Em 1909, depois de pintar
A Amazona e ver o quadro ser recusado pela pessoa que o tinha encomendado - a Baronesa Marguerite de Hasse de Villers -, Amedeo Modigliani mudou-se para um novo estúdio, desta vez com pátio, e começou a dedicar-se à escultura. Podemos perguntar-nos se este episódio terá sido determinante para o desenvolvimento estético da sua obra ou se a necessidade que ele sentia, descrita pelo artista Curt Stoermer (“um impulso tremendo de esculpir”) acabaria, de alguma maneira, por vir a prevalecer na sua vida artística. Não saberemos. O que é certo é que nesta altura Modigliani se sentiu definitivamente atraído pelas esculturas antigas e pela simplicidade totémica que delas emana:
Cabeça (1911). Elas, de facto, correspondiam também a alguma da pintura que ele já tinha realizado. Auto-retratos onde as figuras assumiam contornos quase religiosos e simbólicos, influenciados pelo vigor impressionista de Cèzanne e Toulouse-Lautrec e a psicologia de Munch.
Amedeo Modigliani nasce a 12 de Julho de 1884 em Livorno, na Itália. Cresce no seio de uma família judaica com problemas de dinheiro. O negócio familiar de madeiras e carvão abre falência e a mãe tem de contribuir para o rendimento da casa com traduções da poesia de D’Annunzio. O mais novo dos seus quatro filhos contrai febre tifóide aos catorze anos e num delírio sonha com o destino artístico. Abandona a escola e recebe lições de pintura de Guglielmo Micheli na Academia de Arte de Livorno.

Aos dezoito anos inscreve-se na Scuola Libera di Nudo em Florença. O seu percurso de artista começa nesta estadia na cidade do Renascimento e o seu fascínio continuaria com as visitas a Veneza e mais tarde a Paris. Apesar dos estudos de pintura serem quase rudimentares, a obra do italiano estaria muito próxima, não só dos mestres de outrora, como da vanguarda emergente no princípio do século.
Embora os quadros dele dêem relevo ao bi-dimensional, fundados em desenhos, e se afastem das perspectivas amalgamadas do cubismo de então, podemos constatar que esta depuração não está assim tão longe da vanguarda cubista. Os quadros de Modigliani, os seus rostos fusiformes, os membros alongados, os olhos amendoados, como em
Retrato de Leopold Zborovski (1918) ou
Casal de Noivos (1915/16), estão próximos de quadros charneira do cubismo como
Les Demoiselles de d’Avignon de Picasso.
Modigliani procurava nos quadros e na depuração lírica que perseguiu na escultura, uma forma que exaltasse a beleza. A poesia e a escultura exerciam enorme influência sobre ele. Dizia-se que andava sempre com livros de poesia no bolso, entre eles
Chants de Maldoror de Lautréamont.

Vagueou por Paris ao sabor da boémia, haxixe e mulheres. Em 1911 expõe a sua escultura no ateliê do pintor português Amadeo de Souza-Cardoso. Aos poucos vai retornando à pintura que abandonara por volta de 1909 e ao seu estilo depurado, próximo das esculturas que tinha realizado,
Retrato de Jean Cocteau (1916), e volta-se para os retratos. Os seus quadros serão mais do que nunca uma simbiose amorosa e apaixonada entre o pintor e as pessoas retratadas. Aquilo que emana das personagens pintadas é uma calma e uma placidez que contrastam com a época em que se vivia – plena Iª Guerra Mundial.
Em 1917 Modigliani prepara a única exposição a ser inaugurada pelo próprio artista. Trata-se de uma série de trinta nus. A exposição seria censurada pelas autoridades por se ver os “pêlos da púbis” –
Nu Feminino (1916) – como contaria mais tarde Berthe Weill, a dona da galeria que havia sido chamada a depor ao comissário da polícia.
Não deixa de ser paradoxal e bastante sintomático que um artista tão votado ao belo, ao estudo de formas clássicas, arrebatado pela simplicidade e profundamente sensível, que evitava deliberadamente qualquer arte provocatória, tenha visto a sua exposição censurada.
De facto, sentia-se que o artista se queria afastar o mais possível do dia-a-dia, do quotidiano infectado de cadáveres e notícias de batalhas e explosões. A arte e os seus quadros procuram uma contemplação e meditação quase divinas. As figuras retratadas estão centradas como que numa posição expectante.

É por esta altura que Modigliani conhece a sua futura companheira, Jeanne Hébuterne, com quem viverá até ao final da sua vida e de quem terá uma filha. Jeanne Hébuterne será um dos seus temas recorrentes, ao pintá-la cerca de vinte e cinco vezes –
Jeanne Hébuterne – A Mulher do Artista (1918). Em 1918, por causa da ameaça de invasão de Paris, inicia-se um êxodo de milhares de pessoas, entre as quais, a família Modigliani e os Zborovskis seus amigos, que fogem para o Sul de França. Modigliani pinta efusivamente camponeses e toda a espécie de pessoas que pede para posarem. O retrato
O Pequeno Camponês (1918), não mostra fielmente aquele camponês em particular, mas sim todos os camponeses. O artista não está preocupado com o realismo. Escreveria no seu caderno: “Aquilo que procuro não é o real nem o irreal, é o inconsciente, o mistério do que há de instintivo na raça humana.”
Nos seus últimos quadros Modigliani mostra que a preocupação com a cor se começa a afirmar. Torna-se mais audaz no seu uso e os quadros possuem um equilíbrio mais tenso e afirmativo.
Seria o seu canto do cisne. Amedeo Modigliani morre em Janeiro de 1920, aos 36 anos, após complicações motivadas pela tuberculose. No dia seguinte a sua companheira suicida-se deixando a filha de ambos à irmã de Modigliani. A filha seria autora de um livro sobre o pai:
Modigliani, o Homem e o Mito.
Modigliani deixou-nos uma obra arrebatada, plena de sensualidade e vibração pela vida e por todas as suas manifestações de amor e beleza.