Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 21:58

Dom, 21/12/08

Frank Zappa passou a ser a minha referência principal no que se referia à música. Quanto mais discos conhecia mais me convencia que não havia ninguém que se lhe pudesse equiparar. É difícil alguém reunir na música aquilo que ele conseguiu fazer: composições orquestrais arrojadas com humor brejeiro, apontado a uma sociedade injusta e corrupta, melodias arrebatadoras escondidas atrás de arranjos raros, ritmos assimétricos carregados de drama, era tudo o que eu podia querer da música.

O que eu conhecia não estava muito longe da música de Zappa, mas faltava-lhes sempre qualquer coisa. Ou era a monotonia ou o conformismo do rock progressivo, a inércia que o havia de matar, ou era antes a irreverência pueril do heavy metal ou do hard rock que simplesmente me fazia sorrir. A música clássica resumia-se a algumas aberturas das óperas de Wagner ou à nona sinfonia do Beethoven que eu idolatrava. O jazz ainda não era um terreno completamente desbravado, eu prosseguia com calma.

A Feira da Ladra era o sítio onde nos reuníamos para comprar discos. Eu ia com o Arnaldo, aos sábados, vender roupa velha, coisas inúteis, esperando fazer algum dinheiro que nos permitisse comprar ainda alguns discos.

Um dia, ficámos naquele largo por cima do mercado, chegámos muito cedo, com o frio, suportámos os compradores de livros da colecção vampiro que nos abordavam como um enxame de abelhas e preparámo-nos para mais uma manhã a olhar para as miúdas que já lá estavam e a conversar sobre tudo e nada: uma das melhores coisas que há para fazer na vida. A certa altura parou uma carrinha atrás de nós, coberta de poeira. Preparava-se para assentar arraiais mesmo ao nosso lado. Era costume. Eles tinham o lugar marcado. O Arnaldo, como verdadeiro pacifista, correu para perpetuar qualquer coisa na poeira da carrinha. Estendeu o dedo, deslizou-o na chapa velha e desenhou um belo símbolo da paz. As coisas que fazemos quando somos novos e ingénuos. Sorrimos um para o outro, cúmplices e deitámos o olho às miúdas para ver se elas tinham visto como nós éramos sensíveis. Elas não tinham visto. Sentámo-nos à espera de melhores vistas.

Depois só me lembro de ver um bruta-montes a gritar virado para nós. Eu levantei-me como um raio. Quem era ele? Ah. Era o dono da carrinha. Eu esbocei um "mas nós...", mas ele não quis saber. Qaundo dei por mim tinha a cara feita num bolo. O Arnaldo tinha fugido, não sei se já estava à espera ou se simplesmente teve sorte. Eu fugi, sem saber o que me tinha acontecido. Cheio de raiva pela injustiça, lembro-me de ouvir o cigano a murmurar por entre dentes "vêm práqui fazer publicidade a nã sei quê!" Publicidade, claro. Daquela troglodita só podia sair qualquer coisa do género. A um comerciante de malas e outros produtos de couro só podia passar pela cabeça a publicidade. Claro. Para mais estávamos no final dos anos 80. A economia não podia parar. As pessoas andavam todas ocupadas a encher a pança - como o Sancho.

Foi a última vez que ficámos naquele sítio da Feira. Quando lá íamos depois, não podíamos deixar de passar à frente da barraca dele, só para lhe ver as trombas sem ele nos reconhecer e imaginar que lhe punhamos fogo ao arraial. Mas lá está. O símbolo da paz que tínhamos grafitado com o dedo na carrinha dele estava gravado a pedra no nosso coração. As acções ficam para quem as pratica.