Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 00:26

Qui, 06/05/10

Puschkin, o meu boneco de peluche preferido, viajou para Itália à procura de calor.

Nem era meu. Sempre tinha vivido em países frios. Polónia, Bulgária, Estónia, República Checa. No último Verão foi a Moscovo, aventurou-se e escapou da bolsa da sua "companheira". Caiu da mala dela num dia de manhã. Ela, apressada, depois de dormir com ele, meteu-o na bolsa sem olhar e antes de entrar no elevador deixou-o cair. Puschkin já tinha decidido emancipar-se há muito tempo, aquela oportunidade pareceu-lhe demasiado tentadora. Deixou-se ficar. Quando caiu não disse ai nem ui. Deixou-se ficar. Ela entrou no elevador, ouviu-a dizer "откуда ты?", de onde vens? para um colega asiático que também descia e pronto. Ele ficou ali no chão. Desamparado.

Eu cheguei à entrada do elevador pouco depois concerteza, a fábrica abria muito cedo de manhã. Eu construía "aparelhos voadores". Foi há muito tempo. Ainda não havia a palavra "avião", ainda não tinha sido inventada. Mas nós trabalhávamos na fábrica. Nisso. Maneira de fazer aparelhos que voam por si próprios.

Quando vi Puschkin pela primeira vez, quando vi o seu pequeno corpo desamparado no meio do chão. O seu pêlo cortado rente, meio sujo, meio limpo, afinal, um boneco de estimação com uso, o meu coração derreteu-se de ternura. Eu sei, pode parecer infantil, deslocado, dissociado, ou sei lá, a única coisa que sei é que foi ele que me tirou da solidão em que me encontrava. Foi o meu amigo de Verão. Com ele aprendi a conhecer gente, aprendi a gostar de pessoas outra vez. Ele era divertido, sincero, ridículo, com ele qualquer pessoa estava à vontade.

Apesar do carácter aparentemente desmaiado, Puschkin é uma fonte de vida. Foi ele que conquistou Moscovo naqueles tempos. Quem não o conheceu não pode dizer que trabalhou naquela fábrica.




Pedro Marques @ 19:30

Dom, 01/02/09

Um dia, o Billy foi fazer exame. As perguntas eram difíceis. Não conseguia responder a todas. Espreitou por cima do braço do colega. Viu as respostas escritas no teste. Copiou-as para o seu. O professor viu-o a espreitar e copiar. O Billy não passou no exame e foi expulso.
Nessa noite, ele estava tão aborrecido que não conseguia dormir. Desceu as escadas e foi buscar um copo de água. Ao passar à porta da sala de jantar ouviu o pai planear com os amigos o incêndio da casa da esquina. Não gostavam do homem que lá vivia. A pele era diferente da do Billy e do seu pai. O Billy disse para consigo, ‘A espreitar outra vez! Devo dizer ao professor o que ouvi? Se contar ao professor, o homem que vive na casa da esquina fica feliz. Mas eu também fiz batota no exame porque queria passar e fazer o meu pai feliz. O meu pai diz que não tem um bom emprego porque nunca passou num exame. Mas se é errado fazer batota para tornar o pai feliz, deve ser errado fazer batota para o homem da casa à esquina ficar feliz. Não vou dizer nada.’ Mas ficou muito infeliz quando a casa ardeu. O homem também ardeu. Teve de ir para o hospital.
Ora, o filho desse homem era colega do Billy. Brincavam muitas vezes juntos. Mas o Billy já não gostava das brincadeiras. Ficava triste. Decidiu falar com o professor. Foi ter com ele e disse, ‘Eu sabia que o meu pai ía deitar fogo à casa. Não disse nada porque era fazer batota. Agora já não gosto de brincar.’
O professor bateu no Billy. O pai e os seus amigos foram parar à prisão. E claro que os colegas já não se sentavam ao seu lado. Olhavam todos para o Billy e diziam, ‘O que é que tás à espera? Vens de uma família de criminosos.’
O Billy cresceu. Foi trabalhar para um escritório do estado. Um dia encontrou muitos planos numa gaveta. Um dos planos era de uma cidade do país vizinho. Mostrava onde o seu país ía deitar bombas. No plano dizia-se que a cidade e tudo o que existia iriam ficar em cinzas. O Billy pensou na educação que teve. Decidiu avisar as pessoas do outro país de que íam ser queimadas. Pegou no plano e meteu-o num envelope. Um superior suspeitou e viu-o a pôr o plano no correio. O superior suspeitava dele por causa do seu passado criminal. Deram uma ordem especial ao carteiro para abrir a caixa do correio e entregar o envelope a um oficial de alta patente. O oficial leu o endereço do envelope e abriu-o. O plano estava lá dentro. O Billy foi morto.

 

Edward Bond, Fables. Minha tradução.
 




Pedro Marques @ 22:24

Seg, 16/06/08

- A sua pergunta é pertinente, disse o homem. - Você não tem máscara porque, se quiser, ainda pode vir a lembrar-se daquilo que o fez ser quem é. Não lhe garanto nada. Pode ser que nunca mais se lembre e também pode ser que se lembre e venha a usar uma máscara. Porque tudo depende da violência com que encarar o facto. A violência é importante para o caso. E neste caso ela significa mudança. Novo rumo. Vida nova.
- Que fazem estas pessoas aqui na escola?
- Aprendem.
Sentiu que estava a andar em círculos. As perguntas levavam-no sempre ao mesmo sítio. Agora tinha de saber quem era para evitar estas máscaras ridículas, inexpressivas como água. E mesmo assim não era garantido. Tentou descobrir o que estava no mais fundo de si.
Entrou num túnel muito comprido, sem portas desta vez. Era como um enorme tubo, isso. O chão era ligeiramente curvo, e as paredes também. Sentiu que as paredes eram formadas por uma matéria viscosa. Quase orgânica. O cheiro era intenso nesse sítio no fundo de si. E não era agradável. Nada daquilo fazia lembrar máscaras nem desejos profundos. Aborreceu-se, esventrou uma das paredes que sangrou com mel e saiu para o exterior.
Achou-se numa praia interminável à beira-mar, sentia a areia molhada nos pés, o contraste com o corpo suado arrepiou-o. Caminhou na margem por um bocado, o sol meio encoberto jogava às escondidas com o dia. As nuvens ocupavam-se com brincadeiras inócuas. O sol vencia sempre. Ninguém à vista, pensou ele. Será este o dia especial? Será este o dia em que vou ver aquilo que para mim reservaram os deuses? Ele acreditava que alguém algures, um dia, se revelaria a ele. Não é que fosse religioso. Mas acreditava que todas as pessoas têm um dia um encontro com algo que é realmente especial. Não pensava que fosse forçosamente um Deus. O sentimento podia ter outros nomes. Umas pessoas chamavam-lhe realização pessoal, outras amor, outras Deus, outras iluminação. Qualquer coisa especial, enfim. Ele acreditava que toda a gente tinha direito a essa manifestação momentânea de alegria. A esse instante fugaz de liberdade e alegria.
A praia cansou-o. Deitou-se à sombra de uns pinheiros que cresciam indiferentes à proximidade da água e à força do vento. Olhou as ramagens que pendiam como espinhos. O sol meio oculto brilhava agora com todo o seu esplendor. Semicerrou os olhos, ofuscado. Depois fechou-os.

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Pedro Marques @ 20:54

Sex, 28/03/08

Um homem deambula por uma rua de Marrocos, à noite. Ele não conhece a cidade. Por isso, aos grupos de jovens que vê, chama-lhes gangs. Um deles passa por ele. Veste um fato preto. Pára à frente dele, vira-se e barra-lhe o caminho. O homem do fato preto pergunta-lhe, ‘Quer que eu o mate?’ Não está nem zangado nem é violento. Como se o quisesse realmente ajudar. Claro, o outro homem desvia-se dele e apressa o passo. Mas o homem de fato negro segue-o. Ultrapassa-o mais uma vez, pára, vira-se, barra-lhe o caminho e, aparentemente, sem qualquer ofensa pergunta, ‘Quer que eu o mate?’ O homem apressa o passo mais uma vez. Não corre porque tem medo de chamar a atenção. É muito provável que alguns dos jovens dos gangs venham ajudar o homem do fato preto. O homem segue-o uma terceira vez, ultrapassa-o, pára, vira-se, barra-lhe o caminho e faz a pergunta. O homem apressa o passo. Mas desta vez o homem do fato preto não o segue e o homem chega são e salvo ao hotel.
Quando me contaram esta história eu estava com uns amigos. Começaram a tentar explicá-la. Talvez ‘matar’ fosse um código. Talvez significasse ‘Queres drogas?’ Talvez o homem do fato preto fosse homossexual e tivesse dito "beije" em vez de "mate" e o outro tivesse ouvido mal porque estava tenso. Talvez fosse um local especial para convites. Talvez significasse uma visita a uns certos bordéis. Talvez a morte fosse simbólica. Ou uma fantasia. Talvez o outro homem tivesse mesmo compreendido mal. E por aí adiante. Para mim, estas explicações estragaram a história. Explicavam-na mas não lhe davam significado. Suponham que a palavra foi mal ouvida ou mal compreendida — e depois? O facto é que o homem podia andar na rua e acreditar ter ouvido tal palavra. Talvez isto diga mais, não sobre Marrocos, mas sobre Manchester ou Chicago. O que é interessante é que o mistério da história projecta muita luz na realidade. Devemos evitar confusões e misticismos, mas isso não significa que as histórias não devam formar os seus próprios significados.

Edward Bond, Fables



Pedro Marques @ 11:44

Sab, 20/10/07

Elogio ao Amor

Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.
Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido.
Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo".
O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.
Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-socio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.
Amor é amor.
É essa a beleza.
É esse o perigo.
O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode.
Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um principio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária.
A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe.
Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém.
Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. É durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder.
Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.




Pedro Marques @ 23:55

Qua, 13/06/07

Tenho um amigo imaginário que não come senão um determinado prato de comida. É mono.
Não há nem preto nem branco, nem gradações, nem matizes. É bife. Ou é aquela comida certa ou então não come mais nada. É mono. Ele prefere passar fome até à próxima refeição do que comer outra coisa. Tem de comer bife. Não aguenta, começa com vómitos e manda-se para o chão a espernear como as crianças quando querem fazer birra. Um dia comeu uma dourada grelhada e ficou de cama seis semanas. Do trauma. Ele recusa-se a comer outra coisa que não seja aquele específico prato, que pode ter algumas ínfimas variantes (tanto mais insignificantes quanto o valor que ele põe no acto), porque não gosta.
É a ele que esta rubrica é respeitosamente dedicada. Intitula-se: UMA RECEITA PARA TI. Este seu "problema" - eu chamo-lhe problema porque não encontro outra palavra, se alguém tiver ideias, força...! - afasta-o irremediavelmente da variedade e surpresa da vida, tragicamente, por isso, a acompanhar a receita terei o prazer de incluir uma personalidade. Sim, como se tivessem sido essas pessoas a cozinhar estes pratos para o meu imaginário amigo.
Talvez ele assim não se sinta tão sozinho na sua mente mono...



O REI GÍPCIO POMPOSO orgulha-se de apresentar:
PURÉ DE CENOURAS À LA ADOLF HITLER

O chanceler descalça as botas e começa a descascar as batatas e as cebolas em quartos. A seguir raspa as cenouras, lava-as e depois corta-as em cubos. Quando está mais contente o grande ditador corta-as em tiras. Os alhos são descascados com a precisão de quem bombardeia uma cidade. Junta tudo numa panela como se juntasse milhões de judeus, excepto a hortelã, essa fica para o fim. Depois cobre tudo com água, imagina-se Noé a salvar-se do dilúvio, rega com azeite, tempera com sal e leva tudo ao lume. Depois dos legumes estarem cozidos pega na panela e reduz tudo a puré. A melhor maneira é numa batedeira, mas quando ele quer ser mais sádico usa um garfo. Com cuidado, porque os judeus ainda podem estar quentes. Quando é necessário ele junta mais água.
Lava a hortelã muito bem, põe a panela com o puré outra vez ao lume e tempera com um pouco de noz-moscada, sal e as folhinhas de hortelã, deixa ferver e tira do lume quando está pronto. O venerável ditador teutónico corta as fatias de pão em cubos pequenos, frita-os em óleo e dispõe-os nos pratos para acompanhar e decorar a sopa como se depusesse flores na campa de um semita. Mmmmm.
Estão a gostar?




Pedro Marques @ 15:17

Seg, 11/06/07

Em determinada cidade houve durante anos insuficiência de água. Isto causava doenças e todo o tipo de sofrimentos aos cidadãos. Havia grandes chuvadas todas as Primaveras e as pessoas viam silenciosamente o precioso rio de vida escorrer para as sarjetas que logo ficavam tão secas como ossos. Com o tempo construíram-se máquinas. Apareceram novas fábricas de fiação e fundição de ferro na cidade. Estes locais precisavam de mais água e os trabalhadores também. Os governantes eram homens práticos e filantrópicos. Utilizaram as máquinas novas para construir uma barragem nas montanhas a montante da cidade. A barragem recolhia toda a água que a cidade precisava. Infelizmente chegaram as chuvas da Primavera e o lago da barragem ficou demasiado cheio. Havia o perigo de que a pressão da água abrisse uma brecha e inundasse a cidade numa súbita destruição. A parede da barragem tremia como a mão de um homem doente. Isto aterrorizava os trabalhadores e alguns fugiram das fábricas e foram viver para os montes. Durante o pânico geral houve motins e saques. Os padres fizeram serviços especiais. Os donos das fábricas chamaram o governo para obrigar o cumprimento da lei e da ordem.
Quando os governantes da cidade tiveram a inteligente ideia de construir a barragem deviam ter sido suficientemente inteligentes para a fazer segura. Deviam ter sido construídos aquedutos para levar a água em segurança a toda a cidade ou até aos parques e praças, embelezando-os com fontes e lagos. Mas perceberam que havia pânico e medo de colapso. Nestas alturas os governantes não culpam a maquinaria da sociedade mas sim a gente. Eles viam o desastre como um teste ao espírito nacionalista. Portanto, em vez de reconstruir a barragem, os governantes chamaram os cidadãos para servirem a cidade fazendo sacrifícios: deviam beber mais água.
Foram organizados festivais de água. Esquadrões de beberrões patrulhavam a cidade. Os bons cidadãos eram sempre vistos a beber um copo de água. Eram concedidas medalhas àqueles que consumiam grandes quantidades. É surpreendente o que os indivíduos bem-intencionados e com espírito-de-grupo conseguem fazer nessas ocasiões. Houve um homem que bebeu cento e noventa litros de água por semana, durante três semanas, até se afogar internamente. Pediu para ser enterrado num banho. Lavava-se muito as pessoas e as coisas. As pessoas que não tivessem cortinas a pingar podiam contar com janelas partidas por grupos de jovens pioneiros chamados Os Bebés da Água. A cidade era um pântano e as pessoas andavam com roupas que tinham sido lavadas até ficarem em farrapos e dormiam em camas húmidas; havia muitas gripes. Os jornais publicavam listas de baixas diariamente. Estas listas mostravam enormes crescimentos nos casos de pneumonia. As pessoas sofriam também de água no joelho e no cérebro. Os degraus e as ruas eram lavados muitas vezes, por isso havia muitas pessoas que escorregavam e os serviços de primeiros socorros tinham de lidar muitas vezes com tornozelos torcidos e pernas e costas partidas. Claro que os feridos — que já tinham feito o sacrifício — já não podiam beber muito ou lavar-se muitas vezes. O fardo tornava-se mais pesado para os outros.
Nesta altura, muitos patriotas começaram a pegar fogo às suas próprias casas para os bombeiros o poderem apagar. Os leais também incendiavam edifícios públicos: galerias, museus e escolas. A nada era permitido impedir os esforços da cidade. A segurança social estava em perigo. Podemos dizer com segurança que a moral das pessoas nunca foi tão alta. E funcionava. O nível de água da barragem desceu. O extraordinário argumento foi usado contra os elementos de ruptura que perguntavam se não havia uma maneira mais fácil de controlar a barragem. A parede da barragem já não tremia. Os dissidentes eram conduzidos às janelas das celas para olharem e declararem que estava firme como uma rocha. Os meios de comunicação lembravam todos os dias às pessoas os tempos em que a barragem era chamada A Velha Paralítica e tinham vivido com medo d’A Explosão. As coisas iam bem. Para mais, nessa altura, o grande surto de hidropisia aparecia como grande revés ao regime. Esse revés foi seguido de outro: as pessoas começaram a rebentar. Os governantes até se perguntaram se as pessoas aguentariam. Ao olhar pela janela o governador via transeuntes a cair na rua e rebolar até às paredes das casas onde ficavam durante alguns minutos sem beber. Talvez houvesse fraquezas inerentes ao carácter nacional. Como podia uma nação destas sobreviver?
O próprio governante sentiu-se atingido com a luta contra a água. Decidiu dirigir-se ao povo — talvez, disse para si próprio, pela última vez. A Polícia da Água cercou os sobreviventes e juntou-os na praça principal. O governante ficou surpreendido com a exiguidade da multidão. Se as pessoas não estivessem tão inchadas veria que a turba ainda era mais pequena do que pensava. Enquanto o governante falava explodiram uma ou duas pessoas. Havia uma nova doença: uma febre que aquecia o sangue e fervia a água. Os que sofriam da doença exalavam grandes quantidades de vapor e emitiam assobios muito agudos que rompiam pelos ouvidos, boca, nariz e ânus, até os corpos rebentarem. O governante falou com muita dignidade, levantando a voz por cima dos gritos, arrotos, plops, mijos e explosões. ‘Caros concidadãos! Hoje de manhã recebi os números. O nível de água da barragem é tão baixo que — se sobreviver alguém — podemos assegurar três anos sem o perigo de ruptura na barragem. Aquilo que o futuro nos reserva depois, ninguém pode dizer, mas estamos seguros durante três anos — não interessa a quantidade de chuva que chova! Caros concidadãos, saúdo a vossa grande vitória! Que Deus nos abençoe!’ Ele próprio começou a sobreaquecer com febre patriótica e entrou em ebulição. Gritou e expeliu uma nuvem de vapor. A multidão contou até cinco antes de ele morrer. Enquanto as nuvens de chuva da Primavera se juntavam nos montes, a polícia da água infiltrou-se na multidão usando as novas engenhocas tipo bomba-mangueira que tinham sido recentemente introduzidas e que lhes permitiam enfiar água pela goela abaixo daqueles que, embora o desejassem, não conseguiam engolir mais.

Edward Bond, Fables.



Pedro Marques @ 23:49

Sex, 18/05/07

A CENTRAL (directamente roubado de um músico que às vezes serve de inspiração a muitas interpretações da vida e da morte)
ESCRUTINADORA ArpESENTA:


REI GÍPCIO POMPOSO


Eu sou o Órgão de Censura destinado a moldar as mentes mais obscuras do planeta - não sou liberal
essas tretas
não
há em mim um poder investido pelo sagrado coração do Arp.
Arp é deus.
"Arp" é deus.
Arp é a liberdade que temos de dizer Arp.
Por isso. Às vezes. Desviamos as palavras e tornamo-las "Arp" à nossa maneira. Tornamo-las Deus.
Deus vê tudo. Tá lá em cima.
(ou aqui em baixo).
Não estejam à espera de falinhas mansas
nem de más interpretações
A CENTRAL ESCRUTINADORA investida pelo poder que a terra e a própria electricidade lhe dá
decide que não há falinhas mansas
deixemos a violência para os outros
aqui só se "fala" de violência.
A CENTRAL ESCRUTINADORA "Arp" orgulha-se de ser a primeira forma de repressão não repressora.
O poder da "Arp" é o poder da curiosidade.
Toda a gente quer ser "Arp". A determinado ponto da vida, as pessoas, acham que podem fazer, bom - quase tudo. Depois não. Depois não somos Deuses. Somos homens. Quando deixamos de pensar "Arp", ser "Arp", somos homens. Nós só somos semi-deuses quando somos "Arp". Porque "Arp é a liberdade".
...
"Arp" é o nome de um instrumento de música. Vêem?
Liberdade.
A música. A harpa. Instrumento lindíssimo. Com um som divinal. Perto dos anjos. Estão a sentir-se melhor? Ouvem?
Estão a ver?
Anjos?
Vêem como é fácil ser "Arp". Sintam a luz a vir. Sintam a luz. - AAAAAAAAARP!
Estou quase no céu.
Esta coisa de imaginar o que queremos é,
bem
cansativa.
Mas recompensadora.
Porque agora podemo-nos lembrar de como era estar em "Arp" - AAAAAAAAAAAAARP!
Ah. Estou no meio da selva. Agora. Selva. Ok.
O que é que eu estou aqui a fazer? Ah.

(reza a "Arp")

cara memória que estás no recanto mais profundo do meu ser
vem a mim e ilumina-me
pois estou na escuridão pré-"Arp"
...
...
era um prédio
ou melhor vários prédios ligados uns aos outros numa forma estranha
tinha aquele correr, normal, de uns ao lado dos outros, mas depois nos pátios interiores criava-se um labirinto de carros, pessoas a ir e a vir, a entrar nos prédios
nesse tempo os carros eram menos frequentes e as brincadeiras espalhavam-se mais...
o nosso teatro dos sonhos não era a casa
era a rua
onde aconteciam coisas diferentes
onde éramos uns dos outros
e aprendíamos a estar com os outros
e às vezes corria bem
outras vezes corria pior para a nossa inocência
outras vezes vingávamo-nos, a nossa irmandade era moldada pela brutalidade das chuvas
a nossa normalidade era feita desse equilíbrio
a nossa sanidade era feita desses ciclos
que eram mais ou menos moldados pelos ventos e as chuvas
a proximidade do mar
os dias de calor de sol
quando de madrugada, o sol nasce e sabemos pela temperatura que vai estar um dia de muito calor
quero o calor dessas madrugadas outra vez
quando antecipamos o dia que há-de vir com a nossa pele
...
...


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Pedro Marques @ 18:15

Seg, 14/05/07

Era uma vez uma macieira que crescia num jardim e dava fruta podre: As flores murchavam e as pequeninas maçãs começavam a crescer podres. À medida que cresciam a podridão crescia também nelas. Eram murchas e moles e tinham um cheiro repulsivo. Havia manchas de pele castanha ou preta, míldio e pêlo branco que crescia nas manchas. Os corvos adoravam a árvore podre. Crocitavam e arrancavam bocadinhos com o bico. Até se podia pensar que depois de mandar examinar a árvore o dono a cortasse para que esta não infetasse as outras. Mas não foi assim.
As pessoas da aldeia ouviram falar da árvore e foram vê-la. A fama espalhou-se. Em pouco tempo começaram a vir pessoas de muito longe. Puseram-se sinais nos cruzamentos para que os peregrinos não se perdessem. As pessoas rezavam à árvore para que ela punisse os inimigos e matasse os rivais. Trouxeram doentes até à árvore: crianças entrevadas, velhos cegos, pessoas que nunca tinham dado um passo na vida eram transportadas em padiolas. Começaram as correr histórias. Que uma velha cega tocara na casca e passara a ver - embora uma escola de pensadores dissesse que ela tocou numa raiz que saía do solo. Construíram um muro à volta da árvore, para que essa terra não acabasse em poeira ou lama. Puseram guardas para impedir que os devotos arrancassem galhos e bocados de casca. Cortaram relíquias da árvore que venderam a preços altos a potentados, a mercadores ricos e a bispos de catedrais. O rei enviou cascas de árvores aos aliados como voto de especial fidelidade. Perto do Jardim da Árvore que Dava Frutas Podres havia um pomar de macieiras, ameixeiras e pereiras que foi cortado e queimado para fazer um parque de estacionamento. Construíram hotéis e o negócio prosperou. A aldeia cresceu e tornou-se cidade.
Vendiam-se imagens e modelos da árvore sagrada nas lojas - até nas padarias e mercearias. Cortaram-se bocados da árvore que depois se plantaram em locais especiais com templos para devotos e casa onde os guardiões da árvore podiam viver. O transplante era cuidadosamente regulamentado. Era tão bem feito que passados poucos anos muitos locais se podiam vangloriar de ter as suas próprias Árvores de Fruta Podre. Houve mesmo uma cidade que se vangloriava de ter um pequeno pomar de árvores dessas. Isto causou profundo constrangimento na cidade onde crescera a primeira árvore. Mas o dono da árvore era inteligente e disse aos seus concidadãos que não havia nada a temer. Quanto mais Árvores de Fruta Podre existissem, mais o espírito da nação se tornava Árvore de Fruta Podre. E quanto mais espírito Árvore de Fruta Podre havia, mais pessoas veneravam a Primeira Árvore de Fruta Podre. Mesmo depois de morrer e ser substituída por uma árvore nova as pessoas continuavam a venerar o local onde tinha crescido. Os concidadãos compreenderam — principalmente quando acrescentou que havia, apesar de tudo, pessoas dispensáveis.
Houve pessoas que começaram a ficar envergonhadas por ter macieiras onde crescia fruta boa. As esposas queixavam-se delas aos maridos. Bandos de jovens balançavam-se nos ramos para as partir. As Associações de Moradores enviavam cartas aos que as cultivavam e protegiam. Por todo o país se ouviu o som do machado a cortar. Quando deram cabo das macieiras boas começaram a cortar as pereiras boas, as ameixeiras boas e as cerejeiras boas. Arrasaram as canas de framboesa e todos os arbustos de groselha. Ninguém queria ser acusado de proteger árvores, arbustos ou moitas que pudessem ser vistos como insulto ao Grande Criador de Maçãs Podres e a todos os Menores Criadores de Maçãs Podres que foram criados. O dia escureceu e a noite iluminou-se de fogos que as consumiam. Havia Grupos de Acção de Lenhadores treinados no uso do machado, serrote e serra mecânica. Começaram a cortar mobílias. Primeiro cortaram a madeira de macieira. Depois, porque era difícil saber a árvore de onde vinha a madeira cortaram as mobílias feitas em madeira. Cortaram as portas, as molduras dos quadros, os portões de madeira, e todas as coisas de madeira — excepto as Macieiras Podres e suas relíquias. Prenderam um falsificador por enfiar castanhas podres numa árvore e ter reclamado o primeiro Castanheiro Podre. Depois de um julgamento espetacular — onde muitas mulheres desmaiaram e uma atirou uma caixa de serradura aos olhos do falsificador — e o juiz clamou em voz estremecida a descrição do perigo a que a juventude era exposta — o falsificador foi condenado e executado com arco e flecha no Dia Nacional da Maçã Podre diante de uma grande multidão que em sinal de desrespeito pela heresia sujara as caras, mãos, roupas e sapatos com polpa de maçã podre. O dia terminou com danças à volta da efígie do filho de William Tell, com uma réplica da histórica maçã podre na cabeça — o facto de que a maçã estava podre tinha sido estabelecido pelas pesquisas da Universidade mais importante do país. A música dessa dança era cantada por um coro de crianças vestidas de folhas de macieira.
O país estava num estado de alta prontidão. As pessoas dedicavam-se à adoração da Velha Pippin — era agora este o nome d’ A Primeira Macieira Podre (via Oráculo Maior). Os inimigos da Pippin viviam cheios de medo. Tremiam como folhas de choupo-tremedor. O governo declarou num comunicado religioso o fato científico: tanto as folhas como os ramos das Macieiras não tremem. A arte de cortar com o machado e serra é zelosamente ensinada nas escolas e nas Instituições de Lenhadores. No fim do dia de trabalho,
os trabalhadores são convocados e praticam o sentimento nacionalista durante uma hora. É verdade que a nação ficou sem árvores — a não ser as macieiras podres que, claro, são intocáveis. Até que ficou sem madeira — desde que os caixões foram removidos dos cemitérios em Acções Nocturnas Especiais. Não há mais nada para tombar. Como disse o Chefe dos Grupos de Acção a uma grande multidão de Lenhadores que vieram de todos os pontos do país e do estrangeiro, ‘Somos leais, devotos, treinados e ávidos de qualquer tarefa que nos mandais executar. Estamos prontos de machado na mão. Aguardamos a ordem do Chefe.’

Edward Bond: Jackets
tradução: minha
a ilustração é de um aluno da aula da Sra. Burrell na escola de Dahlgreen na Virginia, Estados Unidos da América




Pedro Marques @ 17:23

Sex, 23/03/07

– De onde vens? – Perguntou sem curiosidade.
Olhou para o homem como se a pergunta fosse surpresa. Mal se lembrava de si próprio. Só se lembrava… de percorrer um interminável labirinto naquilo que parecia ser um convento… tinha chegado ali… por pura inércia.
Antes disso, nada.
Ou melhor… aos poucos, enquanto titubeava, gaguejando a resposta ao seu interlocutor, passava em revista a memória, vislumbrava apenas pequenos clarões de certeza. Lembrava-se de um homem de aparência familiar que escondia qualquer coisa no meio do entulho. Dirigira-se a ele para desvendar o conteúdo secreto do saco de plástico. Por entre tijolos desfeitos e erva alta viu uma coisa preta brilhante. Lá dentro cresciam rebentos de raízes. Inúmeros fetos despontavam do meio do nada. O saco estava repleto de qualquer coisa fervilhante. Larvas, ou pura e simplesmente sémen, humano…?
Tudo isto lhe veio à memória num segundo apenas, antes de murmurar sem qualquer convicção.
– Do convento.
– Do convento? – Perguntou o homem.
Olhou para ele. Tinha a cara coberta com uma máscara. Só adivinhava o sentimento das suas frases pelo tom da voz. – No convento estamos nós. – Disse o homem num tom exasperado e ao mesmo tempo ameaçador.
– Estamos? Perguntou.
– Claro. Não vês todos estes aqui.
Olhou à sua volta. A escuridão que até aí obnubilara as suas respostas tornou-se então menos densa e pôde percorrer as paredes com o olhar. Estava de facto num convento ou algo parecido, sim, via os claustros, onde, à luz azul vultos encostados às paredes baixavam o olhar, os rostos inexpressivos pelas máscaras.
De um segundo andar alguém assomou à balaustrada e olhou fixamente para ele.
– Quem és tu? – Perguntou a voz lá do alto, sem mexer os lábios. O som repercutiu-se nos arcos e abóbodas, bateu nas paredes, ricocheteou como se estivesse dentro de um sino ou de um poço.
O homem máscara olhou para ele inquiridor.
Ele respondeu.
– … hã… eu sou… – e depois disse o seu nome. Como lhe soou estranho o nome. O homem empoleirado na varanda, parecido a um corvo, disse, enfático:
– Espera aí.
Ele engoliu em seco. Junto à parede da esquerda alguém se levantou e saiu da sombra. Dirigiu-se-lhe, enorme na sua capa que agora, à luz azul, parecia roxa, o capuz cobria-lhe a testa. Os olhos eram apenas duas fendas. A boca inexistente. Ouviu.
– Não sabes que tens de cobrir a cara? Aqui não há sorrisos nem lágrimas.
Levou instintivamente as mãos ao rosto. Sentiu a pele seca, escamosa. O grupo à volta era cada vez mais numeroso. Tentavam tocar-lhe. Mas podia apenas ser impressão. O que é que ele sabia? Os pensamentos era tão vagos como o éter. Tentou concentrar-se. Por que é que estou num convento?


O que é que me aconteceu?
Tentou lembrar-se outra vez do labirinto: corredores e mais corredores, escadas, becos sem saída, memórias aprisionadas e finalmente aquele pátio.
Podia já ter estado ali. Embora nada lhe fosse familiar. O único rosto de que se lembrava era do homem do saco. Olhou para cima. O homem da varanda já não estava lá. Decidiu esperar. Não era boa política contrariar uma máscara. Encostou-se à parede como os outros. À sua volta aglomeravam-se máscaras religiosas que pareciam cheirá-lo. Isto fê-lo aperceber-se de um doce cheiro a pêssego e sémen que havia no ar. Porquê sémen?
Dez minutos depois a agitação à sua volta cessou e decidiu sair.
O homem já tinha mais que tempo de ter descido. Os vultos das máscaras, pressentindo a intenção, começaram a perguntar todos ao mesmo tempo, “Onde vais? Não nos deixes aqui? Não podes sair. Se entraste não podes sair. Espera”.
Mas ele já não ouvia nada.
À direita um enorme corredor com paredes amarelas-creme espraiava-se com um tapete vermelho-língua até perder de vista. Ao fundo, uma janela. No exterior, nuvens-rosa, como num pôr-do-sol. O contra-luz da janela recortava as inúmeras figuras que nele caminhavam. Apressou o passo. Ouviu as advertências das máscaras cada vez mais longe e sentiu o cheiro mais ténue.
Antes da janela, virou à esquerda. Abriu uma porta e desceu três lances de escadas mal iluminadas. O silêncio era total agora. Abriu outra porta e entrou numa sala de espera: na parede um mostrador electrónico piscava o número 67. Ouviu-se um silvar e de seguida piscou o 68. Alguém se levantou. A sala ficou quase deserta. Para além de dois vultos à esquerda, sentados a um banco. Aproximou-se deles. Desta vez não usavam máscaras, mas os rostos eram… iguais. Olharam para ele e depois para o distribuidor de senhas: ele tirou uma. Era o número 69.
Ouviu-se um silvar. A porta abriu-se e ele entrou.
Atrás da secretária, sentado num cadeirão de pele preta, o homem da balaustrada.
– Ah! – Exclamou o homem sem olhar. – Bem vindo. Há algum tempo que o esperávamos. Tardou mas chegou. É o que interessa. Nunca é tarde para aprender.
– Aprender?
– Claro. Por que acha que aqui está?
– No convento? – Perguntou ele, agarrando-se à única coisa que sabia.
– Se lhe quer chamar convento… cada um é livre de…
– Não é um convento?
– Digamos que não é um local de reclusão. É apenas uma escola.
– Escola?
– Se quiser.
– E as máscaras?
– Quais máscaras?
– Lá em cima. Aqueles homens disseram que eu não podia mostrar…
– O quê?
– O rosto.
– Acreditou neles? – Perguntou o homem com malícia. – Usam máscaras apenas porque se esqueceram de quem eram. Nada de especial. Acontece a todos.
– Então não estamos num convento?
– Não.
– Eu também já me esqueci de quem sou?
– Já.
– Por que é que não tenho uma máscara, então?
A pergunta parecia-lhe óbvia. Agarrava-se à lógica da retórica para firmar a sua posição. Tentava ganhar tempo.
O homem sorriu atrás da secretária, recostou-se na cadeira, tirou os óculos e olhou para ele.
– Você é inteligente.


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