O Pedro Leal é compositor, músico versátil, sonoplasta. Conheci-o há oito anos na Capital em circunstâncias bastante especiais. Eu tinha um disco em casa há anos e não sabia que era dele. Só depois de algumas conversas é que comecei a ligar os nomes às coisas. Foi um encontro cósmico. Desde aí que ficámos ligados. Eu juntei-me brevemente ao projecto de continuar o seu grupo Des Maisons em Portugal. Tocámos as músicas do disco Noises of the World que eu tinha em casa, num concerto, para nós memorável, na outra banda, num sítio de que já nem me lembro o nome. Éramos três. Eu, ele e o Marte na bateria.
Mais tarde ele iria para França onde ainda se encontra.
Hoje decidi lembrar-me do disco Noises of the World. Ouvi o disco e tentei lembrar-me das sensações que tinha a tocar aquelas músicas.
Para já fica metade do disco. Peço ao Pedro Leal para me arranjar umas imagens dos Des Maisons ou só do disco apenas para pôr aqui. Grande abraço Pedro!
"En Français Dans Le Texte" abre o magnífico disco dos Des Maisons. Uma guitarra com um som de hangar e distorção perfeitamente colocada revela o tema, com pequenas partes escritas. Até a guitarra se dissolver num beat rápido, cristalina, uma verdadeira guitarra ritmo. Era a música que eu mais gostava de tocar. O crescendo final fazia-me saltar, só tinha pena de não ouvir o sintetizador, mas imaginava-o...

"Savanah's Beat" era muita lixada de tocar, mais difícil se tornava porque ninguém cantava. "I wait you at the station / Is not a good position" era inesquecível. Até "who do you think I am?". A estrutura é estranha, cheia de ângulos, mas sempre surpreendente. Mais uma vez, no disco, a guitarra é cristalina, faz lembrar o bouzuki de Zappa em
Shut Up 'N Play Yer Guitar.
Nunca consegui tocar "Speedy Gonzalez". Uma música punk com 45" hiper-rápida. Os meus dedos eram demasiado lentos para o baixo.
O instrumental "After the Meeting With the Boss" é belíssimo, o saxofone soprano de Cristophe Turchi faz maravilhas na harmonia circular da guitarra do Pedro Leal. É altura de ouvirmos os belos fraseados de piano de Pierre-Henri Michel e o
groove do baixo de Pierre Feugier. Quando tocávamos jogávamos mais com a dinâmica. Faltava-me o saxofone.
O disco multiplica-se em vários estilos, tocados sempre com personalidade. Abre-se. A esta altura perguntamo-nos. O que virá a seguir?
A resposta vem na forma de um instrumental "Les Anime "O"" onde pontifica o saxofone dobrado com a guitarra, seguidos de um boogie e uma melodia que se ri de nós, humildemente. O baixo de Pedro Leal canta o tema.
Em "Skoutatouf" estamos no terreno do hard-rock. Mathias Bertano na voz arrasa. "I - think - they - are all crazy / And I - think - i'll get crazy too".
O reggae "Back to the Roots" era outra das minhas músicas preferidas. Foi a única música onde me enganei no concerto que demos. Foi um momento horrível. Senti que tinha impedido as pessoas de ouvir a beleza da música. Acho que foi o facto de não haver voz que me fez vaguear, sem saber onde estava na música. A voz de Djamel Douadi Benghedfa no disco é inesquecível.
"Paulo's Core" era um pequeno boogie que tocávamos - a vida era bela. Mais tarde conhecê-lo-ia numa noite Zappa em Lisboa. "És o
irmão do Pedro? Então és meu irmão!" Foi assim que nos apresentámos. Ele tocava numa banda de versões de Zappa, acabei no palco a cantar Big Leg Emma - que êxtase!
Em "Rocky Balboa" ouvimos aquilo que pode ser o som Des Maisons. A guitarra cristalina meio bouzuki alternando entre a distorção e os momentos de jazz, com pequenos temas escritos. Aqui a banda está em permanente contacto, belo tema.
"Tu Te Chauffes Au Gaz" mostra mais uma vez as preocupações do Pedro com os aquecimentos, como podemos comprovar
aqui. Neste caso é um instrumental de atmosfera difícil de estabelecer, lembro-me bem. Parece que a música não tem nada, mas não, é só rarefeita. Os acordes são belíssimos e as mudanças de ritmo inesperadas.
Não sei onde podem arranjar o disco. Onde Pedro?! Talvez um dia, quando eu souber pôr mp3 no blog possa partilhar convosco alguns dos temas do disco.
* Na foto, o Pedro Leal num concerto com Carlos Zíngaro no Teatro da Comuna.