Lutar significa comprometer-se, significa acreditar no que se diz e dizer aquilo em que se acredita. Pode também significar que sejamos definidos como uns sentimentais, irresponsáveis, fariseus, extremistas e antiquados por aqueles indivíduos para quem amadurecimento quer dizer cepticismo, arte quer dizer diversão e responsabilidade quer dizer excesso de romantismo. Mas também deve querer dizer um novo tipo de intelectual e de artista que não tenha medo ou desprezo pelos seus semelhantes, que não se sinta ameaçado (...) pela multidão de filisteus, que aspire a dar o seu contributo (...). Pela sua própria natureza, o artista estará sempre em conflito com o hipócrita, o mesquinho, o reaccionário, e haverá sempre alguém que não compreenda a importância do que está a fazer: terá sempre de lutar em nome das suas opiniões.
Lindsay Anderson, Manifesto dos "Angry Young Men", 1958.
Estou a falar da necessidade que a vida tem para construir uma casa para os seus sentimentos. (...) Enquanto casa de Deus, o mundo é, sem dúvida, infinitamente maior e mais rico que uma igreja; e o espírito do homem, ao adorar o mistério divino, é incomparavelmente mais nobre e mais precioso que seja em que altar for. Mas é este o destino de todos os sentimentos que querem construir uma casa: tornam-se pequenos, diminuem, evidentemente, e tornam-se até um pouco pueris por causa da sua vaidade.
Luigi Pirandello, in À Saída - Mistério Profano. Trad. Luís Miguel Cintra.
É uma manifestação corporal de um ser imortal segundo a religião hindu, por vezes até do Ser Supremo. Deriva do sânscrito Avatāra, que significa "descida", normalmente denotando uma (religião) encarnações de Vishnu (tais como Krishna), que muitos hinduístas reverenciam como divindade.
Fonte: Wikipédia.
Nas escolas, cada vez mais crianças mostram debilidades motrizes designadas como sintomas de Distúrbio de Hiperactividade e Défice de Atenção (DHDA). A neurobiologia já atestou que em numerosos casos estamos aí na realidade confrontados com danos psicológicos e orgânicos derivados do consumo de meios electrónicos na primeira fase da infância. Os apregoadores pró-digitais gostam muito da frase "Os computadores ensinam as crianças a lidar com computadores". Mas imaginar que isto já constitui uma preparação para a vida é entregar-se a uma ilusão bastante elementar. A única coisa que as crianças em idade do nível escolar primário conseguem realmente aprender com os computadores é a manipulação dos mesmos, o que não deve ser confundido com uma competência medial. Para uma competência medial é preciso primeiro ter-se uma suficiente capacidade de auto-avaliação do uso individual de qualquer aparelhagem, mais uma criatividade suficientemente desenvolvida, e ainda um saudável discernimento crítico acerca dos conteúdos recebidos audiovisualmente – coisas que as crianças só alcançam após o período primário. Por outras palavras: para as crianças saberem usar os meios electrónicos, em vez de serem elas próprias usadas pelos mesmos, elas precisam de maturidade.
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Um computador permanentemente à disposição das crianças constitui assim na realidade um obstáculo e um factor distractivo para uma aprendizagem que envolva uma actividade mental criativa. Entretanto, uma nova estirpe de tecnocratas desinformados, dispersos por empresas milionárias e ministérios, sonha obstinadamente com meios electrónicos aplicados à educação como forma de divórcio do contacto professor-aluno. Tipicamente eles gostam de argumentar aos quatro ventos que "saber manipular desde cedo um computador" é algo que promove habilidades comunicativas fundamentais para o futuro, aumentando as chances do sucesso profissional na vida adulta. O aspecto pernicioso, e deliberadamente escondido da opinião pública, é que ocorre um sacrifício de outras aptidões, anímicas e sociais, essenciais para a vida. O desastroso efeito final resulta fatal para uma educação equilibrada, pois são precisamente aquelas aptidões sacrificadas – e não a capacidade de manusear uma máquina – que mais tarde se revelam como críticas para a estabilidade da personalidade pós-pubertária e para a integração dos jovens-adultos no mundo do trabalho e na interacção puramente humana.
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Em 1840, após séculos de educação infantil atrelada às pesadas obrigações laborais das famílias, o genial pedagogo Froebel foi o primeiro a usar a expressão "jardim" para designar locais de abrigo e recolha das crianças, reconhecendo já nessa época a importância marcante das práticas lúdicas e naturais para a completa formação da personalidade humana. Nos últimos anos, sob o influxo de personalidades intelectualistas ultra-ortodoxas como a Dra. Donata Eischenbroich, que distribuíu pelo mundo a perspectiva cientifista abstracta do "aproveitamento estratégico da inteligência infantil nos primeiros anos de vida", está em curso em muitos países avançados um processo de perversa robotização até de jardins de infância, com a instalação de potentes centros de computação disfarçados como brinquedos. Por outro lado, o mercado extremamente lucrativo dos produtos para crianças, apoiado por estratégias de marketing e publicidade sumamente refinadas e sem controlo ético ou educativo, vem igualmente alimentar um amadurecimento prematuro das crianças, ao promover uma "compressão ectária", de modo que produtos concebidos para crianças maiores, ou até para adultos, sejam consumidos por crianças de cada vez menos idade. Iludidos por promessas tecnocratas de modernização das suas actividades, muitos pedagogos passaram assim a menosprezar como factor supérfluo as actividades de tempos livres das crianças, e o seu papel essencial para a aquisição de uma série de habilidades anímicas permanentes, que são impossíveis de obter de qualquer outro modo.
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Uma recolha de dados dos muitos estudos existentes permite sumarizar dez efeitos negativos que os meios electrónicos exercem sobre crianças na fase pré-pubertária:
(1) Inducão de uma admiração desmesurada por máquinas, conforme o complexo funcionamento intrínseco dos computadores permanece incógnito
(2) Estímulo para a ideia que máquinas dotadas de "inteligências artificiais" podem em muitos casos ser mais perfeitas do que seres humanos
(3) Cultivo de uma concepção materialista do mundo, com uma visão fatalística da humanidade e da vida, do tipo "tudo é previsível e programável"
(4) Inclinação para uma estratégia de vida baseada na fé computacional de "dividir para conquistar", ou seja, subdividir sempre um problema em partes menores, a fim de resolvê-las separadamente – o que resulta desastroso quando aplicado a seres humanos
(5) Deterioração dos valores de sociabilidade, uma vez que os computadores são usados individualmente e os contactos via internet, blogues, skype, emails, etc. permanecem sob a nervosa máscara cibernética
(6) Provocação de impulsos tendentes a realizar tudo na vida rapidamente e com variadas acções ao mesmo tempo
(7) Debilitamento das capacidades de concentração mental, contemplação e paciência
(8) Degeneração da memória e distorção da capacidade do pensamento criativo, conforme deixa de ser necessário memorizar tudo que é facilmente arquivável em gigantescas memórias electrónicas
(9) Incitamento à utopia de "aprender é fácil, aprender é como brincar", devido à pobre e infantilóide concepção dos softwares
(10) Danos irreparáveis para a habilidade de escrever e para os órgãos de visão, e eventualmente degeneração de funções neurocerebrais, devido à prolongada exposição a campos electromagnéticos nas proximidades da cabeça.
Raúl Guerreiro
Penitencio-me, Sr. Dr. Nunca eu deveria ter tido a veleidade de apontar o dedo a um bonzo intocável. Nos Dantas, nem pim.
Fonte: História das Inquisições, de Francisco Bethencourt.O impacte social das Inquisições foi enorme, por um lado devido ao trabalho sem precedentes de exclusão sistemática dos perseguidos e dos seus descendentes, por outro devido ao estatuto distintivo assegurado aos seus agentes. O número de processos é significativo: para Espanha é calculado em 84 000 apenas entre 1540 e 1700 (e sabemos como o período de 1481 a 1540 foi o mais violento); para Portugal é de cerca de 45 000 entre 1536 e 1767; para Itália, os dados disponíveis em relação a Veneza, ao Friuli e a Nápoles permitem calcular um volume de 2000 a 3000 processos em cada grande tribunal entre meados do século XVI e o final do século XVIII (o que poderia corresponder a várias dezenas de milhares de processos em toda a rede italiana). Nesta actividade frenética, os tribunais de Espanha apresentam o ritmo anual mais elevado no período de estabelecimento, enquanto os tribunais portugueses são aqueles que conseguem manter um fluxo de processos mais importante e regular na longa duração (e isto nos quatro tribunais no período referido acima - Lisboa 9726, Coimbra 10 374, Évora 11 050, Goa 13 667). O ritmo dos tribunais romanos está abaixo dos níveis hispânicos, mas não é negligenciável, sobretudo se compararmos apenas o universo dos cristãos-velhos (na Península Itálica não há mouriscos e os números de cristãos-novos não é significativo). Contudo o impacte social não é circunscrito aos processos, talvez o indicador mais visível: a perseguição foi selectiva, pois as penas mais duras foram aplicadas aos cristãos-novos de origem hebraica e aos mouriscos da Península Ibérica, aos "gentios" convertidos na Ásia portuguesa e aos cristãos-novos e mestiços na América, enquanto na Península Itálica vemos essas penas reservadas aos protestantes. As Inquisições participaram activamente nos processos de exclusão de grupos sociais, contribuindo fortemente para a consolidação dos preconceitos de "limpeza de sangue".
No Japão, qualquer indivíduo que nasce está em permanente débito. Esta condição não é em si mesma vista como vergonhosa, como aos nossos olhos ocidentais podia parecer. É uma condição base que pressupõe uma série de pagamentos que, eles sim, podem identificar se um homem é virtuoso ou não. Esta condição de pagamento pressupõe dois lados: o lado do que recebe o pagamento – que o identifica como On – e o lado de quem paga – o Gimu e o Giri. Aceita-se portanto um On e deve-se o pagamento de um Gimu ou de um Giri.
Estas categorias hierárquicas e obrigações são assinaláveis como se pôde constatar, mas entram muitas vezes em conflito na vida real.
Todo o nosso ser biológico funciona como meio de orientação e perpetuação da nossa espécie. Portanto as nossas paixões e emoções são um meio de o realizarmos e de obter conhecimento sobre o mundo (especialmente no sentido de conhecimento “hábil”, ou discernimento), do mesmo modo que o fazemos com os outros cinco sentidos. E o mesmo é verdade para as nossas imaginações criativas. (Seja a imaginação criativa uma capacidade isolada, seja um efeito do trabalho com outras capacidades, isso não interessa.)
A imaginação criativa não precisa ser sempre exprimida através da arte – há outras expressões – mas às vezes tem de ser exprimida em arte. O trabalho do artista é tornar o processo público, ao criar imagens públicas, literais ou figurativas, visualmente, sonoramente ou através do movimento, da condição humana – imagens públicas onde a espécie se reconhece e confirma a sua identidade. Há óbvios paralelismos de identificação da espécie em outros animais, mas a arte, ao ser associada à racionalidade e ao valor, vai mais longe que eles.