A confusão à volta de Amy Winehouse avoluma-se. Não basta ser uma das melhores cantoras da actualidade. Uma das mais bem sucedidas e talentosas artistas. Tem a vida feita em pedaços. Mas porque estamos nós ao seu lado sempre?
Filha de família judia dos subúrbios do Sul de Londres, cedo viu o que lhe estava reservado no que diz respeito ao amor e à fidelidade - aquelas coisas que nos comem por dentro... o pai enganava a mãe com a que viria a ser sua segunda mulher. Tenho a certeza de que a vida não foi fácil para ela. E continua a não ser.
Seja como for, os discos que grava são uma pedrada no charco estagnado da água fedorenta que é a música de editoras hoje em dia. Será, talvez, espero, uma das últimas cantoras que levam milhões de jovens a comprar discos e ao mesmo tempo encher os bolsos da malta das editoras, que, como todos sabemos, só existem para parasitar e destruir carreiras de músicos.
Os seus dois discos Frank (2003) e Back in Black (2006) são um primor de arranjos e bom gosto. E a voz dela, sublime. A música vagueia entre o rhythm & blues dos anos 60, com metais e vozes a funcionar como instrumentos harmónicos e a batida dúbia dos anos 90. Um dos seus maiores hits "Rehab" é exemplo.
Amy Winehouse não dá grandes berros como a Celine Dion ou outras que tais, não pode, mas também não precisa, a clareza da sua afinação, o modo como vagueia por cima do tempo da música deixa-nos suspensos sempre à espera de uma resolução que só chega quando realmente ela se cala. A sua boémia, a sua poesia genuina do copo de gin, não bebe nos bastidores de Tom Waits, mas sim na veia de Billie Holiday e na permanente graça com que nos feria o coração.
O primeiro concerto que vi de Winehouse, pela televisão, o famoso em Portugal que começou 40 minutos atrasado, foi uma revelação para mim. Toda a gente achou que ela estava bêbada, que não cantou nada, que a voz estava acabada, etc. É verdade, talvez. Mas para mim foi mais do que isso, para mim foi mais importante vê-la a chorar enquanto cantava de modo sublime "Love is a Losing Game".
Eu gosto do folclore de se cair para o lado em palco. Tenho ternura e simpatia, por muito que também me custe ver, por todas aquelas vezes que o Jim Morrison se esfrangalhou em palco, por aquela vez que vi o António Manuel Ribeiro em coma alcoólico a cantar os 'Cavalos de Corrida' em Oeiras, pela gritaria insane de Janis Joplin, por todos os drogados de palco. São momentos de profunda intimidade que os artistas, de alguma maneira, querem partilhar. Ainda que seja decadente. Ainda que seja profundamente pueril e egocêntrico. Mas o amor é assim. Digo eu.
Amy Winehouse é um pássaro que vive em liberdade, desesperada por o seu companheiro estar numa gaiola. Não se sabe o que veio primeiro: a dependência e depois os problemas, ou os problemas e depois a dependência. Também não interessa. O que vale a pena é seguir os seus passos. É ampará-la na sua dor. E fazer isso não é apenas comprar os seus discos. É defender a sua vida, o modo como decidiu viver a sua vida de tatuagens e promessas por cumprir. Ela é o último baluarte das nossas verdades em constante movimento. A sua voz é uma sirene de alerta para a nossa hipocrisia.
É por isso que todos aqueles que se limitaram a ver no concerto dela apenas a decadência de uma diva, mesmo assim não conseguiram justificar porque razão estavam tão indignados. Ao mesmo tempo que não se aguentava em pé e balbuciava desculpas por a voz não estar boa (que não é a primeira vez que a vejo fazer isso) a música e a capacidade de sugerir todo um mundo, com as suas fraquezas e virtudes, o nosso mundo, belo e canino, todas as nossas tretas e verdades insofismáveis, essa languidez que se escapava da sua voz, o descomprometimento da voz e as lágrimas na garganta embargada, esse fluir tem vida própria e escapa-se de tal maneira dela que nem que quiséssemos poderíamos medir a sua vastidão - tears dry on their own.