"Depois de o ouvir não o conseguimos limpar da roupa. Deixa nódoa, como o café ou o sangue." Tom Waits
No dia 17 de Dezembro passado, morreu Captain Beefheart, pai da invenção do rock sem regras. Dizer que a música que ele fazia era experimental é reduzi-la a uma pesquisa académica, ler nos seus poemas apenas a influência da beat generation de Kerouac, Bukowsky e a pop de Warhol é negligenciar a importância extraordinária da sua obra que percorre as mais diversas áreas artisticas a que se dedicou - escultura, pintura, música, poesia.
Don Van Vliet nasceu em 1941, em Glendale, Califórnia, numa família de emigrantes holandeses. Cedo demonstrou brilhantes aptidões para a arte, começando por fazer esculturas e pinturas. Os pais, convencidos da sua precocidade, não o perturbavam, passando-lhe a comida pela entrada do gato, libertando-o para o seu mundo artístico. No liceu, tornou-se amigo de Frank Zappa, partilhando com este o amor pelo rhythm & blues. Na sua fase pré-Mothers, depois de comprar o Studio Z, Frank Zappa chegou a escrever um argumento de um possível filme, que viria a ser recusado, chamado Captain Beefheart vs The Grunt People.
Inicia a sua carreira na música com Safe As Milk em 1967, mas é em 1969 que grava aquele que é considerado uma das grandes obras-primas da música rock, blues, de sempre: Trout Mask Replica, produzido pelo seu amigo de escola Frank Zappa.
As histórias que rodeiam a gravação deste disco são inúmeras, desde as técnicas de gravação - os pratos e tímbales da bateria foram abafados com bocados de cartão, as estruturas harmónicas foram compostas por Beefheart umas horas antes, ao piano - Beefheart conta que nunca tinha tocado piano.
Durante os anos 70, Beefheart viria a gravar mais discos, que não ganhariam a reputação deste, mas o definiriam na área do delta blues, canções guarnecidas de poemas, onde o surrealismo brinca com os jogos de palavras e o dadaísmo irrompe a cada oportunidade. Terminaria em 1982 a carreira de músico para se dedicar à sua grande vocação de artista plástico. Ver aqui o filme que Anton Corbijn realizou sobre o seu trabalho.
Para trás fica uma obra na música que desafia todos os géneros por nunca admitir sequer a palavra género. A música dele é visceral, não se pode realmente definir em termos de etiquetas. Não é fácil de ouvir, nem ninguém pode esperar encontrar à primeira audição de um disco de Beefheart, algum tipo de apoio que lhe permita classificar a sua música.
É esse o grande trunfo dele - nada poderá alguma vez explicar o alcance de um verdadeiro artista. Nada consegue conter a verdadeira arte. Beefheart sabia disso, Van Vliet sabia disso. Nós sabemos disso.