Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 22:56

Seg, 17/12/07

Olhar para uma civilização distante como a japonesa, tentar perceber-lhe as razões e os valores poderá ser uma tarefa tão difícil como tentar moldar uma pessoa a um fato desajustado que tem de vestir.
Também não podemos esperar perceber em poucas palavras e em termos gerais comportamentos e emoções que demoraram séculos a serem alicerçados, a história de cada cultura tem mais pormenores do que à primeira vista podemos pensar. O comportamento de cada cultura é uma imensa filigrana que só é percebida na totalidade por quem a habite ou nela mergulhe. No entanto, há traços gerais que podem ser entendidos e que nos podem dar uma ideia de como ela se organiza e os valores básicos pelos quais se rege.

As obrigações – o Gimu e o Giri

No Japão, qualquer indivíduo que nasce está em permanente débito. Esta condição não é em si mesma vista como vergonhosa, como aos nossos olhos ocidentais podia parecer. É uma condição base que pressupõe uma série de pagamentos que, eles sim, podem identificar se um homem é virtuoso ou não. Esta condição de pagamento pressupõe dois lados: o lado do que recebe o pagamento – que o identifica como On – e o lado de quem paga – o Gimu e o Giri. Aceita-se portanto um On e deve-se o pagamento de um Gimu ou de um Giri.
Gimu quer dizer literalmente “dever” e diferencia-se do Giri pelo carácter perene da sua definição. Esta obrigação é devida aos superiores hierárquicos, o Imperador, em primeiro lugar – onde adopta o nome de Chu – e aos pais – o Ko (ambas palavras chinesas). São pagamentos ilimitados (até ao suicídio se necessário for), perenes e obrigatórios.
A obrigação devida aos pais estrutura a relação familiar, e é comum os mesmos pais interferirem na vida familiar dos filhos. Estas ingerências são aceites, mas não sem constituírem focos de descontentamento tácito que se traduzem, por exemplo, no ditado das Coisas Odiosas, que no Japão inclui os “terramotos, os trovões e os Velhos (chefes da casa, os Pais).” Também é frequente e normal que a nora e a sogra sejam antagonistas na família. A sogra acha que a nora não preenche os requisitos do filho e a nora suporta a condição com submissão. Mais tarde tornar-se-á com naturalidade uma sogra tão exigente como a que conheceu. Daqui se pode imaginar o resto da filigrana que se estende e torna precipitadas algumas análises ocidentais.
Embora sejam limitativas, as obrigações filiais não se estendem às outras gerações de antepassados ou à família mais afastada, são apenas devidas aos parentes mais próximos – pais e avós – aqueles de quem se lembram em vida. Não há palavra para definir a obrigação dos pais para com os filhos porque se pagam as obrigações para com os antepassados reproduzindo nos filhos os cuidados que se receberam. As obrigações são transmitidas por via directa: se um pai acolhe um sobrinho na sua família, ele deve ser adoptado legalmente como filho, senão não será observada a condição Gimu.
Desde o século XII até meados do século XIX, o Imperador não tinha poder executivo no Japão, o país era governado por clãs – os Xógunatos – por isso o Chu devido ao chefe administrativo era a mais alta obrigação. Depois da restauração de 1868 (Meiji) e no final de uma guerra de cerca de cem anos que opôs os homens fiéis ao Imperador – que reclamavam que o Chu era devido apenas ao poder supremo – e os Xóguns do clã Tokugawa, o Imperador passou a congregar toda a população à volta de uma entidade única, de relevo e dignidade inquestionáveis. As suas aparições eram raras e sempre encenadas. Ninguém podia olhar directamente para ele. Mais do que uma pessoa com poder, ele era preservado como um símbolo. Mas apesar dos inúmeros intermediários e acesso difícil todo o povo mantinha uma relação directa com o Imperador: todos os súbditos “aliviam o coração do Imperador” através da obrigação suprema – o Chu.
O Giri constitui um pagamento de carácter diferente. O conceito por trás da palavra é definido por “caminho de rectidão; estrada que os seres humanos devem seguir; algo que se cumpre a contragosto para evitar explicações ao mundo.”
Dentro do Giri devem distinguir-se dois tipos: o “Giri para com o mundo” (um conjunto de obrigações sociais para com os semelhantes) e o “Giri para com o nome” (o dever de conservar a honra).
O Giri pressupõe um código de conduta que deve regular todas as relações inter-pessoais, sejam elas familiares ou profissionais. Contudo não se devem entender as regras como uma série de preceitos morais. Quando alguém é obrigado a um pagamento por força do Giri muitas vezes fá-lo contra o seu sentido de justiça. Se alguém recusar o pagamento do Giri será visto como alguém que não conhece os códigos de conduta e por isso cobrir-se-á de vergonha. Este pagamento constitui um modo de se equilibrar o mundo. Muitas vezes a tradução de Giri é a de alguém que está “em conformidade com a opinião pública.”
Para ver o Giri em relação ao próprio nome devemos perceber que os insultos são vistos da mesma maneira que as virtudes. Para o japonês, a agressão só existe fora do círculo do Giri. Quando se limpa o nome através do Giri, não se é culpado de agressão, trata-se de um ajuste de contas: o mundo está virado ao contrário e cabe a essa pessoa pô-lo de novo em equilíbrio.
Estas categorias hierárquicas e obrigações são assinaláveis como se pôde constatar, mas entram muitas vezes em conflito na vida real.

No caso analisado – o filme A Espada do Samurai – assistimos a uma série de acontecimentos que reflectem este sistema de obrigações mas que de algum modo nos podem parecer contraditórios.
É o caso do Samurai que a mando do chefe da aldeia tem de matar um seu companheiro de armas por este (diz-se) ter traído o clã. Neste caso o Gimu devido ao chefe que dá a ordem sobrepõe-se a qualquer obrigação e mesmo que lhe custe ele terá de cumprir a ordem. Ao mesmo tempo, a mulher do Samurai visado oferece-se ao chefe da aldeia para que ele poupe o marido. A promessa do chefe não é cumprida porque o Samurai é morto pelo seu amigo. Contudo, o Samurai que cumpre a ordem reconhece depois que o chefe da aldeia não cumpriu a promessa que fez à esposa do amigo. Por isso, e por estar em dívida para com o companheiro de armas – no passado o amigo deixou-o vencer um combate em frente a todo o clã, com todo o reconhecimento e importância que daí advém – o Samurai decide assassinar também o chefe da aldeia cumprindo deste modo um “Giri para com o nome” que se soprepôs ao Gimu devido ao chefe da aldeia.
A dificuldade de descodificação destas obrigações é produto da distância que sentimos ao olhar para esta escala de valores que a princípio nos parece estranha. O que não pode deixar de ser evidente é que essas diferenças em relação aos nossos modos, são determinadas por uma cultura secular e fazem parte de um código de conduta e de valores enraízados que não fariam sentido se fossem aplicados noutro sítio do mundo por qualquer absurda lei; tal como o nosso modo de pensar e agir estão determinados por outras leis que aos olhos dos orientais poderão parecer absurdas.
Quando se descobrem os diversos mecanismos de estruturação de diferentes sociedades temos de perceber que eles sempre lá estiveram, em permanente mutação, e fazem parte dessas sociedades da mesma maneira que um fato é feito à medida para uma determinada pessoa.



Trabalho para a disciplina de Antropologia das Artes Performativas. A exposição do mesmo incluía a apresentação de um excerto do filme citado - A Espada do Samurai.