A primeira vez que peguei numa guitarra foi cerca dos oito anos. Lembro-me de ter sido um acto de transgressão, a guitarra não era minha e o dono não estava presente. Mais tarde aprendi que essa é uma das coisas que não se devem fazer aos músicos. Mas o que é que eu sabia? Nada.
Aliás, esta atracção permaneceu quase inalterável. Os instrumentos exercem um tremendo fascínio sobre mim. Sempre que vejo um instrumento tenho sempre de me refrear para não lhe tocar. Acho que foi esta curiosidade que me levou a tocar guitarra.
Quando toquei numa guitarra eléctrica pela primeira vez, adoptei-a. Pedi-a logo emprestada ao amigo. Que não achou graça nenhuma, embora ma tenha emprestado por uma semana. Daí até às guitarras do meu tio, foi um pequeno salto. Ou seja, as minhas primeiras três guitarras, não eram minhas. E mesmo quando comprei o meu primeiro baixo tive de pedir o dinheiro emprestado ao Rui. Eu já estava a trabalhar nessa altura, por isso podia pagar-lhe com o meu ordenado. Sempre tive esta sensação de que estava a transgredir a música. Eu não pertencia ao mundo da música, mas mesmo assim impunha-me. Era mais forte que eu.
Quando comecei a aprender a sério (a sério?) a tocar, limitava-me a saber afinar a guitarra. Sacava melodias de ouvido, escrevia a tablatura num código secreto que mais ninguém entendia e ia reunindo pautas (queen, pink floyd, genesis) que começava a ler, embora soubesse apenas os rudimentos mais básicos. Foram pelo menos cinco anos de prática caseira, solitária e ociosa, quase diária, a ansiar pelos ensaios de fim-de-semana.
Eu já tinha começado a trabalhar no teatro, eram digressões intermináveis pelos concelhos de loures, vila franca de xira, amadora e sobral de monte agraço. Carregar cenários, montar luzes, fazer espectáculo, desmontar, carregar, descarregar e voltar para casa, mais uma hora e meia de transportes, etc.
Os momentos de descoberta ficavam para o fim-de-semana onde tocávamos as nossas músicas - first ride do ricas, sobre um gajo que se iniciava no cavalo, e os covers de imagine, with a little help from my friends, rolling stones e santana, versões esquisitas de tudo, ninguém sabia cantar, quase ninguém sabia tocar, mas prosseguíamos assim, sem mais nada senão os sons.
Mais tarde, fui para o hot clube e senti-me muito inseguro, só durei um trimestre. Só chumbei a treino auditivo, mas as humilhações que passei com um professor imbecil fizeram-me nunca mais lá voltar. Guardo algumas boas recordações, as aulas com o ricardo e com o pedro moreira eram óptimas. A propina era caríssima também, e eu nessa altura já tinha uma filha. Tudo pesado, segui no teatro e continuei a tocar música aos fins-de-semana.
Mas uma coisa é tocar, outra é ouvir.
Quando cheguei ao hot eu já conhecia jazz e gostava de o tocar. Desenvolvia uma parte de mim, permitia-me uma descoberta grande, aprendia a confiar, nos outros, em mim, atirar para trás os medos. O jazz é isso, a libertação dos medos, se não for isso então não é praticamente nada.
Esta aproximação pela prática, à música, foi primordial para eu perceber o que realmente é a música. Só tornei a ter a mesma sensação quando toquei com o Pedro Leal nos Des Maisons. Uma sensação de organização delicada, sensível e transcendente.
Agora tenho um novo projecto, мир, com o Chico, o baterista, o estúdio está a ficar pronto. O próximo passo é gravar uns temas e ver o que as pessoas dizem. Não temos medo. Como diz o Kurosawa "Se não criares o hábito de mentir ao público, podes confiar nele."