Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 11:37

Qui, 21/10/10

Então agora é que chegou a crise? Parece que é agora, não é? Mas, meus amigos, ainda não é agora. A crise será quando as pessoas saírem para a rua a reclamar aquilo a quem têm direito. A crise será quando o país parar por sucessivas greves gerais. A crise virá quando o FMI nos emprestar dinheiro para pagar uma conta impossível de pagar. Aí é que a gente vai ver o que é a crise.

Já aqui fui crítico em relação aos partidos de esquerda, por nunca estarem de acordo com as sucessivas direcções políticas e económicas do país. Devo agora aqui dizer que eles tinham razão. Razão em não pactuar com este suicídio colectivo que desde que entrámos na CEE tem sido levado a cabo pelos sucessivos governos. Razão em terem dito sempre não e não quererem responsabilidades políticas. Razão em não pactuarem com esta chusma de governantes que alternadamente nos vão governando. Razão tive eu, também, em sempre ter votado nos partidos de esquerda (mitigando a minha irritação com o rumo do país, dando-me o falso conforto da democracia participativa) porque também nunca quis responsabilidades nesta merda de políticas que sempre foram fomentadas: consumo interno elevado ao cubo (compra de carros, casas, aparelhagens, etc, apenas porque sim), empréstimos à tripa forra, desmantelamento das unidades produtivas do país através da atribuição de subsídios (como na agricultura, pescas, indústria naval, etc.).

Podemos ver isto como consequência da nossa entrada na CEE, potenciada pela nossa incapacidade para negociar, a nossa posição vulnerável, etc, mas tudo isto só esconde a política sistemática de destruição do país, através do medo da colectivização, o medo do comunismo, e o abraçar do sistema monetário que leva à bancarrota qualquer país que deixe entrar nas suas fronteiras as multinacionais, as corporações que procuram apenas o LUCRO, num mercado "completamente livre". É isso que acontece em todos os países, foi isso que aconteceu na América do Sul nos anos 70 e 80, foi isso que aconteceu em Portugal, Grécia e Espanha nos anos 90. Agora sofremos as consequências.

Mas estávamos condenados, com primeiros-ministros como Cavaco Silva que queria à viva força fazer como os outros países ocidentais, que outra coisa podíamos esperar?

Agora não temos alternativas senão aumentar os impostos, mas até quando? Até quando as pessoas, as empresas vão pagar?


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Pedro Marques @ 17:21

Qui, 26/08/10

Ainda não estão fartos da crise? Eu estou. Há crise todos os anos e todos os dias. Desde que nasci. E desconfio que antes já se falava da crise. Claro que falou. A crise faz parte do discurso dos governantes para manterem os eleitores calminhos. E subitamente a crise torna-se aquilo que nos acalma, que nos põe bem. É uma espécie de remédio para uma doença que se chama... crise!

A crise põe e despõe a seu belo prazer. Mas afinal quem é ela?

A crise tem origem no nosso sistema monetário. Desde o momento em que se começou a fazer dinheiro com dinheiro. Desde o momento em que os bancos tomaram conta da nossa vida através de um pequeno estratagema chamado "dinheiro a crédito". É com esta mentira que bancos centrais estrangulam outros bancos mais pequenos que por sua vez estrangulam as empresas e os cidadãos que por sua vez se estrangulam a si próprios, todos os dias, com as gravatas que usam antes de irem para o trabalho. Para o trabalho que os fará pagar "um dia" o dinheiro a crédito que receberam a determinado momento da sua vida. Aquele dinheiro que tinha parecido tão fácil de obter, aquela casa, aquele carro, aquela televisão que iriam pagar um dia.

A crise não é para se resolver nunca. O débito será sempre permanente. As empresas e as pessoas nunca conseguirão pagar tudo aos bancos centrais simplesmente porque nunca terão dinheiro. Os bancos emprestam, com juros, mas se são eles que põem o dinheiro a circular como é que algum dia as empresas e as pessoas poderão pagar o que devem? A resposta é: nunca. Se me emprestam 100 como é que eu alguma vez irei pagar 110 (juros incluídos)? Como? Não há maneira. A não ser pedindo mais um empréstimo, o que nos leva outra vez ao problema inicial.

Por isso, crise? A crise é inerente ao sistema. Ou seja, não podemos fazer nada em relação à crise enquanto não descobrirmos uma maneira de fazer tudo o que queremos fazer na vida sem a intervenção dessa coisa chamada dinheiro.


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Pedro Marques @ 18:06

Qua, 28/04/10

E agora é que as coisas começam a aquecer verdadeiramente, ou pelo menos é o que a televisão nos quer fazer querer, é sempre assim. Agora é o dólar a responder. O capitalismo começa mesmo a comer-se por dentro. A Europa e os E. U. A. entram numa das maiores guerras. A do capital financeiro, das agências de ratings, do diz que disse, da especulação, do bombástico, do invisível tornado visível, do terrorismo do medo que nos fazem sempre ter.

Há quantos anos andamos em crise? Ainda acreditamos no que essa palavra quer dizer?

Que mundo de merda o mundo das finanças. Blrgh!


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Pedro Marques @ 11:37

Seg, 15/03/10

E o governo começou a descarrilar. Não é que eu não estivesse à espera. É claro que em todas estas negociações para aprovar o Orçamento de Estado, e agora o PEC, o governo teve de fazer concessões, falar com a oposição, dialogar, negociar, alterar a sua posição, dar e receber bofetadas e no final aparecer com um documento que possa apaziguar os mercados europeus e estabilizar a credibilidade do país que se podia começar a parecer com a Grécia.

Assim, Sócrates anunciou um PEC sem aumentos de impostos a não ser para os que já ganham bastante. Só que, se formos a ver, já não se pode deduzir tanto na educação e saúde. Os senhores que faziam das facturas falsas um equilíbrio do seu orçamento estão lixados, os outros que deduziam honestamente também. Não aumentam os impostos, o contribuinte é que já não pode educar-se tanto nem ter uma saúde de ferro. Entre a semântica do aumento de impostos e a redução de deduções ponho o meu nariz (que é grande) e ele diz-me que isto está a cheirar mal.

E ainda fico mais desconfiado quando vejo o conjunto de privatizações que o estado quer promover. O governo do PS ainda não se tinha atirado a esta, mas deve ter sido uma concessão aos partidos da direita, com toda a certeza. Vender aquelas empresas que dão ainda alguns dividendos ao estado, passá-las para os privados e dar-lhes mais subsídios quando estão em crise é ideia que só pode vir da direita. Ossos do ofício. Privatizações? Vender para abater a dívida? Não. Promovam o tecido empresarial para ele, sim, abater a dívida. Apostem nalguma coisa que achem que é realmente importante. É a energia eólica? É o quê? Pensem numa política. É para isso que vos pagamos. Não para vender as coisas na primeira Feira da Ladra que promovem.

Aquilo que me começa realmente a meter nojo é a salvação que o Governo teve de fazer aos bancos para os salvar da falência e o modo como esse princípio não se aplicou ainda a outras empresas e instituições, o modo como esse princípio nunca mais funcionou para nada. Que  rápidos eles foram para as instituições de crédito. Que lentos que são a arranjar soluções para o desemprego.

Isto tudo para dizer que agora que começamos a sair da crise, ou lá o que é, quando o governo começa a governar pela segunda vez, as coisas estão a voltar àquilo que eram dantes. Concessões, negociações, privatizações, impostos mal esclarecidos mascarados de demagogia, porta-vozes do PS (Vitalino Canas) a comentar a vida interna do PSD - se eles querem fazer uma lei stalinista é lá com eles! - (porque será que estão tão interessados?), o Bloco de Esquerda à deriva, atirado fora das negociações sem apelo nem agravo (e agora arrependido por não poder influenciar o governo), o PCP à deriva anda (e com muito gosto devem eles acrescentar - para grande infelicidade minha, digo eu), e o CDS a subir nas sondagens à conta de um Portas de estado, com um cuidado especial na comunicação aos telejornais: sintético, demagogo, claro nas suas propostas parvas (tudo o que um partido precisa para subir nas sondagens) e ainda por cima a negociar com o governo, a saber mais do que o resto das pessoas.

Os casos escandalosos foram caindo, com o aproximar deste congresso para a eleição do novo messias do PSD e o folclore associado esqueceu-se as Faces Ocultas e os Freeports e os outros fait-divers inventados pelos jornalistas. Mas eles não tardarão a aparecer, um novo caso deve estar a ser forjado neste preciso momento num qualquer gabinete da direcção de um canal de televisão ou num jornal. Não esperem pela demora.




Pedro Marques @ 17:28

Qui, 13/08/09

Hoje o primeiro-ministro disse que Portugal saiu da recessão técnica. Boas notícias? Parece-me que sim. Quero ver como é que os opinion makers vão distorcer esta realidade agora. Pela primeira vez em muitos anos somos do primeiro pelotão de países da Europa (juntamente com a França, Espanha, Grécia e Eslováquia) no crescimento. Estaremos nós com uma ligeira possibilidade de vencermos o atávico atraso? Gostava de acreditar que sim.

Mas o facto é que continuamos a dar mais importância ao futebol que a qualquer outra coisa. Interessa-nos mais o facto noticioso que a própria notícia. Rebolamos mais facilmente no lodo da intriga que na elevação da ciência e da arte. As prioridades ainda não são aquelas que esperamos, mas é preciso tempo, muito tempo.

As eleições aproximam-se e a notícia veio mesmo a calhar ao governo. O Sócrates quase que conseguiu disfarçar a alegria na conferência de imprensa. Pode ser que esta notícia tenha acabado de vez com a possibilidade do PSD formar governo. Depois de um terramoto gigantesco, um tsunami, uma catástrofe nuclear seria a pior coisa que podia acontecer a este país. Pelo menos isso é bom.

O PS ganhou um novo fôlego, o PSD afunda-se cada vez mais nos gaguejos da Ferreira Leite que inacreditavelmente pensa ainda que poderá ganhar as eleições. Como pode ser possível? Só se o país estivesse todo a dormir.

(Eu digo aqui, se o PSD ganhar as eleições eu emigro!)




Pedro Marques @ 23:41

Ter, 19/05/09

Gosto desta crise. A sério que gosto. Eu sei que é cruel dizê-lo. Há inúmeras famílias em dificuldade, sem dúvida, milhares de pessoas perderam o emprego (eu próprio estou desempregado), o pessoal mais jovem não tem perspectivas, as pessoas que até agora trabalharam a fazer coisas, em fábricas que há 20 anos eram muito baratas para os muitos empresários que com o beneplácito dos diversos governos promoveram o emprego de mão de obra desqualificada ou simplesmente com vínculos laborais frágeis, vêem-se agora na rua sem saberem fazer mais nada senão um trabalho repetitivo que já ninguém quer, com hipotecas e carros em leasing (porque toda a gente tem carro, último modelo, regra geral), filhos, férias de verão por pagar e sonhos por concretizar, todas estas pessoas estão agora sem saber o que fazer. É grave. Mas foi aquilo que elas quiseram, ou não foi?

Não era isto que as pessoas queriam? Dinheiro para todos nem que seja a crédito? Não foi isto que aprendemos com os americanos do princípio do século? Nâo era sobre esta possível crise que nos diziam para não pensar?

Não era disto que o Cavaco falava quando dizia, "Se alguém já fez isto e correu bem porque não havemos nós de fazer também?" O mesmo que agora, com gravidade, diz "Não sei para onde vai Portugal." Que falta de horizonte! A mesma pessoa, agora Presidente, que nos perpetuou, quando primeiro-ministro, no buraco da mediocridade promovida por 60 anos de fascismo, nem sequer agora consegue ter um plano de estratégia para o país e fica "seriamente preocupado". Ai República!, quando aprendes?

Não querias concursos na televisão, telenovelas, futebol e ignorância? Não era isto que se dava às pessoas porque elas queriam? Não era essa, sempre, a desculpa? Que tínhamos de dar às pessoas aquilo que elas queriam? Pronto, aqui têm. Aqui está o que as pessoas queriam. E agora?

...

Agora é a oportunidade para mudar. Agora é a oportunidade para ver um bocadinho mais longe que o ordenado no fim do mês e o passeio no centro comercial. Agora é preciso saber que as coisas não nos caem do céu. Agora é preciso saber que vivemos na Península Ibérica e que o sol nasce a Oriente. É preciso trabalhar para ter as coisas e não apenas pedir empréstimos. É preciso estudá-las para sermos melhores. É preciso pensar nelas para podermos ser mais fortes.

É por isto que gosto da crise. Vejo-a como uma oportunidade para melhorar. Ou para, como dizia o Beckett: "Falhar melhor".

Todas as noites, especialistas de todas as áreas vão à televisão e imagino que às rádios também, escrevem nos blogues, vendem jornais, mas vejo poucos com uma perspectiva nova e fresca, desempoeirada. Num recente debate ouvi alguém dizer que Portugal poderá estar na frente de uma transformação com a vantagem de ter uma área geográfica (em mar) muito superior à sua área territorial e que poderá desenvolvê-la como bem entender. Assim haja estratégia. E por que não começar por estudar esses recursos e ver o que nos podem dar? Sem medos, sem preconceitos, sem pensar que podemos estar a ir contra os desígnios da Europa ou dos nossos parceiros, ou seja lá de quem for. Faz falta, não um desígnio, a palavra soa-me sempre ligeiramente fascizóide, mas uma estratégia, uma complexa teia de interesses que devem ser comuns. A isso talvez pudesse chamar um país. Por enquanto não chamo país, chamo a isto apenas uma complexa teia de interesses divergentes, pouco desenvolvidos, orgulhosos, tacanhos, preconceituosos, desconfiados, a bater sempre na mesma tecla ao ritmo fabril das máquinas de outrem.

Gosto tanto da crise.


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Pedro Marques @ 14:29

Sab, 25/04/09

Ouvi os discursos de hoje no parlamento, por ocasião do aniversário do 25 de Abril de 1974. Deram-me sono.

Falaram de crise, como se ela alguma vez nos tivesse deixado. Falaram de socialismo, na gaveta uns, outros na bandeira. Falaram da necessidade de falar verdade aos portugueses, ou seja, assumiram que algumas (muitas) vezes os políticos mentem. Não é novidade nenhuma, eu sei, mas ouvi-los dizer que "agora" não se deve fazer é quase obsceno.
O partido dos Verdes lembrou o largo Oliveira Salazar que foi inaugurado justamente hoje, em Santa Combadão. Eles consideram um insulto. Eu também. É claro que o Salazar não tinha só coisas más (como poderemos comprovar no recente filme... (ironia)), mas daí até celebrar a sua carreira de estadista vai um grande pedaço. Salazar era um retrógrado, reaccionário, passadista criminoso que fez nome por ter posto as contas do país em dia. Sem dúvida, retirou-o do caos do início da república e dos sucessivos governos mas colocou-o ao serviço do silêncio, do negócio obscuro, da polícia secreta, da ignorância selectiva, deixou-nos orgulhosamente sós contra o mundo a gritar "Angola é nossa!" embora ele nunca lá tenha posto os pés. Era um homem do século XX com os pés assentes no XIX. Todo ele cheirava a mofo e sangue seco.

Salazar foi um insulto para Portugal, o que o 25 de Abril celebra não é apenas a passagem de uma ditadura para um regime democrático vagamente socialista, é o fim de todas as mortes e prisões injustas, impostas por leis absurdas aplicadas por uma polícia secreta abjecta e cobarde. Perguntem aos familiares de todos os que foram presos e mortos pela polícia secreta para que serviu o 25 de Abril. Perguntem a todos os que morreram no ultramar para que serviu o 25 de Abril. Perguntem, por fim, a todos os que nasceram depois do 25 de Abril porque razão não têm medo de erguer a voz para falar.

Mais do que falar de crise (já estou farto e de cada vez que ouço a palavra tenho de me conter para não explodir) devemos falar de como conseguimos fazer uma revolução sem sangue e não apenas uma "transição" como queria o CDS hoje no seu discurso. Não se derramou sangue porque a cobardia do regime, o silêncio que ele fomentava, se virou contra ele e não lhe permitiu sequer esboçar uma reacção. Porque o regime caiu de podre. Porque o povo é soberano e é sempre quem mais ordena.

Mais do que falar de crise devemos falar de escolas e educação e cultura e de como podemos apetrechar o país com pessoas capazes, inteligentes, inovadoras, empreendedoras. Mais do que falar de crise devemos pensar em como podemos trazer de volta todos os portugueses brilhantes que vão para o estrangeiro dar o seu melhor a outros países, deixando para trás famílias, sonhos, paixões - Matsuo Bashô, o poeta japonês de haikai do século XVI descobriu que não é preciso fazermos viagens para nos iluminarmos - "nós somos iluminados onde estamos". Mais do que falar de crise devemos conjurar um sistema (socialista?) que nos permita ver mais além do que o empréstimo para a compra da casa ou o pagamento do IRS.

Com a aproximação das campanhas eleitorais crescem também as demagogias e as promessas ocas. Não nos podemos enganar. É preciso pensar no passado mais recente. No último período de 20 anos, desde a entrada na CEE: Cavaco Silva e o seu esbanjamento de dinheiros públicos que trouxe de volta a elite que dominava o país antes de 1974, Guterres e a sua irresponsabilidade pueril, Durão Barroso e a sua ascensão carreirista e traidora, Santana Lopes, o inqualificável com o seu amigo Portas - o dos submarinos, e Sócrates com as suas reformas autistas. É preciso pensar nestes senhores e não nos deixarmos enganar. Ou seja, votar em todos menos neles. E não apenas não votar. A abstenção não é solução. Quem não vota quer voltar a uma ditadura. E isso é inadmissível.


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Pedro Marques @ 22:47

Ter, 17/03/09

A todos os executivos que mantiveram Portugal em crise desde 1143 até hoje, muito obrigado.
Ou estou fortemente enganado (o que sucede, aliás, com uma frequência notável), ou a história de Portugal é decalcada da história de Pedro e o Lobo, com uma pequena alteração: em vez de Pedro e o Lobo, é Pedro e a Crise.
De acordo com os especialistas - e para surpresa de todos os leigos, completamente inconscientes de que tal cenário fosse possível - Portugal está mergulhado numa profunda crise. Ao que parece, 2009 vai ser mesmo complicado.
O problema é que 2008 já foi bastante difícil. E, no final de 2006, o empresário Pedro Ferraz da Costa avisava no Diário de Notícias que 2007 não iria ser fácil. O que, evidentemente, se verificou, e nem era assim tão difícil de prever tendo em conta que, em 2006, analistas já detectavam que o País estava em crise. Em Setembro de 2005, Marques Mendes, então presidente do PSD, desafiou o primeiro-ministro para ir ao Parlamento debater a crise económica. Nada disto era surpreendente na medida em que, de acordo com o Relatório de Estabilidade Financeira do Banco de Portugal, entre 2004 e 2005, o nível de endividamento das famílias portuguesas aumentou de 78% para 84,2% do PIB. O grande problema de 2004 era um prolongamento da grave crise de 2003, ano em que a economia portuguesa regrediu 0,8% e a ministra das Finanças não teve outro remédio senão voltar a pedir contenção. Pior que 2003, só talvez 2002, que nos deixou, como herança, o maior défice orçamental da Europa, provavelmente em consequência da crise de 2001, na sequência dos ataques terroristas aos Estados Unidos. No entanto, segundo o professor Abel M. Mateus, a economia portuguesa já se encontrava em crise antes do 11 de Setembro.
A verdade é que, tirando aqueles seis meses da década de 90 em que chegaram uns milhões valentes vindos da União Europeia, eu não me lembro de Portugal não estar em crise. Por isso,  acredito que a crise do ano que vem seja violenta. Mas creio que, se uma crise quiser mesmo impressionar os portugueses, vai ter de trabalhar a sério. Um crescimento zero, para nós, é amendoins.   Pequenas recessões comem os portugueses ao pequeno-almoço. 2009 só assusta esses maricas da Europa que têm andado a crescer acima dos 7 por cento. Quem nunca foi além dos 2%, não está preocupado.
É tempo de reconhecer o mérito e agradecer a governos atrás de governos que fizeram tudo o que era possível para não habituar mal os portugueses. A todos os executivos que mantiveram Portugal em crise desde 1143 até hoje, muito obrigado. Agora, somos o povo da Europa que está mais bem preparado para fazer face às dificuldades.

 

Ricardo Araújo Pereira

 

* Obrigado à mana Patrícia por me ter mandado isto. Gosto sempre de ler o Ricardo.




Pedro Marques @ 18:32

Sex, 30/01/09

Até podia deixar-me levar por todas as notícias infundadas e mal explicadas, podia fazer um esforço e não acreditar que tudo não passa de manobras para ter mais audiência que se aproveitam de fugas selectivas de informação e têm origem no sistema judicial. Podia fingir que não estava em Portugal e que este escândalo é mais uma confirmação de que o país foi mal governado e continua a ser. Podia pensar nisto tudo se não tivesse visto demais, se não tivesse ouvido demais, se não soubesse como é mesquinha a classe política e como a falta de escrúpulos a atravessa de uma ponta a outra, dos partidos às corporações, passando pelos comentadores da televisão até parar na elevada percentagem de incompetentes que ocupam cargos de responsabilidade no nosso país.

Os nossos telejornais são de um oportunismo absolutamente nojento e vergonhoso. Dantes as notícias diziam-nos o "o quê", "quando", "onde", "como", hoje elas começam por "deverá ter feito", "poderá ter acontecido". De cada vez que vejo um jornalista a usar este tempo verbal desconfio do seu profissionalismo, da sua ética, começo logo a pensar no que está por trás desta conjura. Quem é que o mandou dizer isto? Que é que lhe paga para ele fazer isto? A resposta é simples e não envolve nomes: o dinheiro.

É ele, o dinheiro, sempre ele, que faz com que eles digam estas coisas. Mas quando se diz "o primeiro-ministro poderá estar envolvido em..." estamos a levantar suspeitas, digam-me o que disserem. Será que a honestidade e idoneidade foram definitivamente compradas? Será que o facto de o dinheiro valer cada vez menos não vai fazer com que estas pessoas deixem de viver segundo a sua lei cega? Ponham-se a pau jormalistas, quando as coisas mudarem mesmo vocês serão os mais desprezados, os mais detestados, mudem enquanto é tempo...

O mais grave e, de alguma maneira, esquizofrénico, é que depois de os mesmos jornalistas fazerem notícias onde dizem que não há provas incriminatórias, a seguir ligam ao correspondente em Inglaterra para ele desenvolver mais um bocadinho a teoria do "poderá ter feito..."

Mas quando é que as pessoas começam a insurgir-se contra este bando de energúmenos que não fazem outra coisa senão levantar atoardas para beneficiarem com o dinheiro que pode vir das audiências? Quando é que nós vamos dizer que não, não acreditamos nessa merda, vão-se todos foder! É preciso ter muita falta de princípios éticos para fazer notícias destas. Atenção, eu não sou contra o jornalismo de investigação. Pelo contrário, sou muito a favor, mas aquilo que estes senhores fazem é jormalismo medíocre, tal como nos habituámos a ver desde que Portugal começou a fazer parte da Europa. Desde que os governos do senhor doutor Cavaco Silva fizeram o favor de promover a mediocridade em favor do profissionalismo e dedicação, desde que se promoveu a ganância do dinheiro à disciplina do trabalho, desde que se construiu auto-estradas em vez de escolas.

 

A nossa crise (crise?) não é de agora. Tem origem na promoção de uma sociedade que nos conduziu a um beco sem saída. Este mesmo que estamos a viver agora. Este beco sem saída era previsível. Como é possível pensar que se pode chegar a algum lado produzindo merda diariamente sem pensar sequer para que ela serve. Produziu-se, e ainda se produz, muita merda que não era preciso, consumiu-se muita merda que não era para se consumir. Estamos inundados de merdas inúteis, principalmente últimos modelos de uma centena de variedades de electrodomésticos e outros gadgets.

O mundo parece aquele glutão do filme dos Monthy Python que comeu várias dezenas de pratos e mal consegue mastigar. A sociedade estende-lhe agora a sobremesa. Será que ele vai aguentar? Eu não quero estar por perto quando a sua enorme pança rebentar. Vai cheirar muito mal...


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Pedro Marques @ 20:18

Qui, 08/01/09

Mais uma vez o primeiro-ministro foi à televisão, neste caso, à SIC, para falar do país. Mais uma vez tivemos oportunidade para fazer uma entrevista profunda e, como de costume, a oportunidade perdeu-se. Dois jornalistas que estão mais preocupados em fazer voz das polémicas que fazem aberturas de telejornais, arrogantes, intrusivos, que fazem perguntas para obterem respostas polémicas. Nada de extraordinário, já sabemos o que a casa gasta, mas às vezes podíamos ver um bocadinho mais longe. A maneira como interrompiam o entrevistado chegava a ser insultuosa para os espectadores, imaginem agora para a própria pessoa. Eu, às tantas, imaginava quando é que o Sócrates se levantava para lhes dar um par de estalos. Mesmo assim, e inevitavelmente, ficámos a saber coisas interessantes.

Vamos entrar em recessão, já não me lembro há quanto tempo não ouvia uma notícia tão boa. Eu explico. Estou desempregado. Pior não posso ficar. Para além disso, se arranjar um trabalho que me dê dinheiro as coisas vão ficar mais baratas. Não foi ele que disse que quem tem emprego vai ficar melhor? Os juros descem, os preços descem, que mais coisas boas podem acontecer? Aliás, para que é que queremos crescer mais? Queremos crescer para onde?

Crise? Para quem? Para a malta que tem muito dinheiro, fazia dinheiro com dinheiro e o tinha investido em acções duvidosas e agora ficou a arder...? Oh que pena. Quem trabalha e ganha dinheiro com o seu trabalho, estará melhor, e é isso que interessa.

Deflação. Quando havia inflação víamos isso como uma coisa má, agora temos a deflação que é o contrário e continua a ser mau? Expliquem-me por favor, porque não percebo.

Eu só quero saber se estamos a apostar na formação das pessoas. Estamos? Mais e melhores frutos virão. Estamos a apostar em energias alternativas? Ainda bem. Isso só pode ser bom a médio e longo prazo. São estas as verdadeiras políticas que interessam. É isso que o governo diz que faz. Mal? Bem? Talvez as duas coisas. Mas temos tempo para corrigir pormenores. Não temos é tempo para inverter essa marcha. Se por algum acaso se invertesse esta política de aposta na reforma da educação que, quer se concorde ou não, está a ser feita, isso seria avisado? Não me parece. Apostar na energia solar, eólica, explorar os recursos hídricos é mau? Não me parece.

O governo é bem intencionado, e mais do que isso, sabe bem aquilo que quer e o que pode fazer. A conjuntura internacional não é boa. Mas quando ela melhorar estaremos mais aptos se apostarmos nas coisas que realmente interessam: informação, formação, ecologia.

Só falta termos um Ministério da Cultura com política definida e vista como estrutural para a mudança que se quer fazer. Enquanto a Cultura (no sentido mais lato que se quiser dar - a sua articulação com a educação, a ciência) não for vista como meio de proporcionar aos cidadãos portugueses uma vida de qualidade, estaremos a desperdiçar os recursos que tão carinhosamente alimentamos na educação e ecologia. A criatividade dos portugueses tem de ser despertada, temos de acreditar que podemos fazer coisas diferentes e não apenas aquilo que já foi feito lá fora (como dizia o nosso actual Presidente da República quando era primeiro-ministro.).

Precisamos dessa coragem. A coragem de não ter medo da crise. A coragem da criatividade.  Não devemos ter medo do erro. Aliás, a crise não existe. A crise é uma finta deles, é uma mentira, mais uma, não devemos acreditar nela. Em crise andamos nós há muito tempo...

Desejo a todos um bom ano.