
A cultura é uma criação racional da natureza humana, a implementação do racional em todas as actividades humanas, económicas, políticas, sociais, públicas e privadas. A cultura conjuga tecnologia, ciência e organizações políticas e económicas e relaciona-as com o nosso ambiente de modo a que possamos continuar as nossas vidas e as possamos expandir social e humanamente. Deve mostrar-nos como vivemos e como devemos viver para que tenhamos futuro. Quando usa o mito não o pode fazer pelas mesmas razões que Platão, mas sim como hipóteses a serem consideradas para assuntos ainda não completamente compreendidos.
A nossa espécie deve obrigar-se à racionalidade da sua natureza porque a irracionalidade é um estado de decomposição acelerada que leva à destruição. Mas mesmo que não fosse assim, um homem deixado apenas aos seus instintos só podia usar uma pequena quantidade das suas capacidades. Podia apanhar raízes durante uns tempos mas nunca poderia construir uma fábrica. Os instintos não produzem cultura. A cultura nasce no vazio da natureza humana – o cérebro aberto, a consciência que se desenvolve exponencialmente, a capacidade de pensar que precisa aprender de um modo tão disciplinado como lúdico.
Como é que o artista aprende a criar cultura? A tecnologia diz-nos aquilo em que se pode trabalhar e a política aquilo que é possível, numa determinada altura. E como a maior parte dos cientistas não são loucos e a maior parte dos políticos não são maníacos pelo poder, o artista compreende necessidades políticas e simpatiza com compromissos políticos, tal como goza dos benefícios da tecnologia.
Mas a cultura não é feita destas coisas apenas. Todos temos imaginação criativa e essa imaginação é usada, entre outras coisas, para compreender a arte. Acho que a imaginação criativa está relacionada com a racionalidade e através dela aos valores humanos. Não conheço nenhuma “arte” fascista – livro, filme, quadro ou qualquer outra coisa – que não seja ridícula ou de mau-gosto. Mais tarde falarei sobre a arte. Agora só quero deixar bem claro que ela só pode ser racional e ter um significado e propósito sociais.
A cultura é o modo como a sociedade satisfaz as suas necessidades primordiais, não é qualquer coisa adicionada posteriormente, por isso não é um verniz que as pessoas bem-alimentadas e seguras adicionam à vida como se fosse um luxo. A cultura é aquilo que a pessoa é e aquilo que lhe acontecerá. É a causa e a consequência da sua vida diária. A arte ajuda a acompanhar a criação da cultura e reflecte o passado e o futuro no presente. Sem qualquer forma de imaginação criativa provavelmente não conseguiríamos ser seres humanos, não porque não seríamos simpáticos e civilizados, mas porque não conseguiríamos funcionar biologicamente de maneira a nos mantermos sãos e criarmos um futuro para a nossa espécie. A imaginação criativa é um elemento necessário na cultura, e sem ela somos animais sem natureza, sem sequer a mera segurança de pertencermos à natureza: não uma espécie moldada pela selecção natural, mas apenas as vítimas de um caos ignóbil que criámos.
A arte é normalmente vista como experiência privada. Isto reporta-se ao século XIX, a primeira época que tentou tirar a arte às massas. O século XIX desenvolveu-se para os lados, não foi uma mútua cooperação entre tecnologia, política e arte essenciais à cultura. É claro que grande parte da arte não atinge o seu objectivo. Mas a honestidade do objectivo pode ser reconhecida no rigor intelectual ou quando não se lhe junta nada de falso que sirva para a tornar maior ou mais sensacional.
Há uma especialidade na arte tal como há na política e na tecnologia. Só se torna constrangedor quando o artista demonstra que é especialista num mundo melhor. Mas é um especialista a descrever este mundo, e toda a arte é realismo. Nós somos produto de circunstâncias materiais e não há lugar na arte para misticismos ou obscurantismos.
A arte é ilustração, iluminação, expressão da racionalidade – e não algo primitivo, obscuro, um instinto primordial ou coisa do género. A ciência pode operar irracionalmente mas a arte nunca pode, porque tem de mostrar o que está a fazer sempre. A verdade está escrita na sua cara. É isso a arte. Mas temos de aprender a ver, e ensinar arte é quase tão importante como a fazer. O comandante da SS não lia Goethe, admirava-se a ler Goethe.
A arte não pode ser julgada pelas imagens literais que cria – é esse o perigo da propaganda, seja da Royal Academy, seja da Esquerda. Temos mesmo a certeza que a maior parte dos artistas sabe em que circunstâncias gostaria de ter produzido propaganda do tipo mais directo e simples? A propaganda pode ser boa arte. Um retrato de Rembrandt bem observado é um cartaz de propaganda. Mas a propaganda deixa de ser arte quando se torna duplicação mecânica de imagens. Então, vulgariza a informação que veicula e produz perplexidade.
A sinceridade é elemento necessário na arte, um artista religioso contemporâneo num Estado revolucionário pode ser sincero. Mas o
kitsch também é sincero. A arte é então avaliada não pela sua sinceridade mas pela sua racionalidade. Bom, se a arte é racional, obviamente não pode ser julgada apenas por aquilo que critica. Tem de mostrar os padrões por que critica e estes têm de ser mostrados no trabalho artístico. Dizer “X está errado”, demonstra a crise perpétua da necessidade política, mas não é suficiente. O caminho ou ênfase certos devem ser ilustrados. A arte é responsável pela relação entre o presente e a sua visão, e isto tem de ser mostrado no trabalho artístico, senão a sua utopia torna-se
kitsch. Temos de ser capazes de nos ver como pessoas da mesma utopia do artista e relacionar a sua liberdade com a nossa necessidade. As políticas podem ser escapistas, a tecnologia também, mas a arte nunca. O artista não pode criar utopia e opô-la abstractamente ao presente. Ele tem de explicar na superfície da obra artística a relação entre a sua utopia e o presente. No caso de um artista religioso, tem de mostrar aquilo que deus pode fazer agora – e isto significa que, nos nossos tempos, a arte religiosa é de facto anti-religiosa ou
kitsch.
A arte não é apenas a articulação de uma utopia, ou mesmo uma antecipação dela. Ajuda a acompanhar as consequências das mudanças também. Fora da utopia, a arte pode ser crítica. O objectivo desta crítica é assegurar que as necessidades do presente não reproduzam o futuro à sua imagem. Para pôr isto em jargão dos dias de hoje, uma parte da cultura é retorno (
feed-back). Uma sociedade que exclua a parte crítica da imaginação criativa cristaliza-se. Não estou a falar da voz do indivíduo contra o colectivo, mas sim: de que modo pode cada indivíduo falar pelo colectivo? Nós não funcionamos eficientemente como as formigas numa organização porque cada um de nós carrega consigo toda a comunidade. Temos de a representar e não apenas pertencer-lhe. A natureza humana é cultura e a cultura é social porque se desenvolve através da experiência e prática sociais. Por isso a natureza humana é uma natureza social senão (como já disse) somos piores que animais. A nossa espécie só tem futuro como colectivo auto-consciente, isto alargará a consciência do indivíduo desenvolvida no passado. A cultura será a compreensão individual da comunidade e do seu compromisso com ela.
Edward Bond in
The Fool & We Come to the Rivertradução: minha