Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 18:31

Ter, 23/12/08

LISANDRO: Por tudo quanto tenho lido, quanto tenho ouvido em contos ou história, nunca foi suave o curso do vero amor; ao invés, ou era de diferente linhagem...

HÉRMIA: Ó cruz! Alto de mais para cativar-se em baixo.

LISANDRO: Ou então mal ajustado quanto à idade.

HÉRMIA: Ó raiva; velho demais para noivar com jovem.

LISANDRO: Ou dependente da escolha de amigos...

HÉRMIA: Escolher amar pelos olhos de outros.

LISANDRO: Ou, se houvesse concordância na escolha, guerra, doença ou morte lhe poriam cerco, tornando-o instantâneo como um som, rápido como a sombra, curto como os sonhos, breve qual relâmpago em noite escurecida que, em assomo de raiva, revela céus e terra; e antes de um homem poder dizer 'Olha!', já o devoraram as garras da escuridão. Tão prestes vem do belo a confusão.

HÉRMIA: Se os fiéis amantes sempre sofrem reveses será então um decreto do destino: assim, a paciência exercitemos já que ela é costumeira provação, certa no amor como ânsias, suspiros, ardor, sonhos e choros - pobres doidos do amor!

 

William Shakespeare, Sonho de Uma Noite de Verão. Campo das Letras. Tradução de Maria Cândida Zamith.