Alejandro Jodorowski é poeta, realizador, encenador, actor, psicomágico, nasceu no Chile em 1929 e vive actualmente em Paris. A sua obra cinematográfica começa a ser reconhecida nos anos 60 com a realização do filme
Fando e Liz, 1968, a partir da peça de teatro de Fernando Arrabal. Seguir-se-á o estranho
western, El Topo, em 1970, e finalmente
A Montanha Sagrada, em 1973, filme produzido pelo manager dos Beatles Allen Klein.
Quando me aconselharam o filme eu não sabia realmente o que me esperava. Tinham-me dito que era estranho, sem dúvida, mas nada me podia preparar para aquilo que o filme reservava.
O plano de abertura diz-nos mais sobre o que iremos assistir do que aquilo que à partida podemos pensar. Um homem todo vestido de preto, com um chapéu estranho – cruzamento de um capacete de soldado espanhol do século XVII e cartola do século XX – despe e corta o cabelo a duas mulheres, iniciando-as de algum modo no universo do filme. Pela estranheza do cenário que os envolve também nós nos sentimos como aquelas mulheres – e deste modo refractado também nos iniciamos na imagética do filme e estamos irremediavelmente agarrados.
O que se seguirá será um caleidoscópio fiérico de imagens que nos conduzem a vários níveis – metafórico, literal, imagético, onírico, mas quase nunca – e esta é uma vantagem – a nível narrativo. A condução da personagem principal – o ladrão que se assemelha com Jesus Cristo – é feita através de episódios apocalípticos, imagens brutais e fios narrativos inconscientes.
Este ladrão, encontrado por um ser sem braços nem pernas é levado por uma turba de miúdos para ser crucificado e apedrejado. Quando acorda, na cruz, consegue afastar o grupo de miúdos enfurecidos, mas faz um amigo. Com ele irá para a estranha cidade onde camiões transportam montanhas de corpos, donas de casa passam a ferro, na rua, roupas manchadas de sangue, esquadrões de fuzilamento com máscaras de gás fuzilam asiáticos que escorrem sangue preto... Toda a cidade é um exagero dadaísta, surreal, profundo, da sociedade contemporânea. Finalmente assistimos ao circo dos sapos e camaleões onde é representada a Invasão do México pelos espanhóis. O ladrão ajudará com o seu amigo na representação desta invasão que conclui com o rebentamento de petardos que fazem em pó a cidade antes habitada por camaleões.

Depois de ser reproduzido aos milhares num molde em tamanho real na posição de crucificado – tal como Cristo – prosseguirá a sua viagem numa torre aonde subirá cavalgando um anzol – isso mesmo, leram bem, um anzol. Nessa torre encontrará o ambiente para se tornar uma outra pessoa. É o início do processo de auto-conhecimento que levará a personagem à montanha sagrada onde reconhecerá que afinal não é mais que um homem de papel manietado pelo realizador do filme.
A segunda parte do filme, mais narrativa e menos brutal em termos de imagens procura atingir o espectador através do uso do humor e da ironia com a história das diversas personagens (ladrões com profissões bem definidas) que acompanham o ladrão original e o ajudam na sua epifania.
Nada do que se possa escrever sobre o filme lhe renderá a justa homenagem.
Trata-se de um filme único de um realizador único e original.
Absolutamente inolvidável!
