Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 17:38

Sab, 06/12/08

APOSTROPHE (‘) E REI LEAR

Apostrophe (‘) é o Rei Lear de Frank Zappa, uma obra-prima absoluta – arrepiantemente abstracto, estonteantemente inteligente e extremamente pateta. O diálogo rei/bobo em Rei Lear, famoso por equacionar verdades pungentes e loucura, é substituído pelo diálogo entre Zappa e o seu cão. Mas o humor engenhoso e vulgar do disco não conseguiu atrair a atenção nem sequer daqueles pós-modernistas que reclamam ter transposto a tradicional divisão entre elevação e frivolidade de espírito.
Temos uma paisagem gelada, desolada, um primeiro encontro que acaba em cegueira, uma meditação sobre o orgasmo e o tempo, uma recusa de Sri Chimnoy e Platão, comentários políticos sobre o movimento dos direitos do cidadão e sátiras à religião. As imagens usadas em Rei Lear coincidem constantemente com as de Apostrophe (‘). Na peça de Shakespeare, Lear diz ‘Do nada, nada pode vir’, iniciando uma série obsessiva de referências ao nada, ao vazio, ao zero absoluto. ‘És um zero sem outro algarismo’ diz o bobo. Apostrophe (‘) começa com uma série de rimas em ‘O’:

Sonhei que era um Esquimó
O vento gelado a soprar começou
Debaixo das botas e à volta do dedo grande do pé
A geada o chão mordeu
A uns cem graus abaixo de zero*

O narrador é Nannok. Nanook of the North foi um dos primeiros documentários sobre esquimós realizado por Robert Flaherty em 1920. Em ‘Nanook Rubs It’, Nanook cega o caçador de peles ao esfregar-lhe os olhos com neve colorida por urina de cão. A cegueira também é central a Rei Lear: Goneril prova a sua duplicidade ao dizer que ama Lear ‘mais do que as palavras podem exprimi-lo; mais do que a vista’. Quando Kent defende Cordélia, Lear responde ‘Sai da minha vista!’ A trágica cegueira de Gloucester é o culminar destas metáforas.
Em Apostrophe (‘) o diálogo filosófico com o cão é incitado pelo cheiro (‘Stink-foot’; ['Chulé']) A perda de visão e a confiança no olfacto andam juntas. Em Rei Lear o bobo diz:

A não ser os cegos, todos quantos seguem os seus narizes são guiados pelos olhos; e não há um nariz em cada vinte que não possa cheirar quem cheire mal.

Regan determina a cegueira de Gloucester ao dar a ordem:

Vá, ponde-o à porta e que ele encontre pelo faro o caminho para Dover.

Lear pede ao bobo que lhe descalce as botas:

Vá, vá, descalça-me as botas. Mais força! Mais força! Assim.

Depois de uma luta para retirar as botas, Zappa pede ao Bobi que lhe vá buscar as pantufas. Em Rei Lear, o Duque da Cornualha marca um contraste entre o pé (órgão de dominação) e o olho (órgão da percepção):

Vê-la, nunca a verás. Rapazes, segurai bem a cadeira.
Calcarei os teus olhos aos meus próprios pés.

Cegueira e pés: os dois princípios centrais de Apostrophe (‘).
As apresentações ao vivo de ‘Stink-foot’ incluiam uma secção dedicada à disciplina do caniche.

FZ: Bom, anda cá Bobi, anda cá Bobi. Traz-me as pantufas cachorrinho... Bobi, eu disse que me trouxesses as pantufas!
B: Oh Frank, estava tão pedrado que não as conseguia agarrar co' a boca.
FZ: Bobi, quando uma pessoa grande diz a um animal pequeno para lhe trazer as pantufas e o animal pequeno não lhe traz as pantufas isso significa que o animal pequeno deve ser punido pela mais alta Lei Imperial!
B: A sério?
FZ: Sim Bobi, tenho de te punir.
B: Magoa-me, magoa-me, magoa-me.
FZ: Está bem então.

Rei Lear também ecoa implicações filosóficas sobre o poder e dominação social.

A verdade é uma cadela que obrigam a recolher ao canil: enquanto a correm a chicote.

Quando lhes deste a chibata e arreaste os teus calções**

Já viste o cão de uma quinta ladrar a um pedinte?
E o pobre a fugir do cão?
Então aí tens a grandiosa imagem da autoridade: um cão a ser obedecido no serviço.
Eh, cobarde beleguim, abaixa a mão ensanguentada!
Porque dás chicotadas nessa prostituta?
Tira antes a pele às tuas próprias costas, pois ardes por servir-te dela naquilo que chicoteias.

Sadomasoquismo e obediência do cão: instâncias de domínio usadas como símbolo, tanto em Shakespeare como em Zappa. Em ‘St. Alphonzo Pancake Breakfast’ a bela rapariga da paróquia diz: ‘Por que é que não me tratas mal? (Magoa-me, magoa-me, magoa-me, uuuuuuh!)’
Quando Lear vai de Goneril para Regan e depois volta, a sua comitiva de cem cavaleiros é reduzida para cinquenta, vinte e cinco e depois para nenhum, é uma figura de troca com retornos diminutos. A mãe de Nanook diz-lhe:

Não sejas malandro esquimó
Poupa dinheiro; não vás a concertos

A charneca esventrada de Lear e a terra gelada, branca e devastada de Apostrophe (‘) são paisagens de um mundo de trocas, grau zero de humanidade e calor. A imagem psicoanalítica para a perda é a castração – que Freud ligou à cegueira.
Freud interpreta a  mutilação dos olhos no mito de Édipo como castração (Édipo arrancou os próprios olhos por vergonha, depois de ter feito sexo com a mãe). Em Lear o bobo refere-se à castração com uma brincadeira:

Aquela que é menina e ri da minha partida, não será menina durante muito tempo, a não ser que as coisas fiquem por aqui.

O conto de Nannok que cega o caçador de peles chama-se ‘Nanook Rubs It’. Ele esfrega com um ‘movimento circular vigoroso’. À natureza reflexiva e narcisista da masturbação foi aplicada a imagética circular de ‘Disco Boy’.

Hoje é noite de amor de discoteca
Certifica-te que te vestes bem

E a cegueira é com certeza a punição tradicional da masturbação:

JOHNNY OTIS: A tua mãe não te disse que cegarias se fizesses isso? E tu  não respondeste, "não posso fazê-lo só até começar a usar óculos?"

Não é Nannok que cega, claro, mas sim o caçador de peles. Contudo, como é tudo um sonho, a identidade alterna entre os protagonistas. Durante ‘Nanook Rubs It’ uma voz diz ‘Anda cá Bobi... anda cá Bobi’, o refrão de ‘St. Alphonzo Pancake Breakfast’ inclui a frase, ‘Trouxe-te os teus sapatos para a neve.’ Tudo se congela como imagem de tudo. Não é uma narrativa linear, senão uma amálgama de sintomas. O facto de reflectirem Rei Lear em cada pormenor, não é resultado do estudo de referências literárias mas sim devido à procura de uma imagética adequada aos horrores económicos e psicoanalíticos da sociedade de mercado.
‘Excentrifugal Forz’ é um ‘Trouble Every Day’ abstracto com um protagonista genital.

Vou vê-lo a polir
Aquele rubi que usa
Vai endireitar o turbante
E ejectar um esguichozinho

Para além das imagens poéticas do clitoris e do pénis, as palavras são oníricas na sua negação científica do tempo.

Vou refinar
Os modos do futuro
Porque é lá que ele tem estado

Isto parece aplicar-se à palavra de ordem ‘O futuro é feminino’ – foder como prática de clarividência e atingir o orgasmo como modo de obter um flash do futuro – criando a próxima geração.
Freud liga as mecânicas da sexualidade genital ao gelo, na sua edição de 1904 de A Psicopatalogia da Vida Quotidiana.

De um sonho de Ps parece que o gelo é, de facto, um símbolo, por antítese, da erecção: i.e. algo que fica duro com o frio em vez de – como o pénis – com o calor (a excitação). Os dois conceitos antitéticos da sexualidade e da morte estão frequentemente ligados através da ideia de que a morte torna as coisas duras.

Apostrophe (‘) é passado no Ártico e está cheio de piadas sobre masturbações e erecções. A voz calibrada de Zappa promete uma narrativa, mas a história nunca prossegue: não há moral, em vez disso, há apenas um divertido e inexpressivo malabarismo sobre alguns dos assuntos mais quentes da cultura europeia. ‘Stink-Foot’, contudo, sobe a tensão, como um sonhador a tentar formar um pensamento: parece que atingimos o cerne da questão. E claro, com uma pequena ajuda de Theodor Adorno e Platão, atingimos.

 

* Dreamed I was an Eskimo / Frozen wind began to blow / Under my boots ‘n around my toe / Frost had bit the ground below / Was a hundred degrees below zero.

** De facto, esta fala pertence ao bobo e não a Lear, como Ben Watson pretende.

Todas as traduções para português de Rei Lear são de Álvaro Cunhal. Edição Caminho.