Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 19:17

Sex, 12/10/07

Finalmente chegou o novo disco dos Radiohead. Eu já admirava a música deles, o bom-gosto, a seriedade, a voz do Tom Yorke, três discos imaculados - Ok Computer; Kid A; Amnesiac. Agora gosto mais deles porque fizeram um disco na mesma veia, sem pretensões, com a mesma pesquisa de novas combinações de sons, a mesma sobriedade e poesia - In Rainbows - e também porque o puseram à venda na net de um modo que desafia as editoras sugadoras de dinheiro e tenta estabelecer um novo paradigma para o modo como os músicos/compositores se relacionam com o seu público. Não é uma ideia inédita, deve dizer-se, Frank Zappa (quem mais podia ser senão ele - depois de todas as batalhas que manteve com a Warner Brothers nos anos 70) tinha um projecto que descreve no The Real Frank Zappa Book (1988!) que se assemelha à internet:
PROPOSTA PARA UM SISTEMA QUE SUBSTITUA O COMÉRCIO DE DISCOS DE VINIL
O comércio normal de discos de vinil, tal como hoje existe, é um processo estúpido que consiste, fundamentalmente, no transporte de pedaços de plástico embrulhados em pedaços de cartão, de um sítio para o outro.
(...)
OS CONSUMIDORES DE MÚSICA GOSTAM DE CONSUMIR MÚSICA... E NÃO ESPECIFICAMENTE O ARTEFACTO DE VINIL EMBRULHADO EM CARTÃO.
A nossa proposta visa tirar vantagens dos aspectos positivos da tendência negativa que atinge a indústria de gravação actual: gravações caseiras de material lançado em vinil.
Primeiro que tudo, temos de nos aperceber que a gravação de álbuns não é necessariamente motivada pela 'mesquinhez' do consumidor. Se uma pessoa faz uma gravação caseira de um disco, essa cópia poderá ser melhor que uma cassete gravada em alta velocidade e lançada legitimamente pela editora.
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Propomo-nos adquirir os direitos de duplicação digital dos MELHORES de cada editora discográfica, Quality Catalog Items [Q.C.I.], armazená-los numa central de processamento e tê-los acessíveis via telefone ou por TV cabo, directamente ligados a aparelhos caseiros dos utilizadores, com a opção de transferência directa digital-para-digital, para o F-1 (Codificador Caseiro da Sony de Gravação Digital), Beta Hi-Fi ou cassete analógica normal (precisando neste caso de um conversor Digital-Analógico no telefone... o circuito electrónico principal custa cerca de 12 dólares).
Estando tudo contabilizado pagamentos de direitos de autor, conta do consumidor, etc., e seria automático, construído pelo software para o sistema.
O consumidor tinha a opção de subscrever uma ou mais 'categorias de interesse especial,' cobradas mensalmente, NÃO TENDO EM CONTA A QUANTIDADE DE MÚSICA QUE O CLIENTE DESEJA GRAVAR.
Proporcionar material nesta quantidade a um preço reduzido poderia mesmo diminuir o desejo de duplicação e armazenamento, pois estaria à disposição dia e noite.
Poderiam ser fornecidos catálogos mensais, reduzindo assim o armazenamento efectivo do computador. Todo o serviço seria acessível via telefone, mesmo que a recepção local seja via TV cabo.
Uma vantagem da TV cabo é: naqueles canais onde parece não acontecer nada (há cerca de setenta em Los Angeles), uma imagem da capa original, mais as letras das canções, informação técnica, etc., poderia ser transmitida enquanto a transmissão estivesse a decorrer, dando ao projecto uma lufada electrónica do original "motivo de compra" do álbum, quando este era 'álbum,' é que há muitos consumidores que gostam de endeusar & acarinhar a embalagem enquanto a música toca.
Nesta situação seria fornecido o [F.F.P.] Fondlement & Fetichism Potential, sem o custo de transporte de toneladas de cartão.
Maior parte dos dispositivos para o hardware estão neste momento à disposição em avulso, à espera de serem ligados uns aos outros para acabarem com o comércio discográfico tal como o conhecemos.
E esta hã?! Quem diria que vinte anos depois esse sistema não só seria implementado como melhorado? Realmente Frank Zappa não estava só à frente em termos de música como de dialéctica, produção e tecnologia.
Isto para dizer que os Radiohead possuem a mesma coragem, um interesse pelas artes e a música em particular que vai muito para além do acto de fazer e gravar música. A preocupação deles parece abranger várias áreas.
Quanto ao disco, In Rainbows: parece ser um seguidor de Amnesiac. Hail to the Thief parece ter sido mesmo um disco para cumprir as obrigações que eles tinham para com a sua editora - o cuidado posto nas composições não é o mesmo. Em In Rainbows a banda está mais coesa e empenhada do que no álbum precedente, os temas são variados, menos electrónicos do que em Kid A, mas menos acústicos do que em Ok Computer ou The Bends. Há um novo som a ser definido e descoberto.
Vale mesmo a pena ter o disco. Seja como for.