Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 17:12

Qua, 31/12/08

Os UHF foram um dos primeiros grupos de rock que eu idolatrei. Foi há cerca de trinta anos. (Quando digo isto até me arrepio. Podia ter sido ontem.) Eles perderam fulgor durante os anos 80, mas seria nos anos 90 que se tornariam insuportáveis. Com as intermináveis versões de canções de Zeca Afonso e populares, álbuns de António Manuel Ribeiro a solo, condescendentes, sem qualquer chama. A vida já não entrava na música deles. A música deles já não entrava na minha vida. Apenas uma nostalgia, o passado. Ninguém vive só do passado.

Curioso e contraditório é que os poemas das músicas deles dos primeiros tempos falam disso mesmo. De agarrar o momento, da vitalidade do gesto, da denúncia. Quando eles congelaram no tempo nem sequer chegou a ser doloroso, foi apenas patético.

Há poucos dias, ouvi mais uma vez os discos que conservo deles, nas cassetes que a minha mãe me foi oferecendo. À Flor da Pele, Estou de Passagem, Persona Non Grata, Ares e Bares de Fronteira. O primeiro é o mais interessante, ainda hoje, a nível musical. Simples, com o baixo de Carlos Peres em posição de destaque. As melhores músicas são conduzidas por ele "Anjo Feiticeiro"; "Ébrios (pela Vida)". A segunda manteve-se num top de um programa de rádio, que já não me lembro o nome, uma coisa impossível, porque, tirando essa ocasião, nunca tinha ouvido a música na rádio. Está claro que éramos nós, os fãs incondicionais que ligávamos para lá. O nosso grupo era os Papuntasistula. Que segundo Jim Morrison significa "um grande caralho vermelho".  O locutor interrogava-se em directo que raio quereria aquilo dizer. Nós sorríamos em casa. Nunca desvendámos o mistério. Era mais divertido assim.

Os dois discos seguintes mostram algum desenvolvimento nos arranjos, mas as músicas começam a ter muito pouco sumo para além das letras. O último disco é o mais conseguido. "Devo Eu" será sempre um hino dos UHF.

Mais tarde, António Manuel Ribeiro gravou Noites Negras de Azul, com outros músicos. O resultado foi uma evolução francamente positiva. Mas a personalidade depressiva do vocalista deu cabo dos seus próprios projectos.

Quando os vejo hoje em dia só distingo fantasmas.

Aquilo que me ficou dos UHF, aquilo de que ainda gosto é da poesia de António Manuel Ribeiro. Talvez o melhor poeta da música portuguesa dos anos 80.

 

CONCERTO

Dedos amarelos
Afinados em dó maior
Cigarros de ponta breve
Espalhados no auditório

Luz que entra pelas alturas
E conduz à histeria
Olhos fixos à procura
Do profeta da rebeldia

Soutien preso à pele
Entre os amigos gritando
Corpo aberto à ternura
Da música deste concerto

Bem bebidos de brilho nos olhos
Avançaram sedentos
Exigindo matar a fome
Pelo preço de um bilhete

Angústias ou ramos de flores
Suando sangrando
Eu sei lá
Ouço palmas uivos
Risos brancos sinceros
No caudal que se vai
E o rio está seco
O concerto no fim
Regressemos à sobrevivência...



PoL @ 17:02

Qui, 01/01/09

 

papuntasistula...
era este o nome.
:)

Martins @ 00:30

Ter, 03/02/09

 

O concerto de 30 anos em Almada foi assombroso. Parecia UHF de 1981. Foi uma coisa prodigiosa.


Pedro Marques @ 20:25

Qui, 01/01/09

 

Já tá corrigido.
Thanks,
Abraço.
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