Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 21:12

Seg, 13/08/07

Julgas que te vou carregar o fardo sempre?
Julgas que suarei e labutarei sempre?
Julgas que te darei as minhas pernas e o meu sangue?
Como os pássaros do ar! Como as bestas da terra!

Julgas que irei sempre quando chamares?
Julgas que saltarei sempre quando gritares?
Julgas que vergarei sempre o pescoço?
Como uma besta no estábulo! Com um anel no focinho!

Julgas que combaterei nas tuas guerras sempre?
Julgas que te darei o meu ar sempre?
Julgas que marcharei para ser morto sempre?
Como os palhaços na tua corte! Como os exércitos da morte!

Crescerá erva nos campos de batalha
A ferrugem corroerá os mísseis e radares
No sítio das torres de vigia crescerão árvores
As prisões e quartéis desaparecerão pelo fogo
Não preciso da tua piedade ou de temer os teus punhos fechados
A minha ira erguer-se-á como o sol nascente
Num mundo vazio, onde ninguém velará
E só o vento uivará junto da tua pira funerária

Edward Bond: Jackets
tradução: minha




Pedro Marques @ 16:05

Ter, 24/07/07

A cultura é uma criação racional da natureza humana, a implementação do racional em todas as actividades humanas, económicas, políticas, sociais, públicas e privadas. A cultura conjuga tecnologia, ciência e organizações políticas e económicas e relaciona-as com o nosso ambiente de modo a que possamos continuar as nossas vidas e as possamos expandir social e humanamente. Deve mostrar-nos como vivemos e como devemos viver para que tenhamos futuro. Quando usa o mito não o pode fazer pelas mesmas razões que Platão, mas sim como hipóteses a serem consideradas para assuntos ainda não completamente compreendidos.
A nossa espécie deve obrigar-se à racionalidade da sua natureza porque a irracionalidade é um estado de decomposição acelerada que leva à destruição. Mas mesmo que não fosse assim, um homem deixado apenas aos seus instintos só podia usar uma pequena quantidade das suas capacidades. Podia apanhar raízes durante uns tempos mas nunca poderia construir uma fábrica. Os instintos não produzem cultura. A cultura nasce no vazio da natureza humana – o cérebro aberto, a consciência que se desenvolve exponencialmente, a capacidade de pensar que precisa aprender de um modo tão disciplinado como lúdico.
Como é que o artista aprende a criar cultura? A tecnologia diz-nos aquilo em que se pode trabalhar e a política aquilo que é possível, numa determinada altura. E como a maior parte dos cientistas não são loucos e a maior parte dos políticos não são maníacos pelo poder, o artista compreende necessidades políticas e simpatiza com compromissos políticos, tal como goza dos benefícios da tecnologia.
Mas a cultura não é feita destas coisas apenas. Todos temos imaginação criativa e essa imaginação é usada, entre outras coisas, para compreender a arte. Acho que a imaginação criativa está relacionada com a racionalidade e através dela aos valores humanos. Não conheço nenhuma “arte” fascista – livro, filme, quadro ou qualquer outra coisa – que não seja ridícula ou de mau-gosto. Mais tarde falarei sobre a arte. Agora só quero deixar bem claro que ela só pode ser racional e ter um significado e propósito sociais.
A cultura é o modo como a sociedade satisfaz as suas necessidades primordiais, não é qualquer coisa adicionada posteriormente, por isso não é um verniz que as pessoas bem-alimentadas e seguras adicionam à vida como se fosse um luxo. A cultura é aquilo que a pessoa é e aquilo que lhe acontecerá. É a causa e a consequência da sua vida diária. A arte ajuda a acompanhar a criação da cultura e reflecte o passado e o futuro no presente. Sem qualquer forma de imaginação criativa provavelmente não conseguiríamos ser seres humanos, não porque não seríamos simpáticos e civilizados, mas porque não conseguiríamos funcionar biologicamente de maneira a nos mantermos sãos e criarmos um futuro para a nossa espécie. A imaginação criativa é um elemento necessário na cultura, e sem ela somos animais sem natureza, sem sequer a mera segurança de pertencermos à natureza: não uma espécie moldada pela selecção natural, mas apenas as vítimas de um caos ignóbil que criámos.
A arte é normalmente vista como experiência privada. Isto reporta-se ao século XIX, a primeira época que tentou tirar a arte às massas. O século XIX desenvolveu-se para os lados, não foi uma mútua cooperação entre tecnologia, política e arte essenciais à cultura. É claro que grande parte da arte não atinge o seu objectivo. Mas a honestidade do objectivo pode ser reconhecida no rigor intelectual ou quando não se lhe junta nada de falso que sirva para a tornar maior ou mais sensacional.
Há uma especialidade na arte tal como há na política e na tecnologia. Só se torna constrangedor quando o artista demonstra que é especialista num mundo melhor. Mas é um especialista a descrever este mundo, e toda a arte é realismo. Nós somos produto de circunstâncias materiais e não há lugar na arte para misticismos ou obscurantismos.
A arte é ilustração, iluminação, expressão da racionalidade – e não algo primitivo, obscuro, um instinto primordial ou coisa do género. A ciência pode operar irracionalmente mas a arte nunca pode, porque tem de mostrar o que está a fazer sempre. A verdade está escrita na sua cara. É isso a arte. Mas temos de aprender a ver, e ensinar arte é quase tão importante como a fazer. O comandante da SS não lia Goethe, admirava-se a ler Goethe.
A arte não pode ser julgada pelas imagens literais que cria – é esse o perigo da propaganda, seja da Royal Academy, seja da Esquerda. Temos mesmo a certeza que a maior parte dos artistas sabe em que circunstâncias gostaria de ter produzido propaganda do tipo mais directo e simples? A propaganda pode ser boa arte. Um retrato de Rembrandt bem observado é um cartaz de propaganda. Mas a propaganda deixa de ser arte quando se torna duplicação mecânica de imagens. Então, vulgariza a informação que veicula e produz perplexidade.
A sinceridade é elemento necessário na arte, um artista religioso contemporâneo num Estado revolucionário pode ser sincero. Mas o kitsch também é sincero. A arte é então avaliada não pela sua sinceridade mas pela sua racionalidade. Bom, se a arte é racional, obviamente não pode ser julgada apenas por aquilo que critica. Tem de mostrar os padrões por que critica e estes têm de ser mostrados no trabalho artístico. Dizer “X está errado”, demonstra a crise perpétua da necessidade política, mas não é suficiente. O caminho ou ênfase certos devem ser ilustrados. A arte é responsável pela relação entre o presente e a sua visão, e isto tem de ser mostrado no trabalho artístico, senão a sua utopia torna-se kitsch. Temos de ser capazes de nos ver como pessoas da mesma utopia do artista e relacionar a sua liberdade com a nossa necessidade. As políticas podem ser escapistas, a tecnologia também, mas a arte nunca. O artista não pode criar utopia e opô-la abstractamente ao presente. Ele tem de explicar na superfície da obra artística a relação entre a sua utopia e o presente. No caso de um artista religioso, tem de mostrar aquilo que deus pode fazer agora – e isto significa que, nos nossos tempos, a arte religiosa é de facto anti-religiosa ou kitsch.
A arte não é apenas a articulação de uma utopia, ou mesmo uma antecipação dela. Ajuda a acompanhar as consequências das mudanças também. Fora da utopia, a arte pode ser crítica. O objectivo desta crítica é assegurar que as necessidades do presente não reproduzam o futuro à sua imagem. Para pôr isto em jargão dos dias de hoje, uma parte da cultura é retorno (feed-back). Uma sociedade que exclua a parte crítica da imaginação criativa cristaliza-se. Não estou a falar da voz do indivíduo contra o colectivo, mas sim: de que modo pode cada indivíduo falar pelo colectivo? Nós não funcionamos eficientemente como as formigas numa organização porque cada um de nós carrega consigo toda a comunidade. Temos de a representar e não apenas pertencer-lhe. A natureza humana é cultura e a cultura é social porque se desenvolve através da experiência e prática sociais. Por isso a natureza humana é uma natureza social senão (como já disse) somos piores que animais. A nossa espécie só tem futuro como colectivo auto-consciente, isto alargará a consciência do indivíduo desenvolvida no passado. A cultura será a compreensão individual da comunidade e do seu compromisso com ela.

Edward Bond in The Fool & We Come to the River
tradução: minha




Pedro Marques @ 14:21

Qua, 27/06/07

SOBRE O CAPITALISMO

Nem todas as comunidades têm cultura. Algumas têm apenas organização. Os membros das organizações são quase sempre macacos de imitação que sabem organizar e gerir tecnologias avançadas e instituições complexas e governos – mas estas coisas não fazem uma cultura. As organizações só estão preocupadas com a eficiência (embora sejam ineficientes). A sua tecnologia tenta dizer aos homens como podem viver. A cultura também faz isto, mas também diz como deviam viver e garante que o possível é feito para que essa possibilidade seja passada à prática; e aquilo em que baseio o meu optimismo é que, no final, é a única maneira de os homens viverem felizes. É óbvio que não vivemos numa cultura.
id="BLOGGER_PHOTO_ID_5080737760987740738" />Há uma discrepância entre aquilo que temos de fazer para manter a sociedade a funcionar e aquilo que temos de fazer para sermos humanos. A nossa economia depende da exploração e agressão. Nós esperamos que os negócios sejam impiedosamente agressivos. Ao mesmo tempo esperamos que as pessoas sejam generosas e socialmente moderadas. E esperamos que os sindicalistas sejam trabalhadores com sentido do dever e moderados nas suas exigências – quando estão a trabalhar. Quando são consumidores esperamos que sejam agressivos, competitivos, egoístas gananciosos – o nosso estilo de vida assim o exige. A publicidade estimula os trabalhadores a querer mais – a necessitar, porque as suas imagens estão associadas à dignidade humana, e por isso precisamos de uma loção de barbear pelas mesmas razões que um dia precisámos de salvação. A publicidade diz ao trabalhador, enquanto consumidor, que seja um mestre sem nenhuma responsabilidade a não ser para com ele próprio, um trabalhador pacífico, mas um consumidor descontrolado e egoísta que exige todos os últimos brinquedos e estilos de vida para adultos – que são a única recompensa por ter sido reduzido a uma ferramenta durante dois terços da sua vida. Somos confrontados com ironias profundas e destrutivas: a publicidade é um incitamento à greve e assim o capitalismo destrói a sua base organizacional. Precisamos de comportamentos anti-sociais para fazer funcionar a sociedade, mas estes comportamentos destroem a sociedade.
O trabalhador tem de “saber o seu lugar” na fábrica mas ser um egoísta insaciável quando sai dela. O bom cidadão deve ser esquizofrénico. E o capitalismo é incompatível com a lei e a ordem. Idealmente, o capitalismo gostava de tirar um produto de um recipiente – uma lata – e pô-lo noutro recipiente – uma pessoa. E embora o capitalismo se alimente de tecnocracia, ele próprio é devorado por ela, porque a tecnocracia destrói por todo o mundo a base de aprovação da sua sociedade – e enquanto fica mais rica à custa dos pobres, ensina-os que o consumidor tem sempre razão.
O capitalismo é competitivo e os seus membros usam qualquer poder que têm à mão para o alargar e proteger. É liberal, só até ao ponto onde tem de se proteger da revolta, e quando tem possibilidade substitui a riqueza e as pressões morais e psicológicas pela força, porque aquelas são mais facilmente justificáveis e aparentemente (mas só aparentemente) provocam menos oposição. Se pudesse fornecer bens suficientes criaria uma satisfação completa? Não, ele depende da insatisfação e pela sua própria natureza impõe o único meio de mitigar essa insatisfação: os bens de consumo. O capitalismo não pode satisfazer o sentimento de posse que cria para se manter. Tenta resolver os seus dilemas de muitos modos.
O fascismo é um dos modos. É a forma racional de capitalismo e tenta salvá-lo através da consistência. Funcionaria se estivéssemos preparados para nos comportarmos constantemente pior que animais. Digo pior porque os animais são constrangidos pelos seus próprios instintos e limitações físicas rígidas e os homens não. Mas o fascismo não pode ter cultura porque então seria forçado a equivaler isso à condução das pessoas para aquilo que é visto, erradamente, como a sua natureza instintiva.
A riqueza é outra tentativa para salvar o capitalismo. Mas realmente só acelera a sua queda. A riqueza não é bem-estar, mas sim uma forma de agressão. Torna o consumo uma forma de competição. Torna os gananciosos esfomeados e os quentes frios. Nada é valorizado pelo valor que tem, apenas pelo seu valor de consumo ou posse. Isto é perpetuamente insatisfatório, tanto maior quanto for o negócio de enfiar coisas “pela goela abaixo”. Isto não pode criar cultura porque, primeiro, destrói a sua base física real ao desperdiçar os recursos naturais e deste modo cria uma crise ecológica onde desperdiçamos os recursos para aumentar as nossas insatisfações. E, segundo, porque quanto mais riqueza é posta ao serviço do negócio de criar e armazenar febrilmente insatisfações pessoais, menos há para gastar nos fundamentos públicos de uma cultura ou de qualquer sociedade humana. Quanto mais rica se torna a nossa organização humana, mais empobrecidas são as nossas escolas, os nossos hospitais e os nossos serviços de bem-estar social. Abandonamos os velhos, não temos dinheiro para tornar as nossas crianças sociáveis, as nossas cidades estão em declínio e as nossas ruas tornam-se palcos de violência, porque negligenciámos as necessidades e decências da vida e optámos pelo consumo desesperado e trivial de quaisquer satisfações. E isto é outra ironia: a riqueza empobrece e produz as condições sociais para a escassez.

Edward Bond, Jackets




Pedro Marques @ 15:17

Seg, 11/06/07

Em determinada cidade houve durante anos insuficiência de água. Isto causava doenças e todo o tipo de sofrimentos aos cidadãos. Havia grandes chuvadas todas as Primaveras e as pessoas viam silenciosamente o precioso rio de vida escorrer para as sarjetas que logo ficavam tão secas como ossos. Com o tempo construíram-se máquinas. Apareceram novas fábricas de fiação e fundição de ferro na cidade. Estes locais precisavam de mais água e os trabalhadores também. Os governantes eram homens práticos e filantrópicos. Utilizaram as máquinas novas para construir uma barragem nas montanhas a montante da cidade. A barragem recolhia toda a água que a cidade precisava. Infelizmente chegaram as chuvas da Primavera e o lago da barragem ficou demasiado cheio. Havia o perigo de que a pressão da água abrisse uma brecha e inundasse a cidade numa súbita destruição. A parede da barragem tremia como a mão de um homem doente. Isto aterrorizava os trabalhadores e alguns fugiram das fábricas e foram viver para os montes. Durante o pânico geral houve motins e saques. Os padres fizeram serviços especiais. Os donos das fábricas chamaram o governo para obrigar o cumprimento da lei e da ordem.
Quando os governantes da cidade tiveram a inteligente ideia de construir a barragem deviam ter sido suficientemente inteligentes para a fazer segura. Deviam ter sido construídos aquedutos para levar a água em segurança a toda a cidade ou até aos parques e praças, embelezando-os com fontes e lagos. Mas perceberam que havia pânico e medo de colapso. Nestas alturas os governantes não culpam a maquinaria da sociedade mas sim a gente. Eles viam o desastre como um teste ao espírito nacionalista. Portanto, em vez de reconstruir a barragem, os governantes chamaram os cidadãos para servirem a cidade fazendo sacrifícios: deviam beber mais água.
Foram organizados festivais de água. Esquadrões de beberrões patrulhavam a cidade. Os bons cidadãos eram sempre vistos a beber um copo de água. Eram concedidas medalhas àqueles que consumiam grandes quantidades. É surpreendente o que os indivíduos bem-intencionados e com espírito-de-grupo conseguem fazer nessas ocasiões. Houve um homem que bebeu cento e noventa litros de água por semana, durante três semanas, até se afogar internamente. Pediu para ser enterrado num banho. Lavava-se muito as pessoas e as coisas. As pessoas que não tivessem cortinas a pingar podiam contar com janelas partidas por grupos de jovens pioneiros chamados Os Bebés da Água. A cidade era um pântano e as pessoas andavam com roupas que tinham sido lavadas até ficarem em farrapos e dormiam em camas húmidas; havia muitas gripes. Os jornais publicavam listas de baixas diariamente. Estas listas mostravam enormes crescimentos nos casos de pneumonia. As pessoas sofriam também de água no joelho e no cérebro. Os degraus e as ruas eram lavados muitas vezes, por isso havia muitas pessoas que escorregavam e os serviços de primeiros socorros tinham de lidar muitas vezes com tornozelos torcidos e pernas e costas partidas. Claro que os feridos — que já tinham feito o sacrifício — já não podiam beber muito ou lavar-se muitas vezes. O fardo tornava-se mais pesado para os outros.
Nesta altura, muitos patriotas começaram a pegar fogo às suas próprias casas para os bombeiros o poderem apagar. Os leais também incendiavam edifícios públicos: galerias, museus e escolas. A nada era permitido impedir os esforços da cidade. A segurança social estava em perigo. Podemos dizer com segurança que a moral das pessoas nunca foi tão alta. E funcionava. O nível de água da barragem desceu. O extraordinário argumento foi usado contra os elementos de ruptura que perguntavam se não havia uma maneira mais fácil de controlar a barragem. A parede da barragem já não tremia. Os dissidentes eram conduzidos às janelas das celas para olharem e declararem que estava firme como uma rocha. Os meios de comunicação lembravam todos os dias às pessoas os tempos em que a barragem era chamada A Velha Paralítica e tinham vivido com medo d’A Explosão. As coisas iam bem. Para mais, nessa altura, o grande surto de hidropisia aparecia como grande revés ao regime. Esse revés foi seguido de outro: as pessoas começaram a rebentar. Os governantes até se perguntaram se as pessoas aguentariam. Ao olhar pela janela o governador via transeuntes a cair na rua e rebolar até às paredes das casas onde ficavam durante alguns minutos sem beber. Talvez houvesse fraquezas inerentes ao carácter nacional. Como podia uma nação destas sobreviver?
O próprio governante sentiu-se atingido com a luta contra a água. Decidiu dirigir-se ao povo — talvez, disse para si próprio, pela última vez. A Polícia da Água cercou os sobreviventes e juntou-os na praça principal. O governante ficou surpreendido com a exiguidade da multidão. Se as pessoas não estivessem tão inchadas veria que a turba ainda era mais pequena do que pensava. Enquanto o governante falava explodiram uma ou duas pessoas. Havia uma nova doença: uma febre que aquecia o sangue e fervia a água. Os que sofriam da doença exalavam grandes quantidades de vapor e emitiam assobios muito agudos que rompiam pelos ouvidos, boca, nariz e ânus, até os corpos rebentarem. O governante falou com muita dignidade, levantando a voz por cima dos gritos, arrotos, plops, mijos e explosões. ‘Caros concidadãos! Hoje de manhã recebi os números. O nível de água da barragem é tão baixo que — se sobreviver alguém — podemos assegurar três anos sem o perigo de ruptura na barragem. Aquilo que o futuro nos reserva depois, ninguém pode dizer, mas estamos seguros durante três anos — não interessa a quantidade de chuva que chova! Caros concidadãos, saúdo a vossa grande vitória! Que Deus nos abençoe!’ Ele próprio começou a sobreaquecer com febre patriótica e entrou em ebulição. Gritou e expeliu uma nuvem de vapor. A multidão contou até cinco antes de ele morrer. Enquanto as nuvens de chuva da Primavera se juntavam nos montes, a polícia da água infiltrou-se na multidão usando as novas engenhocas tipo bomba-mangueira que tinham sido recentemente introduzidas e que lhes permitiam enfiar água pela goela abaixo daqueles que, embora o desejassem, não conseguiam engolir mais.

Edward Bond, Fables.



Pedro Marques @ 15:30

Qua, 06/06/07

SOBRE A TECNOLOGIA

Diz-se que na era da liberdade e da real globalização a tecnocracia irá evoluir porque criará tal abundância que as pessoas não terão necessidade de competir e, assim, a sua natureza destrutiva humana-animal permanecerá adormecida. Mas a tecnologia, em si própria, não nos dará segurança através da abundância. Ao contrário de todas as outras coisas, a sociedade muda mais lentamente que a tecnologia, e por isso a distância entre os sucessos iniciais da tecnologia e a sua apoteose utópica poderá vir a ser tão grande que permita que a irracionalidade da sociedade saia fora de controle e se torne tão poderosa que possa conduzir à destruição da nossa espécie. A tecnologia não pode tirar a utopia de uma cartola. A cultura tem de ser conquistada, também, no seu próprio campo de batalha. E a luta cultural, embora não exista, claro, no vazio, não pode ser reduzida a mais nada. Sem tecnologia e ciência não podia haver abundância, nem bem-estar, nem esperança, nem destruição de falsos mitos. Mas sem luta cultural a tecnocracia será irracional e destrutiva. A moralidade só pode existir numa cultura ou ser forjada na busca de uma. Para além disso só existem superstições, como nas sociedades primitivas, ou hipocrisia, como nas democracias Ocidentais.
A tecnologia normalmente desenvolve-se relacionando-se com as necessidades. “Vamos fazer esta coisa porque é possível fazê-la”. É claro que tal coisa estará relacionada com as necessidades humanas, senão a tecnologia existia no nada, mas as necessidades humanas podem ser, cada vez mais, determinadas pelas conveniências da própria tecnologia. “Se houver problema resolvemo-lo de um modo que a tecnologia já conheça. Se houver muitos problemas damos-lhes prioridades baseadas nas possibilidades tecnológicas presentes”. Desta maneira a tecnologia pode estar a progredir enquanto os seres humanos estarão apenas a ser processados. Isto aconteceu com toda a certeza no passado. Mas numa tecnocracia avançada torna-se perigoso. As pessoas podem sempre ser incluídas em estruturas tecnológicas – o raquitismo e outras doenças de subúrbios estão entre os sinais negativos disto – mas a tecnologia agora pode ir mais longe, a ferramenta pode modificar o utilizador, não como desenvolvimento histórico real, mas simplesmente através da inibição. A fantasia por trás disto é os robôs tomarem o poder. Mas nós não precisamos de robôs, só precisamos de não dar prioridades erradas à tecnologia em geral. Temos de fazer escolhas em relação à tecnologia. E estas escolhas só poderão ser bem feitas quando forem guiadas por uma cultura.
Os seres humanos vivem em sistemas biológicos, a maior parte deles desenvolvidos e testados em animais inferiores. Há milhões de anos que a evolução tem sido um sistema auto-disciplinador. Isto produziu espécies que funcionam bem e se relacionam bem com o seu ambiente. Estamos a viver mudanças rápidas de tecnologia e política e elas têm de ser constantemente testadas. Mais uma vez, isto só pode ser feito apropriadamente numa cultura.




Pedro Marques @ 15:48

Qua, 23/05/07

SOBRE A NATUREZA HUMANA

Nós não temos uma natureza fixa do mesmo modo que os outros animais têm. Nós temos um ‘espaço’ reservado pela liberdade que temos em relação à natureza prisioneira dos animais, ao controle apertado dos seus instintos. Este espaço é preenchido pela cultura. A natureza humana é de facto cultura humana. O grau de cultura é medido pela sua racionalidade. A racionalidade é a base da discriminação entre culturas boas e más. E como a natureza humana é a cultura humana, a natureza humana é social.
Os homens que vivem numa sociedade irracional são conduzidos a uma espécie de loucura, porque essa sociedade não vive num estado fixo e estático, deteriora-se e acaba por cultivar activamente a ignorância e combater o conhecimento. Tal sociedade não pode ser estabilizada pela tecnologia, por muito brilhante que seja. Pelo contrário, a tecnologia pode ser um perigo. A negligência das instituições sociais, a que eu já fiz referência, afecta-nos de muitos modos. Não apenas separa os indivíduos uns dos outros, como separa o indivíduo de si próprio e o despedaça por dentro. O homem irracional tem medo dele próprio como tem medo dos outros. A irracionalidade é um estado de posse. Os animais não sabem que são animais, mas quando os homens são irracionais, eles sabem ou sentem que são piores e estão mais perdidos que os animais. Não estão assustados com a força e alcance dos seus instintos – como se diz muitas vezes – mas com as suas fraquezas e limitações. O ser humano precisa de uma cultura para se ligar às coisas reais do mundo exterior. Quando isto não acontece, as suas descomprometidas paixões e emoções tornam-se auto-parasitas. Ou simplesmente enlouquece – e entra num estado de invenção falsa que é incapaz de imaginar o real (tentarei explicar isto) porque não lhe vê significado ou o acha insuportável – ou liga as suas paixões e emoções a objectos de substituição. Empilha posses à sua volta. Marca as coisas como sendo suas posses, seu dinheiro, sua propriedade. Nessa altura as realizações das suas paixões são como crimes num beco sem saída. Ele é um avarento incapaz de ser rico, ou um glutão incapaz de ser saciado, e encontra-se desligado da criatividade, que é a descoberta das outras pessoas.id="BLOGGER_PHOTO_ID_5067773553965384306" />Precisamos da racionalidade não apenas para lidar com a elevada consciência de nós próprios, mas para responder a perguntas sobre a nossa existência. Toda a gente tem de responder a algumas destas perguntas. A irracionalidade nunca é uma excentricidade inofensiva. É destrutiva. Nós não temos uma natureza animal violenta, agressiva, egocêntrica que temos de combater constantemente para manter uma aparência de civilização. Estas coisas destrutivas são apenas capacidades. Nascemos com muitas capacidades e potencialidades e elas podem ser desenvolvidas racionalmente de maneira a que nos tornemos membros socializados de uma cultura. Só acontecem acidentes quando deixamos de fazer isto. Imaginem uma pilha de tijolos, tábuas, portas, latas de tinta e sacos de cimento numa obra. Podem ser conjugados de modo a fazer uma casa forte e sólida. Mas se são abandonados, apodrecem e corroem-se. O vidro parte-se, os sacos de cimento rasgam-se, chove, as ervas daninhas crescem por cima de tudo e depois aparecem os ratos. Não construímos Auschwitz porque a nossa natureza animal nos obrigou a fazê-lo, mas porque deixámos de criar a nossa natureza.
O capitalismo usa a força e a moralidade para impedir mudanças, mas não consegue. Não só destrói a sua base social e as personalidades dos seus membros, como é destruído pelos seus mitos. As organizações irracionais precisam de mitos para se sustentarem a si próprias. Nisto são o contrário da cultura, que procura a verdade. É óbvio que os mitos são, desde o passado, o dogma do pecado original, e hoje em dia o dogma da violência original – a ideia de que a violência é uma necessidade da natureza humana do mesmo modo que a comida e o sono são, e não apenas uma capacidade como o medo ou a dor. Ambos os mitos foram usados para justificar a força para preservar relações sociais. À medida que os brinquedos proporcionados pela riqueza se tornam cada vez mais brilhantes, mais rápidos e mais barulhentos, é necessário que o capitalismo tenha uma visão cada vez mais pessimista da natureza humana. A violência original é, claro, uma doutrina muito mais pessimista que a do pecado original porque não há redenção na terra ou no céu. Este pessimismo crescente não é acidental. O capitalismo cria uma sociedade esquizofrénica de tensão e agressão, e porque o “consumismo” não pode acalmar ou impedir isto (pelo contrário), então são necessários mais força, controle e escrutínio. O autoritarismo e o mito penetrarão ainda mais fundo nas relações sociais e humanas, não porque o capitalismo não pode imaginar outros métodos e sonhar horizontes diferentes, mas porque é incapaz de os alcançar. Quando os conservadores pedem mais privacidade, eles só a querem, como o ladrão, para terem mais horas para negociar.


Se a natureza humana é um vazio que espera ser preenchido pela cultura, não é uma tábua rasa, mas um conjunto de expectativas biológicas, e se estas expectativas não são cumpridas, então, não só as pessoas são perseguidas por paixões sem corpo do modo que já expliquei, mas sociedades inteiras são condenadas a viver os mitos que criam para manter a sua injustiça. O nosso mito é de que somos essencialmente violentos mas que há meios tecnológicos e científicos de controlar a nossa violência – e vivemos o mito criando armas de morte. Deste modo a primeira guerra mundial pode ser vista como o mito do século dezanove. Os sonhos dos antigos iluminados perderam-se e vemos a nossa sociedade tornar-se cada vez mais violenta, desesperada e inculta. A ciência ao serviço do lucro não criará um novo esclarecimento. Não alcançaremos isso até mudarmos as nossas bases políticas e sociais. E de passagem juntaria a ideia de uma sociedade de hedonistas estimulados (ou devo dizer pacificados?) por uma tecnologia de luzes, cheiros, sons e sensibilidades – isto é pura ficção, baseada na ilusão de que para sermos felizes temos apenas de satisfazer os nossos instintos. As pessoas mais inteligentes matar-se-iam umas às outras no meio das ruas, e não esperariam pelo escuro da noite.
Os instintos dos animais estão preocupados com a sobrevivência, e como os homens não são guiados, através da vida, pelos instintos, não têm alternativa, se quiserem sobreviver, senão compreender as suas vidas. Se são impedidos por outros ou por eles próprios de fazer isto, então a sua condição é tão absurda quanto a de um cão seria se ignorasse os seus instintos. Tal homem seria como um cão acorrentado e esfomeado. O cão morre porque a sua necessidade de comida está directamente relacionada com uma actividade: comer, e se isto não acontece a necessidade desaparece: o cão morre. Mas se a necessidade de racionalidade de um homem não é satisfeita, o fim é adiado, porque o homem precisa de inventar qualquer coisa que satisfaça a necessidade. O objectivo de qualquer estrutura biológica é a orientação e perpetuação da espécie. Para o homem, isto quer dizer a necessidade de se relacionar com a sociedade, a sua individualidade perante a comunidade, e ter em conta a sua relação. Quando um homem não pode fazer isto, as suas emoções e paixões voltam-se para dentro, do modo que já descrevi, e relacionam-se apenas com ele próprio. Ele inventa uma realidade fantasiosa. É como um cão acorrentado que se come a si próprio. Um tal homem em breve reprimirá toda a realidade; classes inteiras o fazem.




Pedro Marques @ 18:35

Sab, 19/05/07

A violência é um mecanismo biológico que evoluiu antes dos seres humanos evoluírem e foi herdado por eles. Ocorreu primeiro nos animais que, na ordem das organizações biológicas, estão mais abaixo que os seres humanos. Quando estes animais são ameaçados e não têm outra alternativa, podem atacar violentamente aquilo que os ameaçar. É uma última defesa, que é usada numa crise, e o seu valor para os animais primitivos é claro: ajuda-os a assegurar a continuação da espécie. Mas para os seres humanos o oposto é que é verdade. A violência ameaça a continuação da espécie, pelo menos de uma forma civilizada. Como é que isto aconteceu e o que temos de fazer sobre isso? Às vezes a caça assemelha-se, aparentemente, à violência. Podem ter a mesma velocidade, intensidade e energia. Mas procurar comida não pode ser uma coisa odiosa. Caçar é uma violência só quando a presa é uma ameaça. Nem, devo acrescentar, os canibais se comem uns aos outros por fome; declaram-se guerra por razões sociais. Por isso temos de distinguir violência de caça.
Esta distinção é fundamental. Nós não precisamos ser violentos. Precisamos de comida e calor, mas só possuímos a capacidade de sermos violentos. Um cão possui a capacidade de nadar quando entra na água pela primeira vez, mas não precisa nadar porque não tem necessidade nenhuma de entrar na água. Os seres humanos são animais violentos da mesma forma que os cães são animais aquáticos. Precisamos de comida; mas só quando estamos a morrer à fome pomos a possibilidade de usar a nossa capcidade de sermos violentos para satisfazer a nossa necessidade de comida. A violência é um meio e não um fim. Se fosse um fim, uma necessidade, seria provavelmente uma fraqueza biológica muito séria. Podemo-nos perguntar se um animal com tal necessidade poderia sobreviver durante muito tempo. Para satisfazer a necessidade teria de procurar sempre situações violentas, por isso os animais onde a necessidade fosse mais forte correriam maiores perigos do que aqueles onde fosse mais fraca, e por isso tenderiam a morrer e a desaparecer. A sobrevivência do mais forte ajudaria a sobrevivência de animais onde a necessidade fosse mais fraca, e não – como é normalmente afirmado – em animais onde fosse mais forte. Esta argumentação aplicar-se-ia não apenas à agressão entre grupos como também dentro dos grupos, onde isto ajuda a estabelecer uma ordem hierárquica, só que nestes animais as restrições à violência são tão fortes como a propensão para a violência. Diz-se, contudo, que os seres humanos são os únicos animais que vivem em grupo onde isto não é verdade.
A ideia de que os seres humanos são necessariamente violentos é uma invenção política, o equivalente moderno da doutrina do pecado original. Durante muito tempo esta doutrina ajudou a impor a aceitação da ordem social existente. Por razões que a Igreja não conseguia explicar, todos tínhamos nascido para sofrer uma dor eterna depois da morte, se a Igreja não nos salvasse. Esta monopolizava cuidadosamente todos os sacramentos que eram meios de salvação. Para se salvar, uma pessoa tinha de aceitar os ensinamentos da Igreja em relação ao modo como a sociedade secular se organizava; se essa sociedade precisasse de reformas e limitações, as únicas formas permitidas de as aplicar eram o castigo e a excomunhão. Os líderes da Igreja e do Estado provinham muitas vezes das mesmas famílias; e antes de subir em qualquer hierarquia da Igreja, os homens tinham de aceitar os ensinamentos da sociedade secular. Aqueles que o não faziam, fossem clérigos ou leigos, eram entregues ao Estado para serem torturados ou queimados. Isto demonstrava claramente aos outros o inferno eterno onde todos os dissidentes seriam punidos. Deus é um mecanismo secular, uma invenção da classe-dominante.
Mas porque a ideia de deus é incompatível com a ciência moderna, a ciência tem sido abusada de modo a formular a doutrina da necessidade de violência humana. Isto é uma invenção política, não é uma descoberta científica. O homem que grita este falso alarme tem, por isso, de gritar cada vez mais alto, e, de modo análogo, o capitalismo teve de pegar no seu inferno e enfiá-lo no meio de nós. Se os homens são necessariamente violentos então vão expor-se constantemente a perigos, por isso tem de haver uma autoridade forte que use a violência para controlar a violência. Esta autoridade é a classe-dominante. Continua a existir porque faz uso da violência e organiza esse uso politicamente. O resto não vem necessariamente por arrasto, mas normalmente assim acontece: como a classe-dominante é a que melhor compreende a condição humana, os seus membros são os seres humanos mais inteligentes e melhores, e estão por isso a agir para o bem comum quando controlam e monopolizam para si próprios a educação, a informação, a arte, o dinheiro, o espaço, a medicina e tudo o que é desejável.


Platão queria que os seus governantes mentissem conscientemente. Os membros da nossa classe-dominante não são mentirosos mas – pior – loucos que acreditam na sua própria mitologia. Em completa ignorância, pregam uma corrupção intelectual que é aceite com ingenuidade. As consequências podem ser ouvidas nas conversas de café, ‘Nós atiramos bebés contra a parede porque no fundo somos animais’, e confirmadas naquele membro do parlamento que, numa qualquer altura em 1970, queria que os jovens infractores fossem publicamente exibidos em jaulas.
A mitologia dominante possui uma plausibilidade falsa. Como prova figuram as montanhas de corpos das guerras do século vinte, os despojos mundiais das bombas atómicas, e a agressão crescente da sociedade emergente (que é vista como prova irrefutável da incorrigibilidade da necessidade de se ser violento). Ninguém pode negar que os humanos podem ser violentos. Mas o problema é por que é que eles são violentos. A violência é uma contingência, não é uma necessidade, e ocorre em situações que podem ser identificadas e prevenidas. São situações em que as pessoas se encontram num perigo emocional e físico, onde a vida delas não é natural nem livre. Não quero descrever essas situações em pormenor aqui, mas como a liberdade e a vida são tantas vezes incompreendidas devo referir algumas coisas para que o meu ponto de vista seja claro.
Primeiro, é tão natural viver na cidade como no campo; se uma pessoa fez bem em escolher uma determinada cidade ou aldeia depende do tipo de cidade ou aldeia.
Segundo, partilhar, reciprocamente, obrigações e limitações sociais não é uma repressão do nosso egoísmo natural; pelo contrário, no seu melhor, estes laços sociais não são só uma condição da liberdade humana, são a sua própria essência.
Terceiro, criamos o nosso eu subjectivo através de relações sociais objectivas, e a consciência de nós próprios não é em primeiro lugar fruto de uma introspecção privada mas de uma interacção social.
Quarto, quando digo que as pessoas não são inatamente más não substituo um absurdo por outro dizendo que as pessoas são inatamente boas. A natureza humana não é fixada à nascença, é criada através das nossas relações com a cultura da sociedade. Pode dizer-se que todas as crianças nascem orfãs e devem ser adoptadas pela sociedade.
A única parte inata na nossa natureza pode ser a faculdade de realizar esta adopção social e cultural; é a nossa expectativa biológica de sociedade. Como a natureza humana é criada pela sociedade deste modo, é-nos possível educar pessoas e levá-las a ser, dentro de limites razoáveis, boas. Só precisamos de uma cultura que seja suficientemente racional. A abolição da violência, por si só, não criaria esta sociedade; a verdade é que a violência só pode ser abolida enquanto fazendo parte da criação desta sociedade. Contudo, não quero ir mais longe neste assunto. Só queria que ficasse claro que a causa e a solução do problema da violência humana não está nos nossos instintos mas nas nossas relações sociais. A violência não é um instinto que tenhamos de reprimir para sempre porque ameaça as relações sociais civilizadas; nós somos violentos porque ainda não tornámos essas relações civilizadas.
É claro que duas pessoas aos murros no meio da rua podem dar azo a alguma incompreensão no que a isto diz respeito. Mas não consigo ver como é que as organizações extremamente complicadas, a pesquisa, a dedicação e a arte, bem como os longos períodos de entusiasmo, tédio, disciplina e indiferença necessários à invenção, construção e desenvolvimento de armas de hidrogénio podem ser atribuídas à necessidade individual de se ser violento, quando são tão obviamente produtos de uma organização social. Se eu der um murro no nariz do meu vizinho e disser que o fiz por causa do meu instinto violento, pode até haver alguma desculpa; mas culpar o instinto humano de violência pela criação de bombas atómicas está perto da hipocrisia intelectual. Contudo, é essa a ideia aceite na era da ciência!
Os seres humanos adaptam-se com muita facilidade, por isso temos de pôr as coisas no seu devido contexto social antes de dizer o que causou a violência. Por exemplo, uma mulher pode gostar de viver no apartamento de um andar superior com boa vista; mas se tem crianças pequenas pode preocupar-se com a altura e dar-lhes umas palmadas se elas correrem na varanda. O trabalho rotineiro e elementar pode tornar agressivas as pessoas que se sentem presas a ele; mas se tirarmos uma mulher do apartamento isolado para que ela fale e ria com os amigos, então até pode vir a ser agradável. Um casal que partilhe um quarto pequeno e escuro com outras pessoas pode pensar, por umas semanas, que está no paraíso se tiver um quarto pequeno e escuro só para ele. O desporto liberta energia através da perícia – isto é, criativamente – e isto torna-o agradável; mas pode causar frustração e agressividade em pessoas que passam a maior parte da vida como espectadores não apenas de desporto como de tudo resto, pessoas cujo papel político é ser a bola e não o jogador. Há uma ideia muito popular de que os desportos de massas são um meio seguro de nos libertarmos da necessária agressão. Este pedaço de sabedoria enlatada deve ter divertido um verdadeiro palhaço como o Hitler.
Felizmente, as causas da violência humana podem ser resumidas. Ocorrem em situações de injustiça. São causadas não apenas por ameaças físicas, mas, e mais significativamente, por ameaças à dignidade humana. É por isso que, apesar de todos os benefícios emergentes, a violência floresce no capitalismo. Haverá sempre agressões humanas menores; mesmo na Utopia as pessoas se apaixonarão pela pessoa errada, esquecerão a gratidão, perderão as estribeiras; mas sempre que há violência constante e séria, isso é sinal de injustiça social importante. A violência não pode ser reprimida por uma contra-violência igual ou maior; não pode ser sublimada em jogos; não pode ser controlada por uma droga qualquer colocada no abastecimento de água (porque isto retiraria também as tensões criativas necessárias a qualquer sociedade); só terminará quando vivermos numa sociedade justa, onde todas as as pessoas sejam iguais em todos os aspectos mais significativos. Os seres humanos têm muito mais probabilidades de serem violentos que muitos outros animais, mas isto é, de um modo curioso, uma parte necessária do seu desenvolvimento ético: nenhuma sociedade humana pode ser um local estável e duradouro para a injustiça. A sociedade de classes tem de ser violenta, mas também tem de criar a frustração, o estímulo, a agressividade e – se necessário – a violência física, que serão os meios de a transformar numa sociedade sem classes. As únicas alternativas a isto – que os últimos anos de tecnologia tornaram possíveis – são a destruição da nossa espécie ou, talvez pior ainda, a sua desumanização.
A violência, hoje em dia, está a tornar-se banal – banal porque, normalmente, também é punida levianamente. (A violência política é às vezes uma excepção, por motivos óbvios.) Ao torná-la banal o capitalismo mostra a sua serviçal sabedoria. Se a punisse severamente provocaria ainda mais violência e agitação. Isto revelaria que a invenção do bode expiatório já não conseguiria conter a violência (e não porque deixámos de ser uma sociedade sacramental) e esta é a única verdadeira razão por que afinal de contas os governos de direita não põem os infractores em jaulas públicas. Mas mais importante, num esforço de se libertar da barbárie crescente que punições mais severas provocariam, o capitalismo teria de olhar outra vez para as causas da violência. E o capitalismo não pode fazer isto porque a sua ética política é a competitividade, o capitalismo não se pode dar ao luxo de admitir que a pressão da luta económica conduz não só à agressão comercial entre empresas como entre empresas e clientes. É este o modo como o comércio abusa muitas vezes da tecnologia e indústria para exacerbar problemas sociais, em vez de os resolver e ajudar a criar uma sociedade mais humana. É claro que não quero dizer que a nossa sociedade de classes deva punir os criminosos mais severamente; pelo contrário, é uma marca da sua decadência o facto de já não ter direito moral, e provavelmente autoridade política, para lidar com a violência – com o hooliganismo, o vandalismo e o crime – nem a vitalidade intelectual para a compreender. É fácil ver como o capitalismo disponibilizou rapidamente a sua ética da violência na televisão, mas às vezes não se repara como ele a vende a preços muito baixos nos nossos tribunais. O capitalismo tornou a violência um bem de consumo banal.
Há quatro modos para classificar a violência. Um, ou é usada para manter a injustiça ou, dois, é uma reacção à injustiça; e três, os seus utilizadores estão tão conscientes da sua causa e significado ou, quatro, inconscientes deles. Talvez a causa de um acto de violência deva ser uma mistura destas coisas, e isto é verdade para ambos os lados de uma confrontação. Estes quatro modos funcionam da seguinte maneira: a classe dominante tem uma razão consciente, embora falsa, para a sua violência; chama a isto manutenção da lei e da ordem. Ao mesmo tempo, teme inconscientemente as suas vítimas e por isso tem tendência a ser violenta apesar de tudo. Por outro lado, as vítimas de relações sociais injustas podem agir violentamente para tornarem estas relações mais justas. O seu grau de consciência pode ir desde os trabalhadores que querem proteger o seu posto de trabalho das máquinas até a um partido revolucionário que luta para tomar conta de um país. Ou, finalmente, podem reagir apenas violentamente por um motivo inconsciente, um descontentamento não identificado. Quando isto acontece as vítimas podem ser inocentes – é claro que podem ser escolhidas pela classe –dominante, como às vezes acontece no racismo. Em certos aspectos os jovens assassinos de Saved pertencem a este grupo. Alguns dos gritos enquanto matam o bebé são slogans da classe-dominante. É este o modo como a angústia e a agressividade da classe-trabalhadora pode ser usada para fortalecer as relações sociais injustas que provocam angústia e agressividade, e a classe-dominante pode recriar, de uma forma crescentemente desumana, as condições sociais que reclama como justificação do seu poder. Esta perseguição de vítimas por vítimas resulta de uma cultura que deve ser certamente uma das condições intelectuais mais abjectas que a mente humana pôde conceber; a sua manifestação mais lastimável é o apoio da classe-trabalhadora ao fascismo.
Estas quatro formas de violência podem ocorrer ao mesmo tempo, e essa é uma das razões porque há tanta confusão sobre as causas da violência e tantos erros quando se tenta lidar com ela. O único modo racional de responder à violência é mudar as condições que a fizeram nascer; e a única maneira de o fazer, ou de dar os primeiros passos para isso, é reduzir a distância entre razão e organização social. É óbvio que seria melhor que toda a gente compreendesse a origem e o significado da violência, mas é igualmente óbvio que as vítimas de injustiça social não têm a sua educação nas mãos. Na escola aprendem a mitologia do seu niilismo natural, o absurdo da vida e futilidade do altruísmo, tudo envernizado com algumas histórias da Bíblia. Trabalhar e viver numa tecnocracia capitalista muito complexa força-os a comportarem-se de modos que os levam mais facilmente a tirar a mesma conclusão, de modo que a mitologia parece ser sempre confirmada pela experiência. Talvez a barbárie crescente da civilização moderna force as pessoas a olhar com mais atenção para a natureza do homem e da sociedade, e a sociedade possa ser reformada tornando-se cada vez mais racional. Mas é pouco provável que a mudança seja assim tão fácil. O capitalismo é inimigo da razão.
Acredito, sempre que é possível, na resolução de problemas políticos e sociais através da razão. Os perigos da violência, mesmo numa causa justa, são demasiados óbvios para pensar de outro modo. Para mim a violência não possui nenhuma atracção romântica. A noção de Sartre de nos encontrarmos a nós próprios através da violência parece-me absurda e irreal. Mas muitas pessoas não têm hipótese de se perguntarem se devem ser violentas. A pergunta nem sequer lhes ocorre. Se ocorresse, a única alternativa que se lhes abriria seria um martírio infrutífero. Fazer a pergunta já quer dizer estar numa posição privilegiada. Se decidirmos não usar a violência, mesmo assim não fizemos nada para que o mundo seja menos violento. Isso só o alcançaremos quando o tornarmos mais justo. Não sou pacifista, temos de dizer aquilo que as coisas são e não aquilo que gostaríamos que fossem. A razão nem sempre é eficaz, e ainda estamos num período onde, para criar uma sociedade racional, talvez tenhamos de usar meios irracionais. A violência das políticas de direita não pode ser justificada porque serve sempre a irracionalidade; mas a violência das políticas de esquerda é justificável quando ajuda a criar uma sociedade mais racional, e quando essa ajuda não pode ser dada de forma pacífica.
Temos de compreender que o capitalismo não é só destrutivo na guerra e na paz, mas que é tão destrutivo na paz como na guerra. A sua capacidade de destruição na paz é causada não só pela força bruta como também pela sua cultura falsa. Esta falsa cultura está escondida na sua interpretação de cultura – vão dar no mesmo – mas a sua capacidade de destruição pode ser claramente vista no desperdício de vida, recursos e energia humana. Pior, é um ataque intelectual à humanidade. A cultura é o modo como vivemos, e quando ela é niilista, cínica ou desesperada, então há desperdício e violência em todos os períodos da nossa vida e em todas as nossas relações. Nehru disse que custava muito dinheiro manter Gandhi pobre; podemos acrescentar que é precisa muita violência para manter uma paz capitalista, e que sob o capitalismo a guerra nunca levará à paz. Usar a violência para criar o socialismo a partir do capitalismo não significaria introduzir a violência na política pacifista de um mundo de lei e ordem; sempre que caminhamos calmamente numa ordeira rua de uma sociedade capitalista somos rodeados pelo lixo escondido de desperdício e destruição e já estamos envolvidos num acto contínuo de violência da comunidade. A violência não é uma função da natureza humana mas sim das sociedades humanas.
Edward Bond



Pedro Marques @ 18:15

Seg, 14/05/07

Era uma vez uma macieira que crescia num jardim e dava fruta podre: As flores murchavam e as pequeninas maçãs começavam a crescer podres. À medida que cresciam a podridão crescia também nelas. Eram murchas e moles e tinham um cheiro repulsivo. Havia manchas de pele castanha ou preta, míldio e pêlo branco que crescia nas manchas. Os corvos adoravam a árvore podre. Crocitavam e arrancavam bocadinhos com o bico. Até se podia pensar que depois de mandar examinar a árvore o dono a cortasse para que esta não infetasse as outras. Mas não foi assim.
As pessoas da aldeia ouviram falar da árvore e foram vê-la. A fama espalhou-se. Em pouco tempo começaram a vir pessoas de muito longe. Puseram-se sinais nos cruzamentos para que os peregrinos não se perdessem. As pessoas rezavam à árvore para que ela punisse os inimigos e matasse os rivais. Trouxeram doentes até à árvore: crianças entrevadas, velhos cegos, pessoas que nunca tinham dado um passo na vida eram transportadas em padiolas. Começaram as correr histórias. Que uma velha cega tocara na casca e passara a ver - embora uma escola de pensadores dissesse que ela tocou numa raiz que saía do solo. Construíram um muro à volta da árvore, para que essa terra não acabasse em poeira ou lama. Puseram guardas para impedir que os devotos arrancassem galhos e bocados de casca. Cortaram relíquias da árvore que venderam a preços altos a potentados, a mercadores ricos e a bispos de catedrais. O rei enviou cascas de árvores aos aliados como voto de especial fidelidade. Perto do Jardim da Árvore que Dava Frutas Podres havia um pomar de macieiras, ameixeiras e pereiras que foi cortado e queimado para fazer um parque de estacionamento. Construíram hotéis e o negócio prosperou. A aldeia cresceu e tornou-se cidade.
Vendiam-se imagens e modelos da árvore sagrada nas lojas - até nas padarias e mercearias. Cortaram-se bocados da árvore que depois se plantaram em locais especiais com templos para devotos e casa onde os guardiões da árvore podiam viver. O transplante era cuidadosamente regulamentado. Era tão bem feito que passados poucos anos muitos locais se podiam vangloriar de ter as suas próprias Árvores de Fruta Podre. Houve mesmo uma cidade que se vangloriava de ter um pequeno pomar de árvores dessas. Isto causou profundo constrangimento na cidade onde crescera a primeira árvore. Mas o dono da árvore era inteligente e disse aos seus concidadãos que não havia nada a temer. Quanto mais Árvores de Fruta Podre existissem, mais o espírito da nação se tornava Árvore de Fruta Podre. E quanto mais espírito Árvore de Fruta Podre havia, mais pessoas veneravam a Primeira Árvore de Fruta Podre. Mesmo depois de morrer e ser substituída por uma árvore nova as pessoas continuavam a venerar o local onde tinha crescido. Os concidadãos compreenderam — principalmente quando acrescentou que havia, apesar de tudo, pessoas dispensáveis.
Houve pessoas que começaram a ficar envergonhadas por ter macieiras onde crescia fruta boa. As esposas queixavam-se delas aos maridos. Bandos de jovens balançavam-se nos ramos para as partir. As Associações de Moradores enviavam cartas aos que as cultivavam e protegiam. Por todo o país se ouviu o som do machado a cortar. Quando deram cabo das macieiras boas começaram a cortar as pereiras boas, as ameixeiras boas e as cerejeiras boas. Arrasaram as canas de framboesa e todos os arbustos de groselha. Ninguém queria ser acusado de proteger árvores, arbustos ou moitas que pudessem ser vistos como insulto ao Grande Criador de Maçãs Podres e a todos os Menores Criadores de Maçãs Podres que foram criados. O dia escureceu e a noite iluminou-se de fogos que as consumiam. Havia Grupos de Acção de Lenhadores treinados no uso do machado, serrote e serra mecânica. Começaram a cortar mobílias. Primeiro cortaram a madeira de macieira. Depois, porque era difícil saber a árvore de onde vinha a madeira cortaram as mobílias feitas em madeira. Cortaram as portas, as molduras dos quadros, os portões de madeira, e todas as coisas de madeira — excepto as Macieiras Podres e suas relíquias. Prenderam um falsificador por enfiar castanhas podres numa árvore e ter reclamado o primeiro Castanheiro Podre. Depois de um julgamento espetacular — onde muitas mulheres desmaiaram e uma atirou uma caixa de serradura aos olhos do falsificador — e o juiz clamou em voz estremecida a descrição do perigo a que a juventude era exposta — o falsificador foi condenado e executado com arco e flecha no Dia Nacional da Maçã Podre diante de uma grande multidão que em sinal de desrespeito pela heresia sujara as caras, mãos, roupas e sapatos com polpa de maçã podre. O dia terminou com danças à volta da efígie do filho de William Tell, com uma réplica da histórica maçã podre na cabeça — o facto de que a maçã estava podre tinha sido estabelecido pelas pesquisas da Universidade mais importante do país. A música dessa dança era cantada por um coro de crianças vestidas de folhas de macieira.
O país estava num estado de alta prontidão. As pessoas dedicavam-se à adoração da Velha Pippin — era agora este o nome d’ A Primeira Macieira Podre (via Oráculo Maior). Os inimigos da Pippin viviam cheios de medo. Tremiam como folhas de choupo-tremedor. O governo declarou num comunicado religioso o fato científico: tanto as folhas como os ramos das Macieiras não tremem. A arte de cortar com o machado e serra é zelosamente ensinada nas escolas e nas Instituições de Lenhadores. No fim do dia de trabalho,
os trabalhadores são convocados e praticam o sentimento nacionalista durante uma hora. É verdade que a nação ficou sem árvores — a não ser as macieiras podres que, claro, são intocáveis. Até que ficou sem madeira — desde que os caixões foram removidos dos cemitérios em Acções Nocturnas Especiais. Não há mais nada para tombar. Como disse o Chefe dos Grupos de Acção a uma grande multidão de Lenhadores que vieram de todos os pontos do país e do estrangeiro, ‘Somos leais, devotos, treinados e ávidos de qualquer tarefa que nos mandais executar. Estamos prontos de machado na mão. Aguardamos a ordem do Chefe.’

Edward Bond: Jackets
tradução: minha
a ilustração é de um aluno da aula da Sra. Burrell na escola de Dahlgreen na Virginia, Estados Unidos da América