lado, o processo é passivo, por o indivíduo estar paralisado por negligência, medo ou qualquer outra coisa, então não é criada uma cultura.
A imaginação criativa não precisa ser sempre exprimida através da arte – há outras expressões – mas às vezes tem de ser exprimida em arte. O trabalho do artista é tornar o processo público, ao criar imagens públicas, literais ou figurativas, visualmente, sonoramente ou através do movimento, da condição humana – imagens públicas onde a espécie se reconhece e confirma a sua identidade. Há óbvios paralelismos de identificação da espécie em outros animais, mas a arte, ao ser associada à racionalidade e ao valor, vai mais longe que eles.
A arte é uma expressão directa da criação da natureza humana. Coloca o indivíduo no mundo e interpreta o mundo de acordo com as possibilidades e necessidades humanas. Exprime a realidade dentro dos limites do conhecimento numa determinada época e deste modo tem sido sempre racional, mesmo quando isto significava fazer a dança da chuva.
O artista deve ser tão atento e compreensivo quanto puder para desenvolver criativamente a natureza humana, e deve fazer isto sem desculpas ou medo e sem ser gratuitamente provocador. A complexidade está normalmente na perícia, mas a visão deve ser simples; adquire a sua força através da ausência de ilusão. A arte ajuda a criar significados e propósitos naquilo que de muitas maneiras é aparentemente um mundo irracional. Numa cultura, ou na luta para atingir uma cultura, um choro, uma lágrima, uma morte, tornam-se racionais. A arte só é bela no seu sentido mais lato porque pode conter morte e fealdade. Mas não se pode deixar render ao desespero ou à irracionalidade. A arte é o ser humano a reclamar uma relação racional com o mundo, especialmente quando aquilo que retrata é absurdo ou trágico. Ninguém consegue olhar com espírito curioso para um trabalho artístico e não se sentir mais livre, mesmo quando é confrontado com necessidades arrebatadoras ou quando faz julgamentos calculistas.
A última cena de The Fool é passada num asilo. Nesta cena tentei mostrar que havia processos racionais que estavam ainda a sofrer alterações no aparentemente louco mundo do século dezanove na Europa. Os bairros-de-lata ingleses dessa altura eram campos de concentração em câmara lenta – nos bairros-de-lata a morte demora mais tempo a chegar. A arte sempre olhou para as atrocidades na época em que aconteceram. Aquilo que Adorno e Auden disseram sobre poesia e Auschwitz não abordou a questão. Só o teriam feito se Auschwitz tivesse sido o resumo de toda a história – e é claro que não foi.

Edward Bond in The Fool & We Come to the River.
Editora Methuen, Londres.
Tradução: minha.




Pedro Marques @ 12:20

Sab, 29/09/07

Quando eras pequeno disse-te
lava as mãos antes de comer
Devia antes dizer-te afia as garras
E nutre os apetites do ódio
E cresce e floresce
Na cidade dos lobos
Onde a piedade é fardo dos pobres
E a felicidade riqueza

E quando te mandei à escola
Devia ter contratado um assassino
Para te ensinar os truques do negócio
E um carniceiro para te ensinar as regras do jogo
E te dizer como se asfixia a voz da vergonha humana
E depois se cresce e floresce
Na cidade dos lobos
Onde a piedade é o fardo dos pobres
E a felicidade riqueza

E quando saíste de casa
Devia ter-te oferecido um par
De traidores para teus guias
E uma faca de espetar nas costas
Do camarada do lado
Para ao topo chegares
Na cidade dos lobos
Onde a piedade é obrigação
E a felicidade riqueza

E quando te embalei no berço
Devia antes ter-te martelado na cabeça
Sido implacável, implacável como os pregos
Que martelarão no caixão quando morreres
Mas disse, sê simpático filho
Lava as mãos e a cara
Mandei-te para a cova
Onde os lobos roem ossos humanos
Ouço o choro dos humanos
Nos grunhidos do mercado
No rugido do tráfego ouço
Choros e desespero e medo
E sou tão ignorante que tento
Remendar os buracos da tua sombra
Amainar as fúrias do mar
E lavar as feridas do céu

Edward Bond: Jackets
tradução: minha