Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 18:27

Qui, 09/04/09

O Pedro Leal é um grande bacano, a propósito do meu post àcerca do ToZé Brito, traduziu e mandou-me esta magnífica entrevista com o Terence Trent d'Arby, alias Sananda Maitreya, realizada pela revista Keyboard Recording, onde ele explica por que é que se libertou do jugo das editoras.

Mesmo a propósito, no Bitaites soube que a mesma legislação defendida pelo TóZé Brito foi chumbada no parlamento francês. É uma vitória de uma batalha e não de uma guerra. Eles não vão ficar parados. Temos de nos manter atentos...

 


 

Nunca mais lhe chamem Terence Trent d'Arby, o náufrago da indústria da música sem escrúpulos.
Depois de conquistar a independência na internet, Sananda Maitreya volta ao palco. Hipermotivado e pronto para o 'combate'.


Keyboard Recording (KR): Vive em Milão, longe da indústria do disco. É por escolha?
Sananda Maitreya (SM): Teria que consumir muitas drogas para conseguir interessar-me de novo pelo que se passa na Indústria da Música actualmente. É tão chato... a música é o meio de comunicação mais potente jamais criado, as vibrações, as ondas, a música, são a base de toda a matéria. Na Bíblia está escrito: 'No princípio era o verbo'. Quer dizer, um som, e o primeiro som na base do Universo é 'Ommmmm...'. Ver como a música foi violada e depois vendida como um produto de marketing a jovens de 18, 20 anos é uma blasfémia!
Eu faço parte de uma geração que cresceu com os Pink Floyd, os Stones, Hendrix. os Ramones... até os Bay City Rollers eram mais credivéis que as boys band de hoje! Roubaram-nos a música no dia em que funcionários de 'fato e gravata' decidiram quem ia ser uma estrela e quem não seria.

Eles que se fodam!
São as mesmas pessoas que assassinaram o Terence Trent d'Arby. Também não acredito, tão pouco, que o Kurt Cubain tenha metido uma bala na cabeça, nem que o Jim Morrison tenha morrido na banheira. O stablishment tem medo dos verdadeiros poetas. É também por isso que o John Lennon não passou dos quarenta. Tinham medo da sua voz política. Compreendi que nem era preciso falar de 'política' para se ser político. Bastava ser diferente do 'negro simpático' de quem eles asseguram a promoção. Por exemplo, os militantes que defendem o 50 Cent para arredondar os seus discursos, são os mesmos que utilizam esses discursos para financiar os politicos que deviam proteger as suas comunidades contra tipos como o '50 Cent'. E continuarão a pagar-lhe enquanto ele desempenhar o papel de espantalho negro. Que merda de cinismo! Prefiro morrer do que viabilizar um sistema como este.
Quando era miúdo sonhava ser uma 'estrela do rock', ser um 'rolling stone', um Sam Cooke, não era trabalhar para esses cagalhões que marginalizam as nossas comunidades e acabam por transformá-las em tribos. (Uma pausa...). Ainda ouço vozes, essas mesmas vozes que me diziam há vinte anos que Terence Trent d' Arby era um nome comprido demais para que as pessoas se lembrassem dele. Insisti. O Miles Davis disse um dia que a única maneira de sobreviver a esses cabrões era não lhes dar atenção. Ou somos um líder ou não o somos, e quando somos um líder não temos que pedir a autorização a ninguém.
KR: Desde 2002 que vende os seus álbuns exclusivamente na internet. É um precursor nesse domínio...
SM: Todos temos uma missão. Eu faço parte de uma 'equipa' de integridade. Sinto-me muito próximo de Tom Yorke, que também faz parte desse clube. Ao vender o disco na internet, os Radiohead fazem o que eu faço há cinco anos e isso toca-me. O mp3 é a vingança da música. Era preciso encontrar uma saída de emergência. Que se foda a alta fidelidade, que se foda o 5.1. O que é que o 5.1 trouxe à música senão aumentar as vendas de equipamento? Os Pink Floyd inventaram o 5.1 há quarenta anos, caraças! Gosto da internet porque as pessoas só têm acesso a um tipo de som, como no tempo do mono. Olha os Beatles: gravaram o primeiro álbum num dia, nem havia stereo!
KR: Toca todos os instrumentos e produz você mesmo os seus discos. De que é composto o seu estúdio?
SM: Angels & Vampires foi gravado com o software Junglesounds. Nigor Mortis, o próximo álbum, com uma mesa de mistura Tubetracker. Gravo principalmente em analógico e nunca mais em oito pistas, porque o espaço é o melhor músico do mundo. Sou um oportunista musical, não um integrista que recusa absolutamente trabalhar com o Pro Tools. O ProTools liberta-me, porque assim não tenho que me preocupar com os arranjos. Não utilizo o Pro Tools para colar bocadinhos, mas para ter uma melhor visão do resultado depois da gravação. Adoro o numérico porque isso quer dizer que o próximo Brian Wilson poderá ser um gajo qualquer do norte de França que cheira a queijo e nunca sai do quarto, mas que cria a sua cena sem se preocupar com o que pensam as rádios ou a MTV.
KR: Em 2001 mudou legalmente de identidade para Sananda Maitreya em vez de Terence Trent d'Arby. Porquê?
SM: A minha personagem não foi criada pela indústria do disco. Fui criada por mim e por Deus. Matei o 'TTd'A'. Ele morreu, e a única coisa que sobrou foi o instinto. Dylan foi crucificado por ter utilizado uma guitarra eléctrica. Também aconteceu o mesmo ao Mohammed Ali quando mudou de nome. Eu também passei por isso. Crucificaram-me quando editei o Neither Fish Nor Flesh, mas as bandas influentes de Seattle disseram-me mais tarde quanto esse álbum tinha sido importante para a carreira deles. Um neurocirurgião japonês explicou-me que Neither Fish Nor Flesh era utilizado no maior hospital de Tóquio para fazer saír pacientes do coma! Ainda recebo muitos pedidos a propósito do 'TTd'A', best-ofs por exemplo.

Que se fodam!!

A realidade mudou. Hoje promovem 'TTd'A' mais do que jamais o promoveram nestes últimos dez anos. O último jornalista com que falei disse-me que podia encher salas de 10 000 pessoas se usasse o meu verdadeiro nome. Para quê? Já fiz isso! O maior desafio é encher de novo salas a partir da uma nova organização.
KR: Que fórmula propôe nos seus concertos?
SM: Em palco toco em trio com a minha banda 'Nudge Nudge'. Sempre fui fã de trios, como os 'Cream', 'The Jimi Hendrix Experience' ou 'The Police'. Seria fácil esconder-me atrás de grandes músicos. Em trio não há tempo para poses. Nada de 'teclas', 'metais', écrans de fumo ou espelhos, só o 'caralho' e os 'tomates'. 'Um, dois, três e 'go'!', como diziam os Ramones. Não tinha sentido tanto prazer desde os 22 anos quando tocava com a minha banda, 'The Touch' na Alemanha.
KR: Trabalha actualmente no seu novo álbum 'Nigor Mortis'. Como o vai editar?
SM: Angels & Vampires foi editado sob a forma de capítulos. Hoje, já não é preciso subtermo-nos a um prazo. Por que não editar 20 faixas de uma vez e 5 na vez seguinte? É o novo modelo. É muito mais fresco e espontâneo editar 'singles' de vez em quando do que esperar dois ou três anos entre cada álbum. Os jogos de vídeo não mataram a música, a internet não matou a música, a falta de interesse das editoras pela verdadeira música é que matou a música!

Escolhi a via subterrânea da internet para mostrar a minha música. Conseguimos, fizemo-lo. É preciso saber ir à cruz. Sacrificar-se para aceder a uma nova vida. Talvez Sananda não seja tão prolífico que o 'TTd'A'  mas a sua disciplina é mais forte... perdemos 10 milhões de euros com esta história. Este parto foi difícil, mas esta nova vida vale a pena. Só um idiota total ou um génio, o que muitas vezes vai dar ao mesmo, poderia ter feito uma coisa do género.

 

In: Keybord Recording, Novembro 2007. Tradução, Pedro Leal.
Sananda Maitreya 'Nigor Mortis' - Chapter 1

(www.sanandamaitreya.com)




Pedro Marques @ 19:50

Sex, 06/03/09

A propósito de uma iniciativa do INET-MD Instituto de Etnomusicologia - Centro de Estudos de Música e Dança, da Universidade Nova de Lisboa, que se repete no dia 20 e que promove um espaço de diálogo entre músicos, indústria e o meio universitário, Tozé Brito, o manda-chuva português da Universal Music, que possui um currículo invejável como músico, produtor e compositor, disse que queria que as pessoas que fazem downloads ilegais fossem presas.

Sim, leram bem, presas.

Quando esses senhores, os grandes editores, fizeram rios de dinheiro, revendendo catálogos inteiros durante a passagem do vinil para os cds, não acharam que isso era um roubo. Não, isso não. Os cds custam 50 cêntimos, eles vendem-nos a 30 euros, e acham que podem, devem, ter uma margem de lucro que inclua novamente o investimento das editoras, como se aquilo fosse uma coisa nova. Eles vendem duas vezes a mesma coisa mas agem como se fosse  legítimo. E têm o descaramento de vir pedir a prisão de quem descarrega música na internet porque os preços da música se tornaram proibitivos? (Já para não falar na cultura consumista que divulga apenas os artistas que Eles querem, quando Eles querem - toda a música não-comercial fica nas ruas da amargura como sempre.) Esquecem-se de dizer que a maior parte das pessoas que descarrega música são os mesmos clientes (como eu) que se fartaram de encher o bolso às editoras que tinham lucros astronómicos, normalmente muito maiores do que aqueles que os artistas tinham a sorte de usufruir.

É claro que a indústria vai sobreviver à catástrofe que as vendas de música sofreram (cerca de 50% de vendas a menos), ele próprio o admite, e o que é que isso quer dizer afinal? Quer dizer que tipos como ele e o patrão da Virgin (uma das pessoas mais ricas do mundo, dono de uma ilha!), que têm como hobby viajar no espaço, não vão ter dinheiro para gastar nas suas extravagâncias. Ou seja, tipos que vivem à custa do dinheiro feito pelos artistas vão ter de apertar o cinto e fazer contas e dedicar-se a outra coisa se querem continuar com o mesmo estilo de vida.

Como sempre, as pessoas menos preocupadas com os downloads de música são os próprios artistas. Os Radiohead que disponibilizaram o último disco no seu site, convidando todos os fãs a darem apenas o dinheiro que quisessem por ele, ganharam mais do que quando estavam sujeitos à lei das partilhas das editoras. Só por este exemplo se consegue perceber o chupismo das editoras e a relação de parasitismo que as mesmas mantêm com os artistas.

Se as editoras querem continuar vivas elas que façam um trabalho melhor. Que incluam nos discos alguma coisa que façam as pessoas quererem mais do que a música, promovam concertos e actividades paralelas, inovem. Não venham chamar a lei para vos proteger. Nós é que precisamos da lei para nos proteger da vossa ganância. E se não quiserem inovar, que morram, afinal nós não consumimos editoras, nós consumimos artistas e a música que eles fazem. Se as editoras se tornaram obsoletas por alguma tecnológica razão, temos apenas de dizer que ninguém pára o progresso, eu também não lhes fui pedir o dinheiro que gastei no meu gira-discos quando elas decidiram passar a vender cds e retiraram os vinis dos seus catálogos. Vão roubar para a estrada!

Aqui vem uma pertinente carta aberta sobre a questão.