E pronto, quando toda a gente pensava que Barack Obama era perfeito, ele mata uma mosca para as câmaras e até se vangloria. Caraças, também que é que mandou à mosca importunar persistentemente o presidente do país mais poderoso do mundo...?
Este texto foi-me enviado há umas semanas por ocasião deste post. Acho-o tão pertinente e coloca tantas questões de um modo tão inteligente que decidi traduzi-lo. Espero que gostem...
Há algo de desesperadamente solitário no universo de Barack Obama. Temos o arrebatador sentimento de alguém que procura uma ligação, algo que ligue os seres humanos uns aos outros, um sentimento de comunidade e partilha, aquilo a que ele repetidamente chama de “bem comum”. Óbvio, isto nem sequer é novidade. Sabemos desde o seu discurso na Convenção Nacional Democrática de 2004 que “não há uma América negra e uma América branca ou América latina ou mesmo América asiática – há apenas os Estados Unidos da América.” A solução de Obama para a disseminada desilusão da política dos EUA é a reafirmação do acto de união. Isto só é possível se tornarmos a sentir a nação como uma comunidade. Que, por seu lado, precisa de acreditar no bem comum. Face à grotesca iniquidade, vulgaridade governamental, e anarquia generalizada, precisamos de “reactivar as ligações que temos uns com os outros.” A crença no bem comum é a única base da esperança. Sem crença, não se pode fazer nada. É esta a improvável e reconhecida base da motivação de Obama para chegar à presidência.
A óbvia crítica que se pode fazer é de que a política de Obama é governada por uma fantasia anti-política. Assenta no apelo ao bem comum, e que “ninguém está isento da obrigação de encontrar pontos em comum”; ou “não muito longe da superfície, acho, estamos a tornar-nos mais, e não menos, iguais uns aos outros.” Isto nasce, podemos pensar, da ilusão familiar de que se pode acabar com a política, instaurar um estado onde podemos pôr de parte as nossas diferenças, ultrapassar as dissidências e juntarmo-nos para sarar a nação. A mesma nostalgia de unidade percorre os discursos de Obama sobre a raça, o seu alerta para uma aliança negro-mulata e a sua declaração conciliadora de que “mal ou bem, a culpa branca já se encontra completamente exaurida.” Obama sonha com uma sociedade sem relações de poder, sem a confrontação que constitui a vida política. Contra esta posição podemos dizer que a justiça é sempre um concurso, um conflito, recusar esta afirmação é condenar os seres humanos a rebolar num qualquer bálsamo emocional de fusão. Podemos acrescentar que a fonte desta nostalgia de união é a sua ausência. Queremos acreditar ansiosamente, porque não acreditamos e não podemos. A ânsia do bem comum nasce da recusa para aceitar que os americanos tenham, talvez, muito pouco em comum, para além dos elementos de uma, ocasionalmente, bem sucedida religião civil, baseada numa ligação sentimental, e às vezes lacrimejante, à Constituição e uma crença na sabedoria quase divina dos Pais Fundadores.
Face à presidência ultra-política de George W. Bush – o volumoso prolongamento de poder executivo e o prosseguimento de políticas do medo baseadas na identificação de um inimigo moralmente mau – não é difícil entender a popularidade da visão anti-política de Obama. Contra as certezas messiânicas de Bush II, Obama promete um regresso ao liberalismo beato onde tudo é visto como consenso. Estamos num mundo onde as boas e velhas deliberações democráticas substituem a decisão e onde a oscilação do debate civil substitui o absolutimo religioso. A democracia não é uma casa que deve ser construída mas “uma conversa que se deve entabular.” Depois de oito desastrosos anos de um imenso desgoverno, de segredos e mentiras, parece-nos um projecto absolutamente benigno.
Claro que nos podemos perguntar como é que a eliminação, de Obama, de relações de poder no universo da política se coaduna com as suas crenças no conflito do capitalismo, na competição e no efeito salutar dos mercados livres. Podemo-nos perguntar, também, como é que uma posição política dessas poderá lidar genuinamente com a pobreza. Mas eu não quero ir pelo mesmo caminho da crítica clássica do liberalismo, onde as políticas são eliminadas em favor de uma divisão da ética, por um lado, e da economia por outro, e a primeira é o véu da hipocrisia usado para apaziguar a violência da última. Nem sequer proponho uma crítica a Obama.
Em vez disso queria descrever esta perplexidade, que não sou o único a experimentar. O que me fascina é que aquilo a que podemos chamar a subjectividade de Obama, de como ela forma a sua visão política; de como isto pode começar por explicar o seu encanto extraordinariamente popular.
Depois de ver inúmeros discursos e ler cuidadosamente as suas palavras, não faço nenhuma ideia de quem é Barack Obama. É muito estranho. Quanto mais se lê e ouve maior é o sentimento de opacidade. Peguemos em A Audácia da Esperança: lemos o estilo fácil, informal e descontraído da prosa de Obama. Fala em ir ao ginásio, encomendar um hamburguer de queijo, planear a festa de aniversário da filha e de todas as outras coisas. Combina declarações de princípio e linhas gerais de política com uma narrativa autobiográfica de modo fluente e atractivo. Contudo, não deixo de me perguntar. Quem é este homem? Não que haja alguma coisa sinistra. Apenas porque, ao ler Obama fui arrebatado por um sentimento de distância, e quanto mais sincera é a prosa, mais distância sinto. Ele confessa muito cedo que não é pessoa que se deixe levar pelas coisas. Às vezes preferia que fosse. A ira é a emoção que produz movimento, a disposição que leva o sujeito a agir. Talvez seja a primeira emoção política.
No coração de A Audácia da Esperança está alguém que vive à distância, alguém distanciado de si próprio e dos outros que anseia por uma ligação, um compromisso que o ligue a todos os outros americanos e ligue todos os americanos. Há um verdadeiro terror do vazio em Obama, um horror da solidão e do nada. Ele procura um compromisso incondicional que molde a sua subjectividade e preencha o vácuo. Ele deseja contacto com alguma plenitude, uma experiência de realização que apazigue o seu sentimento de solidão, preencha o isolamento, silencie a infinita dúvida, e mitigue o sentimento de abandono. Parece encontrar isto no cristianismo, falarei dele a seguir.
Mas esta opacidade talvez seja o génio político de Obama: que é precisamente o carácter enigmático, inerte de Obama que parece gerar o desejo de nos identificarmos com ele, e até mesmo de o amar. Talvez seja esse o sentimento de distância interna que as pessoas vêem nele e também em si próprias. Obama reconhece esta capacidade numa declaração profunda e intrigante, quando escreve, “eu sou um ecrã vazio onde pessoas de áreas políticas completamente diferentes podem projectar as suas visões.” Ele é um espelho que reflecte aquilo que o observador quiser ver. De alguma maneira a nossa solidão e dúvida se fundem e clarificam com a dele. O desejo de união de Obama com o bem comum junta-se ao nosso. Nesse momento, e talvez apenas nesse momento, nós acreditamos, nós esperamos. É um êxtase estranhamente comedido, mas apesar de tudo um êxtase.
O lirismo ocasional da prosa de Obama possui grande beleza. As suas dúvidas sobre a sua função de pai e marido no capítulo final de A Audácia da Esperança são tocantes e honestas. E quando termina o livro, como um jovem Rousseau, a dizer que “o meu coração está cheio de amor por este país,” não vejo nenhum cinismo. Só que Obama escreve e fala com a visão do antropólogo, com o sentimento de que não participa no mundo do qual tanto quer partilhar. A experiência é sempre sentida a grande distância.
A passagem em A Audácia da Esperança que tanto põe em evidência a distância como complica o problema que quero formular é a morte da sua mãe, de cancro, quando tinha cinquenta e dois anos e Obama trinta e quatro. Ele escreve, por uma vez, com uma chama de intensidade directa e sentida: “Vi mais de uma vez o medo a cruzar-lhe o olhar. Mais do que medo da dor ou do desconhecido, era a pura solidão da morte que a assustava, acho – a noção de que na viagem final, na aventura final, não teria ninguém para partilhar experiências, ninguém com quem se pudesse maravilhar com a capacidade que o corpo tem de ministrar dor a si próprio, ou rir com o cru absurdo da vida assim que o nosso cabelo começa a cair e as glândulas salivares deixam de funcionar."
A mãe dele era antropóloga. Morreu como antropóloga, com um sentimento de distância para com os outros e uma inabilidade para partilhar e comunicar a dor. Talvez seja esta a raiz do terror do vazio de Obama. Mas para o compreender, temos de nos virar para o seu discurso sobre a religião.
Por que é que precisamos de religião? Obama reconhece que as pessoas se viram para a religião porque querem “um arco narrativo para as vidas, algo que as alivie da solidão crónica ou as eleve acima do labor cansativo e inexorável da vida quotidiana.” A alternativa é clara: niilismo. O último significa “viajar por uma longa autoestrada na direcção do nada.” A religião satisfaz a necessidade de realizar algo, uma transcendência que preenche o vazio. O caminho de Obama na direcção do cristianismo joga contra este pano de fundo de respeitosa distância da sua mãe antropóloga.
Como muitos de nós, Obama vira-se inicialmente para aquilo a que ele chama de “filosofia política” quando precisa de ajuda. Ele procura confirmação para os valores que herdou da sua mãe (honestidade, empatia, disciplina, gratificação posterior e trabalho árduo) e um modo de os transformar em sistemas de acções que “possam ajudar a construir a comunidade e tornar a justiça real.”
Sem surpresa, talvez, também como muitos de nós, ele não encontra resposta na filosofia política mas apenas ao confrontar um dilema que a sua mãe nunca resolveu. Ele escreve: “Os cristãos com quem trabalhei reconheceram-se em mim; viram que eu conhecia o Livro, partilhava os seus valores e cantava as canções. Mas também sentiram que uma parte de mim permanecia destacada, afastada, era um observador no meio deles. Percebi que sem uma artéria para as minhas crenças, sem um compromisso inequívoco a uma comunidade de fé em particular, ficaria condenado, de certo modo, a permanecer só, livre da mesma maneira que a minha mãe o foi, mas isolado da mesma maneira que ela ficou isolada no final."
A liberdade, para Obama, é a liberdade negativa do compromisso que deixou a sua mãe sentir-se isolada e só, uma solidão que culminou na morte. É a liberdade do vazio. Ser antropologicamente respeitador de todas as fés significa não se comprometer com nenhuma e ficar a vaguear sem âncora que preserve as crenças mais profundamente enraizadas de cada pessoa. Ter essa âncora pode ajudar a ultrapassar o sentimento de isolamento e resolver o dilema da sua mãe é aderir ao cristianismo. Mais especificamente, é apenas através do compromisso com a histórica igreja negra que Obama pode encontrar esse sentimento de pertença e realização. Culmina com a sua adesão à Trinity United Church of Christ do pastor Jeremiah Wright da zona Sul de Chicago. Seja o que for que pensemos dela, a absoluta centralidade da cristandade negra americana no arco da narrativa de Obama é aquilo que torna a relação conflituosa com o pastor Wright tão intrigante e importante. No fundo, tudo se resume à relação entre as palavras proféticas (de Wright: “Deus condene a América”) e a actividade governamental (de: “O meu coração está cheio de amor por este país”).
Aquilo que é certo em relação à adesão de Obama ao cristianismo é a sua escolha, uma escolha racional e objectiva e não uma conversão baseada em qualquer revelação pessoal. Insiste que “o compromisso religioso não precisa que abandone o pensamento crítico... foi um escolha e não uma epifania; as questões que eu tinha não desapareceram magicamente.” Embora prossiga e acrescente que “senti o espírito de Deus a acenar-me,” trata-se de um compromisso religioso descomprometido e frio, sem qualquer rasto de arrebatamento ou elevação epifânica. Não posso deixar de sentir que a fé de Obama anseie uma experiência de comunhão que se contraponha à distância e isolamento que procura ultrapassar. Por exemplo, quando não tem a certeza do que há-de dizer à sua filha sobre a questão da morte, diz, “Pergunto-me se lhe devia ter dito a verdade, que não tinha a certeza do que acontece quando morremos, nem que não tenho a certeza onde fica a alma ou o que existiu antes do Big Bang.”
Tal cepticismo sobre assuntos metafísicos é suficientemente compreensível e tem uma raiz filosófica bastante antiga. Mas onde é que nos deixa, e onde é que deixa a questão da crença, pedra angular de Obama de toda a campanha presidencial? Voltamos onde começámos, com o bem comum. Obama quer acreditar no bem comum como meio de proporcionar uma realização em vida que nos impeça de resvalarmos para o niilismo. Mas às vezes não sei se ele sabe mesmo o que quer dizer crença e o que significaria manter essa crença. Parece tudo tão distante e opaco. A presença persistente do dilema da mãe – o sentimento de solidão, dúvida e abandono – parece razoável e indestrutível. Temos de acreditar, mas não conseguimos acreditar. Talvez seja esta a tragédia que alguns de nós vêem em Obama: uma mudança em que podemos acreditar e o destruidor pensamento de que nada irá mudar.
Simon Critchley, a partir de declarações proferidas na American Political Science Association de Boston a 30 de Agosto e na New School em Nova Iorque a 18 de Setembro. Critchley é coordenador da cadeira de filosofia na New School. O mais recente trabalho de Critchley, The Book of Dead Philosophers, deverá sair em breve na editora Vintage. Tradução: minha.
- Sim, nós fazemos. Pronto. O Barack Obama lá ganhou. Estamos todos mais ou menos esperançosos. Todos menos os mais cépticos. Não todos.
- Ele que não se ponha a pau não...
- Pois. Há sempre esses.
- Ele que não comece a andar como o Papa em cabines de vidro à prova de bala.
- Achas que o vão matar?
- Não é um bocado céptico também achar que ele vai morrer.
- Talvez.
- Não querias assistir a uma nova revolução industrial?
- Revolução?
- Sim. A revolução industrial-eco. Ecológica. Já estamos no meio dela. Ainda não reparaste nas ventoinhas todas espalhadas pelos montes? Qualquer dia levantamos voo. E os carros híbridos? O Obama vai libertar a América da dependência do petróleo e liderar o mundo outra vez.
- Só se fala nisso. Nele.
- É o novo Jesus Cristo.
- (sinceramente) Achas?
- 'Tás a brincar?
- Não. 'Tou. Estou a brincar.
- É verdade que ele já construiu qualquer coisa. É verdade que ele é tanto preto como branco. É verdade que ele representa o sonho.
- I have a dream.
- Yes we can.
- Yes we did.
- É verdade que até os republicanos gostam dele.
- É verdade que fomos entupidos até aos olhos com propaganda dele.
- Yes we can.
Sim. Nós podemos. Espero que consigam. Não quero ser nem céptico nem optimista no que diz respeito a esta eleição nos EUA. Ela só se vai definir no tempo.
Mas uma coisa é certa, pior que isto, pior que o beco sem saída a que o capitalismo sem escrúpulos nos conduziu, só mesmo a guerra, a barbárie, ou uma sucessão incontrolável de catástrofes naturais.
Por isso, só nos resta acreditar. Acreditar sem fé. Acreditar nas capacidades dos homens. Daqueles que (como o Obama fez) ajudaram os outros, os mais necessitados, que esperam construir um país a partir de baixo. Um país para o povo e pelo povo. Foi ele que disse. Parecia um socialista.
É realmente irónico se o Obama vier a ser o primeiro presidente socialista dos Estados Unidos da América.
- Já viste se a Sarah Palin fosse um dia presidenta deles?
- Era pior que o Bush.