Puschkin, o meu boneco de peluche preferido, viajou para Itália à procura de calor.
Nem era meu. Sempre tinha vivido em países frios. Polónia, Bulgária, Estónia, República Checa. No último Verão foi a Moscovo, aventurou-se e escapou da bolsa da sua "companheira". Caiu da mala dela num dia de manhã. Ela, apressada, depois de dormir com ele, meteu-o na bolsa sem olhar e antes de entrar no elevador deixou-o cair. Puschkin já tinha decidido emancipar-se há muito tempo, aquela oportunidade pareceu-lhe demasiado tentadora. Deixou-se ficar. Quando caiu não disse ai nem ui. Deixou-se ficar. Ela entrou no elevador, ouviu-a dizer "откуда ты?", de onde vens? para um colega asiático que também descia e pronto. Ele ficou ali no chão. Desamparado.
Eu cheguei à entrada do elevador pouco depois concerteza, a fábrica abria muito cedo de manhã. Eu construía "aparelhos voadores". Foi há muito tempo. Ainda não havia a palavra "avião", ainda não tinha sido inventada. Mas nós trabalhávamos na fábrica. Nisso. Maneira de fazer aparelhos que voam por si próprios.
Quando vi Puschkin pela primeira vez, quando vi o seu pequeno corpo desamparado no meio do chão. O seu pêlo cortado rente, meio sujo, meio limpo, afinal, um boneco de estimação com uso, o meu coração derreteu-se de ternura. Eu sei, pode parecer infantil, deslocado, dissociado, ou sei lá, a única coisa que sei é que foi ele que me tirou da solidão em que me encontrava. Foi o meu amigo de Verão. Com ele aprendi a conhecer gente, aprendi a gostar de pessoas outra vez. Ele era divertido, sincero, ridículo, com ele qualquer pessoa estava à vontade.
Apesar do carácter aparentemente desmaiado, Puschkin é uma fonte de vida. Foi ele que conquistou Moscovo naqueles tempos. Quem não o conheceu não pode dizer que trabalhou naquela fábrica.
Um dia, o Billy foi fazer exame. As perguntas eram difíceis. Não conseguia responder a todas. Espreitou por cima do braço do colega. Viu as respostas escritas no teste. Copiou-as para o seu. O professor viu-o a espreitar e copiar. O Billy não passou no exame e foi expulso.
Nessa noite, ele estava tão aborrecido que não conseguia dormir. Desceu as escadas e foi buscar um copo de água. Ao passar à porta da sala de jantar ouviu o pai planear com os amigos o incêndio da casa da esquina. Não gostavam do homem que lá vivia. A pele era diferente da do Billy e do seu pai. O Billy disse para consigo, ‘A espreitar outra vez! Devo dizer ao professor o que ouvi? Se contar ao professor, o homem que vive na casa da esquina fica feliz. Mas eu também fiz batota no exame porque queria passar e fazer o meu pai feliz. O meu pai diz que não tem um bom emprego porque nunca passou num exame. Mas se é errado fazer batota para tornar o pai feliz, deve ser errado fazer batota para o homem da casa à esquina ficar feliz. Não vou dizer nada.’ Mas ficou muito infeliz quando a casa ardeu. O homem também ardeu. Teve de ir para o hospital.
Ora, o filho desse homem era colega do Billy. Brincavam muitas vezes juntos. Mas o Billy já não gostava das brincadeiras. Ficava triste. Decidiu falar com o professor. Foi ter com ele e disse, ‘Eu sabia que o meu pai ía deitar fogo à casa. Não disse nada porque era fazer batota. Agora já não gosto de brincar.’
O professor bateu no Billy. O pai e os seus amigos foram parar à prisão. E claro que os colegas já não se sentavam ao seu lado. Olhavam todos para o Billy e diziam, ‘O que é que tás à espera? Vens de uma família de criminosos.’
O Billy cresceu. Foi trabalhar para um escritório do estado. Um dia encontrou muitos planos numa gaveta. Um dos planos era de uma cidade do país vizinho. Mostrava onde o seu país ía deitar bombas. No plano dizia-se que a cidade e tudo o que existia iriam ficar em cinzas. O Billy pensou na educação que teve. Decidiu avisar as pessoas do outro país de que íam ser queimadas. Pegou no plano e meteu-o num envelope. Um superior suspeitou e viu-o a pôr o plano no correio. O superior suspeitava dele por causa do seu passado criminal. Deram uma ordem especial ao carteiro para abrir a caixa do correio e entregar o envelope a um oficial de alta patente. O oficial leu o endereço do envelope e abriu-o. O plano estava lá dentro. O Billy foi morto.
Edward Bond, Fables. Minha tradução.

Tenho um amigo imaginário que não come senão um determinado prato de comida. É mono.
O chanceler descalça as botas e começa a descascar as batatas e as cebolas em quartos. A seguir raspa as cenouras, lava-as e depois corta-as em cubos. Quando está mais contente o grande ditador corta-as em tiras. Os alhos são descascados com a precisão de quem bombardeia uma cidade. Junta tudo numa panela como se juntasse milhões de judeus, excepto a hortelã, essa fica para o fim. Depois cobre tudo com água, imagina-se Noé a salvar-se do dilúvio, rega com azeite, tempera com sal e leva tudo ao lume. Depois dos legumes estarem cozidos pega na panela e reduz tudo a puré. A melhor maneira é numa batedeira, mas quando ele quer ser mais sádico usa um garfo. Com cuidado, porque os judeus ainda podem estar quentes. Quando é necessário ele junta mais água.
Infelizmente chegaram as chuvas da Primavera e o lago da barragem ficou demasiado cheio. Havia o perigo de que a pressão da água abrisse uma brecha e inundasse a cidade numa súbita destruição. A parede da barragem tremia como a mão de um homem doente. Isto aterrorizava os trabalhadores e alguns fugiram das fábricas e foram viver para os montes. Durante o pânico geral houve motins e saques. Os padres fizeram serviços especiais. Os donos das fábricas chamaram o governo para obrigar o cumprimento da lei e da ordem.