THE TURTLESCom o declinar dos movimentos sociais associados à contracultura – a derrota dos estudantes parisienses e trabalhadores em 1968, o refluxo dos movimentos anti-guerra e poder negro que abalaram a classe dirigente dos Estados Unidos – o rock
underground achou-se numa posição estranha. A herança da mudança social passou a usar a troca de produtos e cimentou a ordem consumista. Uma das respostas podia ser prosseguir o espectáculo bombástico de revolta e ao mesmo tempo, astutamente, ordenhar o mercado (sendo os Led Zeppelin a primeira de uma série de bandas a fazê-lo), a outra era usar ironia e a auto-confessada ‘decadência’ para salvar o rock da sua absurda ambição (maravilhosamente conseguido por T Rex e a sua mistura de rock ‘n’ roll chuck berryano de Marc Bolan). Como sempre, Zappa rebolava em contradições.
Mark Volman e Howard Kaylan assistiram ao concerto no Pauley Pavillion e foram aos bastidores falar com Zappa, disseram-lhe que os Turtles se tinham separado e gostavam de trabalhar com ele.
Freak Out! incluía uma citação de ‘um dj célebre de L.A.’ (Lord Tim): ‘Eu gostava de vos limpar um bocado rapazes e de vos moldar. Acho que posso fazer de vocês os novos Turtles’.
The Turtles era um conjunto musical de faculdade do sul de Los Angeles. Começou por ser uma ‘banda folk com-mensagem’, Crossfires, que tocou um fim de semana no Reb Foster’s Rebellaire Club em Manhattan Beach (a Sul de Santa Mónica). Foster fundou a editora White Whale com dois antigos distribuidores da Liberty Records. O primeiro grupo foram os Crossfires que logo se tornaram The Turtles. A grande estreia foi na primeira parte dos Herman’s Hermits no grandioso Rose Bowl de Pasadena. No princípio de 1966 acompanharam os Byrds nos tops com uma versão de Dylan, ‘It Ain’t Me Babe’. A roupagem melódica de tabela de vendas, etérea e uniforme, representava tudo o que os Mothers escarneciam. No princípio de 1967 obtiveram um estrondoso sucesso com ‘Happy Together’, uma canção de grande futilidade pop. Pode observar-se um certo tom satírico no final dos anos 60 (no single ‘Sound Asleep’, o ‘zzzzz’ depois da frase ‘ainda penso em ti’ parece-se mais com uma masturbação do que com um ronco): descobriam evidentemente os cabelos compridos e as drogas. Trabalhar com Zappa permitia-lhes afastarem-se da sua imagem mais ligeira. Zappa tratava desdenhosamente o nicho cultural a que o rock agora aspirava, mas o simbolismo de trabalhar com o diametralmente ‘oposto’ ao
underground era uma oportunidade demasiado boa para ser recusada (tal como Malcolm McLaren ao formar a banda de ‘sol, mar e pirataria’, Bow Wow Wow, depois do realismo proletário dos Sex Pistols). Eles também tinham umas óptimas vozes falseto.

Volman e Kaylan adoptaram os nomes de dois técnicos, Phloroscent Leech e Eddie, e tornaram-se duas estrelas do glam rock. E que têm de ser vistas ao microscópio. Os Mothers com Flo & Eddie eram instruídos a expor histórias de bastidores, na altura em que o rock se tornava um espectáculo benevolente de proporções cósmicas. Enquanto os Mothers originais eram vistos como alternativa – uma banda de freaks genuínos que improvisavam ‘genuínas’ peças atonais de piano em bastidores – Flo & Eddie eram estrelas do pop, suadas e sexualmente excitadas, cujo principal interesse era engatar gajas. Isto marcou a primeira de uma série de provocações que levou os fãs e críticos a deixar de acompanhar o projecto/objecto de Zappa. Numa visão mais profunda, vê-se que muito do ‘surrealismo’ dos Mothers era, de facto, uma orquestração das suas vidas quotidianas: a subcultura mexicana, contudo, conferia-lhes uma exoticidade misteriosa que as vulgaridades de Flo & Eddie não possuíam. Aquilo que Flo & Eddie tinham, contudo, era uma energia sincera e o seu próprio charme – particularmente para os fãs que tinham chegado mais tarde e não se podiam sentir ‘traídos’.
Consciente das críticas, Zappa defendeu-se ao vivo, na rádio, com Martin Perlich em 1972.
Infelizmente, há pessoas que têm uma atitude curiosa em relação às coisas de natureza glandular que se relacionam com as coisas de natureza musical e dizem, bem, a música vai daqui até aqui e as glândulas estão lá em baixo, não podemos juntá-las. São hipócritas, se aparece um grupo que não canta abertamente sobre as coisas, mas interpreta um pouco a linguagem e o faz com coreografia então acham logo óptimo e que é mesmo rock ‘n’ roll; mas eu digo que não há diferença, nós éramos suficientemente honestos para dizer: “Isto é isto, e aquilo é aquilo, então aqui têm e respondam”. E a resposta foi: “eu ‘tou na moda mas, claro que me ofendi”.
O ataque às pessoas que vilipendiavam o corpo (glândulas) a expensas da mente (música) faz parte do materialismo sexual de Zappa, a sua recusa de idealismos platónicos e cristãos. Usar Flo & Eddie para isto foi uma jogada de mestre. Interessante constatar como o imaginário coloquial de Zappa é apropriado e sugestivo. O grupo que ‘interpreta’ a linguagem faz lembrar um sofá numa sala de jantar suburbana: a orquestração das cambalhotas da banda em bastidores era usada para impedir que tais ilusões se tornassem confortáveis. Havia também o muito famoso ritual do sofá, à nossa disposição desde o antigo disco pirata
Pootface Boogie, onde Mark Volman representa o primeiro sofá marrom cósmico, tema usado mais tarde em
One Size Fits All de 1975.
Zappa ficou particularmente entusiasmado com o facto de poder cantar em harmonia. Não se importou de cortar na espontaneidade das interacções dos Mothers originais (a espontaneidade era restringida a solos de guitarra em ‘Wino Man’, ‘You Didn’t Try to Call Me’ e ‘Call Any Vegetable’ e solos de toda a banda em ‘King Kong’), porque agora podia ouvir as melodias como deviam ser.
Pela primeira vez o conteúdo melódico das canções pôde aparecer – nunca fui bom cantor e o Ray Collins, que na altura era o vocalista, não gostava de harmonizar com os outros. Por isso não podíamos entrar em algumas das coisas que fazemos agora: as três e quatro vozes que gosto de fazer. Não me importo de estar sempre a cantar essas canções.
Howard Kaylan, contudo, sentiu que ele e Volman contribuíram para a faceta comercial da música de Zappa.
O Frank tentou durante muito tempo só com a música, mas agora, com a música e a representação e diálogos, ele cria um ambiente e, como resultado, chega a mais público. Sentiu que era patetice ter um pequeno grupo de seguidores empenhados e activos quando, se mudasse um pouco a abordagem, conseguia um público maior. Depois, quando não estavam à espera, ele podia dar-lhes o que tinha pensado originalmente. Ao mesmo tempo que mantém a maior parte do público dos Mothers originais, o Frank tem agora seguidores mais jovens e mais numerosos; quando entrámos para o grupo tocávamos em salas de 2000 lugares, agora estamos em sítios com capacidade para 10.000.
Enquanto os bons tempos da contracultura do rock se desvaneciam no passado, tornou-se óbvio que o rock era, mais uma vez, uma fase cultural temporária associada à adolescência. Foi a habilidade de Zappa para se relacionar com esse público durante os anos 70 e 80 que garantiu que, quaisquer que fossem as dificuldades em termos de promoção e distribuição, a sua música mantivesse sempre ligação ao mercado: sítio exacto para o florescimento da sua arte ambivalente e contraditória.