Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 14:13

Sab, 10/07/10

Lutar significa comprometer-se, significa acreditar no que se diz e dizer aquilo em que se acredita. Pode também significar que sejamos definidos como uns sentimentais, irresponsáveis, fariseus, extremistas e antiquados por aqueles indivíduos para quem amadurecimento quer dizer cepticismo, arte quer dizer diversão e responsabilidade quer dizer excesso de romantismo. Mas também deve querer dizer um novo tipo de intelectual e de artista que não tenha medo ou desprezo pelos seus semelhantes, que não se sinta ameaçado (...) pela multidão de filisteus, que aspire a dar o seu contributo (...). Pela sua própria natureza, o artista estará sempre em conflito com o hipócrita, o mesquinho, o reaccionário, e haverá sempre alguém que não compreenda a importância do que está a fazer: terá sempre de lutar em nome das suas opiniões.

 

Lindsay Anderson, Manifesto dos "Angry Young Men", 1958.




Pedro Marques @ 18:43

Qui, 13/05/10

Estou a falar da necessidade que a vida tem para construir uma casa para os seus sentimentos. (...) Enquanto casa de Deus, o mundo é, sem dúvida, infinitamente maior e mais rico que uma igreja; e o espírito do homem, ao adorar o mistério divino, é incomparavelmente mais nobre e mais precioso que seja em que altar for. Mas é este o destino de todos os sentimentos que querem construir uma casa: tornam-se pequenos, diminuem, evidentemente, e tornam-se até um pouco pueris por causa da sua vaidade.

 

Luigi Pirandello, in À Saída - Mistério Profano. Trad. Luís Miguel Cintra.




Pedro Marques @ 23:29

Qui, 21/01/10

É uma manifestação corporal de um ser imortal segundo a religião hindu, por vezes até do Ser Supremo. Deriva do sânscrito Avatāra, que significa "descida", normalmente denotando uma (religião) encarnações de Vishnu (tais como Krishna), que muitos hinduístas reverenciam como divindade.

 

Fonte: Wikipédia.

 




Pedro Marques @ 02:15

Seg, 02/03/09

Nas escolas, cada vez mais crianças mostram debilidades motrizes designadas como sintomas de Distúrbio de Hiperactividade e Défice de Atenção (DHDA). A neurobiologia já atestou que em numerosos casos estamos aí na realidade confrontados com danos psicológicos e orgânicos derivados do consumo de meios electrónicos na primeira fase da infância. Os apregoadores pró-digitais gostam muito da frase "Os computadores ensinam as crianças a lidar com computadores". Mas imaginar que isto já constitui uma preparação para a vida é entregar-se a uma ilusão bastante elementar. A única coisa que as crianças em idade do nível escolar primário conseguem realmente aprender com os computadores é a manipulação dos mesmos, o que não deve ser confundido com uma competência medial. Para uma competência medial é preciso primeiro ter-se uma suficiente capacidade de auto-avaliação do uso individual de qualquer aparelhagem, mais uma criatividade suficientemente desenvolvida, e ainda um saudável discernimento crítico acerca dos conteúdos recebidos audiovisualmente – coisas que as crianças só alcançam após o período primário. Por outras palavras: para as crianças saberem usar os meios electrónicos, em vez de serem elas próprias usadas pelos mesmos, elas precisam de maturidade.

(...)

Um computador permanentemente à disposição das crianças constitui assim na realidade um obstáculo e um factor distractivo para uma aprendizagem que envolva uma actividade mental criativa. Entretanto, uma nova estirpe de tecnocratas desinformados, dispersos por empresas milionárias e ministérios, sonha obstinadamente com meios electrónicos aplicados à educação como forma de divórcio do contacto professor-aluno. Tipicamente eles gostam de argumentar aos quatro ventos que "saber manipular desde cedo um computador" é algo que promove habilidades comunicativas fundamentais para o futuro, aumentando as chances do sucesso profissional na vida adulta. O aspecto pernicioso, e deliberadamente escondido da opinião pública, é que ocorre um sacrifício de outras aptidões, anímicas e sociais, essenciais para a vida. O desastroso efeito final resulta fatal para uma educação equilibrada, pois são precisamente aquelas aptidões sacrificadas – e não a capacidade de manusear uma máquina – que mais tarde se revelam como críticas para a estabilidade da personalidade pós-pubertária e para a integração dos jovens-adultos no mundo do trabalho e na interacção puramente humana.

(...)

Em 1840, após séculos de educação infantil atrelada às pesadas obrigações laborais das famílias, o genial pedagogo Froebel foi o primeiro a usar a expressão "jardim" para designar locais de abrigo e recolha das crianças, reconhecendo já nessa época a importância marcante das práticas lúdicas e naturais para a completa formação da personalidade humana. Nos últimos anos, sob o influxo de personalidades intelectualistas ultra-ortodoxas como a Dra. Donata Eischenbroich, que distribuíu pelo mundo a perspectiva cientifista abstracta do "aproveitamento estratégico da inteligência infantil nos primeiros anos de vida", está em curso em muitos países avançados um processo de perversa robotização até de jardins de infância, com a instalação de potentes centros de computação disfarçados como brinquedos. Por outro lado, o mercado extremamente lucrativo dos produtos para crianças, apoiado por estratégias de marketing e publicidade sumamente refinadas e sem controlo ético ou educativo, vem igualmente alimentar um amadurecimento prematuro das crianças, ao promover uma "compressão ectária", de modo que produtos concebidos para crianças maiores, ou até para adultos, sejam consumidos por crianças de cada vez menos idade. Iludidos por promessas tecnocratas de modernização das suas actividades, muitos pedagogos passaram assim a menosprezar como factor supérfluo as actividades de tempos livres das crianças, e o seu papel essencial para a aquisição de uma série de habilidades anímicas permanentes, que são impossíveis de obter de qualquer outro modo.

(...)

Uma recolha de dados dos muitos estudos existentes permite sumarizar dez efeitos negativos que os meios electrónicos exercem sobre crianças na fase pré-pubertária:

(1) Inducão de uma admiração desmesurada por máquinas, conforme o complexo funcionamento intrínseco dos computadores permanece incógnito

(2) Estímulo para a ideia que máquinas dotadas de "inteligências artificiais" podem em muitos casos ser mais perfeitas do que seres humanos

(3) Cultivo de uma concepção materialista do mundo, com uma visão fatalística da humanidade e da vida, do tipo "tudo é previsível e programável"

(4) Inclinação para uma estratégia de vida baseada na fé computacional de "dividir para conquistar", ou seja, subdividir sempre um problema em partes menores, a fim de resolvê-las separadamente – o que resulta desastroso quando aplicado a seres humanos

(5) Deterioração dos valores de sociabilidade, uma vez que os computadores são usados individualmente e os contactos via internet, blogues, skype, emails, etc. permanecem sob a nervosa máscara cibernética

(6) Provocação de impulsos tendentes a realizar tudo na vida rapidamente e com variadas acções ao mesmo tempo

(7) Debilitamento das capacidades de concentração mental, contemplação e paciência

(8) Degeneração da memória e distorção da capacidade do pensamento criativo, conforme deixa de ser necessário memorizar tudo que é facilmente arquivável em gigantescas memórias electrónicas

(9) Incitamento à utopia de "aprender é fácil, aprender é como brincar", devido à pobre e infantilóide concepção dos softwares

(10) Danos irreparáveis para a habilidade de escrever e para os órgãos de visão, e eventualmente degeneração de funções neurocerebrais, devido à prolongada exposição a campos electromagnéticos nas proximidades da cabeça.

 

Raúl Guerreiro




Pedro Marques @ 18:17

Sex, 10/10/08

Entraram na sala com uma altivez que surpreendeu Gournay; pois, além de virem vestidos como príncipes, trazia cada um o seu servente com os instrumentos. O cavaleiro esperava qualquer coisa de muito raro; mas não pôde deixar de rir, quando eles começaram a tocar à maneira dos jograis, que, nas aldeias de França, andam pedindo pelas tabernas.
O rei quis saber as razões da sua mofa e ficou verdadeiramente espantado quando o cavaleiro lhe assegurou que aqueles instrumentos eram próprios dos cegos e dos pedintes, a quem se dava esmola, depois de tocarem duas ou três vezes, como aqueles jograis, que o rei tanto prezava.
D. Pedro ficou tão envergonhado que jurou não mais servir-se deles; despediu-os no dia seguinte; não queria ter na sua corte gente que o desonrava perante os estrangeiros, que o cobriram de ridículo, quando disseram que o Rei de Portugal não tinha maior prazer que ouvir jograis de viola, que são por toda a parte da Europa tão vulgares e tão desprezados.

Collection compléte des Mémoires relatifs à l'Histoire de France,
Paris, 1824, tome IV, 381-382
trad. M. Rodrigues Lapa, Lições de Literatura Portuguesa. Época Medieval, 3ª edição, Coimbra: Coimbra Editora, 1952: 279-280



Pedro Marques @ 16:50

Seg, 14/07/08

Penitencio-me, Sr. Dr. Nunca eu deveria ter tido a veleidade de apontar o dedo a um bonzo intocável. Nos Dantas, nem pim.

Venho com esta cartinha, Sr. Dr., pedir-lhe desculpa de mais uma vez o ter incomodado. Não era minha intenção, está bom de ver. Mas sabe, sou uma alma simples, vinda lá do Norte e carregando no lombo (do burro e não do “camelo”, Sr. Dr., que aqui para estes lados ele há mais é burros) a antiga “ignorância” e “incompetência” dos simples, assim a modos que uma Maria Papoila.
Esforcei-me, Sr. Dr., para escapar a esta fatalidade mas, sabe, isto é mesmo assim, cada um é pró que nasce, uns, como o Sr. Dr., para serem entes esclarecidos, aristocratas da cultura, toda a vida instalados na varanda dos iluminados a fazer o verdadeiro teatro subsidiado a quase 100% pelo Estado e a ver o poviléu ignaro passar (não pelo seu teatro, eu sei, que às vezes disfarço-me de inteligente e vou lá, embora o Sr. Dr. não goste que até não me cumprimenta); outros, como eu, para ajeitada a trouxa, meterem as mãos na massa que mais suja, a do serviço público e da política, é errarem quase sempre – é da sua natureza. Lá dizia a tia Zita: bezerro manso mama na mãe dele e na dos outros. Nem os estudos me valeram, nem ser professora catedrática da Universidade do Porto (fica fora de mão, é verdade, mas ó Sr. Dr., é a maior do país), nem as andanças por esse mundo fora, onde por vezes fui vendo teatro imitando o seu. Não retive nada; deve ter sido por via da mente mole, já o sr. padre dizia.
É o mal, Sr. Dr., de democratizarem a Universidade e, pior ainda, a cultura. Onde já se viu, por exemplo, querer que o povo vá ao D. Maria II ou ao S. Carlos? São coisas mesmo de gente que “quer transformar a cultura em mercado”, como o Sr. Dr. perspicazmente percebeu das minhas palavras. Pior Sr. Dr., confesso, de gente que entende que um dos sinais do nosso tímido desenvolvimento cultural é o descaso entre mercado e cultura.
É como aquela coisa que o Sr. Dr. lembrou e bem da minha “tão defendida descentralização” que “corresponde apenas a um ponto de vista de mero consumidor” e de província, acrescento eu, e pagante, acrescentam muitos contribuintes simplórios. Está mal! Querem cultura de primeira, produzam-na lá na terrinha, como o Sr. Dr. reclama. Concordo! Imagine que até se criaram novos apoios para isso. E se a malta for alfabetizada de primeira geração, esforce-se, que foi o que o Sr. Dr. fez (embora os simplórios contribuintes venham ajudando, pelo menos há trinta anos, com constância, generosidade e, no caso único da Cornucópia, pagando até o aluguer, mas isso são minudências e, como o Sr. Dr., não há outro).
Só não gostei, desculpe Sr. Dr., foi a expressão “exportar para a província”; é que até parece que província e Lisboa não constam do mesmo país e sabe, a gente cá é muito patriota. Mas ó Sr. Dr., olhe que parece que o S. Carlos, a CNB e o D. Maria têm feito mais descentralização e internacionalização, concorrendo isso, é bom de ver, para a “decadência do nosso Teatro de Ópera” a que “conduziu a substituição ordenada por” mim, como o sr. Dr. recorda, “da anterior direcção”. Ó Sr. Dr. isso não será ter em pouca conta o corpo de músicos, cantores e técnicos do S. Carlos? Não me diga que o director artístico era insubstituível e eu, simplória também nestas matérias, e o prof. dr. Mário Vieira de Carvalho, ainda mais simplório, apesar de falar línguas estrangeiras e perceber de bandas de música, não entendemos que devíamos nomear para dirigir um teatro alguém que se recusara pública e reiteradamente a aceitar o modelo de gestão empresarial (ai, ai, a linguagem!) que o Estado se atreveu a escolher para o S. Carlos? Está mal!
O Sr. Dr., mais do que com a minha fúria arrasadora de três escassos anos, ficou foi zangado por não ter compreendido que a Cinemateca Portuguesa é “uma das melhores cinematecas da Europa e talvez do mundo” – de facto não compreendi. Mas ó Sr. Dr. talvez isso derive de me situar intelectualmente ao nível minhoto e duriense e não europeu e universal; é uma questão de escala, desculpe-me mais uma vez. Em compensação, deu-me a alegria de saber que nalguma coisa, já que no Europeu de futebol foi o que se viu, somos os maiores. Com o espinhaço dobrado, atrevo-me contudo a manter as críticas que faço (no artigo a que se refere e numa entrevista regional que creio não terá lido), a propósito do chamado “pólo” da Cinemateca, ao modo como esta instituição é gerida e a concordar, de boca aberta, com o sr. Dr. quando qualifica de “saudável” a petição que o reclama. O Sr. Dr. é tão compreensivo!
Admira o facto de o Sr. Dr. ter resolvido vir em pública “defesa” de um amigo que acha que eu “insultei”. Fez muito bem, os amigos são para as ocasiões e os lobbies – lá na minha terra a gente chama-lhes a malta do Zé do Telhado, do Quim Bexigas, do Toino das Iscas, mas é o mesmo – existem para isso; e vai ver como virão outros ajudá-los a ambos... Só que, Sr. Dr., há-de ler com menos paixão e mais siso os dois artigos em causa e vai acabar por dar conta que se a motivação para vir em defesa do Sr. Director da Cinemateca foi questão de insultos ainda vai escrever um artiguinho em minha defesa, porque está-me a parecer que o seu amigo é como dizia dum patrício um homem cá de Ceide: “É estilista bilioso, explica-se azedamente, diz com afoiteza grosseira o que sabe; mas acontece às vezes não saber o que diz.” Em matéria de insultos, eu não faço uso deles nem em política, nem na discussão intelectual, por uma razão – simplória – é que o sr. padre sempre me disse que é pecado... Antes um pau de marmeleiro nos costados, mas também sou fraquinha de braços.
Uma coisinha fez-me doer a alma: então o Sr. Dr. acha-me arrogante? E logo o Sr. Dr., um intelectual tão humilde, como não pode deixar de ser um verdadeiro intelectual e príncipe das artes. Penitencio-me, Sr. Dr., nunca eu deveria, como diz, ter tido a “veleidade” de apontar o dedo a um bonzo intocável. Sempre assim foi, nos Dantas não se toca, nem pim, nem que se tenha estado num ponto privilegiado de avaliação. Calado, venerando e agradecido é assim que o poder político deve estar face aos outros poderes e é se quer ganhar eleições. Como os tempos mudaram!
Para terminar, que esta já vai longa, lamento Sr. Dr. ter de o contrariar naquele conselho final que me dá: Sois belle et tais toi! Bem queria ser-lhe agradável e seguir o conselho azedo, misógino e fora de moda, até para o sr. Dr. poder envergonhar-se menos de ser o português que é nesta matéria, mas não posso: quanto à beleza, cada um estende a perna até onde tem coberta, como dizia a tia Berta; quanto à faladura, sou dona da minha voz para não ser escrava do meu silêncio, como dizia a mãe dela, que era uma santa e não era deputada.
Dantes, eu sei, as Marias Papoilas calavam e os aristocratas de barba rija falavam, mas os tempos mudaram: é esta coisa da democracia e das igualdades que nos obriga a lidar com gente desqualificada, as mais das vezes, mal lavada até. Mas na vida é assim, Sr. Dr.: uns montam o circo, outros batem palmas.

Isabel Pires de Lima – Deputada do PS pelo Porto – Artigo escrito em 29.06.2008 e publicado no Jornal Público de 07.07.08.



Pedro Marques @ 13:39

Seg, 14/07/08

Finalmente encontrei o artigo de Luís Miguel Cintra onde ele defende o trabalho exemplar do dr. João Bénard da Costa à frente da Cinemateca.



A obra de Bénard da Costa é um dos poucos aspectos da política cultural de que nos podemos sentir orgulhosos
A patética ignorância, inconsciência e arrogância com que a dra. Isabel Pires de Lima, a pretexto da defesa da criação de um pólo da Cinemateca na cidade do Porto, insulta o dr. João Bénard da Costa, como director da Cinemateca Portuguesa, no artigo que publicou no Público de 6.5.08, obriga-me a duas palavras em sua defesa.
A obra do dr. João Bénard à frente da Cinemateca Portuguesa é um dos poucos aspectos da política cultural em que nos podemos sentir orgulhosos de sermos portugueses. Não é com certeza o actual Teatro Nacional, a que a sua acção como ministra deu origem e onde se pratica um teatro de características comerciais, ou uma programação baseada em critérios de gestão que nada têm a ver com critérios artísticos e comandada por um caricato marketing, que o consegue.
Nem tão-pouco a decadência do nosso Teatro de Ópera, o S. Carlos, a que conduziu a substituição, ordenada por si, da anterior direcção. Por estranho que pareça, a nossa Cinemateca é uma das melhores cinematecas da Europa e talvez do Mundo. A sua programação e os critérios que lhe presidem, a função que tem desempenhado na preservação dos filmes, é um modelo de defesa e preservação de uma Arte de suporte técnico particularmente frágil e delicado.
Mas essa obra, financiada pelo Estado, tem uma cara, um autor, o dr. João Bénard da Costa. Só porque existe essa pessoa com a inteligência, o saber, o amor pelo Cinema e os conhecimentos técnicos que tem ou que conseguiu reunir através da equipa que tem escolhido para o ajudar, a nossa Cinemateca é assim. Parece-me inacreditável que uma pessoa que há tão pouco tempo era responsável pela condução da política do Estado para a Cultura tenha a veleidade, e passe pela vergonha, de pôr em causa a acção do dr. João Bénard da Costa como director da Cinemateca, para defender a criação de um "pólo" da Cinemateca com o simplório argumento de que os habitantes do Porto vêem poucos filmes antigos. Não passará pela cabeça da antiga ministra que talvez as razões do dr. João Bénard para não aceitar fazê-lo possam ser mais responsáveis, mais sabedoras e menos superficiais que a conclusão a que chegou olhando para uma qualquer estatística? A dra. Pires de Lima será tão ignorante que não tenha sequer consciência da sua incompetência para falar destes assuntos perante a autoridade de uma pessoa como o dr. Bénard da Costa? E não esteve nas suas mãos como ministra obrigar o dr. João Bénard a fundar o tal "pólo"? Porque não o pôs na rua como fez ao dr. Pinamonti e não arranjou outro director capaz de fundar o "pólo" da Cinemateca para exibir filmes antigos para os portuenses? Porque não fez obra e não fundou a Cinemateca do Porto?
Não terá a dra. Isabel Pires de Lima consciência de que pôr a funcionar uma Cinemateca a sério não consiste apenas em ir a um catálogo e pôr filmes antigos a correr? Achará que é a mesma coisa ver um filme nas mais próximas condições possíveis daquelas em que foi concebido pelo seu autor, como a Cinemateca "do" dr. João Bénard faz, que ver DVD projectados num ecrã? Não terá consciência do que é a responsabilidade de "programar"? Pensará a dra. que abrir "um pólo" de uma Cinemateca noutra cidade é a mesma coisa que abrir outra FNAC noutro centro comercial? Não tem vergonha de confundir uma Cinemateca com "oferta" de cinema? Se o que pretende para o Porto é uma sala onde possa ir sair à noite e conviver com o pretexto da projecção de um filme antigo, para depois ir beber um copo, é fácil. Basta fazer uma sala confortável, arranjar um projeccionista, máquina de projectar e um programador que faça uma escolha variada para todos os gostos. Há tanto filme "clássico" à venda em formato DVD na Internet! E para isso não precisa do dr. Bénard da Costa. Mas um "pólo" desses não é a acção de uma Cinemateca.
Não terá a senhora consciência de que uma Cinemateca de DVD seria como um museu em que se exibissem as reproduções dos quadros e não os quadros que os pintores pintaram? Além disso, não reparou ainda que a sua tão defendida descentralização corresponde apenas a um ponto de vista de mero consumidor? Para si, a descentralização cultural é apenas exportar para a província o que se vê na capital? Não preferia que a sua cidade e todas as outras cidades de província gerassem Cultura?
Não terá ainda sentido como é difícil criar na população uma verdadeira prática cultural inteligente, responsável? E que mais do que transformar a Cultura em mercado o que importa é formar, é não perder a oportunidade de ainda aprender com quem sabe, não baixar a fasquia? Se assim é, envergonha-me profundamente ser cidadão de um país que a teve como ministra da Cultura.
Temo que as verdadeiras razões que estão na origem do artigo de Isabel Pires de Lima sejam menos filantrópicas que aquilo que querem aparentar. O seu irresponsável ataque ao dr. Bénard da Costa a reboque de uma saudável petição para a criação de uma Cinemateca no Porto não será apenas uma patética tentativa de ficar bem vista na cidade a que voltou depois do passeio de camelo? O Porto está por certo mais vivo culturalmente do que a dra. Pires de Lima esteve como ministra. Assim o Estado ou a própria cidade lhe dessem meios para existir. Já se esqueceram do que aconteceu ao Rivoli? Oxalá se consiga transformar a prometida Casa Manoel de Oliveira na Casa do Cinema de que o Porto precisa. Com a defesa, a preservação, o respeito, a exaltação do Cinema como Arte a que a obra de um tão grande cineasta obriga a sua cidade. E a verdadeira prática cultural que daí possa advir.
Como talvez dissesse, e infelizmente já não pode dizer, outro grande cineasta português, João César Monteiro, à dra. Isabel: Sois belle et tais toi!.

Luís Miguel Cintra, actor e encenador,
Público, 25.06.2008.



Pedro Marques @ 23:58

Qui, 20/12/07

Com medo que os filhos o destronassem, Saturno resolveu comê-los. É claro que foi vencido mais tarde pelo próprio filho Zeus que Reia, sua mãe, salvou, ao fugir para Creta. Mais tarde, através de uma droga, Zeus obrigou Saturno a regurgitar todos os outros seus irmãos. Estes, aliados ao irmão mais novo declararam guerra ao pai. Ao fim de dez anos venceram-no e encarceraram-no no lugar dos Hecatonquiros.
A história repete-se sempre.
O impacte social das Inquisições foi enorme, por um lado devido ao trabalho sem precedentes de exclusão sistemática dos perseguidos e dos seus descendentes, por outro devido ao estatuto distintivo assegurado aos seus agentes. O número de processos é significativo: para Espanha é calculado em 84 000 apenas entre 1540 e 1700 (e sabemos como o período de 1481 a 1540 foi o mais violento); para Portugal é de cerca de 45 000 entre 1536 e 1767; para Itália, os dados disponíveis em relação a Veneza, ao Friuli e a Nápoles permitem calcular um volume de 2000 a 3000 processos em cada grande tribunal entre meados do século XVI e o final do século XVIII (o que poderia corresponder a várias dezenas de milhares de processos em toda a rede italiana). Nesta actividade frenética, os tribunais de Espanha apresentam o ritmo anual mais elevado no período de estabelecimento, enquanto os tribunais portugueses são aqueles que conseguem manter um fluxo de processos mais importante e regular na longa duração (e isto nos quatro tribunais no período referido acima - Lisboa 9726, Coimbra 10 374, Évora 11 050, Goa 13 667). O ritmo dos tribunais romanos está abaixo dos níveis hispânicos, mas não é negligenciável, sobretudo se compararmos apenas o universo dos cristãos-velhos (na Península Itálica não há mouriscos e os números de cristãos-novos não é significativo). Contudo o impacte social não é circunscrito aos processos, talvez o indicador mais visível: a perseguição foi selectiva, pois as penas mais duras foram aplicadas aos cristãos-novos de origem hebraica e aos mouriscos da Península Ibérica, aos "gentios" convertidos na Ásia portuguesa e aos cristãos-novos e mestiços na América, enquanto na Península Itálica vemos essas penas reservadas aos protestantes. As Inquisições participaram activamente nos processos de exclusão de grupos sociais, contribuindo fortemente para a consolidação dos preconceitos de "limpeza de sangue".
Fonte: História das Inquisições, de Francisco Bethencourt.
Na imagem: Saturno Devorando Um dos Seus Filhos, de Francisco Goya.



Pedro Marques @ 22:56

Seg, 17/12/07

Olhar para uma civilização distante como a japonesa, tentar perceber-lhe as razões e os valores poderá ser uma tarefa tão difícil como tentar moldar uma pessoa a um fato desajustado que tem de vestir.
Também não podemos esperar perceber em poucas palavras e em termos gerais comportamentos e emoções que demoraram séculos a serem alicerçados, a história de cada cultura tem mais pormenores do que à primeira vista podemos pensar. O comportamento de cada cultura é uma imensa filigrana que só é percebida na totalidade por quem a habite ou nela mergulhe. No entanto, há traços gerais que podem ser entendidos e que nos podem dar uma ideia de como ela se organiza e os valores básicos pelos quais se rege.

As obrigações – o Gimu e o Giri

No Japão, qualquer indivíduo que nasce está em permanente débito. Esta condição não é em si mesma vista como vergonhosa, como aos nossos olhos ocidentais podia parecer. É uma condição base que pressupõe uma série de pagamentos que, eles sim, podem identificar se um homem é virtuoso ou não. Esta condição de pagamento pressupõe dois lados: o lado do que recebe o pagamento – que o identifica como On – e o lado de quem paga – o Gimu e o Giri. Aceita-se portanto um On e deve-se o pagamento de um Gimu ou de um Giri.
Gimu quer dizer literalmente “dever” e diferencia-se do Giri pelo carácter perene da sua definição. Esta obrigação é devida aos superiores hierárquicos, o Imperador, em primeiro lugar – onde adopta o nome de Chu – e aos pais – o Ko (ambas palavras chinesas). São pagamentos ilimitados (até ao suicídio se necessário for), perenes e obrigatórios.
A obrigação devida aos pais estrutura a relação familiar, e é comum os mesmos pais interferirem na vida familiar dos filhos. Estas ingerências são aceites, mas não sem constituírem focos de descontentamento tácito que se traduzem, por exemplo, no ditado das Coisas Odiosas, que no Japão inclui os “terramotos, os trovões e os Velhos (chefes da casa, os Pais).” Também é frequente e normal que a nora e a sogra sejam antagonistas na família. A sogra acha que a nora não preenche os requisitos do filho e a nora suporta a condição com submissão. Mais tarde tornar-se-á com naturalidade uma sogra tão exigente como a que conheceu. Daqui se pode imaginar o resto da filigrana que se estende e torna precipitadas algumas análises ocidentais.
Embora sejam limitativas, as obrigações filiais não se estendem às outras gerações de antepassados ou à família mais afastada, são apenas devidas aos parentes mais próximos – pais e avós – aqueles de quem se lembram em vida. Não há palavra para definir a obrigação dos pais para com os filhos porque se pagam as obrigações para com os antepassados reproduzindo nos filhos os cuidados que se receberam. As obrigações são transmitidas por via directa: se um pai acolhe um sobrinho na sua família, ele deve ser adoptado legalmente como filho, senão não será observada a condição Gimu.
Desde o século XII até meados do século XIX, o Imperador não tinha poder executivo no Japão, o país era governado por clãs – os Xógunatos – por isso o Chu devido ao chefe administrativo era a mais alta obrigação. Depois da restauração de 1868 (Meiji) e no final de uma guerra de cerca de cem anos que opôs os homens fiéis ao Imperador – que reclamavam que o Chu era devido apenas ao poder supremo – e os Xóguns do clã Tokugawa, o Imperador passou a congregar toda a população à volta de uma entidade única, de relevo e dignidade inquestionáveis. As suas aparições eram raras e sempre encenadas. Ninguém podia olhar directamente para ele. Mais do que uma pessoa com poder, ele era preservado como um símbolo. Mas apesar dos inúmeros intermediários e acesso difícil todo o povo mantinha uma relação directa com o Imperador: todos os súbditos “aliviam o coração do Imperador” através da obrigação suprema – o Chu.
O Giri constitui um pagamento de carácter diferente. O conceito por trás da palavra é definido por “caminho de rectidão; estrada que os seres humanos devem seguir; algo que se cumpre a contragosto para evitar explicações ao mundo.”
Dentro do Giri devem distinguir-se dois tipos: o “Giri para com o mundo” (um conjunto de obrigações sociais para com os semelhantes) e o “Giri para com o nome” (o dever de conservar a honra).
O Giri pressupõe um código de conduta que deve regular todas as relações inter-pessoais, sejam elas familiares ou profissionais. Contudo não se devem entender as regras como uma série de preceitos morais. Quando alguém é obrigado a um pagamento por força do Giri muitas vezes fá-lo contra o seu sentido de justiça. Se alguém recusar o pagamento do Giri será visto como alguém que não conhece os códigos de conduta e por isso cobrir-se-á de vergonha. Este pagamento constitui um modo de se equilibrar o mundo. Muitas vezes a tradução de Giri é a de alguém que está “em conformidade com a opinião pública.”
Para ver o Giri em relação ao próprio nome devemos perceber que os insultos são vistos da mesma maneira que as virtudes. Para o japonês, a agressão só existe fora do círculo do Giri. Quando se limpa o nome através do Giri, não se é culpado de agressão, trata-se de um ajuste de contas: o mundo está virado ao contrário e cabe a essa pessoa pô-lo de novo em equilíbrio.
Estas categorias hierárquicas e obrigações são assinaláveis como se pôde constatar, mas entram muitas vezes em conflito na vida real.

No caso analisado – o filme A Espada do Samurai – assistimos a uma série de acontecimentos que reflectem este sistema de obrigações mas que de algum modo nos podem parecer contraditórios.
É o caso do Samurai que a mando do chefe da aldeia tem de matar um seu companheiro de armas por este (diz-se) ter traído o clã. Neste caso o Gimu devido ao chefe que dá a ordem sobrepõe-se a qualquer obrigação e mesmo que lhe custe ele terá de cumprir a ordem. Ao mesmo tempo, a mulher do Samurai visado oferece-se ao chefe da aldeia para que ele poupe o marido. A promessa do chefe não é cumprida porque o Samurai é morto pelo seu amigo. Contudo, o Samurai que cumpre a ordem reconhece depois que o chefe da aldeia não cumpriu a promessa que fez à esposa do amigo. Por isso, e por estar em dívida para com o companheiro de armas – no passado o amigo deixou-o vencer um combate em frente a todo o clã, com todo o reconhecimento e importância que daí advém – o Samurai decide assassinar também o chefe da aldeia cumprindo deste modo um “Giri para com o nome” que se soprepôs ao Gimu devido ao chefe da aldeia.
A dificuldade de descodificação destas obrigações é produto da distância que sentimos ao olhar para esta escala de valores que a princípio nos parece estranha. O que não pode deixar de ser evidente é que essas diferenças em relação aos nossos modos, são determinadas por uma cultura secular e fazem parte de um código de conduta e de valores enraízados que não fariam sentido se fossem aplicados noutro sítio do mundo por qualquer absurda lei; tal como o nosso modo de pensar e agir estão determinados por outras leis que aos olhos dos orientais poderão parecer absurdas.
Quando se descobrem os diversos mecanismos de estruturação de diferentes sociedades temos de perceber que eles sempre lá estiveram, em permanente mutação, e fazem parte dessas sociedades da mesma maneira que um fato é feito à medida para uma determinada pessoa.



Trabalho para a disciplina de Antropologia das Artes Performativas. A exposição do mesmo incluía a apresentação de um excerto do filme citado - A Espada do Samurai.



Pedro Marques @ 15:14

Sab, 06/10/07

forneci algumas indicações sobre aquilo que acho que deve ser o papel do artista, e aquilo que a sociedade lhe deve pedir. Mas gostava de responder à velha pergunta “O que é a arte?” de modo mais definitivo. Contudo, só posso oferecer algumas sugestões inadequadas que me ocorreram quando escrevi The Fool e mesmo estas considerações são mais perguntas do que respostas.
Hoje em dia a arte é muitas vezes desprezada por ser irrelevante na solução de problemas sociais. É óbvio que não acredito nisto. Se existe imaginação criativa nas pessoas, ela tem de ter um uso. É demasiado poderosa, e no passado foi demasiado eficiente, para ser um acidente da natureza humana.
Todo o nosso ser biológico funciona como meio de orientação e perpetuação da nossa espécie. Portanto as nossas paixões e emoções são um meio de o realizarmos e de obter conhecimento sobre o mundo (especialmente no sentido de conhecimento “hábil”, ou discernimento), do mesmo modo que o fazemos com os outros cinco sentidos. E o mesmo é verdade para as nossas imaginações criativas. (Seja a imaginação criativa uma capacidade isolada, seja um efeito do trabalho com outras capacidades, isso não interessa.)
O “buraco” na nossa natureza é preenchido com a compreensão e experiências que temos do mundo. Esta compreensão e experiências fazem de nós aquilo que somos, e aquilo que somos pode ser caótico ou racionalmente ordenado. Se é racionalmente ordenado é uma cultura (ou envolve-se na criação de uma cultura). A cultura não é apenas uma colagem de vários conhecimentos, porque no contexto da própria cultura, aquilo que sabemos é a base da própria acção. Um modo de reconhecer o mundo que envolve tanto as nossas emoções como a nossa razão. Uma metáfora simples (nem por sombras no sentido literal) é o “buraco” no estômago, as paredes do estômago são as emoções e a razão os sucos digestivos. Este estômago metafórico funciona com o que entra dentro dele e cria uma cultura sã – um conhecimento racional e emocionalmente evoluído do mundo. É a soma total do indivíduo ou o seu equilíbrio em relação com o mundo, a sociedade e as suas capacidades instintivas. Um conhecimento intelectual e hábil da realidade – onde o indivíduo construiu a realidade através da sua imaginação criativa, não a observou apenas ou suportou o seu impacto. É um processo de auto-criação. O resultado pode ser intelectual ou simples, mas não estúpido. A arte é o processo racional de criação de imagens, sons e dinâmicas – e é por isso que digo que a arte é a imaginação do real e não a invenção de uma fantasia. Se, por outro lado, o processo é passivo, por o indivíduo estar paralisado por negligência, medo ou qualquer outra coisa, então não é criada uma cultura.
A imaginação criativa não precisa ser sempre exprimida através da arte – há outras expressões – mas às vezes tem de ser exprimida em arte. O trabalho do artista é tornar o processo público, ao criar imagens públicas, literais ou figurativas, visualmente, sonoramente ou através do movimento, da condição humana – imagens públicas onde a espécie se reconhece e confirma a sua identidade. Há óbvios paralelismos de identificação da espécie em outros animais, mas a arte, ao ser associada à racionalidade e ao valor, vai mais longe que eles.
A arte é uma expressão directa da criação da natureza humana. Coloca o indivíduo no mundo e interpreta o mundo de acordo com as possibilidades e necessidades humanas. Exprime a realidade dentro dos limites do conhecimento numa determinada época e deste modo tem sido sempre racional, mesmo quando isto significava fazer a dança da chuva.
O artista deve ser tão atento e compreensivo quanto puder para desenvolver criativamente a natureza humana, e deve fazer isto sem desculpas ou medo e sem ser gratuitamente provocador. A complexidade está normalmente na perícia, mas a visão deve ser simples; adquire a sua força através da ausência de ilusão. A arte ajuda a criar significados e propósitos naquilo que de muitas maneiras é aparentemente um mundo irracional. Numa cultura, ou na luta para atingir uma cultura, um choro, uma lágrima, uma morte, tornam-se racionais. A arte só é bela no seu sentido mais lato porque pode conter morte e fealdade. Mas não se pode deixar render ao desespero ou à irracionalidade. A arte é o ser humano a reclamar uma relação racional com o mundo, especialmente quando aquilo que retrata é absurdo ou trágico. Ninguém consegue olhar com espírito curioso para um trabalho artístico e não se sentir mais livre, mesmo quando é confrontado com necessidades arrebatadoras ou quando faz julgamentos calculistas.
A última cena de The Fool é passada num asilo. Nesta cena tentei mostrar que havia processos racionais que estavam ainda a sofrer alterações no aparentemente louco mundo do século dezanove na Europa. Os bairros-de-lata ingleses dessa altura eram campos de concentração em câmara lenta – nos bairros-de-lata a morte demora mais tempo a chegar. A arte sempre olhou para as atrocidades na época em que aconteceram. Aquilo que Adorno e Auden disseram sobre poesia e Auschwitz não abordou a questão. Só o teriam feito se Auschwitz tivesse sido o resumo de toda a história – e é claro que não foi.

Edward Bond in The Fool & We Come to the River.
Editora Methuen, Londres.
Tradução: minha.