Retomamos, para os que só agora chegaram, As Dialécticas Negativas das Habilidades do Caniche de Ben Watson, sobre a obra de Frank Zappa.
Dia em que soube da morte de Jimmy Carl Black (na foto). Baterista da primeira fase dos Mothers of Invention até 1969, índio do grupo, extremo bebedor de cerveja, formaria mais tarde os Geronimo Black e depois os Grandmothers que estiveram há poucos anos em Portugal. Morreu no dia 1 de Novembro. Tinha 70 anos.
PENSAMENTOS ONÍRICOS E O FIO DENTAL
No interior da capa de Lumpy Gravy alguém com orelhas de cão exclama “Maldição!” apenas porque foi dito ao compilador da lista de pessoas do coro para ‘omitir os apelidos’. A mesma personagem aparece como parte da multidão desordenada e decadente na capa de Tinseltown Rebellion. Em Ruben & the Jets a banda exibia os seus focinhos de cão (necessários para albergar o crescimento do cérebro desenvolvido pelo ‘mecanismo vocal grave’ do Tio Vianda (Uncle Meat). A canção ‘Dog Breath’ (Uncle Meat e Just Another Band From L.A.) é sobre ‘andar a cheirá-las’ (on the sniff), vaguear de carro à procura de membros do outro sexo. Em 200 Motels há uma cena onde os músicos se alinham como cães de caça de corrida em pequenas grades de partida antes de desatarem a correr atrás das groupies: cães e desejos baratos.
Mas é só depois de Overnite Sensation que somos convidados a seguir tais temas. Na adaptação para filme do libreto que acompanha Uncle Meat diz-se: ‘Tudo está calmo com excepção de um vento calmo. Viajamos pela estepe na direcção de um enorme dínamo hidro-eléctrico. O zumbido do dínamo aumenta à medida que nos aproximamos.’ ‘Dinah-Moe Humm’ de Overnite Sensation constrói uma retro-continuidade.
Overnite Sensation marca uma quebra epistemológica com o período da editora Bizarre: continuidades inconscientes surgem à superfície à medida que os protestos ‘contra-culturais’ explícitos são suprimidos. Os caniches surgem como tema explícito quando anteriormente tinha apenas estado presentes em detalhes crípticos, como fragmentos vulgares da memória – aquilo a que Freud chama os ‘resíduos do dia’ – que são usados por impulsos de desejo inconscientes e reprimidos e constroem os conteúdos oníricos latentes (mais uma vez condensados, deslocados e censurados antes de se manifestarem). Nos sonhos, as acções e os objectos da mais absoluta trivialidade (como palitos para os dentes ou pensos ou etiquetas) podem ser carregados de grande poder afectivo: é exactamente esta sensação que o zappólogo enfrenta quando analisa os discos do período Bizarre à procura de temas do período DiscReet.
Em Overnite Sensation o fio dental segue-se ao dínamo como assunto de uma canção. 200 Motels já o tinha mencionado:
CORO: Melodias antigas!
SOPRANO: Quatro-por-quatro! Uma aura!
CORO: Uma auréola!
SOPRANO: Pastilhas cor-de-rosa! Dentes cinzentos empastados! O fio dental... EXCITA-ME!
CORO: Mmmmmmmmmmm!
SOPRANO: Querem ver um filme sobre higiene dental?
No filme, à pergunta segue-se o ruído de um projector e de um filme em banda desenhada de Cal Schenkel, onde o Pato Donald representa um dentista. No disco, à pergunta segue-se ‘Magic Fingers’, a obra-prima de rock pesado de Zappa, que termina com Howard Kaylan a descrever os projectos que tem para a groupie que arrastou até ao quarto do hotel – actividades que incluem o despir das roupas, fazer poses com uma cadeira de plástico e a bandoleira de uma guitarra, fazer festas no cabelo e bater nela com um par de ténis do Jeff Beck. Antes da luta entre o diabo e o anjo pela alma de Jeff Simmons vemos uma fotografia de Zappa – os lábios e os dentes dançam. O ‘dilema da higiene oral’ é a ansiedade sobre o pecado: a resposta de Zappa, explícita em ‘Titties & Beer’, quando dá a volta ao diabo que estava entusiasmado por estar a vender a sua alma, é ‘por que não?’ Como disse Adorno:
O facto de que Sade e Nietzsche insistem, ainda mais que o positivismo lógico, no ratio (o racionalismo burguês) como factor decisivo, liberta implicitamente do seu buraco a Utopia contida na noção kantiana de razão, tal como em toda a grande filosofia: a Utopia de uma humanidade que não é distorcida, nem tem necessidade de ser distorcida.
Freud tinha a certeza de que os sonhos com dentes têm a sua força motivacional nos desejos masturbatórios do período da puberdade. Isto era porque, ao contrário de outras partes do rosto,
a única estrutura que não suporta nenhuma possibilidade de analogia são os dentes: e é precisamente a combinação de semelhança e dissemelhança que torna os dentes tão apropriados para propósitos representacionais quando a pressão é exercida por uma repressão sexual.
Nariz e boca são abertamente fálicos e vaginais, respectivamente, mas os dentes podem ser foco de impulsos masturbatórios. Isto parece uma exégese de ‘Montana’.
Acho que me vou mudar para Montana em breve
Só para plantar
Fio Dental...
Vou-me mudar para Montana em breve
Vou ser um magnate do Fio Dental (ah pois sou)
Vou-me mudar para Montana em breve
Vou ser um fagnate do Tio Mental.
Nas apresentações ao vivo, Zappa diz num àparte, ‘seja lá o que isso quer dizer’. Talvez se refira a Johnny ‘Guitar’ Watson, cantor negro e multi-instrumentista que constrói frequentemente canções inteiras regravando-se. Johnny Otis brincou na rádio com Watson dizendo que ele ‘brinca consigo próprio’. ‘Guitar’ Watson veste-se sempre com as roupas mais finas: um fagnate do Tio Mental? O próprio título contém o nome Onan (mONtANa), uma figura bíblica morta pelo Senhor por ‘espalhar a sua semente no chão’ e, como o Marquês de Sade e Sacher Masoch, deu o nome a uma inadequação sexual que, até ao momento, não tinha nome – o onanismo (depois de removermos ‘Onan’ a ‘Montana’ ficamos com as letras MTA que, quando lidas em voz alta revelam a frase ‘empty ei?’ (vazio) que podia ser um comentário a estes procedimentos).
Cavalgo num pequenino cavalo
(Ele chama-se PEQUENO GRANDIOSO)
Ele é um bocadinho pequenino
Para se lhe poder atar um cobertor ou uma sela seja como for
... Cá por mim eu não queria
Ter nenhum Patrão,
Só ia plantar o meu remoto
Fio Dental
‘Pequeno Grandioso’, um veículo que pode mudar de tamanho, é distintamente fálico. ‘Montana’ é uma canção sobre os prazeres solitários da masturbação.
O tema também força a melodia – como de costume, influenciada pelos ritmos das palavras – a atravessar algumas acrobacias bastante perversas. As marimbas de Ruth Underwood, que em concerto fornecem o som para as alucinogénicas ‘pinças cintilantes’, são simplesmente fantásticas. As letras de Overnite Sensation distraem muitas vezes as pessoas da música, que foi tocada por aquela que deve ter sido a melhor banda de Zappa. O próprio reconheceu a natureza especial desta época dos Mothers e dedicou todo um CD duplo a ela na série You Can’t Do That On Stage Anymore (Vol. 2 – The Helsinki Concert).
A maior parte de Overnite Sensation foi gravado no Bolic Sound em Inglewood, no estúdio de Ike e Tina Turner. Tina e as Ikettes dobraram vozes, mas Ike Turner não permitiu que elas fossem creditadas, por isso, na altura do lançamento, Zappa só falou de uma ‘possível’ colaboração. Mais tarde, ele explicou a situação a Simon Prentis.
Eu quis dobrar umas vozes naquilo, o director da digressão que estava connosco na altura ouviu a coisa e disse, “Bom, por que é que não usas as Ikettes?’ eu disse, “Posso usar as Ikettes?’ E ele disse, “Claro.” Mas sabes como foi a ginástica? Tínhamos de concordar, foi o Ike Turner que insistiu, que não pagaríamos mais de 25 dólares a cada miúda por canção, porque era o que ele lhes pagava. E não interessava quantas horas fosse, eu não lhes podia pagar mais de 25 dólares por canção, por miúda, incluindo a Tina.
Foi tão difícil que aquela parte a meio da canção ‘Montana’, as três raparigas ensaiaram durante dois dias. Uma parte apenas. Sabes aquela parte que é “I’m pluckin’ the ol’ Dennis Floss...’? Mesmo a meio. E – não me lembro do nome dela – uma das raparigas da harmonia, apanhou a coisa primeiro. Apareceu a cantar a parte dela e as outras raparigas tiveram de a seguir. A Tina ficou tão contente por ter conseguido cantar esta coisa que foi até ao estúdio do lado, onde estava o Ike a trabalhar, e o arrastou para o nosso estúdio para ele ouvir o resultado do trabalho. Ele ouviu a gravação e disse, ‘Mas que merda é esta?’ e saiu.
Não sei como é que ela conseguiu ficar com aquele tipo durante tanto tempo. Ele tratava-a muito mal e ela é uma senhora bastante simpática. Um dia gravámos a um domingo. Ela não estava envolvida na sessão, mas apareceu no domingo com uma panela de guisado para toda a gente do estúdio. Do nada, apareceu a Tina Turner com um trapo na cabeça e uma panela de guisado. Foi muito simpático.
A ideia de ter as Ikettes a cantar as reviravoltas diabólicas do coro de ‘Montana’ é um símbolo adequado da música de Zappa: verdadeiro R&B à pressão.