O DIA DO TEU ROSTO
Na praia olho ao longe a outra praia
A ilha onde vivias
Como um génio bom na minha adolescência.
As suas casas baixas, curvadas pela sombra atroz
Do tempo, deitadas
Contra as rochas da minha ansiedade,
Abrigavam-nos os sonhos, a leveza dos músculos.
O teu segredo de mim, dos nossos corpos.
Uma praia, um corpo, quarenta anos depois.
Entre crianças ricas
De artefactos
Entre pais que não sabem nadar
E trocam entre si bolas e bolos
Com a música dos Anjos no ouvido
E as pernas magras de través
Contra as indecências
O teu rosto surge vindo do branco da espuma
Brilha no azul do céu, e deixa-me
De rastos.
Mas nunca foi assim.
Medito eu
Por detrás dos óculos de sol.
Nada foi sereno no teu rosto.
As tardes arrastavam as suas cobras
No chão raso do sexo,
Eu levantava as mãos enfeitiçado
E tu tremias.
As colunas da lei quebravam-se
Ao anoitecer
E os dois só a nós dois
Obedecíamos.
O mar nesse tempo era maior, a areia
Cobria-se de luzes fátuas.
E deus,
Os seus discípulos,
As suas mais severas servidoras.
Empurravam-nos para o fundo
Das vagas e dos limos.
Eu dava-te o coração
Indolente
Como um barco
E tu já do outro lado apertavas o rosto
Fechavas uma vez mais
O porto do teu corpo à minha
Língua.
Dormias, dormias, sempre me disseste.
Inocente, dormias.
Teu rosto, como o vidro na água,
Reflecte agora o outro
Na crista destas ondas imensas,
Imersas
No teu túmulo.