Na penitenciária
A copiar as letras dos maços de cigarros
O trabalhador e revolucionário socialista
Nikolay Vasilyev aprendeu sozinho a ler
Pegou em livros, usou o conhecimento
E escreveu, em maiúsculas,
‘SR. PROMOTOR PÚBLICO, SENHOR, FUI ATIRADO PARA ESTE BURACO
SEM RAZÃO
SEM LUZ, AR, ESPAÇO OU COMPANHIA
NÃO TEM DEUS?’
Não teve resposta
Uma noite, empilhou os livros em cima de si próprio
Pegou-lhes fogo e morreu carbonizado
Podemos aprender muita coisa com isto
Quando o conhecimento é ensinado por ignorantes
Não devemos temer os que queimam livros
Mas sim os construtores de bibliotecas
Edward Bond, tradução minha.
É sabido que temos autocarros antes de os conseguirmos conduzir, carros antes de os conseguirmos guiar e espadas antes de sabermos lutar com elas. Temos máquinas antes de as sabermos usar porque ao princípio não sabemos tudo o que se pode fazer com elas. A máquina não faz apenas um copo ou um sapato. Os que fazem e utilizam a máquina são alterados por ela. Não lhes dão um novo objectivo, a máquina torna-se necessária para que eles vivam de uma nova maneira. As máquinas desmistificam a terra, os homens e as sociedades. Tornam a velha expressão da humanidade e a sociedade a ela ligada desumanas. A tecnologia transforma-nos e transforma a sociedade. Muda a maneira como vivemos e assim também as nossas crenças, as nossas atitudes, hábitos, comportamentos, a própria consciência — tudo muda. E como a consciência é tanto mental como emocional, a mudança é suficientemente grande para fazer de nós pessoas diferentes. Tornamo-nos ou mais racionais ou mais irracionais. A nossa espécie inova. Quando mudamos os meios mecânicos em que vivemos, alteramos as nossas relações sociais. Desenvolvemos novas atitudes para com o resto da sociedade e o que está nas nossas cabeças muda. Enquanto sobrevivemos mudamos.
Como poderíamos cooperar de outra maneira? E como pode a sociedade funcionar sem cooperação — tanto forçada, como no passado, ou livre, tal como é possível e necessária pela tecnologia moderna? Há uma constante e mútua influência entre tecnologia, espírito humano e ordem social. A sociedade muda para que possamos usar máquinas novas e os utilizadores mudam para que as possam usar e viver numa sociedade nova. Essas mudanças têm de ser racionais, se queremos continuar humanos. De facto, é quando tornamos estas mudanças racionais que criamos a nossa humanidade. As gerações herdam a humanidade da sua sociedade, mas só a absorve quando a recria, resolvendo novos problemas. É isso a humanidade. Todas as gerações enfrentam problemas novos e ao resolvê-los criam uma nova humanidade. É claro que a sociedade feudal não conseguiria gerir a tecnologia moderna. Mas, mais importante, se tentamos gerir a tecnologia moderna com consciência e relações sociais feudais, não obtemos feudalismo. Em vez disso, as relações sociais irracionais distorcem a consciência de maneira a criarem uma ponte que separa a velha ordem social e a consciência tornada necessária pelo funcionamento da tecnologia moderna. Essa distorção chama-se fascismo.
A arma é uma máquina que causa respeito, medo, dor ou morte. Pode ser bem ou mal usada. Bem usada como? Quando a tecnologia muda a consciência humana, também é necessária uma mudança social. A sociedade resiste à mudança. É baseada nas leis e nas relações de propriedade que beneficiam os governadores da velha ordem social. Gerem-na segundo a velha consciência calcificada pelas universidades, igrejas, teatros, hábitos, opiniões e por aí adiante. Vivemos em sociedades que são tão novas como velhas e que são por isso inadequadas a muitas das nossas necessidades. Se a sociedade não é alterada racionalmente, a consciência que as pessoas têm dela é distorcida e por isso tornam-se, como consequência, menos humanas. Muitas resistem a essa mudança mas mesmo nesse caso a mudança racional chega muitas vezes tarde. Não pode ser apenas introduzida através de persuasões pacíficas.
Edward Bond
Um dia, o Billy foi fazer exame. As perguntas eram difíceis. Não conseguia responder a todas. Espreitou por cima do braço do colega. Viu as respostas escritas no teste. Copiou-as para o seu. O professor viu-o a espreitar e copiar. O Billy não passou no exame e foi expulso.
Nessa noite, ele estava tão aborrecido que não conseguia dormir. Desceu as escadas e foi buscar um copo de água. Ao passar à porta da sala de jantar ouviu o pai planear com os amigos o incêndio da casa da esquina. Não gostavam do homem que lá vivia. A pele era diferente da do Billy e do seu pai. O Billy disse para consigo, ‘A espreitar outra vez! Devo dizer ao professor o que ouvi? Se contar ao professor, o homem que vive na casa da esquina fica feliz. Mas eu também fiz batota no exame porque queria passar e fazer o meu pai feliz. O meu pai diz que não tem um bom emprego porque nunca passou num exame. Mas se é errado fazer batota para tornar o pai feliz, deve ser errado fazer batota para o homem da casa à esquina ficar feliz. Não vou dizer nada.’ Mas ficou muito infeliz quando a casa ardeu. O homem também ardeu. Teve de ir para o hospital.
Ora, o filho desse homem era colega do Billy. Brincavam muitas vezes juntos. Mas o Billy já não gostava das brincadeiras. Ficava triste. Decidiu falar com o professor. Foi ter com ele e disse, ‘Eu sabia que o meu pai ía deitar fogo à casa. Não disse nada porque era fazer batota. Agora já não gosto de brincar.’
O professor bateu no Billy. O pai e os seus amigos foram parar à prisão. E claro que os colegas já não se sentavam ao seu lado. Olhavam todos para o Billy e diziam, ‘O que é que tás à espera? Vens de uma família de criminosos.’
O Billy cresceu. Foi trabalhar para um escritório do estado. Um dia encontrou muitos planos numa gaveta. Um dos planos era de uma cidade do país vizinho. Mostrava onde o seu país ía deitar bombas. No plano dizia-se que a cidade e tudo o que existia iriam ficar em cinzas. O Billy pensou na educação que teve. Decidiu avisar as pessoas do outro país de que íam ser queimadas. Pegou no plano e meteu-o num envelope. Um superior suspeitou e viu-o a pôr o plano no correio. O superior suspeitava dele por causa do seu passado criminal. Deram uma ordem especial ao carteiro para abrir a caixa do correio e entregar o envelope a um oficial de alta patente. O oficial leu o endereço do envelope e abriu-o. O plano estava lá dentro. O Billy foi morto.
Edward Bond, Fables. Minha tradução.
E mais à frente este excerto que retoma aquilo que eu disse aqui sobre o grupo de Tondela, os Na Xina Lua.Ora, obviamente que não acredito em nenhum Deus, nem em nenhuma coisa chamada Deus. Mas supondo, mesmo assim, que há um artesão disto tudo, que não quer saber o que está certo ou errado, nem o que é a moralidade, mas é apenas um artesão que junta tudo, e este artesão, ele, ela ou eles, está lá em cima a olhar para nós, olha para o nosso universo e diz... olha para o nosso mundo e diz, bom, os cães estão a dar-se bem, mas estes aqui são seres humanos, estes deixaram de criar humanidade, por isso estão mortos.
Tu estás morto, eu estou morto, vivemos numa sociedade de mortos, não numa sociedade pós-moderna, mas numa sociedade póstuma. Deixámos de criar a nossa humanidade. Podes ir para o hospital a morrer, eles põem-te numa máquina que te mantém vivo. É um sistema que permite manter-te vivo. Nós mantemo-nos humanos da mesma maneira, embora estejamos mortos, ou seja, deixámos de criar a nossa humanidade, através de um sistema que nos mantém vivos, e todas as coisas, a parafernália do consumismo moderno, são as coroas de flores que levamos para o nosso próprio funeral. (...)
Eu disse que a nossa espécie está morta e nós como membros dessa espécie estamos mortos. Olha, supõe que olhas para um mar com muitos peixes a nadar e alguém te diz que esse mar vai desaparecer, então podes dizer, bom, os peixes estão todos mortos. E é neste sentido que eu digo isso.
Escrevi há pouco tempo uma peça para jovens, numa escola em Cambridge chamada Manor Community, que devia ser vista como aquilo que eu percebi ser uma escola muito pouco privilegiada. Escrevi uma peça para eles que foi mostrada a alguns adultos que disseram que os miúdos não iam entender, era difícil. E era uma peça exigente, quando escrevo para jovens escrevo sempre sobre as perguntas mais profundas, porque acho que eles estão interessados nas perguntas mais profundas. Estas crianças deram uma récita, uma interpretação daquela peça que era melhor que aquilo que o National Theatre podia fazer, porque eles precisavam da peça. Eles precisavam daquela peça porque lhes mostrava alguma coisa sobre os seus futuros e sobre as suas vidas. Não era entretenimento puro era mais, muito mais divertido que o entertenimento puro. Deram uma óptima récita; todos aqueles jovens têm dentro deles o querer fazer do nosso mundo, para o dizer simplesmente numa frase, um lugar mais humano.


Todo o nosso ser biológico funciona como meio de orientação e perpetuação da nossa espécie. Portanto as nossas paixões e emoções são um meio de o realizarmos e de obter conhecimento sobre o mundo (especialmente no sentido de conhecimento “hábil”, ou discernimento), do mesmo modo que o fazemos com os outros cinco sentidos. E o mesmo é verdade para as nossas imaginações criativas. (Seja a imaginação criativa uma capacidade isolada, seja um efeito do trabalho com outras capacidades, isso não interessa.)
A imaginação criativa não precisa ser sempre exprimida através da arte – há outras expressões – mas às vezes tem de ser exprimida em arte. O trabalho do artista é tornar o processo público, ao criar imagens públicas, literais ou figurativas, visualmente, sonoramente ou através do movimento, da condição humana – imagens públicas onde a espécie se reconhece e confirma a sua identidade. Há óbvios paralelismos de identificação da espécie em outros animais, mas a arte, ao ser associada à racionalidade e ao valor, vai mais longe que eles.