Aproximam-se as eleições presidenciais e eu começo a ficar nervoso com a perspectiva de Cavaco Silva as ganhar outra vez. Uma das coisas que me entristece mais em Portugal é a ignorância e a falta de horizontes que leva pessoas ditas "normais" a votar nesse político que representa grande parte das coisas más que aconteceram a este país nos últimos vinte anos.
Cavaco, já se disse aqui neste blog, foi primeiro-ministro no final dos anos 80 princípios dos anos 90, numa altura em que o país foi inundado com dinheiro dos fundos estruturais da antiga CEE, investimentos de todos os países industrializados do Norte da Europa que viam o Sul como sempre viram: uma oportunidade para fazer mais dinheiro. E foi isso que aconteceu. Com as perspectivas de um futuro melhor, com carros última geração, as estradas, a desregrada construção imobiliária ligada ao turismo, os portugueses precipitaram-se a comprar aquilo para o qual não tinham dinheiro, endividando-se ao resto da Europa, ano após ano até ao descalabro financeiro. É neste momento que nos encontramos. Pensem bem, se toda a gente praticamente tem um carro comprou-o aos nossos vizinhos: à Alemanha, à Itália, à França, à Inglaterra e talvez ao Japão. Nós devemos esse dinheiro a esses países porque a nossa ganância, o nosso sentimento pequeno-burguês de querer subir na vida nos levou a fazer coisas para as quais não estávamos preparados. Há mais de vinte anos que tenho este discurso...
Cavaco é responsável por uma política de ruína do nosso país. As pessoas dizem que o país cresceu quando ele estava no poder. Sem dúvida. Cresceu mas à custa dos rios de dinheiro que foram canalizados para Portugal. Ele encarregou-se de destruir o nosso tecido produtivo (já débil, sem dúvida), desmantelando a indústria, negociando quotas de pesca que obrigavam pescadores a viver de subsídios, quotas agrícolas que obrigavam agricultores a terem de fazer o mesmo, enquanto compravam jipes, construiu estradas que eram precisas, sem dúvida, mas fechou centenas de quilómetros de linha férrea (mais barata, mais amiga do ambiente e menos lucrativa, claro, porque já existia). Foi isto que Cavaco fez.
Cavaco é um economista, um homem que não quer afrontar os nossos possíveis compradores de dívida. É um homem do stablishment tal como nós o abominamos. É um homem ligado ao dinheiro e apenas ao dinheiro. O seu polémico investimento no BPN em que ganhou milhares de euros não é insultuoso pelo dinheiro que lucrou mas sim pela posição de que se aproveitou para o fazer e diz muito do estilo de vida de uma pessoa que faz dinheiro com dinheiro (e que sem dúvida que está de acordo com o país que ele sempre quis). Fazer dinheiro com dinheiro não está ao alcance de todos os portugueses como ele disse ao ser entrevistado, nem toda a gente tem 100.000 euros para investir em aplicações. E o mesmo se pode dizer do país. Que dinheiro vai investir um país se estiver endividado? Cavaco pôs Portugal a viver num sistema para o qual não estava nem nunca esteve preparado, pelo simples facto de que não tinha dinheiro para investir. Cavaco fez aquilo que os países da Europa queriam, jogou o jogo deles, claro, como um belo aluno, ele chegou a ser elogiado pelos dirigentes europeus, ele nunca defendeu os superiores interesses do país tal como agora apregoa. Com ele, a capacidade de Portugal era apenas a de se endividar. E foi isso que aconteceu.
Cavaco é um embuste e agora prepara-se para parasitar a presidência da República por mais 5 anos. É tempo de dizer chega. Eu direi. Espero que mais de cinquenta por cento dos portugueses também o digam.
1.
O que é que fazemos aqui no mundo?
Pergunta grande, claro, mas a resposta não precisa de ser tão magnânima. A resposta pode ser prosaica, do dia a dia. Pode ser o olhar ávido de uma criança, essa resposta. Pode ser um aninhar-se debaixo dos cobertores a olhar para a televisão das duas da manhã. Para nós, está-nos reservado o enigma do saber. Podemos sentir a resposta, numa chávena de café num dia de frio, num passeio a dois pela costa, mas não a podemos dizer, porque assim que se diz, ela desaparece.
2.
A Coreia do Norte e a Coreia do Sul abriram outra vez a porta das hostilidades. Exercícios, tiros no mar, tiros numa ilha, mais quatro mortos. Em Portugal a Cimeira da NATO (novas estretégias... uuuuuu, que medo), na Ásia tudo à estalada, outra vez. Previsível. Felizmente que a China é ali ao lado. E a Rússia também. Aquilo não dura muito.
3.
Em Portugal, o Presidente da República e Candidato a Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, prepara-se para ser mais uma vez eleito. Será? Para mim o digo, se ele for eleito, esse facto constituirá mais um sinal do atraso do país. O actual Presidente já deu provas mais que suficientes de que é realmente um político, um verdadeiro político (escusa de fingir mais), um dos políticos mais astutos do país. Um homem que passa por entre as balas, com um discurso completamente inócuo e, ultimamente, com uma narrativa de esquerda que apregoa a tudo aquilo que ele nunca fez como primeiro-ministro. O senhor, devo dizer, com todo o respeito, é muito hábil, mas é uma lástima. Não está à altura do país que (sub)dirige.
4.
O mundo está na encruzilhada do capitalismo. Em plena encruzilhada. Exactamente no momento em que tudo começa a ruir. É um facto previsível. Toda esta corrida para lado nenhum, todos estes entusiasmos na direcção do consumo desenfreado só podem levar à catástrofe. Poderemos não a ver no nosso período de vida, mas é quase inevitável. O capitalismo começará a comer-se por dentro, quando o desemprego, que será crescente, devido às inovações tecnológicas, afectar as próprias pessoas que sustentam a economia. Quando deixarem de trabalhar em massa, não haverá nenhum sistema de segurança social que os poderá proteger. Eles serão demasiado pequenos. Se as pessoas deixarem de trabalhar, o dinheiro deixará de circular. Não haverá dinheiro na economia porque ninguém trabalha. Por seu lado, as grandes empresas, na ganância do lucro, despedirão cada vez mais empregados substituindo-os por máquinas. São duas tendências que inevitavelmente irão colidir.
Só que, depois, daqui a umas centenas de anos, chegará o dia em que as máquinas farão tudo por nós e nós não teremos de trabalhar para ninguém. Trabalharemos para NÓS. Trabalharemos sempre com um sentido colectivo. No dia em que as nossas necessidades básicas forem todas satisfeitas (energia, água, comida, casa) sem a necessidade do uso de dinheiro, nesse dia poderemos começar a disfrutar e a viver.
No dia em que Cavaco Silva anuncia a sua candidatura a presidente de todos os portugueses, não posso de deixar de postar aqui este texto de Daniel Oliveira para o Expresso - análise acertada e assertiva desse verdadeiro animal político...
Cavaco Silva apresenta hoje a sua recandidatura. Foi ministro quando eu tinha 11 anos. Pode sair da Presidência quando eu tiver 46. Ele é o maior símbolo de tantos anos perdidos. E aqui se fala das suas cinco encarnações.
Sem contar com a sua breve passagem pela pasta das Finanças, conhecemos cinco cavacos. Mas todos os cavacos vão dar ao mesmo.
O primeiro Cavaco foi primeiro-ministro. Esbanjou dinheiro como se não houvesse amanhã. Desperdiçou uma das maiores oportunidades deste País no século passado. Escolheu e determinou um modelo de desenvolvimento que deixou obra mas não preparou a nossa economia para a produção e a exportação. O Cavaco dos patos bravos e do dinheiro fácil. Dos fundos europeus a desaparecerem e dos cursos de formação fantasmas. O Cavaco do Dias Loureiro e do Oliveira e Costa num governo da Nação. Era também o Cavaco que perante qualquer pergunta complicada escolhia o silêncio do bolo rei. Qualquer debate difícil não estava presente, fosse na televisão, em campanhas, fosse no Parlamento, a governar. Era o Cavaco que perante a contestação de estudantes, trabalhadores, polícias ou utentes da ponte sobre o Tejo respondia com o cassetete. O primeiro Cavaco foi autoritário.
O segundo Cavaco alimentou um tabu: não se sabia se ficava, se partia ou se queria ir para Belém. E não hesitou em deixar o seu partido soçobrar ao seu tabu pessoal. Até só haver Fernando Nogueira para concorrer à sua sucessão e ser humilhado nas urnas. A agenda de Cavaco sempre foi apenas Cavaco. Foi a votos nas presidenciais porque estava plenamente convencido que elas estavam no papo. Perdeu. O País ainda se lembrava bem dos últimos e deprimentes anos do seu governo, recheados de escândalos de corrupção. É que este ambiente de suspeita que vivemos com Sócrates é apenas um remake de um filme que conhecemos. O segundo Cavaco foi egoísta.
O terceiro Cavaco regressou vindo do silêncio. Concorreu de novo às presidenciais. Quase não falou na campanha. Passeou-se sempre protegido dos imprevistos. Porque Cavaco sabe que Cavaco é um bluff. Não tem pensamento político, tem apenas um repertório de frases feitas muito consensuais. Esse Cavaco paira sobre a política, como se a política não fosse o seu ofício de quase sempre. Porque tem nojo da política. Não do pior que ela tem: os amigos nos negócios, as redes de interesses, da demagogia vazia, os truques palacianos. Mas do mais nobre que ela representa: o confronto de ideias, a exposição à critica impiedosa, a coragem de correr riscos, a generosidade de pôr o cargo que ocupa acima dele próprio. Venceu, porque todos estes cavacos representam o nosso atraso. Cavaco é a metáfora viva da periferia cultural, económica e politica que somos na Europa. O terceiro Cavaco é vazio.
O quarto Cavaco foi Presidente. Teve três momentos que escolheu como fundamentais para se dirigir ao País: esse assunto que aquecia tanto a Nação, que era o Estatuto dos Açores; umas escutas que nunca existiram a não ser na sua cabeça sempre cheia de paranóicas perseguições; e a crítica à lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo que, apesar de desfazer por palavras, não teve a coragem de vetar. O quarto Cavaco tem a mesma falta de coragem e a mesma ausência de capacidade de distinguir o que é prioritário de todos os outros. Apesar de gostar de pensar em si próprio como um não político, todo ele é cálculo e todo o cálculo tem ele próprio como centro de interesse. Este foi o Cavaco que tentou passar para a imprensa a acusação de que andaria a ser vigiado pelo governo, coisa que numa democracia normal só poderia acabar numa investigação criminal ou numa acção política exemplar. Era falso, todos sabemos. Mas Cavaco fechou o assunto com uma comunicação ao País surrealista, onde tudo ficou baralhado para nada se perceber. Este foi o Cavaco que achou que não devia estar nas cerimónias fúnebres do único prémio Nobel da literatura porque tinha um velho diferendo com ele. Porque Cavaco nunca percebeu que os cargos que ocupa estão acima dele próprio e não são um assunto privado. Este foi o Cavaco que protegeu, até ao limite do imaginável, o seu velho amigo Dias Loureiro, chegando quase a transformar-se em seu porta-voz. Mais uma vez e como sempre, ele próprio acima da instituição que representa. O quarto Cavaco não é um estadista.
E agora cá está o quinto Cavaco. Quando chegou a crise começou a sua campanha. Como sempre, nunca assumida. Até o anúncio da sua candidatura foi feito por interposta pessoa. Em campanha disfarçada, dá conselhos económicos ao País. Por coincidência, quase todos contrários aos que praticou quando foi o primeiro Cavaco. Finge que modera enquanto se dedica a minar o caminho do líder que o seu próprio partido, crime dos crimes, elegeu à sua revelia. Sobre a crise e as ruínas de um governo no qual ninguém acredita, espera garantir a sua reeleição. Mas o quinto Cavaco, ganhe ou perca, já não se livra de uma coisa: foi o Presidente da República que chegou ao fim do seu primeiro mandato com um dos baixos índices de popularidade da nossa democracia e pode ser um dos que será reeleito com menor margem. O quinto Cavaco não tem chama.
Quando Cavaco chegou ao primeiro governo em que participou eu tinha 11 anos. Quando chegou a primeiro-ministro eu tinha 16. Quando saiu eu já tinha 26. Quando foi eleito Presidente eu tinha 36. Se for reeleito, terei 46 quando ele finalmente abandonar a vida política. Que este homem, que foi o politico profissional com mais tempo no activo para a minha geração, continue a fingir que nada tem a ver com o estado em que estamos e se continue a apresentar com alguém que está acima da politica é coisa que não deixa de me espantar. Ele é a política em tudo que ela falhou. É o símbolo mais evidente de tantos anos perdidos.
Daniel Oliveira